“O destino de uma nação”: a hora mais sombria

23 jan

Winston Churchill foi, como se sabe, um dos maiores estadistas do século XX. Seu papel na II guerra mundial foi decisivo e é o que mostra o filme “O destino de uma nação” (“Darkest hour”, 2017), em cartaz na cidade.

O tempo da narrativa é curto, mas sintomático: de 3 a 29 de maio de 1940, o périplo que vai da posse de Churchill como Primeiro Ministro ao dia do seu famoso discurso, no Parlamento, sobre o posicionamento do Reino Unido no Conflito.

Desde a invasão nazista à Polônia pairava nos apavorados ares londrinos, mais especificamente no Parlamento, a ideia de uma negociação com Hitler, uma negociação que deixasse a ilha britânica fora de suas garras devastadoras. Desconfiado dos intuitos do ditador alemão, Churchill se opõe terminantemente a essa ideia, e, durante todo esse trágico mês de maio, amarga maus momentos, junto ao Parlamento, à imprensa e ao público em geral, o que está expresso no título original do filme “Darkest hour”, ´a hora mais sombria´.

Uma coisa que o filme faz bem é mesclar o público e o privado. Ao lado do embate nos bastidores da política londrina, também nos é permitido acompanhar Churchill (Gary Oldman) em sua casa, enfrentando os seus demônios pessoais, com ou sem a ajuda providencial de Lady Clementine (Kristin Scott Thomas). E mesmo no seu escritório, testemunhamos sua angústia de homem público, posto em situação de perigo extremo, situação partilhada por uma jovem datilógrafa exemplar, Elizabeth Layton (Lily James), a mocinha tímida que ouve e anota seus discursos em primeiríssima mão – ela também transformada em personagem importante.

Alias, uma das cenas mais comoventes no filme está naquele momento em que Churchill e sua fiel datilógrafa, a sós, enfrentam a questão Dunquerque. Pela sugestão do Primeiro Ministro, 4 mil soldados foram sacrificados para salvar os 300 mil perdidos no litoral de Dunquerque. Em choro contido, a jovem datilógrafa confessa que seu irmão esteve entre os que pereceram, e as lágrimas são partilhadas por um Churchill dobrado à dor alheia.

Gary Oldman como Winston Churchill

Um segundo momento de comoção especial, embora desta vez menos disfórica, vem quando um Churchill ousado vai buscar o apoio do povo à sua tão malquista proposta, e toma um metrô, coisa que ele nunca fizera na vida. Tenha ocorrido veridicamente ou não, a cena do diálogo entre os cidadãos comuns e o homem que tem o destino da nação nas mãos é um ponto alto do roteiro, com foros de turning point. Sintam como o grito do jovem negro no metrô “Eles nunca tomarão Piccadilly!” vai virar o discurso inflamado de Churchill para o Parlamento e para a nação, todos agora atentos aos seus argumentos. Antes do apoio do povo no metrô, esse atormentado Primeiro Ministro tivera o aval do ambíguo e frágil rei George VI, que o visitara na sua casa de madrugada, às escondidas, porém, é no espaço público do metrô que sentimos a virada.

Acima falei em Dunquerque. Ora, o filme “Dunkirk” (2017) também recentemente exibido entre nós, funciona como um intertexto óbvio para este “O destino de uma nação”. Ou seria vice-versa? Na verdade, o que me ocorre no momento em que redigo estas linhas é que os dois filmes são complementares, pois, historicamente falando, as duas coisas são simultâneas e, mais que isso, dependentes uma da outra, digo: a problemática presença dos 300 mil soldados ingleses nas praias de Dunquerque e a luta de Churchill para derrotar a proposta de negociação com o Eixo.

Lily James é a secretária devotada, Elizabeth Layton.

Pois bem, na minha cabeça de cinéfilo, “montei” um filme só, mais longo, em que toda a querela de Churchill com o parlamento inglês, no filme em questão, seria intercalada por cenas de “Dunkirk”. O resultado seria um longa-metragem de quatro horas de projeção, mas acho que valeria a pena ver confrontados os claustrofóbicos espaços, de um filme, com as paisagens abertas, do outro; as intermináveis discussões sobre estratégia de guerra, em um, e a violência aberta, no outro.

Segundo consta, nunca se soube ao certo por que Hitler não esmagou Dunquerque: por que, então, não imaginar que a proposta de negociação – a abominada por Churchill – teria chegado aos ouvidos do Führer, via Mussolini, ou por qualquer outro meio de espionagem, e daí haver ele hesitado, como hesitou, em atacar Dunquerque de forma definitiva? É verdade que todos os filmes sobre a II guerra mundial que tenham sido fundados em fatos reais possuem certa complementariedade, mas aqui, acho, o caso é mais direto e mais encaixável.

Para fechar, sabe-se que Winston Churchill tinha lá os seus defeitos pessoais e nunca foi um herói perfeito, mas, de todo modo, o filme de Joe Wright, sem querer ou querendo, nos remete aos dias de hoje e suscita a incômoda pergunta: onde estão os líderes no mundo atual?

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman em cena do filme.

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Uma resposta to ““O destino de uma nação”: a hora mais sombria”

  1. Andrés von Dessauer janeiro 24, 2018 às 12:08 am #

    Informo que, aqui em Londres, mesmo entre os que querem que o Oldman receba o Oscar de Melhor Ator, a cena do metrô é pura apelação, pois o Churchill NÃO andou no ‘tube’. Esse é um dos pontos menores porque o filme não levará o troféu máximo. Existem outros beeeem mais pesados.

    Pode até ser que, de certa forma, o filme sublinhou o BREXIT. Mas pelo que eu vi aqui, se houvesse uma nova votação, hoje, o BREXIT seria enviado para o espaço. Todo festival de cinema tem uma componente política. No ano passado o OSCAR (2017) teve uma baita componente política.

    Esperaremos pela noite enfadonha !

    Não perca : FLORIDA PROJECT (infelizmente não indicado) e 3 BILLBOARDS
    O ‘já ganhou’ é o THE SHAPE OF WATER.

    Andrés

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