Arquivo | Inéditos RSS feed for this section

CABÍRIA

4 set

Tenho contado histórias minhas, mas acho sadio abrir a porta para os outros. Esta quem me contou foi um amigo bem mais velho que eu, aliás, já falecido, Ademar, que foi, no Jaguaribe dos anos cinquenta, um dos boêmios mais conhecidos e divertidos do bairro.

Naquela época eu era criança, mas, através de meus irmãos mais velhos, gostava de acompanhar – de longe, claro – as notícias das aventuras dessa rapaziada animada que, entre um trabalhinho e outro, vivia de cerveja, serenatas e outras peripécias. Amigo de meus irmãos, Ademar fez parte dessa turma que, com o passar dos anos, perdi de vista. Ele, inclusive.

Muito adiante, já nos anos oitenta, num evento da API, eis que me deparo com Ademar, agora enrugado e grisalho. Eu, que dele não tinha notícias havia tanto tempo e que nunca o associei a nada que tivesse a ver com o âmbito cultural da cidade, fiquei surpreso em saber que me lia na imprensa. Contou-me também a emoção que sentiu ao descobrir que aquele crítico de cinema que mantinha coluna semanal em O Norte, e que ele tanto admirava, era o garotinho de Jaguaribe que vendia pão.

Após o evento, descemos para a orla e fomos ao restaurante Gambrinus festejar o reencontro, e foi então que ele me contou a história.

Ocorreu, segundo ele, num sábado qualquer de 1958. Ele e uns amigos marcaram de se encontrar no Ponto de Cem Réis para um programa improvisado. Bateram uns papos por ali, e logo que o sol se pôs, pensaram num cineminha. Depois só Deus sabia o que poderia vir, provavelmente umas cervejas na Maciel Pinheiro.

Como os cartazes do Plaza e Rex não prometessem, desceram para o Brasil, aliás, cinema mais barato. O filme do dia era italiano, e não acharam isso muito animador, mas entraram assim mesmo.

Era sobre a vida de uma pobre prostituta e, de fato, no começo pareceu chato, sem graça, ganhando resmungos e vaias da plateia, quase toda composta de homens. Um dos amigos até sugeriu que saíssem.

Pois, na medida em que o filme foi rolando, o personagem da infeliz prostituta, com seu heroísmo miúdo e sua bravata ingênua, foi ganhando vulto e sentido para ele.

Contou-me Ademar que, da metade do filme em diante, embora seus amigos continuassem indiferentes e aborrecidos, ele já estava completamente tomado por Cabíria. De tal modo que, no desenlace, quando a pobre mulher sofre aquele golpe fatal, junto ao precipício escuro, ele quase não conteve as lágrimas. Ela arrastando-se no matagal feito um bicho ferido, implorando ao seu algoz pelo golpe de misericórdia (“mata-me, mata-me, mata-me”) e Ademar sufocado, quase sem fôlego. No final, quando Cabíria, rodeada pelos jovens que cantam e dançam na estrada, deixa transparecer aquele sorriso teimoso, feito de pura dor, ele, Ademar, correu para o banheiro, e, escondido de todos, simplesmente chorou. Baixinho, mas chorou.

Os amigos deram graças a Deus que “aquela merda” acabara, e ele, envergonhado, escondeu sua reação ao filme o quanto pôde.

Do cinema, desceram para a Maciel Pinheiro e, no Cabaré de Hosana, encheram a cara como faziam de costume. Já tarde da noite, deveriam escolher, cada um em sua vez, uma “menina” e se dirigir ao quarto que estivesse vago, poucos numa noite concorrida como aquela.

Ao chegar sua vez, Ademar, sem muita convicção, puxou pela mão umas das “meninas” disponíveis, mas, no quarto, a sós com ela, não sentiu nada. Olhava para aquela mocinha pobre, com certeza maltratada pela vida, e, não tinha jeito: via Cabíria. Deitaram-se e conversaram por algum tempo, ele perguntando e confirmando sua impressão de pobreza e sofrimento. Faxineira de profissão, a moça morava numa tapera nos arrabaldes, era mãe solteira de uma criança doente de um mal congênito grave, cujo tratamento médico ela pagava com os fins de semana em Hosana.

Ao sair, sem nada haver ocorrido entre os dois, ele beijou-a na testa e pagou o tempo que ela perdera com ele.

Achei sublime quando, naquela mesa do Gambrinus, Ademar findou seu relato confessando que, naquela noite num quarto sujo do Cabaré de Hosana, com todo o vigor de seus vinte e um anos de idade, sentiu-se orgulhoso de haver brochado.

Ao nos despedirmos, não resisti: abracei-o forte e lhe beijei o rosto. Foi a última vez que vi Ademar. Foi, mas toda vez que revejo “Noites de Cabíria” (Fellini, 1957) me lembro dele… e também choro.

DIA DOS PAIS

9 ago

Na data, nove de agosto de 2020, relembro aos amigos deste blogue, dez figuras paternas inesquecíveis, em dez filmes clássicos. Na ordem: o filme, o diretor, o ano de lançamento, o nome do personagem e o ator que o fez. Na foto, Harry Dean Stanton e Hunter Carson, em “Paris, Texas”.

 

Como era verde o meu vale, John Ford, 1941, Gwilim Morgan (Donald Crisp)

Ladrões de bicicleta, Vittorio De Sica, 1948, Antonio (Lamberto Maggiorani)

Pai e filha, Yasujiro Ozu, 1949, Shukichi Somiya (Chishu Ryu)

O pai da noiva, Vincente Minnelli, 1950, Stanley Banks (Spencer Tracy)

Vidas amargas, Elia Kazan, 1955, Adam Trask (Raymond Massey)

Gato em teto de zinco quente, Richard Brooks, 1958, Big Daddy Pollit (Burl Ives)

O sol é para todos, Robert Muligan, 1962, Atticus (Gregory Peck)

Hud, o indomado, Martin Ritt, 1963, Homer Bannon (Melvyn Douglas)

Pai patrão, irmãos Taviani, 1977, Pai (Omero Antonutti)

Paris, Texas, Wim Wenders, 1984, Travis Henderson (Harry Dean Stanton)

ALAN PARKER (1944-2020)

4 ago

Deixou-nos ontem, 31 de julho, o cineasta anglo-americano ALAN PARKER, autor de alguns dos melhores filmes da segunda metade do Século Vinte. Dos 25 que rodou, aqui destaco estes dez:

 

O expresso da meia-noite, 1978

Fama, 1980

Pink Floyd – The Wall, 1982

Asas da liberdade, 1984

Coração satântico, 1987

Mississipi em chamas, 1988

Bem-vindos ao paraíso, 1990

The Commitments – loucos pela fama, 1991

Evita, 1996

As cinzas de Ângela, 1999