Saber renunciar

10 jun

 

“Difícil no amor é saber renunciar”, diz a canção de Mário Rossi e Roberto Martins que Nelson Gonçalves cantou com tanta emoção.

De fato, o que fazer quando, numa relação amorosa, toma-se consciência de que o ser amado será bem mais feliz sem você, e que, portanto, embora você o ame profundamente, o gesto mais sensato a fazer será desaparecer da vida dele?

Nem todos tem a nobreza, ou a condição emocional, de praticar tal gesto, mas há quem tenha. Na vida real não sei, porém, no cinema os “nobres amantes” até que são muitos, sobretudo num gênero que hoje em dia anda fora de moda: o melodrama.

Assim de passagem, lembro o caso da personagem de “Tarde demais para esquecer” (“An affair to remember”, 1957, de Leo McCarey) que, depois de acidentada e paraplégica, prefere não mais fazer contato com o amado. Poderia ter feito, mas, e se o amor do outro virasse piedade, e se, com o tempo, essa piedade virasse um peso?

Se eu não lembrasse, o leitor com certeza me cobraria o caso da heroína de “A ponte de Waterloo” (“Waterloo Bridge”, 1940, de Mervyn Leroy), moça sofrida que durante a guerra é forçada a prostituir-se e, quando o namorado retorna dos campos de batalha, não lhe revela o seu passado sujo, mas, por outro lado, não ousa ir adiante com a ideia de casamento, e desaparece da vida dele, infelizmente de modo drástico.

Em “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945, de David Lean) podemos dizer que há uma renúncia dupla, de ambas as partes, já que, embora perdidamente apaixonados, cada um quer a felicidade do outro, e, supostamente, não haveria felicidade, se o preço a pagar, em cada caso, fosse um lar desfeito.

Por que Rick Blaine renuncia a Ilsa Lund no desenlace de “Casablanca”? Ainda hoje há espectador que desaprova esse desenlace, porém, o filme é claro: ele sabia que ela estaria mais segura entre os braços do maridão que a conduz para fora do eixo da guerra e para uma vida mais tranquila. E afinal, – argumento poético – eles vão sempre ter Paris.

Em “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953), Shane poderia, se quisesse, ter permanecido no rancho dos Starlett, depois de haver bravamente resolvido o conflito entre os latifundiários do gado e os agricultores locais. Não permanece e a razão está na cara, ou melhor, no coração: sua presença iria trazer um problema mais grave que o conflito de terras. Para quem não percebeu isso é o pirralho – o filho do casal – quem no final grita a verdade: “mother wants you, I know she does”.

Uma das mais nobres renúncias amorosas do cinema está em “O homem que matou o facínora” (“The man Who shot Liberty Valence”, 1962, de John Ford): a de Tom Doniphon, que praticamente cede a namorada Hallie ao advogado Ramson Stoddard, simplesmente porque dá-se conta de que este é mais amado que ele mesmo. Não só cede, como, num duelo fatal, salva a vida do rival, para que a amada não sofra.

Mas, não apenas em relações de amor as renúncias acontecem. Onde quer que haja laços afetivos elas podem ocorrer. Entre pais e filhos, entre irmãos, parentes em geral, ou mesmo amigos.

Se vocês lembram, uma das mais tocantes renúncias dessa natureza está em “Stella Dallas” (King Vidor, 1937) quando a mãe do título, depois de duro aprendizado com a vida, finalmente compreende que deve afastar-se estrategicamente da filha, para não macular a bem-aventurança de seu casamento com um rapaz da alta sociedade, onde ela, mulher brega e sem estilo, não faria sentido.

Um caso não muito diferente está em “Dama por um dia” (“Lady for a Day”, 1933 de Frank Capra) em que o convívio da mãe mendiga com a filha aristocrática é penosamente datado… e fake.

Outro caso doloroso está em “O seu único pecado” (“The way of all flesh”, 1940, de Louis King), em que um pai que deu um passo em falso é levado pela consciência a renunciar ao convício familiar, no mesmo sentido de não macular um lar, bem mais feliz com a ideia de sua morte. A cena final, em que, dado por morto havia muito, o pobre homem, numa noite de Natal, espia de longe a família reunida, ainda hoje desmonta corações.

Encerro com uma cena em “Terra do sonho distante” (Elia Kazan, 1963), aquela em que, no navio de imigrantes gregos que se dirige aos Estados Unidos no início do século XX, um rapaz tuberculoso, sabendo que não passaria na alfândega, joga-se no oceano e deixa os seus papéis para um amigo querido que tinha saúde, mas não tinha os documentos necessários ao setor de Imigração. A visão dos sapatos do suicida no convés do navio é, ainda hoje, uma das cenas mais comoventes do cinema.

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