Neruda fugitivo

31 jul

Está em cartaz na cidade – ou esteve – “Neruda fugitivo” (2014), filme sobre a vida do grande poeta chileno, ganhador do Nobel de literatura em 1971.

Produção chilena do também chileno Manuel Basoalto, o filme se abre com a cerimônia de entrega do grande prêmio em Estocolmo, no momento em que, entusiasmado, Pablo Neruda profere o seu discurso de agradecimento à Academia sueca e, nele, relata parte de sua vida.

O relato oral logo toma forma icônica e o filme inteiro passa a ser um longo flashback onde vamos ver os embates do senador Neruda com o governo ditatorial de Gonzales Videla, nos anos quarenta.

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Cassado depois de inflamado discurso no Senado, onde denuncia os horrores da Ditadura vigente, Neruda se refugia no Sul do país e, com a ajuda de companheiros de partido, toma o rumo do país vizinho, a Argentina. Mas, cruzar essa fronteira salvadora significava escalar a cordilheira dos Andes, e parte do filme, pelo menos conceitualmente, se detém nessa quase impossível empreitada.

Dentro desse grande flashback cabem mais dois, menores: um sobre um episódio na juventude do poeta quando, viajando pelo campo em férias, é abrigado por um grupo de mulheres que, pela primeira vez, lhe falam de Rimbaud, poeta que seria fundamental na sua formação. Mais analéptico ainda, o outro episódio o mostra criança, descobrindo na floresta, os seres que seriam tão importantes no seu universo poético: rios, pedras, árvores, insetos, etc, seres que lhe ajudariam a expressar o seu amor à vida, aos homens e, sobretudo, à liberdade.

“Política, vida e poesia são, para mim, a mesma coisa” afirma Neruda a um de seus companheiros de luta, e o filme tenta resguardar a idéia, dando destaque ao viés ideológico do poeta de “Canto Geral”, por sinal, livro escrito a duras penas durante o percurso da fuga.

A perseguição política

A perseguição política

Bem, tudo isso posto até aqui pode passar uma impressão favorável ao filme de Basoalto. Infelizmente não é o caso. Filme sobre um grande poeta, “Neruda fugitivo” não é um grande filme.

Acho que o pecado maior do filme de Basoalto é ser esquemático, e esquemático em tudo, da roteirização às interpretações, passando pela forma de enquadrar e de montar. Não há dúvida de que estamos diante de um filme informativo, muito útil em aulas de literatura ou de história: já numa aula de cinema ele só seria útil por contraste.

Na maior parte das vezes, os personagens não dialogam como gente comum: dão palavras de ordem, e isso, até em momentos corriqueiros, domésticos. Se você prestar atenção, isso vai acontecer tanto quando Neruda defende o povo, como quando defende a poesia. As cenas são montadas sinteticamente, no mau sentido do advérbio, de modo a ilustrar o momento histórico, o que transforma os personagens em figuras teatrais, sem muita carne nem muito osso. Para piorar, os atores não convencem muito – sequer o José Secall, que faz Neruda – e o resultado desagrada.

Por influência do discurso de Neruda ou não, boa parte das cenas em que o acompanhamos, é comentada pela sua voz em off, quase sempre recitando versos de sua produção poética. Por mais lírica que tenha sido a intenção, o recurso dilui a narrativa e, para o espectador, termina por funcionar como um distanciamento mais ou menos incômodo. Afinal de contas, poesia é poesia e cinema é cinema, dois domínios semióticos bem diversos. Para combiná-los é preciso um talento de gênio, coisa que, obviamente, falta ao cineasta Basoalto.

A fuga pelos Andes

A fuga pelos Andes

Para ser franco, os melhores elementos em “Neruda fugitivo” são dois: (1) a bela fotografia natural do Sul do Chile e de algumas escarpas dos Andes, sempre vistas de longe, e (2) a música igualmente grandiosa. Em dados momentos, a combinação desses dois elementos funciona legal, mas isso é tudo, ou quase tudo.

Uma seção particularmente insatisfatória do filme está no desenlace. Como no diálogo se fizera muita ênfase na dificuldade de cruzar os Andes, fica o espectador à espera de testemunhar os percalços dessa travessia, a qual, a rigor, não nos é mostrada, ficando-se apenas com ligeiras tomadas gerais da paisagem andina, acompanhadas de trilha sonora crescente. E, quando pensamos que ainda há tempo de tela sobrando, corta-se bruscamente para o cenário de abertura, o já visto salão da Academia sueca, onde Neruda agora recebe os cumprimentos dos presentes.

Evidentemente, os apreciadores da poesia de Neruda vão acorrer ao cinema. Mais visíveis para uns, menos visíveis para outros, fico pensando até que ponto os problemas aqui apontados poderão interferir nas suas apreciações.

De qualquer modo, acho que um fato é inegável para todos: o filme está muito aquém do poeta.

O poeta e prêmio Nobel Pablo Neruda.

O poeta e prêmio Nobel Pablo Neruda.

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Uma resposta to “Neruda fugitivo”

  1. iddeia cultura e pequisa julho 31, 2015 às 4:33 pm #

    Republicou isso em iddeia cultura e pesquisae comentado:
    Drops cultural para o final de semana

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