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Galinho de ouro

9 out

Se não gosto de boxe e não aprecio a produção comercial da Globo Filmes, por que fui ao cinema assistir a “10 segundos para vencer” (José Alvarenga Jr, 2018)?

O motivo é estritamente saudosista. Acontece que entrei na adolescência na primeira metade dos anos sessenta, quando o país – vocês lembram – era um palco de otimismo e esperança. Saíramos do progressismo de Juscelino e (apesar de Jânio), estrávamos numa fase promissora, cheia de coisas novas e boas acontecendo em todos os setores. No esporte e nas artes, pelo menos, era uma notícia boa atrás da outra: as copas de 58 e 62, o prêmio em Cannes para “O pagador de promessa”, as vitórias das nossas misses, o badalado advento do Cinema Novo, Brasília, a poesia concreta, a Bossa Nova… era tanta coisa levantando a nossa moral que dava gosto, sobretudo para um adolescente como eu, curioso e interessado. E claro, no meio disso tudo, Eder Jofre, o campeão mundial de boxe, carinhosamente apelidado de “o nosso galinho de ouro”.

Pois bem, Eder Jofre – ou melhor, sua vida – é o assunto de “10 segundos para vencer”, e foi isso – sua lembrança dentro desse contexto de otimismo – que me levou ao cinema.

E ainda bem que fui, pois o filme – meu saudosismo à parte – tem alguma qualidade. Começa em 1946, quando Eder era um garoto pobre e acompanhava os penosos esforços do pai para transformar o irmão mais velho num grande pugilista. Esforços inúteis, pois o rapaz não passava de um boêmio brigão que não levava a profissão a sério. Ainda criança, Eder pede ao pai para fazer dele o boxeur que o irmão não foi. Já adulto, opta por ser desenhista, mas, a coceira do boxe em família grita mais alto.  E, a partir daí, o filme, seguindo de perto a vida verídica do atleta, vai nos contar todo o difícil percurso até a glória.

Todo não, mas ao menos os itens mais decisivos e dramáticos. Por exemplo: o rigor espartano do pai/treinador que, em muitas ocasiões, põe a saúde do filho em risco; a luta que o consagrou em território nacional, ao ponto de ninguém mais querer enfrentá-lo; a sofrida e heroica vitória em Los Angeles, que lhe concede a definitiva fama internacional; o casamento, a vida doméstica, a crise e o melancólico afastamento do ringue, fato que quase mata o pai. E, obviamente, o retorno em grande estilo, em 1973, com a famosa luta, durante a qual, o pai, de tão emocionado, desmaia e é levado ao hospital. Nessa luta, um detalhe: alguém avisa a Eder que o Presidente Medici, presente na plateia, quer ficar com suas luvas, e ele responde, categórico: diga a ele que estas luvas já têm dono.

Não conheço de perto a vida de Eder Jofre e não posso garantir que tudo no filme seja biográfico. Mas, se não é biográfico, é ao menos cinematográfico.

Um exemplo, creio eu, de equilíbrio entre dado biográfico e lance de roteiro está na sequência que antecede a luta em Los Angeles. Num quarto frio de hotel, com apenas duas semanas para chegar aos 53 quilos exigidos, vemos o desumano tratamento a que o pai/treinador submete o filho: sem beber água havia dias e sendo obrigado a cuspir sem parar (“em cada cuspida se perdem muitos gramas”, lhe garante o pai), o jovem atleta enfraquece. e é fraco assim que irá ao ringue, e, sob as vaias de uma plateia hostil, que o chama de “macaco da Amazônia”, vence o conceituado boxeur mexicano em luta que virou história.

Momentos mais subjetivos e/ou íntimos na vida do pugilista são, naturalmente, criações dos roteiristas, por exemplo, o que se passa na sua cabeça antes de cada luta: sempre o rosto em close dele mesmo quando criança, primeiramente sério e apreensivo e, logo em seguida, abrindo um sorriso promissor – suposta garantia de sucesso.

Eder Jofre, o galinho de ouro.

Curiosa foi a escolha do elenco. Vejam que os atores que fazem os irmãos de Eder Jofre são, de fato, normalmente feios e têm o mesmo nariz ossudo e saliente que a gente ainda hoje lembra da família do pugilista. E, no entanto, justamente o ator que faz Eder (o galã Daniel de Oliveira) nem tem esse nariz saliente nem é feioso. Exigências mercadológicas da Globo Filmes, com certeza. Com relação às interpretações, quem se destaca mesmo é o grande Osmar Prado no papel do obsessivo pai/treinador.

Como disse, nunca curti boxe, e, no entanto, a expressão “galinho de ouro”, ouvida tantas vezes na minha adolescência, ficou como um dos sons que me evocam a festa que foi a primeira metade dos anos sessenta no Brasil.

Mas enfim, mesmo para quem não viveu a época, acho que vale a pena ver “10 segundos para vencer”.

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A cruz dos anos

3 out

Neste primeiro de outubro, Dia Internacional do Idoso, veiculei nas redes sociais, uma lista de dez clássicos da história do cinema mundial que trataram da “terceira idade” quando a expressão sequer existia. Na minha postagem, limitei-me a indicar os títulos dos dez filmes, sem comentá-los. Pois aqui os comento.

Na ordem cronológica dos lançamentos, o meu primeiro filme citado, “A última gargalhada”, é de 1924, tempo do cinema mudo. Dirigido pelo genial F. W. Murnau, traz todos os traços do então no auge Expressionismo Alemão. É a deprimente história desse senhor idoso, porteiro de um hotel de luxo em Berlim, que perde o emprego justamente por ser velho. Um dos primeiros filmes a fazer a pergunta: como tratar os nossos idosos? Claro que a pergunta do filme não se refere aos idosos ricos, que estes não precisam de perguntas de cunho social.

Para dizer a verdade, quase todos os filmes por mim listados misturam velhice e pobreza. É o caso do segundo, “Dama por um dia” (Frank Capra, 1933), história dessa mendiga idosa que subsiste vendendo maçãs nas calçadas de Nova Iorque, e que se desespera no dia que tem a notícia de que vai receber a visita de uma filha que não vê há décadas, hoje casada com um nobre espanhol e residente em Madri. O que uma mendiga pode fazer para esconder da filha rica sua gritante pobreza? Veja o filme para saber.

O meu terceiro filme citado, “A cruz dos anos” (Leo McCarey, 1937) enfrenta a questão pais e filhos de modo diferente. Fragilizado e dependente, esse casal de idosos procura apoio nos filhos e suas famílias, e a resposta, afetiva e financeira, não é propriamente a esperada. Como se vê, um tema atual, num filme tão contundente e sintomático que não resisti em dar a esta matéria o seu título.

Ao tema da pobreza na velhice, “Humberto D” (Vittorio De Sica, 1952) – meu quarto filme citado – acrescenta o da solidão. Pensionista do governo, sem parentes nem aderentes, o idoso Humberto vive só com seu cachorro Flick. Vive até o dia em é despejado e, doente, vai parar no hospital. Ao ter alta, será mais um mendicante nas ruas de Roma, sem teto e à procura de um cão desaparecido. Haja tristeza.

O tema da indiferença filial vai reaparecer de modo igualmente cru no japonês “Era uma vez em Tóquio” (Yasujiro Ozu, 1953), o meu quinto citado. Do mesmo modo, quando o casal de idosos residentes no campo, viaja a Tóquio à procura de conforto moral junto aos filhos, hoje todos casados, dá-se conta da gap generation que os separa, e o resultado é desilusão e sofrimento.

Em “Morangos silvestres” (Bergman, 1957), o meu sexto citado, já não temos mais a questão da pobreza. O protagonista é um conceituado médico aposentado que viaja para receber um prêmio de honra ao mérito. A viagem, porém, é um pouco menos espacial e um pouco mais existencial, e o remete ao âmago de seu eu, onde reside o menino lírico – tão diverso do idoso frio e calculista de hoje.

Se no filme de Bergman já fica claro que nem todo idoso é bonzinho, em “O que aconteceu a Baby Jane” (Aldrich, 1962), meu sétimo citado, a coisa se acentua. Movidas pelo rancor, duas irmãs idosas se digladiam até a loucura… e a morte. O gênero é mais terror que outra coisa.

O saldo positivo para a terceira idade retorna com o meu oitavo citado, “Ensina-me a viver” (Hal Ashby, 1971), história tão cômica quanto poética de um casal impossível – essa senhora avançada em anos, mas alegre e pra frente, e esse adolescente deprimido. Um desses filmes inesquecíveis que a gente chama de “lição de vida”.

Juventude num corpo senil: pode? De modo apropriado, o gênero da ficção científica é introduzido com “Cocoon” (Ron Howard, 1985), meu nono citado. Ao lado de um asilo de velhinhos, uma piscina abandonada recebe uma energia revigorante que vem do espaço sideral, e, para o bem ou para o mal, transforma a vida dos idosos que nela haviam se banhado.

Disse acima que a pobreza, mais que a riqueza, recorre nos dez filmes citados. Pois o meu décimo, “Conduzindo Miss Daisy” (Bruce Beresford, 1989) faz, em nível de personagem, o contraste entre as duas coisas O pobre (e negro) motorista dessa tradicional família judia deve conduzir a petulante Sra Daisy, em seus passeios e negócios. Naturalmente, desse convívio forçado nascerá um afeto improvável… e profundo.

Marilyn

26 set

Melancólico esse documentário que a televisão paga tem mostrado, “Marilyn Monroe à venda”, sobre um leilão em Los Angeles onde se negociaram objetos que pertenceram à estrela hollywoodiana.

Joias, vestidos, sapatos são vendidos a quem der mais, com, antes, uma explicação retroativa sobre por que, onde e quando a atriz fez uso do objeto. O leilão parece uma festa, mas, para o fã de Marilyn traz aquele cheiro desagradável de invasão tardia de privacidade. Confesso que nem assisti até o fim.

De minha parte, prefiro ficar com a Marilyn da tela. Não conheço todos os seus 29 filmes, mas vi os principais. Para seguir a cronologia, lembro seu começo de carreira em papéis secundários, ou mesmo em pontas, às vezes sequer creditada. “Idade perigosa”, de 1947, é o primeiro desses filmes obscuros, geralmente comédias de segunda categoria.

Sua primeira participação numa produção de peso está em “O segredo das joias” (John Huston, 1950). Mas, seu papel aí é pequeno como pequeno será no superpremiado “A malvada”, do mesmo ano, com direção do grande Joseph Mankiewicz.

Mais um punhado de filmezinhos irrisórios, até fazer, em papel ainda secundário, a Peggy de “Só a mulher peca” (“Clash by night”) que Fritz Lang dirigiu para o casal Robert Ryan e Barbara Stanwyck. Na ótima comédia de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952) Marilyn já tem um certo charme especial, porém, nada que a destaque.

A rigor, seu primeiro protagonismo aconteceu em um filme ainda hoje pouco conhecido, e, aliás, bastante atípico do estilo Marilyn. Refiro-me a “Almas desesperadas” (1952, Roy Baker) onde ela faz Nell Forbes, essa moça mentalmente desequilibrada que confunde sonho e realidade, e quando frustrada, não hesita em ser violenta. Não é um grande filme, mas é um bom exemplo de Marilyn dramática do começo ao fim. Papel mais visível para o grande público ela vai ter no ano seguinte, em “Torrente de paixão” (1953), ao lado do astro Joseph Cotten, com as cataratas de Niágara como cenário.

 

Com “Os homens preferem as louras e “Como agarrar um milionário” (1953) veio a consagração definitiva. Quando, em 1954, os cinemas do mundo exibiram o faroeste “O rio das almas perdidas”, todo mundo já sabia quem era aquela loura sensual que dividia uma jangada com Robert Mitchum. No mesmo ano ela está deslumbrante como a dançarina de “O mundo da fantasia”, porém, mais que isso, em “O pecado mora ao lado” (1955), ela já era o próprio pecado do título. E, partir de então, era a estrela admirada e cultuada que garantia bilheteria, mesmo quando os filmes não estivessem a sua altura, como “Nunca fui santa” (1956) e “O príncipe encantado” (1957).

Mas é justamente nesse tempo de glória, meados dos anos cinquenta, que começam as suas crises, e, ligado a isso, seu empenho em superar sua imagem de “loura sensual e ingênua” para afirmar-se como a atriz que acreditava ser. Ao rodar “Quanto mais quente melhor” (1959) já era, havia tempos, uma seguidora do “Método”, técnica interpretativa do Actors Studio, a maior escola de atores do mundo, com sede em Nova Iorque.

Foi também esse o tempo do seu casamento com o dramaturgo Arthur Miller, e dos flertes com os Kennedy, John e Robert. Em 1960, com Yves Montand, fez a comédia romântica “Adorável pecadora”, e em seguida (1961) aquele que seria seu último filme “Os desajustados”, direção de John Huston, com roteiro de Miller – um filme melancólico que não era só sobre cavalos selvagens em extinção, mas sobre outras extinções…

“Something´s got give” (sem título em português) poderia ter sido sua última fita, mas não foi. Em crise, a Fox a demite no meio da produção e o filme nunca foi concluído. O resto da história vocês conhecem. Em 05 de agosto daquele ano, 1962, a imprensa divulgava o suicídio de Marilyn Monroe.

Pois é, ao invés do incômodo documentário da televisão paga, fico com a Marilyn cinematográfica que amamos. E não preciso de leilões para saber o quanto valeu a vida de uma criança de nome Norma Jeane Mortenson, nascida nunca casa humilde nos arrabaldes de Los Angeles, em 1926, nunca reconhecida pelo pai biológico, mais tarde relegada pela mãe, e criada entre parentes hostis, orfanatos e pensões.

Pipocando

17 set

Não sei se vocês conhecem esse programa sobre cinema, na televisão paga, chamado “Pipocando” – aliás, também disponível no Youtube onde, na verdade, originou-se.

A rigor, são dois jovens comentando cinema – normalmente filmes atuais, relançamentos, bastidores das produções, ou coisas temáticas do tipo cenas de ação, de amor, etc. Ou curiosidades cinematográficas, como filmes que fizeram predições sobre o futuro, filmes que conduziram a escândalos, filmes sem finais, filmes com finais alternativos, filmes estragados pelos finais, filmes com sexo de verdade, os piores filmes do ano, coisas assim.

Ficam os dois frenéticos rapazes sentados no mesmo sofá, de frente para o espectador e falam, falam, falam… enquanto mastigam uma montanha de pipoca.. Isto numa velocidade incrível, com gestos igualmente céleres, um interrompendo o outro o tempo todo. Até caretas valem, ou mímicas ridículas, imitando certas interpretações de atores. O alvoroço é tão grande que nas primeiras vezes que assisti, tive dificuldade de entender do que falavam, e só com certo esforço auditivo pude acompanhar.

Claro, é um programa dirigido a adolescentes e a linguagem – a plástica e a verbal – é de adolescentes. Tanto é assim que, nas falas, dá pra contar quantas vezes é usado, por exemplo, o vocativo “galera” – sempre metido no meio das frases, como se a querer saber se o espectador “está ligado”. Erros de português são comuns (“ele viu ela”) e mesmo palavrões (“vá se ferrar”), eventualmente dirigidos aos espectadores.

Se porventura você abstrair o assunto, vai ter a impressão de que se trata de dois jovens contando um pro outro, as peripécias ocorridas na balada da noite anterior – quem comeu quem -, ou, se for o caso, as últimas fofocas picantes do colégio onde estudam.

A pergunta é: há crítica cinematográfica em “Pipocando”? Há sim, e em alguns casos, até bem fundamentada. Uma instância legal é quando a dupla discorda entre si na avaliação do filme comentado… e assume a discordância.

Com certeza, o programa tem uma boa audiência e deve ser um meio interessante para despertar, no adolescente, o interesse pelo cinema. Afinal, queiramos ou não, cinema também é cultura de massa e qualquer abordagem é válida, se consegue atrair um público jovem que, mais tarde, pode amadurecer e tornar-se mais criterioso. Criado pela dupla de apresentadores Rolandinho e Bruno Bock, originalmente para o Youtube, o programa já gerou até um livro: “Pipocando – os bastidores do maior canal de cinema da América Latina”.

Pessoalmente, o meu receio com esse “internético/televisivo estilo jovem” de discutir cinema está em como ele vai tratar o cinema clássico. Até agora não vi nenhum grande clássico do passado sendo ´discutido´ pelos dois frenéticos apresentadores. Nem sei se quero ver.

De repente, me vejo imaginando – digamos – “Casablanca” (1942) sendo recriado nesse descontraído estilo teen de hoje em dia, algo assim como:

“Dono de cassino beberrão se topa com velho xodó, só que agora ela tem um maridão a tiracolo, e, pior, comete a maluquice de pedir ao negão do piano que toque a musiquinha que embalou o chamego dos dois, no passado”.

Ou “Cidadão Kane” (1941) assim:

“Figurão da imprensa fica puto ao perder eleição e, só de teima, casa com a rapariga que fora o assunto do escândalo. Vive e morre à procura de uma palavra que, segundo uns, seria o nome de um brinquedo infantil, e, segundo outros, mais maliciosos, seria uma referência subliminar à xoxota que o fez perder a eleição.”

Ou “Crepúsculo dos deuses” (1950) assim:

“Roteirista fodido se refugia no casarão de coroa que tinha sido atriz do cinema mudo. Desmiolada, ela quer voltar às telas, e quando ele discorda, leva um balaço nas costas e vai morrer no fundo da piscina de onde (milagres do cinema) nos conta a encrenca toda.”

Pensando bem, volto atrás: até que seria interessante ouvir o que os dois jovens pipoqueiros do programa teriam a dizer sobre estas obras primas… e outras. Enfim.

Escritor de Segunda Unidade

10 set

A expressão acima não existe. Acabei de criá-la, e o fiz em analogia ao cinema. A expressão cinematográfica é “Diretor de Segunda Unidade”, que preciso explicar pra justificar o título desta matéria. Vá lendo, que chego lá.

Hoje nem tanto, porém, nos velhos tempos da Hollywood clássica o “Diretor de Segunda Unidade” era uma figura imprescindível na produção de um filme. Sobretudo se o filme era de ação, mais ainda se essa ação se estendia a campos de batalha. Os combatentes poderiam ser os índios e a cavalaria americana, ou os nazistas e os aliados, ou os gregos e os troianos, pouco importava…

O que ocorria é que essas cenas com centenas ou milhares de figurantes na frente da câmera (e claro, sem tomadas dos atores principais) normalmente não eram filmadas pelo diretor principal – aquele cujo nome aparecia nos créditos do filme. Não. Essas cenas cheias de movimentação – cujo conjunto tinha a finalidade de dar uma visão geral da batalha – ficava ao encargo do nosso Diretor de Segunda Unidade.

Um empregado da Companhia com função bem particular, o Diretor de Segunda Unidade não tinha direito a crédito, e, em muitos casos, mal era conhecido do pessoal da produção. Até porque as suas filmagens eram feitas em locais distantes de Hollywood – e não necessariamente ao mesmo tempo da produção.

Quantas cenas de batalha nos filmes de, digamos, Raoul Walsh, Howard Hawks, Michael Curtiz ou mesmo de John Ford, não foram rodadas na ausência deles, apenas vistas depois em salas de montagem, onde eram “ajeitadas” para caber bem no fluxo narrativo do filme.

Pronto, devidamente apresentado o Diretor de Segunda Unidade,  vamos à questão: por que dei a esta matéria o título de “Escritor de Segunda Unidade”?

É que vivo sempre comparando cinema e literatura, e fico me indagando como poderia ser útil, no âmbito literário, um profissional desses, que ajudasse o romancista a não perder tempo com longas descrições de batalhas… pois ele mesmo as escreveria. Pensem no Tolstoi de “Guerra e paz”. Acho que ele teria ficado grato a um cara desses.

E no caso dessa arte essencialmente verbal que é a literatura, por certo a providencial atuação desse Escritor de Segunda Unidade não se limitaria às cenas de ação. Todas aquelas tediosas descrições de fachadas de casas antigas, ou mobiliários cheios de detalhes inúteis, ou de paisagens intermináveis, teria facilitado, se feitas por outrem, a vida de – digamos, Sthendal, Balzac, Melville, José de Alencar, Victor Hugo, e até mesmo Proust.

Naturalmente essse “Escritor de Segunda Unidade” teria que ser uma pessoa muito bem treinada para o ofício, e que, como no caso do cinema, receberia o seu devido pagamento… sem direito a crédito.

Pois bem, se existisse esse tipo de profissional no âmbito literário, acho que eu mesmo iria começar a me organizar para escrever um belo e longo romance. Já que não seria um romance de guerra, o meu Escritor de Segunda Unidade ficaria responsável pelas longas descrições das paisagens, das fachadas de prédios, e da rotina do personagem, coisas que me aborrecem só de pensar em fazer.

Aliás, para o meu Escritor de Segunda Unidade imagino um monte de funções com mais minúcias do que a do seu colega cinematográfico. Por exemplo, arranjar um título para o romance a ser escrito, como se sabe, coisa muitas vezes mais difícil do que escrever o próprio romance. Inventar os nomes dos personagens também poderia ser muito útil, nomes que os futuros exegetas da obra pudessem achar que tinha a ver com a temática abordada.

Mas, um serviço adicional, com direito a pagamento extra, que eu iria querer do meu Escritor de Segunda Unidade seria o seguinte: seria o de transmudar minhas pobres e insossas frases prosaicas em construções metafóricas, cheias de belas imagens que dessem ao texto algum viço, e se possível algum encanto.

O perigo seria, pronto o livro, ele reivindicar uma co-autoria.

Ou, pior, a autoria completa.

A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

Duas Hollywoods

21 ago

Já me perguntaram por que, sendo tão ligado a cinema, nunca quis visitar Hollywood. Ao me fazerem a pergunta, tenho sempre a resposta na ponta da língua: se a viagem daqui pra lá fosse, não espacial, mas temporal, eu iria com muito prazer.

Aí então eu iria conhecer os grandes estúdios dos velhos tempos, que fizeram a glória da Meca do Cinema: a MGM, a Fox, a Universal, a Warner, a Paramount… Hoje, o que eu vou ver em Hollywood, senão computadores e executivos? Gastar um dinheirão pra isso?

Pois bem, por módicos 34 reais, fiz a visita a esta Hollywood de agora, e isto, sem sair de casa. Em livraria local, acidentalmente encontrei esse livro “Hollywood é como a escola” (Zoey Dean, Record, 2013) que, pela orelha, vi logo que supria o meu suposto intento de ter, de perto, uma visão de como funciona por dentro a Hollywood de hoje em dia.

Ficcional, o livro é um romance, mas escrito por quem conhece muito bem os bastidores da Hollywood atual, local onde a estória se passa. Em primeira pessoa verbal, é a protagonista quem nos relata a estória. Ela, Taylor Henning, é uma moça simples e determinada, que ganha o emprego do que eles hoje chamam pela sigla de C.E., ´Creative Executive´, cuja função é ler roteiros, opinar sobre, e decidir quais podem eventualmente virar blockbusters ou Oscar winners, ou, se não isso, ao menos um filme rentável. Mas, a criatividade desse executivo também se estende à toda a logística da produção e da divulgação, aí incluídas todas as infindáveis trapaças da atividade. Quase tudo resolvido nas teclas dos mil computadores.

Como se imagina, a vida não é nada fácil nesse mundo semi-virtual de fakes e fatos indistintos, povoado por ambição e controlado pelo dinheiro. Taylor é só uma mocinha talentosa, mas inexperiente, e seu aprendizado sobre a luta pela ascensão profissional é penoso e devasta sua alma. Às vezes ela tem que ser vil, mesquinha e até traidora; às vezes tem a chance de ser nobre e, claro, ela é uma coisa ou outra, a depender da conveniência.

Para mim, são duas.

De minha parte, me agradaram duas coisas no livro – a verossimilitude do enredo (sim, com certeza, a eletrônica Hollywood atual funciona assim) e, apesar do predomínio do virtual, o empenho da narradora em ser descritiva ao extremo. Não apenas a geografia da cidade é retratada com realismo, como também as roupas, sapatos, drinques, pratos, cachorros, móveis, smartphones e automóveis dos personagens – tudo descrito com uma minúcia documental.

Depois de ter lido, soube que o livro – escrito a quatro mãos por um casal que usa o codinome de Zoey Dean – virou uma série televisiva e não me surpreendi. Seu enredo é novelesco, cheio de pequenas intrigas que se enlaçam e desenlaçam, sem perder o foco duplo em dois caminhos centrais, nem sempre paralelos: subir na profissão e conseguir o grande amor.

Achei que ia me aborrecer com um livro que só estava lendo por curiosidade, mas que nada: identifiquei-me com essa “executiva de criação” meio truculenta, vibrei com suas astúcias sacanas e sofrei com suas quebradas de cara.

A moderna Taylor Henning se refugia no clássico de Capra (1946)…

Um dado a favor de minha curtição é que, embora diferentes nos resultados artísticos, as duas Hollywoods – a de hoje e a antiga – se tocam em vários pontos, claro. O principal, para mim, é que, se porventura opaca e limitada, a de hoje continua perseguida pelo imenso brilho da antiga. Sem coincidência, o texto está cheio de referências à era clássica. Por exemplo, qual é o filme que Taylor, depois de um certo retumbante fracasso profissional, vai ver, tristonha, no seu aparelho de televisão caseiro? Claro, “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Uma dessas referências ao passado é mais sintomática que todas as outras. Quando por acaso Taylor põe as mãos no interessante roteiro de uma principiante tímica e insegura, em quem ninguém acreditava, a frase que lhe vem à mente é: quem sabe se esse roteiro não poderá ser o “Casablanca” moderno? Se vai ser mesmo o leitor não vem a saber (o livro termina no meio das filmagens), mas uma coisa é certa: a frase de Taylor constitui, a rigor, uma grande ironia do livro, pois  esconde de propósito a verdade que  todos nós estamos cansados de saber: que, na Hollywood de hoje em dia, ninguém tem capacidade para fazer um filme com a grandeza de “Casablanca”. E por extensão, com a grandeza de todo o cinema clássico dos anos 30, 40 e 50…

Por essas e outras é que só aceitaria ir a Hollywood, se a viagem fosse temporal. Tenho dito.

Já não se fazem mais filmes com a grandeza de Casablanca….