LEITURAS DA QUARENTENA (4) ENIGMAS E NÚMEROS

2 jun

Edição de 1499, um dos primeiros livros impressos na história da humanidade, o “Hypnerotomachia Poliphili” sempre foi e continua sendo, um mistério para historiadores e estudiosos.

Escrito em várias línguas, em estilo onírico, parece esconder um enigma – ou seria mais de um? – que intriga meio mundo, desde sua publicação, até hoje quando, nem sua tradução para o inglês, quinhentos anos depois, em 1999, ajudou a desvendar. Seu suposto autor, um Francesco Colonna, espécie de gênio anônimo do renascimento italiano, é um outro mistério histórico insolúvel.

Bem, se não dá pra desvendar os mistérios de um livro antigo, dá pelo menos pra fazer ficção em cima dele. Foi o que fizeram os jovens escritores americanos, Ian Caldwell e Dustin Thomason, no seu romance “The rule of four”, entre nós traduzido pela editora Planeta do Brasil, como “O enigma do quatro” (2005).

O livro de Caldwell e Thomason se passa na época atual e seu cenário é a Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Conta a estória da amizade entre quatro pós-graduandos que partilham a mesma residência universitária e, inevitavelmente, experiências de vida semelhantes. Pelo menos dois deles, estão envolvidos com o “Hypnerotomachia”: Tom, o narrador da estória, e Paul que pesquisa o livro de Colonna. O pai de Tom, falecido em um acidente de automóvel, fora um sério estudioso do “Hypnerotomachia”, mas o filho, ferido no acidente, não tem mais interesse no assunto.

Ou melhor, não tinha, pois é convencido a um retorno pelo amigo Paul, o qual parece haver descoberto uma boa pista para explicar o livro de Colonna. Ocorre, porém, que, em Princeton, não é só Paul e Tom que pesquisam o “Hypnerotomachia”. O próprio orientador de Paul ambiciona uma última palavra sobre o mistério, e é acusado de desonestidade por um colega. Enfim, como numa narrativa policial, uma pequena rede de intriga está formada e tudo termina em crime, violência, incêndio e mortes.

Hermética demais, a regra do quatro, descoberta por Paul nas páginas do “Hypnerotomachia” não ajuda muito o leitor a entender o livro antigo, porém, o background por ele deduzido da vida e da atividade de Francesco Colonna na Florença renascentista, é, pertinente ou não, uma aula de História que dá gosto. Toda ela está contida no capítulo 22, onde ficamos sabendo da existência desse moralista amalucado Savonarola, que, lutando contra os anseios humanistas da época e do lugar (leia-se cultura, arte, mas também carnaval e bacanais), passa a acender fogueiras para queimar livros. É por aí que Colonna, decide esconder sua preciosa coleção de arte, literatura e filosofia num local desconhecido de todos, seu futuro túmulo, no caso, só dando pistas dele nos enigmas engendrados nas páginas do “Hypnerotomachia”.

Com tantas idas e vindas entre a Itália renascentista e o campus de Princeton, e infindáveis discussões obscuras sobre os possíveis sentidos de um livro antigo, a leitura de “O enigma do quatro” não é fácil e, em certos momentos, suas 421 páginas podem parecer intransponíveis. De todo jeito, o empreendimento literário da jovem dupla Caldwell e Thomason é admirável e impressiona pela argúcia de articular e criar em cima do articulado. Se não estou enganado, a dupla nos sugere enigmas adicionais aos de Colonna. Por exemplo: o corpus do doutorado de Tom é o “Frankenstein” de Mary Shelley e, se o leitor pensar bem, uma associação de ideias está implícita nessa sintomática escolha. Outra coisa são as pistas falsas: com tanta rivalidade em curso entre os scholars de Princeton, não seria de se esperar que o acidente que mata o pai de Tom tivesse sido criminoso? Não se insinua isso em nenhum momento, mas…

Os autores de “O enigma do quatro”

De minha parte, me diverti com a descrição da vida no campus de Princeton, com todos os elementos que fazem parte da atividade acadêmica e periférica em qualquer universidade americana, já que são todas mais ou menos iguais. Das rivalidades entre professores às brincadeiras estudantis, passando pelos imensos acervos e as formalidades de seus acessos, pelas grades curriculares e os eventos científicos e culturais, está tudo lá, do jeito que vi, anos atrás, noutra universidade, a Indiana University. Aliás, não deve ter sido fácil para o tradutor dar conta, em Português, de tantos termos que são específicos do contexto universitário americano, um contexto em tudo tão diverso do nosso. Como traduzir falsos cognatos como “dormitory”, “fraternity”, “sorority”, “scholar”, “major”, “minor”, etc? Mais difícil ainda, deve ter sido reconstituir em língua portuguesa o esquema gráfico aplicado às páginas do “Hypnerotomachia”, justamente aquele esquema que está indicado no título do livro que se lê.

Imagino que os leitores de livros como “O código Da Vinci” e “O nome da rosa” encontrem, em “O enigma do quatro”, impressões de “déjà vu”, mas, não há dúvidas: o livro em questão é um bom exercício para o intelecto, como também para a imaginação.

Uma resposta para “LEITURAS DA QUARENTENA (4) ENIGMAS E NÚMEROS”

  1. Wellington Modesto junho 3, 2020 às 5:38 am #

    Lembra a história de Lucky Jim, do Kingsley Amis.

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