Perdedores que amamos (ou: Esqueça o Oscar)

25 fev

Até 1989 a frase com que a Academia de Hollywood anunciava o resultado do Oscar era “E o vencedor é…”, que, daquele ano em diante, foi mudada para “E o Oscar vai para…”

A mudança da frase ocorreu por uma espécie de crise de consciência da Academia, que, de repente, deu-se conta de que falar em ´vencedor´, implicava, por contraste inevitável, sugerir o conceito de ´perdedor´ (´loser´), palavra extremamente pejorativa dentro do contexto capitalista e competitivo dos Estados Unidos.

Cidadão Kane, 1941.

Cidadão Kane, 1941.

Bem, mudou a frase, mas não mudou a situação: quem não vence continua sendo perdedor…

Ocorre que, desde a instituição do Oscar em 1927, a História vinha e vem dando a Hollywood algumas lições, ou mais que dando, jogando na cara. Vejam o caso de “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”, 1941), o filme de Orson Welles que, apesar da gritante qualidade, só foi premiado pelo roteiro de Herman Mankiewicz, e que, ironicamente, passou a ser, desde 1962, considerado pela crítica internacional o filme mais perfeito já feito em todos os tempos e lugares, e, aliás, assim permaneceu durante meio século. Outro caso típico, é o do diretor John Ford que se definia por ser autor de faroestes (“I´m John Ford and I make westerns”: sua frase famosa), e com razão, pois, nesse gênero, fez alguns dos melhores, por exemplo, “No tempo das diligências”, “Paixão dos fortes, “Rastros de ódio”, “O homem que matou o facínora”, etc.. Pois, ao longo de sua extensa carreira Ford recebeu alguns Oscars, porém, nunca, nunca mesmo, por um western.

Paixão dos fortes, John Ford, 1946.

Paixão dos fortes, John Ford, 1946.

Mas não estou aqui para falar das injustiças da Academia, até porque já escrevi sobre o assunto várias vezes, e não quero me repetir. Prefiro fazer o seguinte: já que a palavra ´loser´ (/perdedor/) tem tanto peso, gostaria aqui de levantar uma listinha de filmes que perderam o Oscar, tenham sido as eleições justas ou não. São grandes filmes do período clássico que, se porventura perderam na categoria de melhor filme do ano, ganharam na categoria que mais vale para o espectador apaixonado por cinema, a categoria do tempo, pois ainda hoje, pensamos neles como grandes filmes inesquecíveis.

Quem é que recordaria, digamos, “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life, 1946), “Crepúsculo dos deuses” (“Sunset Boulevard”, 1950), e “Férias de amor” (“Picninc”, 1955) como perdedores? Duvido que alguém faça isso. E, contudo, as estatuetas não foram para as mãos de seus respectivos autores: Frank Capra, Billy Wilder e Joshua Logan.

Barbara Stanwyck e Fred McMurray em "Pacto de sangue".

Barbara Stanwyck e Fred McMurray em “Pacto de sangue”.

Confira, portanto, alguns dos ´perdedores que amamos´, no caso, filmes que foram indicados ao Oscar na categoria de melhor película, e que não levaram a estatueta para casa, todos do período clássico, que listo por década:

Década de quarenta: O grande ditador (Charles Chaplin, 1940); Pérfida (William Wyler, 1941); Pacto de sangue (Billy Wilder, 1944); Grandes esperanças (David Lean, 1947); O tesouro de Serra Madre (John Huston, 1948); Tarde demais (William Wyler, 1949).

A dança em "Zorba, o grego".

A dança em “Zorba, o grego”.

Década de cinquenta: Matar ou morrer (Fred Zinnemann, 1952); Os brutos também amam (George Stevens, 1953), Sete noivas para sete irmãos (Stanley Donen, 1954); Assim caminha a humanidade (George Stevens, 1956); Doze homens e uma setença (Sidney Lumet, 1957); Anatomia de um crime (Otto Preminger, 1959).

Década de sessenta: Entre Deus e o pecado (Richard Brooks, 1960); Terra do sonho distante (Elia Kazan, 1963); Zorba, o grego (Michael Cacoyannis, 1964); Dr Jivago (David Lean, 1965); Quem tem medo de Virginia Woolf? (Mike Nichols, 1966); Bonnie e Clyde (Arthur Penn, 1967); A primeira noite de um homem (Mike Nichols, 1967); Butch Cassidy (George Roy Hill, 1969).

E vejam que nem citei todos os perdedores da trintena. Fico por aqui, mas se você quiser ser mais genérico, pode pensar nas outras categorias da premiação hollywoodiana. Por exemplo, grandes atores ou atrizes que nunca receberam um só Oscar. Eis alguns nomes da era clássica: Ava Gardner, Marilyn Monroe, Natalie Wood, Janet Leigh, Richard Burton, Peter Sellers, Steve McQueen, Joseph Cotten, e tantos outros.

Sobre o assunto, lembro a estória russa que está em “Retratos da vida” (1981). Nesse filme de Claude Lelouch quem merece ter a sua vida narrada não é a mocinha que vence o importante concurso de balé na abertura do filme: esta vencedora desaparece da tela no próximo plano. Quem ´ganha o filme´ é aquela que perde o concurso. Por alguma razão misteriosa, parece que os perdedores são mais cativantes que os ganhadores. Lelouch sabia disso quando bolou a cena.

Portanto, se, neste 28 de fevereiro, as suas preferências não forem contempladas, não se importe.

Marilyn Monroe, sem Oscar.

Marilyn Monroe, sem Oscar.

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