Cineastas de um filme só

11 jun

Em literatura, arte essencialmente individual, ninguém estranha que escritores como Emily Brontë ou Augusto dos Anjos tenham escrito um único livro.

Em cinema é diferente. Atividade de equipe que implica um alto nível de conhecimento técnico e envolvimento empresarial, é muito raro que um profissional da área experimente a direção uma só vez.

Mas, que acontece, acontece.

Na maior parte dos casos, que citaremos aqui, são atores ou atrizes com carreiras formadas, que, um belo dia, decidiram que podiam muito bem dirigir, por que não? O mistério, porém, não é que tenham decidido dirigir e o tenham feito: o mistério maior é que nunca tenham repetido o experimento. Sobretudo quando o filme que fizeram é reconhecidamente muito bom.

Acho que dois casos assim, pela qualidade das realizações, merecem destaque.

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O primeiro é “O mensageiro do diabo” (“The night of the hunter”), excelente noir impressionista que o grande ator Charles Laughton dirigiu em 1955. Misturando atmosfera de conto de fada com temática sombria de thriller, o filme contava a estória de um ex-presidiário que perseguia duas crianças na zona rural americana, e isto ao meio de uma paisagem que é toda remissão fotográfica a pinturas do século dezenove. Em todos os aspectos, o filme demonstrava que o novato possuía um extraordinário talento para a mise-en-scène e, no entanto, a realização fílmica de Laughton parou aí. Por que parou até hoje ninguém sabe ao certo.

O outro caso nessa categoria, digo, de alta qualidade, é o filme “Para que os outros possam viver” (“Time limit”), excelente drama de guerra dirigido pelo ator Karl Malden em 1957.  Na estória, um ex-prisioneiro na guerra da Coreia do Norte é acusado de traição e admite a culpa, sua posição de culpado assumido tornando-se um mistério nas investigações posteriores, que, pela lógica, o conduziriam à Corte Marcial… Até que, à revelia do próprio réu, o surpreendente desvendamento do mistério inverte a situação. Dois anos depois, Malden ainda foi responsável por um pequeno trecho do faroeste “A árvore dos enforcados” (Delmer Daves, 1959), mas sequer recebeu créditos por isso.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Vejamos outros casos de atores famosos que uma única vez experimentaram a direção. Infelizmente, não posso dizer que a qualidade estética seja a mesma dos dois casos citados acima.

Em 1951 Peter Lorre (sim, aquele mesmo de “O vampiro de Dusseldorf”) assumiu a direção de “Der Verlorene”, (´A perda´) produção alemã, nunca exibida comercialmente entre nós. Em 1957 James Cagney rodou “Atalho para o inferno” (“Short cut to Hell”). Em 1965 foi a vez de Frank Sinatra tentar a direção com o filme “Os bravos morrem lutando” (“None but the brave”).

Um que renegava a sua atividade por trás das câmeras é Anthony Quinn que, em 1958, dirigiu o filme de aventura “Corsário sem pátria” (“The buccaneer”) e gostou tão pouco do resultado que, em entrevistas, costumava fingir que o esquecera. Quando esteve no programa de Jo Soares foi preciso que o outro entrevistado da noite, o paraibano Ivan Cineminha, lhe lembrasse.

Mais dois atores que estiveram na direção uma única vez são: Barbara Loden, que cometeu o drama “Wanda” (1970) e Dom de Luise, que fez a comédia “Três super-tiras” (“Hot stuff”, 1979).

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido...

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido…

Há outros casos, que não cito, por estarem os atores ou atrizes ainda vivos e podendo, portanto, fazer novas tentativas a qualquer momento, vindo a quebrar a regra da nossa pauta que é: ´um filme só´.

Por exemplo: Robert De Niro foi ´diretor de um filme só´ (“Desafio no Bronx, 1993) por um tempo – treze anos exatamente – até rodar “O bom pastor” em 2006, e perder a posição. O mesmo se diga de Anthony Hopkins, que fez “Outono de paixões” em 1996, e mais tarde esse “Slipstream” (2007).

Mas, claro, nem só atores tentaram a direção cinematográfica. Na França, por exemplo, o escritor André Malraux rodou o seu “A esperança” (“L´espoir”) em 1945… e nunca mais rodou mais nada.

No Brasil, seria o caso de citar o clássico “Limite” (1931) de Mário Peixoto, que – não esqueçamos – também foi escritor. Só acrescentando que Peixoto tentou outras filmagens, e por razões várias, não teve sucesso e ainda hoje é conhecido como “cineasta de um filme só”.

Em tempo: a pesquisa sobre o tema eu a devo ao amigo cinéfilo Joaquim Inácio Brito.

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez...

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez…

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Uma resposta to “Cineastas de um filme só”

  1. joedson junho 11, 2015 às 9:08 pm #

    tem o Marlon Brando que só dirigiu, tendo de demitir Stanley Kubrick, o até razoável A Face Oculta

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