O Hitchcock de nossos dias

6 abr

Entediado com a pasmaceira da sua época, a Era Vitoriana, o idoso poeta Robert Browning lamentava a esterilidade de seu tempo e suspirava por um passado de ousadia criativa, aquele que os historiadores já estavam chamando de Romantismo.

Num de seus poemas, ele chegou a esboçar a figura de um poeta sem fôlego que, para mais ridicularizar, apelidou de “o Byron de nossos dias”, querendo dizer, com a expressão, que do grande poeta romântico esse poetinha atual não tinha nada.

Mudando século, país e assunto, – pergunto – não é o que acontece hoje com quem, com décadas e décadas de curtição cinéfila nas costas, conheceu de perto os bons tempos do cinema clássico e é obrigado a engolir os filmes irrisórios da atualidade?

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Pois é. Assisti a este “As duas faces de Janeiro” (“The two faces of January”, 2014) e, automaticamente, ocorreu-me adaptar a expressão pejorativa de Browning para o seu diretor: “o Hitchcock de nossos dias”.

E vejam que, em sua primeira experiência cinematográfica, o anglo-iraniano Hossein Amini bem que tentou. Digo, bem que tentou ser Hitchcock. O seu primeiro passo foi tomar como fonte uma escritora, Patricia Highsmith, que já fora adaptada por Hitchcock. (Dela o velho Hitch filmara “Strangers on a train” (“Pacto sinistro”, 1951).

Se você adaptar o que X adaptou, você fica igual a X: infelizmente a regra não funciona. O mestre Truffaut já tentara e não deu certo, com sua filmagem de “A noiva estava de preto” (1968).

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

Kirsten Dunst é Colette, a esposa.

De fato, pela trama “As duas faces de janeiro” tem traços hitchcockianos.

Nas belas paisagens da Grécia de hoje, esse jovem americano poliglota trabalha como guia turístico. Seu nome é Rydal (Oscar Isaac) e ele vive de pequenos golpes. Agora, de golpes grandes quem vive é o turista Chester (Viggo Mortensen), que Rydal vai conhecer por acaso, a ele e sua bela esposa (Kirsten Dunst).

Mas, por enquanto, Rydal – como nós – não sabe de nada… Até que, sem querer, avista, no corredor do hotel, Chester fazendo algo muito estranho: arrastando o corpo inerte de um homem que – logo ele saberá – acabou de matar, dentro do quarto do hotel.

Um homem arrastando um morto num corredor de hotel, avistado por um outro, cujo olhar voyeur coincide com o do espectador… A cena é bem htichcockiana, porém, infelizmente o restante do filme não segura o clima.

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Oscar Isaac e Viggo Mortensen

Chester é um alto negociante que vive de dar trambiques em investidores incautos, e Rydal, em parte fascinado pelo charme de sua esposa, o ajuda a driblar a enrascada em que, no momento, está metido, e, assim fazendo, se torna seu cúmplice. Como se vê, as linhas gerais do enredo também evocam Hitchcock, mas apenas evocam… Como aliás, o faz qualquer página de Highsmith.

Forçoso e demorado, o desenlace não interessa, mas vale uma alusão ao título do filme.  Janeiro é o mês de Janus, o deus romano de duas caras, porém, esse fundo mitológico não tem muita funcionalidade dentro do filme, que, muito pouco tem da dualidade esperada, e, menos ainda, de uma possível tensão gerada no contraste entre as duas faces.

Três perdidos na Grécia.

Três perdidos na Grécia.

O contraste poderia ser actancial, digo, relativo aos personagens, entre aparência e realidade, entre passado e futuro… e não é. Tanto Rydal quanto Chester são o que são, desde o começo e assim permanecem até o final, respectivamente, um pequeno escroque e um grande escroque.

Enfim, deixo para lá o filme e volto a Browning e seu saudosismo. Ou melhor, volto a Hitchcock, o próprio, e ponho no aparelho de DVD, para ver pela décima vez, “Pacto sinistro”: Patricia Highsmith nas mãos hábeis do mago do suspense.

De volta a Hitchcock: cena de "Pacto sinistro".

De volta a Hitchcock: cena de “Pacto sinistro”.

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