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Cinema interativo

30 mar

Uma das magias do cinema é dominar o espectador e conduzi-lo para onde o filme quer, sem direito à participação no desenvolvimento da estória.  E vejam que nem sempre o desejo do espectador coincide com o desejo do filme.  Não é raro se ouvir, ou ler, comentários de alguém sobre um filme que ama, fazendo restrições a certos caminhos narrativos que o filme tomou.

Acho que um exemplo clássico está em “Casablanca”. Quantos espectadores românticos não desaprovam o triste desenlace no aeroporto, com a separação do casal apaixonado. Mas a rigor há casos piores. Por que a pobre prostituta tem que sofrer mais um golpe em “Noites de Cabiria”? Por que se reserva a cadeira elétrica para o protagonista de “Um lugar ao sol”? Por que à esposa de “Desencanto” é negado o sonho romântico de um amor verdadeiro? E quando o filme começa com o protagonista já morto, o corpo boiando numa piscina, como em “Crepúsculo dos deuses”?

Talvez tenham sido – quem sabe? – estas e outras insatisfações dessa ordem o que levou o grupo criador da Série Black Mirror a conceber um filme como “Bandersnatch” (David Slate, 2018). E o que há de especial nesse filme? Literalmente, a possibilidade de mudar o desenvolvimento do enredo e, portanto, ter um desenlace, se for o caso, mais ao gosto do espectador. Ou menos.

Credit: Netflix / Black Mirror

Explico: ao longo do filme foram adicionados “botões de mudança” – chamemo-los assim -, que podem ou não ser acionados pelo espectador. Se um botão desses é acionado, o enredo muda, tomando um caminho narrativo que não é o do filme a que se assiste. De modo que o espectador tem várias alternativas: a primeira seria ignorar os tais botões de mudança e assistir ao filme por inteiro. A segunda seria acionar os botões de mudança (um só, ou todos) e se divertir com as viradas no enredo, escolhendo, talvez, ficar com o desenlace de que mais gostou. Uma terceira alternativa seria fazer duas sessões, uma com as mudanças, e outra com o filme original inteiro, depois comparando os resultados.

Dou um exemplo. Vamos supor que, o enredo já andado, o personagem está posto diante de uma certa dificuldade que poderia ser resolvida com um telefonema, embora o contato com essa pessoa do outro lado de linha seja perigoso. Telefonar ou não? Na versão original o personagem faz a ligação telefônica, porém, se nesse ponto da narrativa, você acionar o botão de mudança, o personagem não fará a ligação e, consequentemente, o rumo da estória narrada vai ser outro, bem diverso do filme inteiriço.

Trata-se de cinema interativo, não tenhamos dúvidas, provavelmente concebido para um público infanto-juvenil, afeito aos jogos eletrônicos, mas, o que me leva a escrever sobre o assunto são as suas implicações de natureza teórica.

Com efeito, assistindo a “Bandersnatch”, uma constatação óbvia é que os ´pontos de mudança´ na linha narrativa não se situam em qualquer parte da estória: eles estão postos em momentos críticos, como o acima descrito no nosso exemplo.

Em outras palavras, eles coincidem com o que, em linguagem cinematográfica, se chama de “turning points” (pontos de virada), aqueles instantes pontuais em que, em qualquer filme, o andamento do enredo sofre alguma espécie de mudança.

O turning point é antigo no cinema e já está em “O nascimento de uma nação” (Griffith, 1915), para não dizer que, de alguma forma, já está em “O regador regado” (1896) dos irmãos Lumière. Desde sempre os diretores brincam com ele, tirando efeitos que prendem o espectador, ao aumentar a temperatura dramática, ou, se for o caso, a curiosidade sobre o devir da narração.

Nas primeiras décadas, os turning points eram apenas dois num mesmo filme. As narrativas eram geralmente tripartites e eles serviam para separar uma parte da outra. Assim o primeiro turning point separava a EXPOSIÇÃO (parte inicial e descritiva do filme) da CONFLITUAÇÃO (parte mais longa e narrativa, onde os conflitos aparecem e se desenvolvem); já o segundo turning point separava a CONFLITUAÇÃO da RESOLUÇÃO (como o nome sugere, o desenlace do filme).

Com o passar do tempo e da experiência, a estrutura narrativa do filme foi se tornando mais complexa e os turning points foram se multiplicando, ou ocupando lugar diverso do tradicional na linha narrativa.

Muito comum é que a prática do turning point esteja ligada ao jogo de fornecimento, ou sonegação, de informação diegética que o filme nos oferece. Para ilustrar, vamos tomar o exemplo de “Um corpo que cai” (Hitchcock, 1958).

Cena de “Um corpo que cai”

O filme trata de um plano ardiloso para matar uma esposa rica, pondo a culpa em outrem, no caso, em um detetive aposentado que sofria de acrofobia. O detetive Scottie (James Stewart) e a suposta vítima (Kim Novak se fazendo de Madeleine) não se conheciam e só se aproximam na falsa tentativa de suicídio dela na baia de São Francisco – este seria assim o primeiro turning point do filme. Até então, nem Scottie nem nós espectadores sabemos do plano criminoso. Vamos saber tempos depois quando (o crime já perpetrado na Torre do Convento de São João Batista) Scottie conhece essa moça, de nome Judy Barton, mais especificamente, no momento em que ela escreve aquela carta relatando tudo – carta que nós lemos, mas ele não – e a rasga. Este seria o segundo turning point. O terceiro vai ocorrer, mais tarde, num dia em que Judy Barton, agora transformada por Scottie em uma nova Madeleine, usa o colar da mulher assassinada, e faz Scottie dar-se conta de que fora vítima de um plano criminoso. Agora, tanto Scottie quanto nós conhecemos a verdade. Um quarto turning point pode ser citado, na viagem final ao Convento – o local do crime – no momento em que Judy Barton dá-se conta de que Scottie ficara sabendo do plano. Só após tais mudanças no enredo,- com o fornecimento de informação diegética crescendo de personagem a personagem, o espectador aí incluindo – só após tais mudanças podemos ter o triste desenlace de “Um corpo que cai”.

Se o filme de Hitchcock fosse submetido (Deus nos livre disso!) aos ´botões de mudança´ da série Black Mirror, estes citados – e não outros – seriam, com certeza, os pontos da narrativa escolhidos para iniciar novos desdobramentos da estória.

Enfim, voltando a “Bandersnatch”, mais que um mero jogo infanto-juvenil, o filme de David Slate pode ser encarado, favoravelmente, como uma proposta experimental que suscita a reflexão sobre o funcionamento da linguagem cinematográfica, por tabela nos fazendo tomar consciência do conceito de turning point, um procedimento narrativo tão importante na técnica de contar uma estória por imagens.

Mas, atenção, não deixemos de anotar: nesse tipo de cinema interativo, as opções, em número reduzido, já estão dadas pelo jogo, o que equivale a dizer que, de qualquer forma, o espectador não escolhe, ele próprio, a forma de o filme terminar. Escolhe, sim, entre as cinco ou seis, já dadas pelo jogo.

Enfim, por enquanto a participação do espectador no filme, digo, em qualquer filme, continua sendo emocional. E isto já é muito…

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Que será, será…

28 mar

Por motivo de doença, este blog esteve sem funcionamento durante cerca de três meses. Agora retornamos, com a esperança de que os cinéfilos da vida continuem a nos acompanhar. Para este retorno, aqui reproduzo breve matéria que veiculei na minha página do Facebook, dias atrás, com o título de: “Da série: curiosidades cinematográficas” e, de fato, o que você vai ler agora é, sim, uma curiosidade.

 

Quem é que não lembra Doris Day cantando “Que será, será” no filme “O homem que sabia demais” (1956)? O que ninguém entende bem é por que o refrão da canção seja em português. E aí vem uma longa história, que começa – pasmem – no século XVI.

Mas, antes de contar a história, façamos a correção: o refrão não está em português, mas em espanhol. É que, nas duas línguas, houve coincidência de escrita e pronúncia.

Vamos à história.

Doris Day e James Stewart no filme de Hitchcock.

De origem obscura – provavelmente ainda medieval – a expressão QUE SERÁ, SERÁ, com a variante italiana CHE SARÀ, SARÀ, tem vários registros que datam, como disse, do Renascimento inglês. Na época, com valor de máxima, ou ditado, era usada em tom de fatalismo, como a dizer ´o mal que tiver de te acontecer, acontecerá´. No filme de Hitchcock esse tom pessimista foi aliviado.

Ora em espanhol, ora em italiano, eis alguns de seus registros renascentistas: a máxima está impressa na Igreja de São Nicolau, em Surrey, de construção medieval; está no túmulo de alguns nobres da época, e até na literatura está: confiram as páginas clássicas do “Doutor Faustus” de Christopher Marlowe, publicado em 1602.

Como foi parar no filme de Hitchcock?

Na verdade, já estava num filme anterior ao de Hitchcock, no caso, “A condessa descaça”, de 1954, portanto, de dois anos antes. Você lembra, não é, nele Ava Gardner fazia uma moça comum que casava com um Conde meio efeminado (Rossano Brazzi). Pois, em uma murada da mansão do Conde estava, em língua italiana, gravada a nossa máxima: CHE SARÀ, SARÀ. Provavelmente os roteiristas do filme de Mankiewicz, ou o próprio Mankiewicz, conheciam a história que estamos contando aqui.

Quem não a conhecia era o músico que compôs a trilha sonora para Hitchcock. Jay Evans, músico premiando, tomou contato com ela justamente dois anos atrás, ao ir a um cinema de Los Angeles assistir a “A condessa descalça”. Vendo a máxima na murada do Conde, anotou-a em seu caderno, achando que aquilo daria um título de canção. Dito e feito, ao ser convidado pela Paramount pra fazer a canção que Doris Day cantaria, e que seria tão importante no desenlace do filme, não hesitou: compôs uma letra toda fundada no tema da máxima, apenas mudando o italiano do filme de Mankiewicz para o espanhol, para o que deu a seguinte justificativa: “Espanhol é uma língua muito mais falada que o italiano”.

No Brasil, os espectadores acharam – eu inclusive – que Doris Day estivesse cantando em português, mas, enfim.

Num ônibus, em Marrocos, três turistas americanos…

Filmes atípicos

7 nov

O que é um filme atípico? Estou usando esta expressão para designar aquele filme que, dentro da carreira de um cineasta, se destaca por ser diferente. A diferença pode ser de gênero, de temática, de estilo, ou de outra coisa menos denominável.

Se, na filmografia de um cineasta que sempre fez filmes policiais, pessimistas e sombrios, se encontra um alegre e colorido musical, este vai ser atípico. Um autor consagrado por comédias românticas de final feliz que, no meio de sua filmografia exibe um trágico e deprimente melodrama… E por aí vai. Mas, a melhor maneira de esclarecer o conceito de filme atípico é mostrando os exemplos.

Seguindo a cronologia, o primeiro caso que me ocorre é do diretor Tod Browning, conhecido pelos muitos filmes de terror que cometeu lá pelos anos trinta. No entanto, se você se detiver sobre sua filmografia vai encontrar essa comédia romântica, leve e pra cima, chamada “Perdão, senhorita” (“Fast workers”, 1933).

Velhinhas assassinas num filme de Capra: “Este mundo é um hospício”.

Existe, na carreira do mago Orson Welles, um filme mais “diferente” do que aquele que ele rodou no Brasil, em 1942, sobre os jangadeiros cearenses que viajaram, mar a dentro, de Fortaleza ao Rio para falar com o presidente Getúlio Vargas? O filme levou o nome bem literal de “Four men on a raft”, ou seja, “Quatro homens numa jangada”.

Em Hollywood, e no mundo, o diretor George Cukor é conhecido como o autor de belas histórias românticas. No entanto, lá pelo meio de sua filmografia, procurando bem você vai achar um filme noir cheio de suspense e horrores: “À meia luz” (“Gaslight”, 1944), que em nada lembra a sua edulcorada linha mestra.

O mais otimista dos cineastas do cinema clássico foi com certeza Frank Capra. Ninguém, portanto, iria imaginar um filme dele em que os personagens fossem impiedosos assassinos de velhinhos. O filme existe, é de 1944 e se chama “Este mundo é um hospício” (“Arsenic and old lace”), sim, ainda uma comédia, mas que comédia malvada.

Quem fez os melhores melodramas dos anos 40/50, se não o mestre Douglas Sirk, que a gente lembra de filmes emocionantes como “Tudo que o céu permite”, “Palavras ao vento”, “Imitação da vida”? E, contudo, você vai encontrar nele um noir autêntico, com todas as sombras do gênero. O filme é “Emboscada”(“Lured”, 1947).

Como no caso de Capra, Charles Chaplin, o imortal Carlitos que fez, e faz, todo mundo rir, cometeu um filme em que o protagonista é um assassino convicto e cínico: “Monsieur Verdoux” (1947). Vocês lembram, Verdoux é um barba azul que vive de procurar viúvas solitárias, que desposa e assassina para ficar com a herança – nada esperável do “descendente” do vagabundo tão amado das comédias mudas.

Monsieur Verdoux; Chaplin atípico.

Vamos supor que você ligou a tv e pegou o filme já iniciado. É a história tola de um tolo vendedor de gramofone que, acompanhado de seu cachorro, quer vender o aparelho ao Imperador da Áustria e, por isso, se mete em várias enrascadas. Duvido que você identifique o autor como sendo o genial Billy Wilder. Mas é. O filmezinho tolo é “A valsa do imperador” (“The emperor waltz”, 1948).

O mestre superior do noir é, como se sabe, Fritz Lang, cineasta expressionista que fugiu do nazismo para ir fazer em Hollywood o melhor e mais perfeito desse gênero pessimista e sombrio. Pois bem, o seu “Guerrilheiros das Filipinas” (“American guerrilla in the Philippines”, 1950) não tem nada de noir, salvo a sua assinatura.

Tenho dúvidas se incluo, mas decidi incluir “Os brutos também amam” (“Shane”, de George Stevens, 1953) nessa categoria de atípico. É verdade que o filme traz os traços estilísticos ostensivos de Stevens, mas, a minha decisão se baseia no fato de que se trata de um gênero, o western, nunca praticado pelo autor, salvo neste caso.

Até o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, tem o seu filme atípico. Vejam ou revejam “O terceiro tiro” (“The trouble with Harry”, 1955) e me deem razão. O que é que esse filme tem do autor de “Janela indiscreta”, “Um corpo que cai” e “Os pássaros”? Dizer que um morto é pouco para justificar a relação.

Ao lado de Lang, o diretor Robert Siodmak foi um dos grandes do gênero noir, com um número enorme de títulos mais que significativos. Já o seu faroeste tardio “Os bravos não se rendem” (“Custer of the West”, 1967) fica longe de seu fazer e contradiz o seu estilo.

A rigor, a pergunta que fica no ar sobre a ocorrência de filmes atípicos na carreira de cineastas famosos seria: quais as suas consequências estéticas? Mas, a questão fica para outra matéria.

(Em tempo: esta matéria não teria sido escrita sem a ajuda de Joaquim Inácio Brito, que não é meu parente de sangue, mas parente muito próximo de cinefilia)

O que há de Hitchcock em “O terceiro tiro”?

Cinema em 68

27 maio

A década de sessenta tem a fama de ter sido a mais expressiva do Século XX. Pelo menos do ponto vista comportamental o foi.

Dentro dela, o ano de 68 foi marcante, entre outras razões, pelo seu convulsivo Maio, que, como se sabe, não foi só político, mas igualmente comportamental. Não admira que, decorridos cinquenta anos desde então, o mundo todo esteja relembrando esse “ano que não terminou”, e que, pelo jeito não terminará nunca.

No terreno artístico – aquele que mais nos interessa – a primeira coisa a ser dita é que um ano, sozinho, não possui feição estilística, como a possui, por exemplo, uma década ou uma vintena. No caso do cinema, uma atividade de dimensões monstruosas e múltiplas, esse afunilamento temporal se torna ainda mais problemático.

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, exatamente 5.289 filmes, a primeira impressão seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década…

Uma cena em “IF…” de Lindsay Anderson.

E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção gritante a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinquenta e o começo dos sessenta.

O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, já estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade foram filmes, se porventura importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico.

Para citar apenas os nouvellevaguistas: de François Truffaut estreavam dois filmes: “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor, e “A noiva estava de preto”, uma mal sucedida adaptação do escritor Cornell Woorich; de Claude Chabrol viu-se “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – meio acidentalmente, suponho – uma resposta à inquietação reinante, com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão imenso quanto a revolução estudantil.

O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester (com “Petúlia, um demônio de mulher”), Tony Richardson (com a refilmagem de “A carga da brigada ligeira”) e Karel Reizs (com “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade – um dos filmes que viriam a, até certo ponto, coincidir com o perfil inquieto da década: o impactante e inesquecível “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”).  Já “Se…” (“If…”) de Lindsay Anderson, sobre uma revolta radical num colégio inglês, era com certeza o filme mais tematicamente aproximado do momento histórico, sem dúvida o mais relevante a ser citado a propósito do clima belicoso de 1968.

2001: uma odisseia no espaço.

No Brasil, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”; Roberto Santos filmava “O homem nu” de Fernando Sabino; Gustavo Dahl mostrava o seu “O bravo guerreiro”… E por outro caminho, um caminho ousadamente novo, Rogério Sganzerla se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano, “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.

Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso ao longo da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie Point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.

Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais”, de Anatole Litvak, era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade – segundo dizem – de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título curioso: “O pecado de todos nós”.

Dustin Hoffman e Jon Voight em “Midnight Cowboy”.

Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado – um recado que, afinal de contas, vinha dando desde 1959 – neste ano com “Faces” (“Rostos”).

Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, ou talvez seja melhor dizer que uma nova Hollywood ressurgia das cinzas da velha. Assim, um considerável sangue novo brotava no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisseia no espaço” de Stanley Kubrick, parcialmente rodado e produzido na Inglaterra, provavelmente, e do ponto de vista rigorosamente artístico, o filme mais importante de 1968.

Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”.

No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Para fechar, acrescento, à parte os filmes já comentados, uma relação de títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra – comercial ou artística – tiveram considerável repercussão junto ao público. Como se vê, filmes tão diferentes entre si que a sua citação em conjunto não ajuda em nada a conceder ao ano de 1968 a suposta feição única ou especial que procurávamos.

 

As sandálias do pescador (Michael Anderson)

Barbarella (Roger Vadim)

Inferno no pacífico (John Boorman)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

O bebê de Rosemary (Roman Polanski)

O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)

O submarino amarelo (George Duning)

Primavera para Hitler (Mel Brooks)

Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)

Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)

Oliver (Carol Reed)

O homem que odiava as mulheres (Richard Fleischer)

O leão no inverno (Anthony Harvey)

Crown, o magnífico (Norman Jewison)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

Se meu fusca falasse (Robert Stevenson)

Os Beatles desenhados em “O submarino amarelo”…

Risos, canções e tiroteios

28 jan

Não fui amigo pessoal de Múcio Leal Wanderley (1918 – 2009), mas, com ele bati bons papos em casuais encontros, muitas vezes nas entradas ou saídas de alguma sessão de cinema. Lembro que a última vez foi depois de uma sessão noturna de “Moulin Rouge – amor em vermelho” (2001), ele me confessando, tristonho, que a sua audição já fraca não lhe ajudava na curtição de um musical.

Seu trabalho de cinéfilo estudioso da sétima arte, no entanto, eu conheço bem. Tenho todos os seus livros e cheguei a fazer o prefácio de um deles, “Telas e palcos” (1999).

Pois há pouco me procura sua filha, Adette, e, em confiança, me põe nas mãos algo que eu nem sabia que existia: os originais de um livro que o pai deixara inédito. Segundo Adette, esse conjunto de textos foi escrito ao longo de muitos anos, sempre devagar, o autor voltando a eles de tempos em tempos, retomando e parando de acordo com a saúde e a disposição do momento. O material todo está datilografado, com várias correções à mão, feitas pelo autor, às vezes cortes de parágrafos inteiros, outras vezes, acréscimos manuscritos entre as linhas.

Múcio Wanderley (1918-2009)

Na verdade, o livro deveria ter sido publicado agora, digo, em janeiro de 2018, quando, no dia 17, se completariam 100 anos do nascimento do autor. Dificuldades de localizar os originais e outros percalços, porém, impediram esse feito e, em vista disso, combinamos que ao menos uma notícia sobre esses originais já constituiria uma forma de celebração, e é neste sentido, de homenagem respeitosa e afetiva, que redijo estas linhas.

Trata-se de um bem fornido trabalho sobre três gêneros que foram tão importantes na história do cinema e no desenvolvimento de sua linguagem e de seu imaginário, a saber, a comédia, o musical e o faroeste. Com o sugestivo título de “Risos, canções e tiroteios” – e o subtítulo “De Chaplin a Astaire e J. Wayne” – o trabalho reconta, em partes separadas, o surgimento e a formação de cada um desses gêneros.

Em cada uma dessas três seções estão abundantes informações sobre as origens do gênero, os primeiros filmes que codificaram sua semiótica e as muitas figuras que o praticaram, dos produtores aos roteiristas, passando, claro, pelos atores e atrizes que consolidaram sua mitologia. Em alguns casos, os filmes mais importantes do gênero tratado recebem comentários especiais. O périplo recoberto vai da invenção do cinema, em 1895, ao final dos anos cinquenta. Não há uma bibliografia citada no final, mas percebe-se que Múcio Wanderley estava bem familiarizado com os historiadores de seu tempo, como os eminentes Jean Louis Rieupeyrout, Angel Zuñiga, George Sadoul e outros, alguns deles mencionados no corpo do texto. No final de cada uma dessas partes vai-se encontrar uma providencial filmografia essencial do gênero.

Cine Rex, da Companhia Exibidora de Filmes, em João Pessoa, PB.

No caso da primeira seção do livro, “Risos”, por exemplo, parte-se de uma referência a “O jardineiro regado” dos irmãos Lumière – a primeira “comédia” da história do cinema – para avançar para a Companhia Keystone na Hollywood primitiva, e então, para Mack Sennett, Mabel Normand, Zuzu Pitts, Marion Davis, Chaplin, Lubitsch, Buster Keaton, os irmãos Marx, o Gordo e o Magro… Ninguém que fazia rir fica de fora.

A segunda seção do livro, “Canções”, dedicada ao musical, começa tratando da passagem do cinema mudo ao falado, formulando a pergunta: “Afinal, o que é um filmusical?”. E, fora de ordem, a resposta, ou melhor, as respostas, vêm na prática: primeiramente os tenores, barítonos e sopranos, de Dennis King a Lawrence Tibbett, e mais adiante, a lista criativa dos iniciadores René Clair, Rouben Mamoulien, King Vidor e Ernst Lubitsch. Um trecho é dedicado ao papel do produtor Zanuck e um outro faz uma interessante incursão na relação do musical com o thriller. Um outro ainda relata o desempenho do musical no período da Segunda Guerra. E claro, seguem-se os nomes e as performances pessoais dos muitos que, por trás ou na frente da câmera, fizeram o melhor do gênero na Hollywood clássica: Busby Berkeley, Fred Astaire, Ginger Rogers, Jeanette McDonald, Nelson Eddy, Bing Crosby, Judy Garland, Mickey Rooney, Arthur Freed, Vincente Minnelli, Stanley Donen, Gene Kelly… até Doris day e Frank Sinatra.

A mais longa das três, esta seção sobre a comédia ainda inclui um longo apanhado sobre a Chanchada brasileira, desde seus primórdios nos anos trinta, até o final da década de cinquenta. Enfocam-se aí os anos de glória da Atlântida e ainda há um espaço para a companhia Vera Cruz. Como seria de se esperar, esta seção do livro se fecha com a pergunta: por que o musical morreu?

Coisas de Cinema – um dos livros publicados de Múcio Wanderley.

Finalmente, a terceira seção do livro, “Tiroteiro”, vai atrás do background do western, suas histórias verídicas e seus mitos, como Buffalo Bill, Buck Jones, Durango Kid e tantos outros. Um estudo actancial comenta os personagens, os cenários e suas características: o mocinho, o bandido, os índios e o meio ambiente. Embora curto, um trecho essencial é com certeza o que tem o subtítulo de “Ascensão e queda do filme de mocinho”. Reais ou ficcionais, alguns dos fatos e fatores que marcaram a conquista do Oeste americano vêm à tona, como: a caravana de Oregon, a grande jornada dos carroções, a figura ímpar do cavaleiro solitário, a curiosidade dos “cowboys de saia” como Anne Oakley e Calanmity Jane, etc… A seção termina com uma breve revisão do filme faroeste nos anos cinquenta.

“Risos, canções e tiroteios” é dedicado, não aos pesquisadores e especialistas, mas aos espectadores comuns: “a todos aqueles que um dia ocuparam a primeira fila” reza a sua afetuosa dedicatória. O que não nos impede de afirmar que, se publicado, teremos em mãos um livro de História do Cinema. Outros há e muitos, mas este foi escrito com paixão por alguém que, na condição de exibidor e cinéfilo, testemunhou essa história, e que soube reconstituí-la com precisão, carinho e elegância.

No prefácio que fiz para “Telas e palcos” comparo Múcio Wanderley ao proprietário do cinema “Splendor” do filme de Ettore Scola (1989), aquele exibidor bem mais interessado na tela do que na bilheteria. Aqui, com mais convicção que antes, repito a comparação.

E vamos aguardar o livro.

Livro de Múcio Wanderley que prefaciei – “Telas e Palcos” (1999).

Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.

 

Coadjuvantes

28 set

Um componente forte na mitologia do cinema sempre foi o culto aos astros e estrelas. O pensador Edgar Morin teorizou o assunto em seu livro de 1957, “Les stars – mythe et séduction au cinéma”, mas, há sempre algo mais a ser dito. Por exemplo: que a mitologia não está restrita aos atores principais: que os coadjuvantes podem ser tão, ou mais queridos que aqueles.

Sim, até porque os coadjuvantes da tela, de alguma maneira, podem funcionar, no inconsciente do espectador, como uma representação dos coadjuvantes da vida real. No plano da existência, você é o protagonista de sua própria história, mas essa história está repleta de coadjuvantes que podem ser, ou ter sido, ou vir a ser, mais – ou menos – importantes, ou mesmo decisivos, para você.

Há muito me interessa o tema e já escrevi vários artigos tratando de um ou uma coadjuvante que foi importante na história do cinema. Na verdade, pretendo reunir esses artigos – por enquanto cerca de 25 – e publicar o conjunto em formato de livro.

Antes disso, porém julguei que seria interessante uma matéria de caráter interativo em que não apenas eu, mas os cinéfilos a que tenho acesso me apontassem nomes de coadjuvantes que julgassem indispensáveis para constar de uma antologia.

Assim, pedi a amigos cinéfilos – quinze ao todo – os nomes de cinco coadjuvantes e, claro, supus que, no quadro completo, haveria recorrências, as quais, se fosse o caso, me conduziriam a um pequeno cânone. Nesta primeira etapa do trabalho, limitei-me a nomes masculinos, ficando para a segunda etapa (aguardem) a matéria sobre as mulheres coadjuvantes.

Comecemos, portanto, com os mais votados na minha pesquisa, que, no caso, são coincidentemente cinco. Para facilitar a identificação vou estar citando, em cada caso, pelo menos três filmes em que o contemplado participou, com breve descrição de seu personagem.

Walter Brennan, o rei dos coadjuvantes.

Walter Brennan (três Oscars), o rei dos coadjuvantes.

Com quatro votos, o grande campeão na preferência de meus amigos cinéfilos é Walter Brennan (1894-1974) que, desconfio, o leitor mais jovem nem sabe quem seja.

Walter Brennan foi o chefe da quadrilha dos Clanton, rivais dos irmãos Earp, contra os quais debateu-se no famoso ´duelo do OK Corral´. Verídico, o duelo foi filmado várias vezes, em filmes diferentes, mas aqui me refiro naturalmente à versão do grande John Ford, em “Paixão dos fortes” (“My darling Clementine”, 1945). Brennan também foi o empregado de John Wayne na interminável condução do gado em “Rio Vermelho” (“Red River”, 1948) de Howard Hawks. O seu terceiro papel que destaco foi como o parceiro alcoólico de Humphrey Bogart no barco que, negócios à parte, conduzia um prisioneiro de guerra para longe dos ventos nazistas, em “Uma aventura na Martinica” (“To have and have not”, 1944), também de Howard Hawks.

Os próximos colocados tiveram um número igual de votos (3) e, assim, menciono-os em ordem alfabética.

Ernest Borgnine, em segundo lugar

Ernest Borgnine, em segundo lugar

O talentoso grandalhão Ernest Borgnine (1917-2012) fica, portanto, no segundo lugar, e acho que pode ser lembrado pelo seu papel do Sargento Fatso, que, em “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”, Fred Zinnemann, 1953) se debate com o magrelo FranK Sinatra, dentro de uma boate de Pearl Habour, em cena inesquecível. Em “Demetrius, o gladiador” (“Demetrius and the gladiators”, Delmer Daves, 1954) ele é um dos gladiadores que vão duelar com Victor Mature na arena romana. E em “Meu ódio será tua herança” está entre os membros da ´wild bunch´ de  Sam Peckimpah (1969).

Lee J. Cobb, em terceiro.

Lee J. Cobb, em terceiro.

Em terceiro lugar vem o grande Lee J. Cobb (1911-1976) que o espectador com certeza lembra, entre tantos outros, em três papéis marcantes: o chefe da gangue dos portuários de “Sindicato de ladrões” (“On the waterfront”, Elia Kazan, 1954), aquele que se debate com Marlon Brando, em luta braçal no final do filme. Ou o preconceituoso jurado de “Doze homens e uma senteça” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958), o último na mesa a se render à inocência do réu em julgamento. O terceiro papel em destaque pode muito bem ser o do médico psiquiatra que trata essa mulher com múltiplas personalidades (Joanne Woodward) em “As três máscaras de Eva” (“The three faces of Eve”, Nannaly Johnson, 1957).

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

No quarto lugar está Lee Van Cleef (1925-1989), sempre associado a vilões, seja de faroestes ou de filmes policiais. Seu primeiro papel na tela já é marcante como Jack Colby, um dos três bandidos que chegam a essa pequena cidade do Oeste, aguardando um quarto, que virá no trem do meio dia, para formar o grupo vingativo que vai dar fim ao xerife local, Gary Cooper: o filme é “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952). No noir “O império do crime” (“The big combo”, Joseph H. Lewis, 1955), Lee Van Cleef faz o papel de um dos membros de um bando de malfeitores, com um caso estranho com o seu companheiro de trabalho, de tons visivelmente homossexuais. Já em “Três homens em conflito” (“Il buono, il bruto, il cativo”, Sergio Leone, 1966), ele é um dos homens conflitantes, aquele denominado no título original do filme, como `o feio´.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

Por fim, o quinto dos mais votados é Thomas Mitchell (1892-1962), para o qual escolho os seguintes papéis, acho que relativamente fáceis de lembrar: o médico que faz partos e pega em armas com a mesma habilidade em “No tempo das diligências” (“Stagecoach”, John Ford, 1939); o tio meio atrapalhado e bastante desastroso de George Bailey (James Stewart) em “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946); o tenente Stevenson de “Espelhos d´alma” (“The dark mirror”, Robert Siodmak, 1946), que investiga um crime em que estão envolvidas duas irmãs gêmeas (Olivia de Havilland), ambas aparentando culpa.

Com dois votos ficaram: Roy Barcroft, Karl Malden, Eli Wallach, George Sanders, Dan Duryea, Peter Lorre, Robert Duvall, Joe Pesci, J. K. Simmons e Wilson Grey. O restante da lista teve um único voto.

Adiante arrolo os votantes e seus votos, mas não sem antes tecer algum comentário sobre esse rol de (descontadas as repetições) mais de 50 coadjuvantes.

Acho que a primeira observação a ser feita diz respeito à época. Notar que, em sua maioria, são coadjuvantes do cinema clássico, naquele período que vai dos anos trinta aos cinquenta. Atores atuais são poucos: Joe Pesci, Steve Buscemi, Charles Durn Robert Duvall e Christof Waltz

Uma segunda observação pode ser sobre as nacionalidades, quase todas americanas. Há um espanhol (Fernando Rey), um italiano (Enzo Staiola) e três brasileiros (Wilson Grey, José Lewgoy, e Guará Rodrigues). Naturalizado americano, o alemão Peter Lorre é muito mais lembrado pela sua atuação em Hollywood que em seu país de origem. Quanto aos ingleses, há vários, mas, não sei se faz sentido destacá-los, já que todos fizeram carreira profissional em Hollywood, como Claude Rains, James Mason, George Sanders… alguns deles naturalizados americanos. Talvez a citação obrigatória, neste caso, seja a de John Gielgud.

Vale ressaltar alguns casos curiosos, de coadjuvantes que, em papéis infinitamente repetidos encarnaram tipos, em muitos casos, tipos que serviam de escada aos protagonistas e que, por isso mesmo, tinham uma importância especial para as plateias de sua época. Altamente populares no seu tempo, esses coadjuvantes-tipos hoje em dia só são lembrados por cinéfilos de memória extraordinária.

Roy Barcroft, o "Joâo Branco" dos espectadores infantis de antigamente.

Roy Barcroft, o “Joâo Branco” dos espectadores infantis de antigamente.

Acho que são os casos de Smiley Burnette e Roy Barcroft. Burnette fazia, com frequência, o papel do “doidinho”, uma figura indispensável nos faroestes dos velhos tempos. Nesses mesmos faroestes, um malfeitor obrigatório era Barcroft, calculadamente o bandido que mais apanhou e que mais vezes “morreu”, se contabilizadas todas as películas do gênero. Era tão assíduo que os espectadores infantis da época – conforme relato em ensaio publicado neste Correio das Artes – o confundiam com o autor das legendas e o chamavam de “João Branco”.

Eis, afinal, a lista dos votantes (citados em ordem alfabética) e dos votados (citados na ordem em que me foi entregue):

 

André Cananéa: Joe Pesci, Robert Duvall, J. K. Simmons, Mark Rylance, Martin Landau.

André Ricardo Aguiar: James Cromwell, Lee van Cleef, Richard Jenkins, Charles Coburn, Joe Pesci.

Edward Lemos: John Carradine, Donald Crisp, Victor MacLagen, Dan Duryea, Pat O´Brien.

Fernando Trevas Falcone: Walter Brennan, Peter Lorre, Wilson Grey, Ward Bond, Guará Rodrigues.

Homero Fonseca: José Lewgoy, Wilson Grey, George Sanders, James Mason, John Gielgud.

Ivan (Cineminha) Costa: Roy Barcroft, Elisha Cook Jr, Ted de Corsia, Walter Brennan, Jack Elam.

Jefferson Cardoso: Peter Lorre, Van Heflin, Claude Rains, J. K. Simmons, Lee Van Cleef.

João Batista de Brito: Lee J. Cobb, Thomas Mitchell, Ernest Borgnine, Walter Brennan, Raymond Burr.

Joaquim Inácio Brito: Arthur Kennedy, Thomas Mitchell, Herbert Marshall, Leo G. Carroll, George Sanders.

Josafá Soares: Slim Pickens, Ernest Borgnine, Enzo Staiola, John Cazale, Christoph Waltz.

Martinho Moreira Franco: Lee Van Cleef, Andy Devine, Karl Malden, Eli Wallach, Fred Clark.

Paulo Melo: Fernando Rey, Ned Beatty, Melvyn Douglas, Charles Durning, Sterling Hayden.

Renato Felix: Woody Strode, Oscar Levant, Eli Wallach, Robert Duvall, Steve Buscemi.

Rolf de Luna Fonseca: Walter Brennan, Dan Duryea, Thomas Mitchell, Lee J. Cobb, Barry Fitzgerald.

Silvino Espínola: Karl Malden, Roy Barcroft, Smiley Burnette, Lee J. Cobb, Ernest Borgnine.