Cinemas de rua, sempre

20 mar

 

Outro dia, me manda mensagem o amigo Petrônio Souto, pedindo que lhe enviasse, urgentemente, fotos dos cinemas Astória, São Pedro, Filipeia, Jaguaribe, Bela Vista e Glória.  Assim, sem mais nem menos, como se eu dispusesse, chez moi, de algum espetacular arquivo de fotos dos cinemas antigos da cidade.

Respondi-lhe que seria um homem feliz se possuísse essas fotos.

Petrônio Souto, como todo mundo sabe, é um apaixonado por João Pessoa – aliás, eu também sou –  e sua paixão às vezes o faz delirar e ter ataques de otimismo. Completei minha resposta a ele, explicando o que ele devia saber: que o que eu possuo de registro dos cinemas antigos de João Pessoa, é o óbvio: fotos do Rex, Plaza, Municipal, Brasil e Sto Antônio, as mesmas que tudo mundo possui. Nenhuma em papel, todas digitalmente copiadas no arquivo de imagens do meu computador. E nada mais…

Na verdade, nos velhos tempos, digo, na época áurea dos cinemas de rua, ninguém tinha a ideia de fotografar fachadas de cinemas ou seus interiores. Nem os proprietários – com raras exceções – fizeram isso. Muito menos os frequentadores.

Recentemente, quando Mirabeau Dias estava rodando o filme “Meu Jaguaribe” (2017), sobre o bairro pessoense, um entrave da produção foi conseguir, justamente, uma foto do Cine Jaguaribe, um cinema que, tendo sido fundado nos anos 30, tinha histórias pra contar, eventualmente importantes para o bairro. Pois bem, nem as páginas dos jornais velhos da velha Paraíba, nem os livros de Wills Leal, nem o acervo de Arion Farias nos acudiram… Com este fim, visitei Adette Wanderley, filha do exibidor Múcio Wanderley… e nada. Simplesmente não havia, no meio do legado iconográfico do saudoso exibidor, nenhuma foto do Cine Jaguaribe.

Por que não se fotografavam as fachadas dos cinemas naquela época? Creio que porque, naquela época, achava-se que tudo aquilo fosse eterno.  E, se era eterno, pra que fotografar?

Quem iria adivinhar que, logo mais, os lares pessoenses iriam ser invadidos por uma sedutora caixa de imagens chamada televisão? Que essa caixa de imagens usurparia o trono dos cinemas de rua, os quais fechariam as suas portas, um atrás do outro, suas poucas telas grandes entregando os pontos para as milhares de telinhas domésticas? Outra adivinhação impossível: que outros cinemas surgiriam, agora não mais nas ruas, mas dentro dessas construções monstruosas, igualmente sedutoras, chamadas de Shopping Centers.

As imagens, meu querido Petrônio Souto, do Astória, lá na rua da República, do São Pedro, na São Miguel, do Filipeia, na Gen. Osório, do Jaguaribe, na Cap José Pessoa, do Bela Vista e do Glória no bairro de Cruz das Armas, vão ficar na memória de seus velhos frequentadores, e desaparecerão, quando estes desaparecerem.

De todo jeito, deu-me pena não poder atender ao pedido de Petrônio e, de algum modo, me senti levemente culpado. Afinal, eu fui um dos viventes municipais da época, um dos que poderiam ter retratado os cinemas de rua… e não o fiz.

Acho que foi essa leve culpa que me fez ser acometido, na noite de ontem, de um delírio – ou teria sido sonho, ou alucinação? De repente, lá estava eu, uma criança de 12 anos de idade, no meio da rua, entre as esquinas da Aderbal Piragibe e da Cap José Pessoa, em pleno Jaguaribe dos anos cinquenta, e diante de mim, a bela fachada do Cine Jaguaribe. Nas calçadas do cinema, uma fila enorme estava formada, para comprar ingresso e o filme da noite era a superprodução “Alexandre Magno” e o ano era 1958. Entrei na fila e, com meu potente celular, sim, isso mesmo, com meu potente celular prime 7, fotografei a multidão, sem esquecer de fazer selfies, para marcar minha presença.

Lá dentro, fotografei o salão de exibição lotado e, durante a sessão, fiz o inconveniente de fotografar Richard Burton em suas andanças pelos campos de batalha da Macedônia e países vizinhos, da Índia à Pérsia. Na saída, não deixei de tirar várias fotos da fachada do cinema Jaguaribe, para mostrar aos cinéfilos do futuro.

De volta para o futuro, ou seja, hoje pela manhã, nada disso havia na ´galeria de fotos´ do meu potente celular. Mas, e daí? Ainda que ilusória, valeu a experiência, uma experiência cujo registro verbal aqui feito dedico, com carinho pessoense, ao amigo Petrônio Souto.

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