Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

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Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

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