Que será, será…

28 mar

Por motivo de doença, este blog esteve sem funcionamento durante cerca de três meses. Agora retornamos, com a esperança de que os cinéfilos da vida continuem a nos acompanhar. Para este retorno, aqui reproduzo breve matéria que veiculei na minha página do Facebook, dias atrás, com o título de: “Da série: curiosidades cinematográficas” e, de fato, o que você vai ler agora é, sim, uma curiosidade.

 

Quem é que não lembra Doris Day cantando “Que será, será” no filme “O homem que sabia demais” (1956)? O que ninguém entende bem é por que o refrão da canção seja em português. E aí vem uma longa história, que começa – pasmem – no século XVI.

Mas, antes de contar a história, façamos a correção: o refrão não está em português, mas em espanhol. É que, nas duas línguas, houve coincidência de escrita e pronúncia.

Vamos à história.

Doris Day e James Stewart no filme de Hitchcock.

De origem obscura – provavelmente ainda medieval – a expressão QUE SERÁ, SERÁ, com a variante italiana CHE SARÀ, SARÀ, tem vários registros que datam, como disse, do Renascimento inglês. Na época, com valor de máxima, ou ditado, era usada em tom de fatalismo, como a dizer ´o mal que tiver de te acontecer, acontecerá´. No filme de Hitchcock esse tom pessimista foi aliviado.

Ora em espanhol, ora em italiano, eis alguns de seus registros renascentistas: a máxima está impressa na Igreja de São Nicolau, em Surrey, de construção medieval; está no túmulo de alguns nobres da época, e até na literatura está: confiram as páginas clássicas do “Doutor Faustus” de Christopher Marlowe, publicado em 1602.

Como foi parar no filme de Hitchcock?

Na verdade, já estava num filme anterior ao de Hitchcock, no caso, “A condessa descaça”, de 1954, portanto, de dois anos antes. Você lembra, não é, nele Ava Gardner fazia uma moça comum que casava com um Conde meio efeminado (Rossano Brazzi). Pois, em uma murada da mansão do Conde estava, em língua italiana, gravada a nossa máxima: CHE SARÀ, SARÀ. Provavelmente os roteiristas do filme de Mankiewicz, ou o próprio Mankiewicz, conheciam a história que estamos contando aqui.

Quem não a conhecia era o músico que compôs a trilha sonora para Hitchcock. Jay Evans, músico premiando, tomou contato com ela justamente dois anos atrás, ao ir a um cinema de Los Angeles assistir a “A condessa descalça”. Vendo a máxima na murada do Conde, anotou-a em seu caderno, achando que aquilo daria um título de canção. Dito e feito, ao ser convidado pela Paramount pra fazer a canção que Doris Day cantaria, e que seria tão importante no desenlace do filme, não hesitou: compôs uma letra toda fundada no tema da máxima, apenas mudando o italiano do filme de Mankiewicz para o espanhol, para o que deu a seguinte justificativa: “Espanhol é uma língua muito mais falada que o italiano”.

No Brasil, os espectadores acharam – eu inclusive – que Doris Day estivesse cantando em português, mas, enfim.

Num ônibus, em Marrocos, três turistas americanos…

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Uma resposta to “Que será, será…”

  1. Fernando Trevas março 28, 2019 às 12:29 pm #

    João, bom tê-lo de volta! E em grande estilo!

    Abraço!

    Fernando

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