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Estrelas de cinema nunca morrem

24 abr

O título desta matéria é uma metáfora cara aos cinéfilos, mas não é só isto: é também a denominação brasileira de um filme americano recém lançado (2017) que conta os últimos anos da vida de uma grande atriz de Hollywood, a inesquecível Gloria Grahame.

O título original do filme é, na verdade, mais prosaico: “Film stars don´t die in Liverpool”, (“Estrelas de cinema não morrem em Liverpool”) e a referência à cidade inglesa dá-se porque é aí que vamos encontrar Gloria Grahame, entre 1979 e 1981, decadente e enferma, hóspede numa modesta pensão de bairro. Sua carreira desandara desde os anos sessenta, com filmes cada vez mais raros e mais irrisórios. No momento, está em Liverpool ensaiando a peça “The glass menagerie” (“À margem da vida”), num teatro de segunda categoria.

Baseado em fatos reais, o filme do jovem diretor escocês Paul McGuigan nos conta como, aos 57 anos de idade, Gloria Grahame se apaixona pelo jovem filho dos donos da pensão, Peter Turner (28 anos, ele também ator) e como vive, no curto período de menos de três anos, uma grande e bela estória de amor, no caso, a última de uma longa série na sua vida conturbada.

Anette Bening faz uma Gloria Graham convincente e, bem conduzido, o filme de um modo geral emociona, e, em certos momentos, até eleva, especialmente naquela cena em que o namorado recita com uma Gloria enferma, no palco de um teatro vazio, o trecho do encontro entre Romeu e Julieta – a peça shakespeariana que Gloria sonhava interpretar e nunca o fez.

Desconfio, porém, que perde parte do prazer de assistir a “Estrelas de cinema nunca morrem” o espectador que nunca ouviu falar de Gloria Grahame. Loura, sensual e sedutora, não teve a fama de Marilyn Monroe, mas teve, sim, seu fã clube. No julgamento da crítica, Gloria Grahame é considerada uma atriz competente, determinada, honesta, espontânea, curiosa e criativa.

Anette Bening é Gloria Grahame.

De minha parte, sempre fui seu fã e a ponho na minha galeria de imagens amadas. Filha da atriz de teatro Jean Grahame, Gloria começou sua vida no cinema em 1944, aos 21 anos de idade, no filme “Blonde Fever”, mas, minha primeira lembrança dela é como a mocinha sapeca a quem George Bailey (James Stewart) ajuda em “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Depois vem toda uma gama de filmes noir, gênero em que ela, com seu charme meio vamp, se saía muito bem. “Rancor” (Edward Dmytryk) é de 1947, porém, o auge dessa fase noir – como aliás, o auge de sua carreira cinematográfica – vai acontecer nos anos cinquenta. Cito alguns, todos grandes filmes, assinados por grandes cineastas: “No silêncio da noite” (Nicholas Ray, 1950), “Precipícios d´alma” (David Miller, 1952), “Macao” (Joseph von Sternberg, 1952), “Os corruptos” (Fritz Lang, 1953), “Fúria assassina” (Jerry Hopper, 1954), “Homens em fúria” (Robert Wise, 1959).

Ainda nesta década de cinquenta, vamos vê-la em grandes dramas, como: “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli, 1952) que, por sinal, lhe deu o Oscar de coadjuvante; “Os saltimbancos” (Elia Kazan, 1953); “Paixões sem freios” (Minnelli, 1955) e “Não serás um estranho” (Stanley Kramer, 1955).

Jamie Bell e Anette Bening em cena do filme.

É possível que o espectador a lembre em filmes de maior sucesso comercial. Se for o caso, como a atriz circense que trabalha com elefantes, em “O maior espetáculo da terra” (Cecil B DeMille, 1952), ou – quem sabe – no épico musical de Fred Zinneman “Oklahoma” (1955) onde ela aparece cantando e dançando.

Sua vertiginosa decadência nos anos sessenta, vale dizer, coincidiu com a decadência geral da Hollywood clássica. No caso de Gloria, motivada ou não, pelos escândalos familiares.

Em 1960 ela casa com o enteado Anthony Ray – filho do seu primeiro esposo, o cineasta Nicholas Ray. Esse casamento faz todo mundo – especialmente, os colunistas sociais – lembrar que, oito anos atrás, Ray (o diretor de “Juventude transviada”, para quem não lembra) pedira divórcio com a alegação grave de que a havia encontrado na cama com o mesmo Anthony, então um garoto de apenas treze anos de idade.

“Estrelas de cinema nunca morrem” toca de leve nessas questões, mas o seu mérito está mesmo em, além de contar uma comovente e trágica estória de amor, resgatar a imagem de uma atriz que – como quer o título do filme – nunca vai morrer na lembrança dos cinéfilos da vida.

Gloria Grahame nos anos cinquenta.

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Lou Andreas-Salomé

17 abr

Uma mulher do século XIX, que, com certa intimidade, conviveu com Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke e Sigmund Freud já teria muito o que contar, ainda que nunca tivesse escrito uma linha.

E ela escreveu, e muitas. Refiro-me à escritora russo-alemã Lou Andreas-Salomé, que é autora de vinte livros e centenas de ensaios, alguns dos quais sobre suas relações afetivas e intelectuais com os autores referidos.

Quem nos conta sua história é o filme “Lou” (2016), do diretor alemão Cordula Post-Kablutz, e nos conta desde a infância, em São Petersburgo, até a idade matura, na Alemanha, quando, já idosa e doente, é ameaçada pelo regime nazista por ter partilhado das ideias “indecentes” de Freud. A rigor, quem conta a história é ela mesma, ao seu biógrafo Ernst Pfeiffer, um rapaz tímido que, como os muitos homens que passaram pela vida dessa mulher fascinante, cai por essa senhora de 75 anos.

A história segue mais ou menos a cronologia, apenas dispendendo mais tempo de tela para os “casos” amorosos com as figuras mais ilustres e mais marcantes na sua formação intelectual. Por exemplo, um tempo considerável é dado à formação e manutenção do triângulo amoroso entre Lou, Rée e Nietzche, aliás, triângulo que só pode ser chamado de “amoroso” com restrições, já que Lou – uma férrea defensora da vida celibatária – não envolveu-se sexualmente com nenhum dos dois. A famosa foto em que ela aparece com os dois amigos, segurando um chicote, é emblemática desse tipo de relação: a sugestão irônica é que ela estaria maltratando os dois amigos, assim como a lendária Filis maltratara o sábio Aristóteles.

No filme, a foto do chicote.

É fato que com o poeta Rilke ela teve uma relação mais íntima, mas logo dele fugiu, sufocada pelo seu excessivo e doentio apego.  Sim, Lou casou um dia com o linguista Carl Andreas, que lhe deu este sobrenome, porém, de comum acordo entre os dois, foi uma duradoura relação a dois, cheia de afeto, mas sem qualquer contato físico.

Não é que Lou Andreas-Salomé fosse assexuada. Apenas queria a todo custo manter a sua independência de pensadora, que uma vida doméstica e com filhos, ela achava, poderia comprometer. Profunda conhecedora da obra de Nietzsche, ela escolhera para si, a alternativa de ser “apolínea” e, se possível, nunca “dionisíaca”. A alegação é que, para crescer intelectualmente, precisava da disciplina de Apolo, em detrimento do descontrole de Dionísio. Só bem mais tarde na sua vida, experimentaria o lado dionisíaco de seu corpo e de seu espírito, mais aí, Nietzsche, o autor dos conceitos, já se fora. E o filme, estranhamente, nos oferece muito pouco desse derradeiro parceiro erótico, com quem ela traiu o esposo Andreas.

A parte final do roteiro é dedicada à sua amizade e seu aprendizado com Freud, e uma cena típica a mostra no divã do psicanalista austríaco, quando, rememorando o passado, desata na gargalhada ao constatar que a figura de Deus que via em seus delírios infantis, tinha as feições do pai da psicanálise. Com a ironia de ter sido um Deus ingrato, que, apesar de seus rogos constantes, não salvara o seu pai querido da morte. De todo jeito, nessa fase madura da vida, Lou já escrevera livros esclarecedores de seu pensamento livre – um deles sobre o papel benéfico do narcisismo, que o próprio Freud reconheceria como decisivo para o estudo do Inconsciente.

Uma Lou idosa, contando sua vida….

Penso que, no Brasil, seus livros mais conhecidos são: “Nietzsche em suas obras”, “O erotismo – reflexões sobre o problema do amor”, “Freud 1914-1916: ensaios de metapsicologia” e, talvez o mais popular e mais amado “Cartas a um jovem poeta”, sua rica e vasta correspondência com Rilke.

Para ser a estória de uma mulher tão revolucionária – espécie de precursora do feminismo que ainda estava por vir – o filme é relativamente convencional, e não se distingue muito do seu gênero – resumido na frase: ´uma figura ilustre conta sua vida´. Um recurso de linguagem que pode ter destaque é talvez a montagem do fotográfico com o cinematográfico, feita cada vez que, ao longo da narração, se tem um novo retorno ao passado. Na introdução desses retornos, parte-se sempre de uma foto do acervo particular da protagonista, primeiramente em tamanho natural, e depois, ampliado para a dimensão da tela, onde se justapõe a protagonista se locomovendo, enquanto o restante das figuras na foto permanece estático.

Enfim, um filme de interesse para vários profissionais – filósofos, psicanalistas, literatos, historiadores, feministas, etc – mas, não sei se do interesse do espectador comum. Para estes talvez faltem aqueles lances dramáticos que tornam qualquer estória apetitosa, lances, como se sabe, nem sempre efetivos em narrativas que se esforçam em resumir toda uma existência humana em duas horas de projeção.

Lou Andreas-Salomé em foto da época.

No reino da paralepse

11 abr

Paralepse, o que é isso? Já escrevi sobre o assunto, mas vale a pena a ele retornar. É um item importante para a compreensão de como funciona a linguagem cinematográfica.

Vamos por etapas. Ficcional ou documental, o cinema é uma arte narrativa – o que significa dizer que todo filme conta uma estória. Se há uma estória contada, há inescapavelmente, um contador. Quem é esse contador da estória do filme? Em outros termos, mais específicos, quem é o narrador da narrativa cinematográfica?

Grosso modo, a teoria da linguagem, distingue dois tipos de narrador: o narrador onisciente e o narrador limitado. Como o nome diz, o narrador onisciente é aquele que sabe tudo e, eventualmente, conta tudo. Só não conta tudo se não quiser. Seu papel se assemelha ao de Deus, e por isso mesmo, ele nunca está presente na estória contada, ou seja, ele narra, mas não faz parte da narrativa. Seu estatuto é o de uma instância abstrata, que o espectador pode, equivocadamente, confundir com a câmera, ou com o cineasta. Já o narrador limitado faz, sim, parte da narrativa: é um dos personagens envolvidos na estória e, ao contrário do onisciente, tem um nome. E se é um personagem, não é Deus, e, portanto, não sabe tudo: só o que foi capaz de, pessoalmente, testemunhar.

Cena de “O amanhã que não virá”, filme aqui discutido.

Tudo muito simples, se a coisa terminasse nesse esquema dual e mais ou menos dicotômico. Infelizmente, não termina. No âmbito do cinema, os estudiosos da sua linguagem há muito tempo detectaram um terceiro tipo de narrador, e é deste que vamos tratar aqui – o narrador paraléptico.

Pois é, na narração paraléptica vão se confundir os dois tipos de narradores acima mencionados. Como isto é possível? Para ilustrar, imaginemos um filme em que um personagem conta a estória. Ele vai contando tudo o que viu e ouviu e o espectador acompanha sua narração com interesse. De repente, ele começa a contar o que não pode ter visto nem ouvido, pois o que aconteceu, aconteceu fora de seu alcance físico. Em termos técnicos, ele, que é “limitado”, passa a agir circunstancialmente como “onisciente”. Não vem ao caso se ele está mentindo ou não, até porque, geralmente, ele não está mentindo. Mas o que concede validade à sua “onisciência” é que este tipo de narrativa é aceita pelo espectador como normal, entre outros motivos, porque o cinema a pratica com sistematização desde sua origem. Com tanta sistematização, que, na verdade, o espectador sequer a nota. É a esta narração, limitada mas com ingerências oniscientes, que se dá o nome de paralepse.

Acima imaginamos um filme hipotético, mas se você lembrar os filmes a que já assistiu, e cujas estórias foram contadas por um dos personagens, vai se dar conta de que o procedimento da paralepse, ao invés de excepcional, é uma regra no cinema universal, consistindo em um de seus recursos mais específicos. Em matéria que publiquei sobre o assunto (“Viva a paralepse”), analisei a estrutura paraléptica de filmes como “Cidadão Kane”, “Janela indiscreta”, “Desencanto” e outros, mas aqui gostaria de mencionar um caso que é, de alguma forma, extremado.

Ralph Cotter (James Cagney) e um de seus muitos crimes.

Em “O amanhã que não virá” (“Kiss tomorrow goodbye”, 1950) estamos num júri onde sete réus estão sendo julgados, todos envolvidos numa mesma estória de violência e crimes. O cabeça da coisa toda, o psicopata Ralph Cotter está morto, vítima de suas próprias loucuras, mas, os seus cúmplices estão todos presentes.

E como chegamos, nós espectadores, a conhecer a estória toda dessa gangue em seus mínimos detalhes? De nenhuma outra forma, se não pelos testemunhos que três dos réus nos prestam, e só três. Ora, dentro dos três testemunhos, mostrados em longos flashbacks, vemos coisas que, em cada caso, nenhum dos três poderia ter visto. Não tenho espaço para muito, mas um exemplo sintomático é o da vida íntima, digo, entre quatro paredes, do casal Ralph Cotter e sua companheira Holiday, vida íntima a que nenhum dos três depoentes teve acesso.

O que torna o filme de Gordon Douglas extremado e, assim, especial, é justamente o fato de se tratar de um júri, ocasião, como se sabe, em que o julgamento final dependerá da veracidade dos testemunhos relatados. Se levássemos a sério a máxima “a verdade, só a verdade, e nada mais que a verdade”, os relatos dados ganhariam foros quase surreais; não que os depoentes estivessem inventando fatos, mas, simplesmente porque agiram como deuses, relatando sistematicamente, bem “mais que a verdade”. E, claro (para manter a regra da paralepse), o advogado e os jurados, em nenhum momento, questionam suas onisciências. Muito menos nós, espectadores.

A gangue de Cotter, vista em flashback…

Bye bye Alemanha

4 abr

Como ficou a situação dos judeus na Alemanha do imediato pós-guerra? Baseado em fatos reais, o filme “Bye bye Alemanha” (2017) nos oferece uma doce-amarga visão dessa situação.

Na Frankfurt devastada de 1946, um pequeno grupo de judeus – todos sobreviventes do Holocausto – se junta num privado projeto comercial cujo objetivo é acumular uma grana e irem embora para a tão sonhada América do Norte. Não sem uma certa tramoia, e um bocado de truculência, vendem tecidos a famílias alemãs e vão indo mais ou menos bem até que…

Antes do ´até que´ cabe dizer que o grupo – e por tabela, o filme – tem um protagonista, no caso, o autor do projeto, o Sr David Bermann (o ótimo ator Moritz Bleibtreu) que, por ironia, está sendo secretamente entrevistado pela Força Militar americana local, com a pecha de haver sido colaborador do nazismo.

A uma impassível tenente americana (Antje Traue), David vê-se obrigado a contar sua estória pessoal, segundo ele mesmo, nada edificante: durante a guerra, fora retirado de Auschwitz para ter um encontro com o próprio Hitler. É que tinha a fama de comediante e o Führer estava querendo aprender a fazer discursos jocosos. Para o encontro, ele pensara em levar, escondida no bolso, uma faca bem amolada que mudaria o rumo da História, mas, covardemente, foge antes e…

Não conto o resto da estória para não estragar a curtição de quem ainda não viu este filme simpático e acolhedor, todo mesclado com pitadas de humor e tristeza, não sendo nada casual que o seu protagonista seja um humorista de vida trágica, a cuja construção de personalidade o diretor alemão Sam Garbarski soube conceder uma ambiguidade conveniente. Por exemplo, prestem atenção a como nazistas e judeus respondem diferentemente a suas sutis boutades.

O ator Moritz Bleibtreu no papel do judeu Bermann

Tudo bem, não se trata de nada extraordinário, só mais um filme sobre os efeitos da Segunda Guerra, como já se fizera a granel nos tempos da Hollywood clássica, basta lembrar dois marcos nessa linha: “Os melhores anos de nossas vidas” (William Wyler, 1946) e “Espíritos indômitos” (Fred Zinnemann, 1950). A esse propósito, talvez fosse interessante checar o quanto “Bye bye Alemanha” tem de “A mudana” (Billy Wilder, 1948) este também localizado na devastada Alemanha do pós-guerra, também com um enredo amoroso entre americanos e alemães, e também pintado com ironia e humor negro.

Por falar em enredo amoroso, uma das melhores coisas de “Bye bye Alemanha” está na roteirização do romance adaptado de Michel Bergmann: ao assistir ao filme, fiquem atentos ao longo fogo cruzado verbal entre o desabusado judeu Bermann e sua aparentemente impassível inquisidora americana, e como as expressões faciais e os gestos, sobretudo os involuntários, dizem mais que as palavras, criando um clima emocional que vai crescendo muito lentamente, da total indiferença ao completo envolvimento – e isto, sem ninguém jamais se declarar.

O título internacional do filme de Sam Garbarski, “Bye bye Germany” (que o brasileiro traduz literalmente), faz ênfase no sonho judeu de – enquanto não se viabiliza a terra prometida de Israel – viver na América, o que não é o caso do título original, que apenas situa a estória no seu tempo: “Es war einmal in Deutschland”, ou seja, ´Era uma vez na Alemanha´, como se percebe, com a ironia de usar a expressão com que se iniciam os contos de fada.

A inquisidora americana é feita por Antje Traue

De fato, um dado histórico é que, no imediato pós-guerra, os Estados Unidos foram, por assim dizer, ´invadidos´ por judeus alemães, e no entanto, segundo consta, nem todos deixaram a terra tedesca: cerca de 4 mil judeus permaneceram no país e refizeram suas vidas e seus negócios.

Pois este é o caso do nosso Sr David Bermann, que, se chega a ter uma transa com a sua bela entrevistadora americana, não permite que o filme termine como uma mera estória de amor: o paradeiro dela nos escapa, mas, ele recompõe sua indústria de tecido em Frankfurt, e, no mesmo local das ruínas, lhe dá a dimensão que tivera um dia, nos tempos gloriosos de seus pais. Se o clima porventura for de lenda, a lenda, ainda que precária, é esta.

No início desta matéria usei a expressão “doce-amargo”. Não é o que se diria particularmente do fiel amigo de Bermann, aquele cachorro aleijado cuja imagem recorrente por tabela nos traz à lembrança as atrocidades dos campos de concentração?

O Sr Bermann e seu cão aleijado…

Crítica e internet

1 abr

De repente, chegou a internet, com todas as suas vantagens. Para quem faz crítica cinematográfica, isso foi bom ou ruim?

A resposta não é simples. Do ponto de vista informacional, foi ótimo; do ponto de vista hermenêutico, foi no mínimo, problemático. Vou tentar explicar como.

Claro, com o advento da internet, tornou-se muito mais confortável poder dispor das informações que tão franca e ilimitadamente nos são fornecidas pelos sites de cinema e equivalentes.

Só para lembrar um pouco o passado, o crítico pré-internet trabalhava com a memória, por exemplo, de um modo penoso. Ao escrever sobre um filme, já haviam se passado horas – ou se fosse o caso, dias – desde que o crítico o vira, e lembrar de detalhes era tarefa nada fácil, às vezes impossível. Mesmo quando ele escrevia logo após ter saído do cinema, a questão da memória era um problema. O que complicava quando acontecia de os detalhes não lembrados serem decisivos para a compreensão – e inevitavelmente, para a análise – do filme.

O nome de um dado personagem, uma palavra solta dita no diálogo, o nome de um lugar, uma inscrição em alguma parte do cenário, um poema recitado, uma música executada em dado momento, uma imagem mostrada no fundo do quadro… qualquer coisa assim fazia falta, se porventura era importante para a abordagem que estava sendo dada ao filme. Para não falar em coisas maiores, por exemplo, a ordem mesma atribuída à estória: cena X veio mesmo antes ou depois de cena Y?

A pressa jornalística agravava a situação, e não admira muito que os textos dos maiores críticos de antigamente estejam perpassados por pequenos lapsos (nomes de personagens ou pessoas escritos de modo incorreto, datas equivocadas, ou mesmo erros de conteúdo…). Ao tratar de um filme antigo, o crítico podia, se desse tempo, consultar seus próprios livros de cinema (não existiam os tão convenientes vídeo-guides de hoje), porém, se o filme era estreante e o jornal queria fazer o furo…

A internet resolveu tudo isso de uma forma quase miraculosa e extremamente “generosa”. Um site de cinema como o IMDB (Internet Movie Data Base) nos oferece toda ordem de informação sobre qualquer filme (de “Chegada do trem à estação”, 1895, ao último projeto de Hollywood, passando por “Cidadão Kane”, 1941 e “Aruanda”, 1960) e nos deixa a cavaleiro para preencher o que não lembrávamos – ou não sabíamos – e para rechear o nosso texto com dados sobressalentes, vulgarmente chamados de “linguiça”.

É, porém, nessa “generosidade” que reside o perigo.

O perigo de, seduzido pela facilidade de citar, você vir a superlotar o seu texto com dados consultados, ao ponto de não sobrar espaço para o que mais interessa num texto crítico: a discussão do filme, e nela, o seu ponto de vista pessoal, a sua interpretação, o seu insight, fundado, claro, na sua capacidade analítica de ler o filme por conta própria.

Um caso mais grave seria espiar, na internet, os textos críticos alheios e reproduzir os insights como sendo seus – mesmo com outras palavras – sem citar as fontes… Mas, não vou entrar nessa questão do plágio crítico, até porque ele já acontecia muito antes da internet existir. Nos velhos tempos, não era raro abordagens críticas de jornais de circulação nacional – ou de revistas internacionais, como os Cahiers du cinéma – serem “copiadas” Brasil afora.

Voltando ao papel da internet, o texto hiper-informativo geralmente cansa o leitor, e, a longo prazo, perde o atrativo. Acontece que mesmo o leitor leigo em cinema, o chamado “espectador comum”, (ele próprio, um visitante da internet) hoje em dia já percebe o, que no texto do crítico, foi consulta ao Google. Um exemplo ao acaso: um texto em que todos os nomes da equipe de filmagem (cineasta, atores, etc) venham com as respectivas datas de nascimento e/ou morte faz automaticamente o leitor dar-se conta de que o autor é um viciado na Wikipedia ou equivalentes. Pelo simples fato de que, presencialmente falando, ninguém lembra datas de biografias alheias.

Pois bem, lendo críticas atuais, o que noto que vem acontecendo nos últimos tempos é que esse excesso mesmo de informação disponível nos meios eletrônicos, vem de uma maneira geral produzindo um efeito curioso – e benéfico: vem, por contraste, ressaltando a importância da originalidade. Sim, a facilidade da consulta – com sua obviedade para todos, autores e leitores – está obrigando o autor do texto, se não a fugir dela, mas, ao meio dela, mostrar uma marca pessoal. Em outras palavras, se ficou mais fácil escrever na perspectiva da quantidade, ficou bem mais difícil escrever na perspectiva da qualidade, ou seja, transcendendo o meramente informativo.

Se isto é fato, de alguma maneira podemos concluir que, a rigor, a internet trouxe, para o trabalho do crítico de cinema, uma dupla vantagem: de um lado, a disponibilidade da informação e, de outro, a consciência do perigo de seu abuso, e com ela, a (auto)exigência de uma escrita mais autêntica e mais profunda, para fazer frente, no mesmo texto redigido, ao oba oba informativo.

Comparando os tempos: antes da internet a informação textual era um mérito: hoje tende a ser, em si mesma, um demérito… se não houver a compensação de uma abordagem pessoal, original e, se possível, brilhante. Brilhante ou não, ao menos uma abordagem que não tenha saído dos fabulosos mecanismos combinatórios de uma máquina eletrônica, e sim, da cabeça de um ser humano pensante, sensível e criativo.

A paixão segundo Madalena

27 mar

Com base nos vetustos escritos do Papa bizantino Gregório Magno, a figura de Maria Madalena perdurou, no imaginário cristão, e ainda hoje perdura, como a mulher pecadora, a prostituta que Cristo teria misericordiosamente perdoado.

Segundo interpretações mais modernas dos Evangelhos, sobretudo a dos livros gnósticos, esse conceito é equivocado, e Maria, natural de Magdala (daí ser chamada de “Madalena” quando na sua época não existiam sobrenomes) nunca foi prostituta, ao contrário disso, foi uma das apóstolas de Cristo, e tem mais, uma das mais convictas, mais atuantes e mais – física e espiritualmente – próximas a Jesus.

É o que relata o filme, “Maria Madalena” (“Mary Magdalene”, 2018), atualmente em cartaz na cidade, com certeza um item interessante para o movimento feminista, no seu intento, aliás mais que justo, de recuperar o papel de figuras femininas da História ou do imaginário popular.

Segundo o filme do quase novato Garth Davis, a jovem Maria vivia inquieta entre os seus, insatisfeita com a vida pequena da família, pescadores do mar da Galileia. Quando o pai, Daniel, quer lhe impor o noivo Efraim, ela recusa e é tida por louca, ou possuída pelo demônio.

Ao lhe chegarem as notícias de que um certo messias – preconizado por João, o batista – está pregando a palavra divina, ela não tem dúvidas de que era o que buscava: após um primeiro contato, deixa pai e irmãs e, sem saber o que a espera e o que poderia advir dessa aventura – vai ao encalço desse homem misterioso que, na companhia de seus apóstolos, fala aos pobres e prega o reino de Deus.

Madalena e Judas em diálogo

Nem todos os apóstolos, porém, a veem com bons olhos, e a sua integração ao grupo itinerante não é lá muito tranquila, só ocorrendo com certo nível de conflito,  este só amenizado, com o tempo, pela visível afinidade que vai, de modo perturbador para todos, brotando e crescendo entre ela e o próprio Jesus.

No mais, o filme relata o que já se conhece dos muitos filmes do gênero, ou de encenações teatrais, ou da própria Bíblia, desde a ceia larga até a ressureição, passando pela traição de Judas e a crucificação. Há elipses (o julgamento por Pôncio Pilatos fica de fora) ou modificações (não se vê vinho na cena da ceia larga, por exemplo). Mas a diferença maior é que agora tudo é apresentado na perspectiva de Madalena – fato evidenciado, por exemplo, na imagem sub-aquática e simbólica que abre e fecha a narrativa, com o corpo da moça submerso, supostamente num hiperbólico e eterno batismo nas águas da Galileia.

Em que pese o ponto de vista de Madalena, uma curiosidade é que os protagonistas da história não são apenas – como se esperaria do press-release do filme – ela e Jesus. Sim, o eixo actancial não é dual, mas triádico, pois com certa ênfase inclui a figura de Judas Iscariotes.

Joaquin Phoenix é Cristo

A este personagem se doa um considerável tempo de tela e não só isso: desde sempre – e diferentemente dos outros apóstolos – Judas se torna um confidente de Madalena e os seus dramas, digo, as motivações profundas que o teriam conduzido aos dramáticos gestos finais, aparecem para o espectador de uma forma lógica e concatenada: mortos os seus filhos e esposa havia algum tempo, Judas queria o Reino de Deus de imediato, para, no milagre esperado da reencarnação, tê-los de volta devidamente ressuscitados.

Ateus e religiosos vão, naturalmente, reagir de modos diferentes a “Maria Madalena”, como, aliás, costuma acontecer com filmes do gênero, mas, esta é uma outra questão, que aqui não vem ao caso discutir, e que deixo para os estudiosos da Estética da Recepção.

De minha parte, diria que estamos diante de um filme mediano, sem maiores méritos de natureza estética. Sem dúvida, os atores dão bons desempenhos, mas nada que eleve o nível para além da média. Para ficar apenas com os protagonistas: Rooney Mara faz uma Maria Madalena correta, Tahar Rahim faz o mesmo para o seu Judas Iscariotes, e o grande Joaquin Phoenix, como esperado, convence como um Jesus introspectivo e angustiado.

Enfim, se neste tempo de Semana Santa, você está a fim de assistir a um filme de temática religiosa, vá lá. Se não, fique em casa, ou vá à praia.

Tahar Rahim tem o papel de Judas Iscariotes

Cinemas de rua, sempre

20 mar

 

Outro dia, me manda mensagem o amigo Petrônio Souto, pedindo que lhe enviasse, urgentemente, fotos dos cinemas Astória, São Pedro, Filipeia, Jaguaribe, Bela Vista e Glória.  Assim, sem mais nem menos, como se eu dispusesse, chez moi, de algum espetacular arquivo de fotos dos cinemas antigos da cidade.

Respondi-lhe que seria um homem feliz se possuísse essas fotos.

Petrônio Souto, como todo mundo sabe, é um apaixonado por João Pessoa – aliás, eu também sou –  e sua paixão às vezes o faz delirar e ter ataques de otimismo. Completei minha resposta a ele, explicando o que ele devia saber: que o que eu possuo de registro dos cinemas antigos de João Pessoa, é o óbvio: fotos do Rex, Plaza, Municipal, Brasil e Sto Antônio, as mesmas que tudo mundo possui. Nenhuma em papel, todas digitalmente copiadas no arquivo de imagens do meu computador. E nada mais…

Na verdade, nos velhos tempos, digo, na época áurea dos cinemas de rua, ninguém tinha a ideia de fotografar fachadas de cinemas ou seus interiores. Nem os proprietários – com raras exceções – fizeram isso. Muito menos os frequentadores.

Recentemente, quando Mirabeau Dias estava rodando o filme “Meu Jaguaribe” (2017), sobre o bairro pessoense, um entrave da produção foi conseguir, justamente, uma foto do Cine Jaguaribe, um cinema que, tendo sido fundado nos anos 30, tinha histórias pra contar, eventualmente importantes para o bairro. Pois bem, nem as páginas dos jornais velhos da velha Paraíba, nem os livros de Wills Leal, nem o acervo de Arion Farias nos acudiram… Com este fim, visitei Adette Wanderley, filha do exibidor Múcio Wanderley… e nada. Simplesmente não havia, no meio do legado iconográfico do saudoso exibidor, nenhuma foto do Cine Jaguaribe.

Por que não se fotografavam as fachadas dos cinemas naquela época? Creio que porque, naquela época, achava-se que tudo aquilo fosse eterno.  E, se era eterno, pra que fotografar?

Quem iria adivinhar que, logo mais, os lares pessoenses iriam ser invadidos por uma sedutora caixa de imagens chamada televisão? Que essa caixa de imagens usurparia o trono dos cinemas de rua, os quais fechariam as suas portas, um atrás do outro, suas poucas telas grandes entregando os pontos para as milhares de telinhas domésticas? Outra adivinhação impossível: que outros cinemas surgiriam, agora não mais nas ruas, mas dentro dessas construções monstruosas, igualmente sedutoras, chamadas de Shopping Centers.

As imagens, meu querido Petrônio Souto, do Astória, lá na rua da República, do São Pedro, na São Miguel, do Filipeia, na Gen. Osório, do Jaguaribe, na Cap José Pessoa, do Bela Vista e do Glória no bairro de Cruz das Armas, vão ficar na memória de seus velhos frequentadores, e desaparecerão, quando estes desaparecerem.

De todo jeito, deu-me pena não poder atender ao pedido de Petrônio e, de algum modo, me senti levemente culpado. Afinal, eu fui um dos viventes municipais da época, um dos que poderiam ter retratado os cinemas de rua… e não o fiz.

Acho que foi essa leve culpa que me fez ser acometido, na noite de ontem, de um delírio – ou teria sido sonho, ou alucinação? De repente, lá estava eu, uma criança de 12 anos de idade, no meio da rua, entre as esquinas da Aderbal Piragibe e da Cap José Pessoa, em pleno Jaguaribe dos anos cinquenta, e diante de mim, a bela fachada do Cine Jaguaribe. Nas calçadas do cinema, uma fila enorme estava formada, para comprar ingresso e o filme da noite era a superprodução “Alexandre Magno” e o ano era 1958. Entrei na fila e, com meu potente celular, sim, isso mesmo, com meu potente celular prime 7, fotografei a multidão, sem esquecer de fazer selfies, para marcar minha presença.

Lá dentro, fotografei o salão de exibição lotado e, durante a sessão, fiz o inconveniente de fotografar Richard Burton em suas andanças pelos campos de batalha da Macedônia e países vizinhos, da Índia à Pérsia. Na saída, não deixei de tirar várias fotos da fachada do cinema Jaguaribe, para mostrar aos cinéfilos do futuro.

De volta para o futuro, ou seja, hoje pela manhã, nada disso havia na ´galeria de fotos´ do meu potente celular. Mas, e daí? Ainda que ilusória, valeu a experiência, uma experiência cujo registro verbal aqui feito dedico, com carinho pessoense, ao amigo Petrônio Souto.