“O Confeiteiro”, ou, a torta alemã contra o Velho Testamento

9 abr

Na Berlim de hoje, Thomas mantém esse Café, onde serve sua especialidade: uma saborosa torta alemã. Sua freguesia não é grande, mas seleta, até porque ele não confeita bolos para ficar rico, e sim, por prazer.

Um freguês seleto é Oren, esse empresário israelita que, a negócios, vem a Berlim todo mês, e, aproveita para degustar a torta de Thomas, e levar uma fatia para a esposa, em Jerusalém. Thomas e Oren se identificam, se tornam amigos, e, mais que isso, amantes. Amantes que só se veem uma vez ao mês, mas tudo bem…

Um dia Thomas telefona para Oren e ninguém atende. Este sofrera um acidente em sua terra, e falecera. Depois de um tempo de luto, o que faz Thomas? Toma um avião e, sem identificar-se, vai ver de perto a família do amante. Consegue emprego na lanchonete de Anat, a viúva de Oren, e lá passa a confeitar a sua deliciosa torta alemã, a qual logo começa a ter muito mais saída do que a comida judia que Anat, forçada pela tradição do Velho Testamento, é obrigada a cozinhar. Ocorre que Thomas e Anat se envolvem na medida direta em que a torta alemã “vence” o Velho Testamento, e, a partir daí, o espectador começa a testemunhar um novo relacionamento amoroso…

Narrado com elegância e delicadeza, o filme “O confeiteiro” (“The cakemaker”, 2017) do jovem cineasta israelense Ofir Raul Graisor ambiguiza categorias conceituais em vários níveis – político (Alemanha versus Israel), gustativo (torta alemã versus comida judaica) e sexual (homossexualidade versus heterossexualidade).

Interessante é a construção do personagem Thomas, que ao longo de todo o filme, articula poucas palavras. Esse quase silêncio o torna mais misterioso e mais intenso. Quase sempre absorto em seu minucioso labor de confeiteiro, nos passa a impressão de uma alma insatisfeita com as limitações de suas circunstâncias, mas – de algum modo que não nos é dado entender – tranquilo na sua insatisfação. E apesar dos pesares, um personagem “doce”… se se puder dizer, como suas tortas. Com ele, nota-se que o filme quer ser um pouco menos realista, e um pouco mais, se for o caso, lírico.

Trata-se de uma estória de amor (ou duas, se for o caso), porém, uma estória muito pouco convencional – admitamos. Vejam que, no final do filme, muito tempo depois de Thomas ter sido literalmente expulso de Jerusalém por uma mulher que se sentiu duplamente traída, o que pode nos dizer a última cena em que, em plena Berlim, a esposa/amante traída observa de longe o “Café da torta alemã” e seu proprietário que, no momento, sem se saber vigiado, monta sua bicicleta e pedala em direção a seu lar solitário?

Como sói acontecer, o desenlace da estória não é dado ao espectador, que deve preencher as lacunas ficcionais a seu gosto: (1) Thomas e Anat se encontrarão e retomarão o namoro? (2) Os dois se manterão apenas amigos? (3) Jamais se verão e cada um esquecerá o ocorrido? Ou, enfim, uma outra alternativa, que não me ocorre no momento?

“O confeiteiro” faz, de alguma forma, o espectador lembrar um filme dos anos noventa, “Traídos pelo desejo” (“The crying game”, 1992, de Neil Jordan), porém, dele ganha na contenção, na beleza, e como já sugerido, na doçura. Não é sem coincidência que o elemento diegético que une o desencontrado “triângulo” amoroso seja justamente o refinado sabor da deliciosa torta alemã – no caso, contraposto ao gosto manjado da tradicional, obrigatória em Jerusalém, comida judaica.

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