Cine Tambaú

22 maio

Um dos meus temas mais caros tem sido sempre os velhos cinemas de João Pessoa, especialmente os do meu bairro, que iluminaram minha infância e adolescência: Sto Antônio, São José e Cine Jaguaribe.

Pois já é hora de tratar dos menos remotos, o Cinema Tambaú, por exemplo, que também foi extremamente importante na alimentação da minha cinefilia, a mais madura. E não só da minha…

No começo dos anos oitenta mudei-me de Jaguaribe para Manaíra, onde ainda hoje resido. Com o fechamento dos meus “cinemas infantis”, naquela época Jaguaribe já era um bairro sem cinemas. E os do Centro da cidade estavam trocando a programação normal pelo Karatê ou pelo pornô.

De forma que ter, perto de casa, um cinema elegante e decente como o Tambaú foi um privilégio. Fundado no início dos anos setenta, quando da inauguração do Hotel, o cinema formou gerações mais jovens que eu (meus filhos, por exemplo) e supriu a minha, e mais toda uma crescente população litorânea, com uma programação diversificada, que ia do mais comercial ao mais alternativo.

Sala de exibição do CINE TAMBAÚ

À parte a programação comercial, lembro que foi no Tambaú que vi – para dar apenas alguns exemplos sintomáticos, citados ao acaso – as estreias locais de filmes com o peso artístico de: “Cenas de um casamento” de Bergman, “Morte em Veneza” de Visconti, “O iluminado” de Kubrick, “Nosferatu”, de de Herzog, “O céu que nos protege” de Bertolucci… E tantos outros…

Se não estou enganado foi em combinação com o setor cultural da UDUF que o Tambaú, nos anos oitenta, manteve sessões especiais nas tardes de sábado, com filmes seletos, tanto clássicos como lançamentos, ou seja, no estilo “Cinema de arte” de antigamente. Numa dessas matinées vi “Vidas amargas” (Elia Kazan, 1955) filme que nunca tinha visto em tela grande, pois na época do lançamento não tive idade para entrar.

Desse “cinema de arte” fez parte a homenagem a grandes diretores, e três delas movimentaram a comunidade cinéfila da cidade, quando, em anos seguidos, faleceram três importantes cineastas. Assim, em 1980 houve a mostra obituária “Alfred Hitchcock” e dele se exibiram clássicos como “O terceiro tiro”, “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai”, “Os pássaros”, “Marnie” e outros. No ano seguinte, veio a falecer o nosso Glauber Rocha e pudemos ver, na tela do Tambaú, a sua filmografia quase completa, incluindo os mais raros “O leão de sete cabeças” e “A idade da terra”. Em seguida, 1982, foi a morte de Rainer Werner Fassbinder, e mais uma vez, tivemos uma programação especial, com sete ou oito filmes deste importante diretor alemão, entre os quais “Bolwieser”, “O medo consome a alma” e “O casamento de Maria Braun”.

Interessante também é como no Tambaú se reabilitou uma prática antiga: a da reprise. Um caso exemplar foram as muitas exibições quase consecutivas do “Retratos da vida” de Lelouch, projetado 5 ou 6 vezes num período de dois anos. Lembro também a juventude dourada da orla assistindo, no caso deles pela primeira vez, o “Romeu e Julieta” de Zeffirelli (1968) e rindo aos montes das prolixidades do diálogo shakespeariano.

Ir ao Tambaú em qualquer dia ou qualquer horário era ótimo, mas, um charme especial que minha geração curtiu foi o de assistir a essas sessões “de arte” nas tarde de sábado, e, finda a sessão, atravessar a rua e ir beber ou comer na antiga “Feirinha de Tambaú” (não a atual), logo defronte, onde também ficava a saudosa lanchonete “Nutritiva”, com suas mesinhas de pedra do lado de fora, em que toda uma turma de jovens e não tão jovens (como eu) se juntava para tomar cerveja e falar de cinema e de outras coisas menos confessáveis.

Ao contrário do que aconteceu com os cinemas do Centro e dos bairros, as instalações do Cinema Tambaú ainda existem e a sala ainda funciona para outros fins. Por exemplo, acomodou o Fest-Aruanda nos primeiros anos do Festival. Naquelas ocasiões, revê-lo funcionando foi para mim, confesso, um disciplinado exercício de saudosismo, ao mesmo tempo doce e amargo.

Com o avassalador advento dos “cinemas de Shopping”, o Tambaú foi o último cinema de rua a fechar na capital paraibana. Eu sei, eu sei… fazendo parte da arquitetura do Hotel, não era propriamente, como os de antigamente, um “cinema de rua”, mas eu pessoalmente, com um pouco de licença poética, assim o sentia. E o sinto.

As saudades são muitas.

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