Reinventando ficções

25 jun

Fugindo da agitação de hoje em dia, vem morar na rural e tranquila Normandia, esse casal parisiense de meia idade, cujo métier passa a ser agora o fabrico de pão caseiro. Assim começa o filme “Gemma Bovery” (2014), um dos mais cativantes entre os exibidos no recente Festival Varilux de Cinema Francês.

A suposta paz do lugar logo se evapora – pelo menos para o marido Martin Joubert – ao aparecer, na vizinhança, um casal inglês, ele de nome Charles Bovery, e ela, Gemma Bovery. Sim, quase os mesmos nomes dos personagens no livro de Gustave Flaubert. Sem contar que a Normandia foi também o cenário do afamado romance.

Se o filme fosse americano, esses dados não levariam a nada, já que, na América, dificilmente padeiros gostam de literatura, porém, não esqueçamos que estamos na França. Sim, Mr Joubert (rimando com Flaubert, notaram?) não só conhece o romance canônico, como é leitor apaixonado, ao ponto de lhe saber de cor trechos inteiros. Assim, estupefato, ele logo advinha, para a sua bela vizinha, com quem acidentalmente faz amizade, o mesmo fim trágico da heroína flaubertiana.

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

E, com efeito, não demora muito para a jovem Gemma arranjar um amante, com quem passa a se encontrar em lugares escusos, ou em sua própria residência, quando o marido viaja.

Tudo isso acompanhado de longe pelo vizinho voyeur, o nosso Mr Joubert, que passa a viver um misto de torcedor contra e a favor da tragédia. Fascina-lhe o estar testemunhando a repetição do romance de Flaubert diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que se apieda da pobre Gemma e quer, por fim e à força, salvá-la do destino livresco. A bem da verdade, não é só piedade: como ele diz, de si para si, a primeira vez que avista essa mulher deslumbrante: “lá se foram dez anos de tranquilidade sexual!”

Em uma de suas visitas a casa de Gemma, protesta aos brados contra a presença de arsênico para matar ratos, e no dia em que ela e o amante planejam uma viagem a Londres, ele ousa enviar à vizinha uma carta desfazendo o plano, assinada com o nome do amante, Hervé.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Depois de Hervé, surge um novo amante para Gemma, mas, um momento, não embarquemos facilmente na viagem de Mr Joubert. Na verdade, Gemma não é Emma, e, a rigor, os seus amantes estão mais emocionalmente envolvidos que ela: como ela diz em dado momento ao primeiro, referindo-se ao caso deles: “isto é bom, justamente porque é passageiro”.

E nesse momento ocorre ao espectador estar assistindo a um filme roteirizado e dirigido por uma mulher, a experiente cineasta Anne Fontaine, que tem a esperteza de fazer a narração se desenrolar em duas focalizações, uma limitada, a de Joubert, e outra onisciente, a da própria Gemma, através de um diário que ela deixou, e que Joubert às escondidas lê.

Em Flaubert – vocês lembram – Emma Bovary é dissecada feito um besouro num tubo de ensaio pelo autor, o qual explica o seu comportamento nos mínimos detalhes, como o faria um cientista. No filme, ao contrário, Gemma tem uma vida própria, que escapa ao seu pretensioso “autor”, Mr Joubert.

Neste sentido, o desenlace da estória tinha que estar em desacordo com o romance: Gemma morre, sim, mas não se trata de suicídio. Morre engasgada com o pão que, ironicamente, Joubert fabricara exclusivamente para ela. E a cena da morte, vira “Rashomon” (Kurosawa, 1951), quando três pessoas, a saber, Joubert, o marido e o novo amante, contam dela, cada um, uma versão diferente, cada um assumindo a sua devida culpa.

Gemma e seus amantes.

Gemma e seus amantes.

Mais hilário ainda é o pós-desenlace, quando, seis meses depois de tudo ocorrido, aparece no lugar um novo casal, do qual a mulher teria o nome de Anne Kalenine, quase a Anna Karenina de Tolstoi. Tudo bem, era gozação do filho de Joubert, mas o que vale é que ele, Joubert, embarca na mentira e o filme se fecha com o seu delírio.

E o espectador sai do cinema imaginando o rol de trágicas heroínas da literatura do século XIX – todas mulheres apaixonadas fora do casamento, vitimadas pelas suas paixões – que por certo habitam a cabeça desse padeiro literário que, entre um pão e outro, reinventa ficções. Eu mesmo, de minha parte, saí pensando que o filme poderia continuar ad infinitum com novas vizinhas dos Joubert, que poderiam muito bem ser: a Hester Prynne de “A letra escarlate”, a Luísa de “O primo Basílio”, ou – por que não? – a Capitu de “Dom Casmurro”.

Enfim, um delicioso filme sobre recepção literária, a que se assiste com espírito inevitavelmente interativo.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.

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