Como escrever sobre cinema

7 fev

Há décadas escrevo sobre cinema e, no entanto, toda vez que, em entrevistas ou em conversas informais, me pedem receitas de como fazê-lo, embaraço-me e nunca tenho uma resposta na ponta da língua. O que me apazigua um pouco comigo mesmo é que acho que ninguém tem.

De qualquer modo, para nos servir de ponto de partida para uma conversa sobre o assunto, não resisto em contar duas reações de dois leitores a meus escritos, ambas acontecidas nos anos noventa, uma quase simultânea à outra.

Vamos à primeira. Foi um aluno do Curso de Comunicação, amigo meu, quem me contou. Junto com Linduarte Noronha, eu tinha estado na sua banca de TCC: a defesa fora ótima e dera tudo certo, como esperado. Posteriormente, ele, rindo divertido, contou-me o seguinte. Alguns dias antes da defesa, conversando com um colega de turma, ao referir-se aos componentes escalados para a banca, ouviu do tal colega um comentário que o surpreendeu. As palavras do seu colega foram mais ou menos estas:

“Linduarte, tudo bem, mas, tu estás louco de convidar para a banca João Batista de Brito? Esse cara é um chato, basta ver os artigos dele no jornal; o cara escreve complicado que ninguém entende; é tanto termo difícil que acho que nem ele sabe o que é. Tu vais ver, vai dar rolo na certa.” E estendeu-se sobre a ilegibilidade dos meus artigos de cinema, deixando bem claro o risco que o colega corria em me ter feito o convite. Não sei qual foi a reação dele (lamentavelmente, não o conheci) ao saber que o candidato foi aprovado com distinção, mas, guardei como um dado importante a reação de um jovem desconhecido aos meus escritos de cinema.

Já a segunda reação que cito – e que julguei igualmente importante – veio de um conhecido meu, uma pessoa de minha faixa etária, e, suponho, com formação semelhante à minha. Estávamos numa longa mesa de restaurante, em clima de confraternização, e ele, por acaso sentado ao meu lado, puxou conversa de cinema. Foi dizendo, mais ou menos assim:

“Gosto dos seus textos, mas, acho que você precisa  aprofundar-se mais. Alguns são rasos e dão a impressão de superficialidade. Acho que você precisa ir mais fundo na discussão da linguagem cinematográfica. Eu mesmo sinto falta de termos, que você nunca usa, ou usa pouco, como contra-plongée, profundidade de campo, mise-en-scène, plano-contra-plano, angulação, decupagem clássica, efeito Koulechov, sobreimpressão…” e foi citando toda uma longa lista de termos técnicos da teoria do cinema que, segundo ele, tornariam meus textos mais sérios e mais relevantes.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Adorei ter tido, quase simultaneamente, conhecimento destas duas antagônicas e equidistantes reações aos meus escritos. Afinal, como eram (são) meus artigos de cinema? Insuportavelmente ilegíveis, como queria o aluno do curso de comunicação, ou vergonhosamente legíveis como queria o meu companheiro de mesa de restaurante?

Não vou fazer nenhuma auto-defesa aqui, mas uma coisa penso que posso dizer: cada um desses meus dois leitores estava falando, um pouco menos dos meus escritos, e um pouco mais deles mesmos. Pareceu-me que cada um fazia a cobrança que lhe convinha.

A acareação destas duas reações de leitores é bastante instrutiva para mim. De fato, se você escreve para jornais, veículo com uma gama bastante variada de consumidores, a grande questão parece ser: como ser fluente e rigoroso ao mesmo tempo? Como aprofundar-se na análise sem obscurecer a linguagem? Como garantir a leveza do texto, sem comprometer o rigor da análise do filme? Enfim, onde reside o equilíbrio entre fluência e profundidade? Creio que este foi sempre meu grande embate privado. Esse equilíbrio ideal nem sempre o consegui, e ainda hoje nem sempre o consigo, porém, todos os meus esforços de escritor têm ido, e vão, nessa direção.

Mas, já que estou falando de recepção, uma outra opinião sobre meus escritos, que muito me serviu para pensar sobre o tema, veio de um terceiro leitor, desta feita um amigo cheio de boa vontade e sabedoria.

Para me aconselhar, ele fez uso de uma metáfora médica. Explicou-me ele que quando um médico trata de um caso clínico de um paciente que vai ser cirurgiado, emprega dois tipos distintos de linguagem, em duas ocasiões distintas: ao falar com a família do paciente usa uma linguagem simples, sem termos técnicos; ao lidar com o colega que procederá à operação, usa uma linguagem técnica, com todos os termos específicos cabíveis.

Gostei da metáfora, só que fui obrigado a refutar a sua aplicabilidade para o meu caso: é que, escrevendo para jornais, como sempre o fiz, eu não tenho um tipo único de leitor: nos mesmos termos da metáfora do meu amigo, em jornais, eu tenho como leitores, tanto a família do paciente, quanto tenho o cirurgião. Os dois juntos. Como, aliás, tive juntos o aluno do curso de comunicação e o conhecido no restaurante. E aí? Claro que meu amigo, inteligente como é, foi forçado a aceitar as limitações conceituais de sua metáfora médica. E a compreender o meu drama.

Uma coisa é certa: se você escreve – e não importa o seu meio de comunicação, se jornais, revistas, sites ou bloques -, leitores são a coisa mais importante que existe. Por isso, estou sempre atento a suas reações, e quando posso, tomo notas delas, para uso próprio. Como fiz nestes casos narrados.

Bem, uma vez que não vou teorizar sobre o assunto, posso ao menos relatar algumas outras ocorrências, de natureza mais genérica, sobretudo as que me surpreendem, por escaparem a meus planos.

Vejam bem. Há textos que componho com o maior capricho, atento a todos os detalhes, textos a que dedico todo o meu esforço criativo, com a ambição de estar gerando uma peça verbal o mais perto da perfeição possível. Depois de publicado, fico aguardando as reações, e, muitas vezes o que ocorre? Ninguém nem deu bolas; não houve um só comentário, nem para dizer que agradou; nada.

Mutatis mutandis, outras vezes escrevo só por escrever, um textinho qualquer a que não estou dando importância nenhuma, em muitos casos, uma matéria que redijo na brincadeira, me divertindo mais do que trabalhando, geralmente uma materiazinha inconsequente, inventada só para preencher a coluna da semana. Desse textinho sem valor não fico aguardando reação alguma, e muitas vezes o que acontece? Depois da publicação, de repente, várias pessoas vêm me dizer que adoraram, que estava ótimo, que nunca escrevi tão bem, que está digno de uma antologia. Nestes casos, um tanto e quanto atônito, eu mesmo volto a ler o tal texto, e faço esforços para divisar a qualidade que lá não pus.

Mistérios, mistérios, mistérios. E acho que é bom que os haja.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

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Uma resposta to “Como escrever sobre cinema”

  1. Marcelo Costa fevereiro 10, 2017 às 2:19 pm #

    João! Achei sensacional essa sua visão “realmente” dos fatos. Um profissional preocupado com reações de um público que lhe acompanha há muito tempo e, como não poderia deixar de ser, independente do que você pensa, estaremos sempre fiel as suas escritas. E que esse mistério continue…

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