Arquivo | Inéditos RSS feed for this section

Em busca dos cinemas perdidos

17 out

Hoje, dia 17 de outubro de 2017, tem início a XXI versão do SOCINE, evento de caráter cinematográfico, este ano acontecendo em João Pessoa. Mas não é do SOCINE que quero falar. Antes dele, houve o PRÉ-SOCINE, uma atividade organizada pelos pesquisadores e estudiosos do cinema João Luiz Vieira, André Dib e Talitha Ferraz.

E que atividade foi esta? Teve o nome de “História de cinemas: exibição, modos de ver, experiências locais e regionais”, mas, de minha parte, eu a chamaria de “Em busca dos cinemas perdidos”.

Na Sala Aruanda, da UFPB, em formato seminário/oficina, o trio expôs e debateu com os interessados – alunos, professores e demais – questões relativas ao “estudo do espaço de exibição cinematográfica e sua articulação com a fruição fílmica, que implica a experiência pessoal (afetiva e sensorial) e os desdobramentos relativos aos espaços de exibição e interação coletiva em sua diversidade espectatorial.”

Em outras palavras, deslocou-se o foco da História do Cinema para as histórias dos cinemas.

A oficina do PRÉ-SOCINE acontecendo…

Hoje em dia, e no mundo todo, a gente sabe, a fruição cinematográfica está limitada aos impessoais cinemas de Shopping, e/ou aos meios caseiros do DVD, Blu-ray ou computadores, e, para a juventude atual, essas parecem ser as formas ´normais´ de ver cinema.

A oficina do PRÉ-SOCINE deu protagonismo ao passado, quando os cinemas tinham calçadas e endereço e, mais que isso, tinham personalidade, cada um no seu prédio próprio, de arquitetura autônoma. O objetivo, porém, não foi estimular o saudosismo, e sim, propor um posicionamento com relação à situação dessas antigas salas de exibição.

O que ainda resta desses cinemas antigos? Foram demolidos ou estão em ruinas? Sabe-se ainda onde se situavam? Os seus prédios ainda são reconhecíveis? Estão parcialmente restaurados, mesmo que para outras empresas? Ainda guardam traços arquitetônicos do que foram? Seria possível deles resgatar resquícios de qualquer ordem que seja?

Sugerindo, entre várias outras iniciativas, a criação de grupos de estudo sobre a temática, a oficina do PRÉ-SOCINE propôs a criação de uma rede de interessados que ficariam ligados, entre outras coisas, para a configuração de um mapa (local, regional ou nacional) dos cinemas extintos. E, naturalmente, que cada um, se dedique à pesquisa sobre os casos mais próximos a si mesmo, espacial ou emocionalmente.

Uma atitude pode ser o mero registro, fotográfico, fílmico ou de outra ordem; mas, não se descartam as iniciativas de buscar formas de luta para recuperar os prédios recuperáveis, eventualmente, propondo-se a autoridades governamentais a transformação em fundações de cultura, como está no exemplo do Cinema São José, em Campina Grande. Para ilustrar alternativas possíveis, André Dib exibiu dois curtas que trataram da temática: “Cine Pajeú” e “A morte do cinema”.

O crítico e jornalista André Dib em atuação.

Um bom número de interessados participou intensamente da oficina, e, na parte final, houve espaço para os depoimentos individuais, e então, foi possível ouvir vozes que vinham de Cajazeiras, Patos, Rio Tinto e outras localidades paraibanas, todos querendo juntar-se ao projeto, alguns deles apenas com a vontade de agir, outros, como é o caso dos estudos sobre o cinema de Rio Tinto, com trabalho já iniciado ou realizado.

Conforme sugerem alguns dos meus escritos publicados, sempre me preocupei com o destino das “ruínas” (título de minha penúltima crônica, aqui veiculada) dos velhos cinemas de João Pessoa que, por ora são ruínas, mas daqui a pouco nem ruínas serão mais. De modo que saí da oficina do PRÉ-SOCINE entusiasmado e certo de que, com o tirocínio de pessoas como João Luiz Vieira, André Dib e Talitha Ferraz, essa nova (novíssima, eu diria) linha de pesquisa na área cinematográfica vai longe e promete frutos mais que interessantes.

A oficina ocorreu entre os dias 13 e 14 deste mês de outubro, porém, de alguma forma, continua: na próxima quinta-feira, dia 19, ficou acertado que o grupo, e quem mais desejar, vai encontrar-se, às 13:30 horas, no Ponto de Cem Réis – centro de João Pessoa –, para dali dar início a uma excursão pelos locais onde se situavam os cinemas centrais da cidade: Plaza, Rex, Municipal, Brasil, Filipeia, Astória e São Pedro.

Para os não residentes em João Pessoa, ou para os mais jovens, será uma jornada de mero (re)conhecimento; para os viventes municipais de minha faixa etária será – não posso deixar de confessar – uma peregrinação cheia de dores. Mas irei.

Foto de encerramento da Oficina.

Anúncios

“Handsome devil” – contra estereótipos

10 out

Nesta nossa época sombria de homofobia desbragada, MBL e ´cura gay´ é bom ver e/ou rever certos filmes.

Esta semana pude ver, do jovem irlandês John Butler este “Handsome devil” (2016), que não é nenhum grande filme, mas que me remeteu a um clássico da temática homo, o “Chá e simpatia” de Vincente Minnelli (1956), no caso, o primeiro filme na história do cinema mundial a tocar na questão da homossexualidade masculina.

Mas vamos por etapas.

“Handsome devil” (`belo demônio´) começa por nos introduzir a Ned, esse estudante universitário magro, ruivo, feioso, desajeitado e com perfil gay que, no campus de uma universidade da Irlanda, vive sofrendo bullying do resto da turma. Ocorre que o ponto alto dessa universidade é o violento esporte do rugby, e o pobre do Ned não tem físico para levar nem para dar porrada.

A coisa piora para ele no dia em que chega esse novato Conor, tipo atlético de jogador de rugby, e a diretoria o põe onde? Justamente no dormitório de Ned.

O que fazem, no mesmo quarto, um frágil gay e um corpulento atleta do rugby? Bem, a primeira iniciativa de Ned é, juntando móveis e outros troços, construir uma ´muralha de Jericó´, que divide o quarto ao meio e separa os dois supostos inimigos.

Contrariamente ao esperado, o frágil Ned e o forte Conor têm afinidades e vão fazendo amizade. O turning point da estória aparece no dia em que Ned (junto conosco) descobre que o machão Conor esconde uma inclinação homo. Divulgada essa inclinação, a turma do rugby e todo mundo mais descarta Conor, que foge e vai se esconder longe dali. É Ned quem vai lá e o convence a voltar e enfrentar tudo e todos. Ocorre que, gay ou não, Conor é o melhor jogador de rugby e o time precisa dele: resultado, a equipe o aceita de volta, o time ganha com o seu extraordinário desempenho e – ufa! – um gay assumido é aclamado o grande atleta dessa importante universidade.

Foi justamente esse desenlace que, por contraste, me reconduziu ao “Chá e simpatia” de Minnelli. Não juro, mas desconfio que o roteirista de “Handsome devil” conhecia o filme de Minnelli e bolou o roteiro em cima dele. De forma direta, um filme responde ao outro.

Se você tem idade para tanto deve lembrar que em “Chá e simpatia” a situação é semelhante, com exceção do desenlace.

O protagonista não se enquadra nos moldes de um campus universitário em que o esporte é o ponto alto. Ao invés de jogar o violento futebol americano, Tom prefere ler, ou cozinhar, ou mesmo costurar. Ao invés de esporte, suas preferências são poesia e teatro e coisas desse nível. No contexto machista em que vive, isso tudo depõe contra ele que, com esse perfil supostamente ´feminino´, vai sofrer o bullying mais violento.

“Chá e simpatia”, 1955.

Não conto a estória toda, mas a sua senhoria (Deborah Kerr) é quem dele se compadece, tanto que lhe propõe fazerem sexo, para provar que ele era homem. O que fica provado, porém, não é isso que importa. O que está em jogo, nos dois filmes aqui comparados, são os estereótipos – o do homo e do hetero.

Acima eu disse que o filme de Butler responde ao de Minnelli. Não apenas responde: complementa-o. Em termos conceituais, a relação entre os dois poderia ser formulada da seguinte maneira: se um homem com perfil delicado pode ser masculino a toda prova (“Chá e simpatia”), por sua vez, um outro com todo o perfil másculo (virilidade, força, etc) pode muito bem ser homo (“Handsome devil”).

O filme de Butler não é o primeiro a desmontar a antinomia “efeminados” versus “machões”, que, de forma caricaturesca, reforça preconceitos e fobias. Implicitamente, isto já foi feito em filmes tão antigos quanto “Meu passado me condena” (1961) ou “Domingo maldito” (1971), porém, aqui, o quiasmo que forma com um filme de 60 anos atrás é curioso e, eventualmente, instrutivo. Pelo menos para nos deixar um pouco mais alertas à sutil complexidade da natureza humana… e seus tantos mistérios.

Deborah Kerr e John Kerr, em “Chá e simpatia”.

Ruínas

2 out

Esta semana um amigo me desafiou a uma peregrinação pelos cinemas do meu bairro, Jaguaribe. Ou melhor, pelo que deles ainda resta. O objetivo era pesquisar sistematicamente sobre essas velhas casas de exibição, e devíamos, portanto, parar, deter-nos, adentrar os velhos prédios, investigar, perguntar, anotar, fotografar, etc… São cinemas da minha infância e, confesso, não deixei de levar um bom lenço comigo.

O primeiro que visitamos foi o Cine São José, hoje uma oficina de automóveis, mas não só isso. Como os outros cinemas do bairro, o São José fica(va) numa esquina, entre as ruas Sen. João Lira e Floriano Peixoto. Cortando a lateral do prédio (rua Floriano Peixoto), a oficina ocupa justamente o espaço da sala de exibição. Ao meio de carros velhos, graxa e poeira, emocionei-me ao ver que, intactos, estavam lá os dois pilares redondos que, então, sustentavam o balcão do cinema. Uma vez, descrevendo o São José de memória, referi-me a esses dois pilares, que ficavam no meio das filas de poltronas, no térreo. Ao fazer a descrição, tive dúvidas se eles realmente existiam, ou se minha memória estava sendo criativa. Fiquei feliz em constatar que minha descrição fora exata.

Mas nem tudo – ou quase nada – na minha descrição permanecia. Cadê a bela sala de espera, com aquela ampla escadaria curva que conduzia ao balcão e, suponho, à cabine de projeção? Não deu nem pra ver, pois a porta de entrada, hoje de vidro, contém o nome de Salão de Beleza, e estava fechada. Lá em cima, onde seria a cabine e a secretaria – fomos informados – estão hoje pequenos apartamentos, todos ocupados. Um senhor que reside em um deles foi cortês conosco, mas não nos permitiu subir. Embora ainda inteiro, o prédio todo está decadente, feio e sujo.

Prédio do antigo Cinema São José, em Jaguaribe, João Pessoa, PB.

Do São José, rumamos para o Cine Jaguaribe, rua Capitão José Pessoa com Aderbal Piragibe. Nele o estrago do tempo foi bem maior. Antigamente alto – como se equivalesse a dois andares – o prédio foi cortado ao meio, só restando a parte inferior, e não muito: só a fachada (completamente descaracterizada) e a parede direita de quem entrava. A parede esquerda não existe: são aberturas para as várias lojas que ocupam todo o antigo salão de exibição. O dono de umas das lojas de peças de automóvel, fez questão de frisar que há muito nada restava do cinema, como se a dizer que estávamos fazendo um trabalho inútil.

No caso de Cine Teatro Santo Antônio, entre a Primeiro de Maio e a Vasco da Gama, houve menos surpresas. Hoje como “Casa da Cidadania”, o prédio, repleto de boxes de repartições públicas e empresas, está pelo menos conservado. O coordenador da Casa nos recebeu bem e fez questão de subir conosco para o que havia sido, no passado, a cabine e o balcão do cinema. Hoje são pequenas salas de escritório, mas, uma surpresa: conservada e perfeita ainda está lá a pequena janela que ficava na frente do projetor, janela mágica por onde passava o foco de luz que levava para a tela as imagens de Ilsa Lund pedindo ao pianista Sam que tocasse ´as time goes by´.

De lá ainda tivemos a coragem de esticar até o Cine Bela Vista, que ficava em Cruz das Armas, mas que também servia aos habitantes do bairro de Jaguaribe. Este cinema foi o mais agredido de todos. Tão agredido que tive dificuldade em identificar a antiga estrutura daquele que foi, pela sua arquitetura ímpar, um dos cinemas mais interessantes da época, com sua enorme sala de espera, seguida de um vão descoberto que era preciso atravessar para se chegar ao salão de exibição. Um depósito de loja de sons e uma oficina de automóveis tomam o espaço todo, de modo a obscurecer a arquitetura original. O rapaz da loja de som ainda nos mostrou o quartinho onde ficava a bilheteria, hoje um buraco imundo, cheio de tralhas e poeira. Saí dali tentando não lembrar que fora naquele cinema que vira minha primeira sessão de “cinema de arte”, com o filme “Hiroshima meu amor”, lá pelos começos dos anos sessenta.

Eu disse que levei meu lenço para essa peregrinação pelos velhos cinemas de minha infância. Pois o tenho comigo agora, no momento em que redijo estas linhas.

Visão do antigo Cinema Santo Antônio (prédio na esquina).

 

Em tempo: o amigo que me levou a essa peregrinação foi André Dib, estudioso do cinema, no momento envolvido em amplo projeto de pesquisa sobre os cinemas antigos de João Pessoa. Vejam sua página no Facebook.

Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

Super 8

17 set

Faço aqui minha pequena homenagem ao grande Harry Dean Stanton (1926-2017), falecido dia 15 de setembro de 2017. O texto que se lê abaixo está no meu livro “Um beijo é só um beijo” (Ed. Manufatura, 2002) e se chama “Super 8”. Trata-se de um miniconto que, ficcionalmente, reproduz o enredo de um dos melhores filmes desse ator extraordinário, “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984).  No miniconto, a voz narrativa é de Travis, justamente o personagem de Harry Dean Stanton.

Harry Dean Stanton com Nastassia Kinski, na obra prima de Wim Wenders, “Paris, Texas”.

SUPER 8

E agora, para onde me dirijo? Devolvo o carro a Walt e me recolho a meu silêncio? Ainda faz sentido buscar um ponto no mapa, o terreno onde fui concebido nesse país, o local em que meus pais copularam nove meses antes de eu nascer?

Não sei exatamente o que faz sentido ou não, mas sei que foi bom ter entregue Hunter a Jane. Eu não sabia disso antes, mas, com certeza, era o que queria fazer desde sempre.

Sempre? Quatro anos de torpor e vazio… Quando Walt me encontrou no deserto, fora de mim, mal o reconheci, até porque havia quatro anos eu mal me reconhecia. A sua paciência de irmão e o carinho de Anne é que foram me trazendo de volta a mim mesmo. Contudo ninguém me puxou mais para mim mesmo do que Hunter.

No começo, ficou hostil com aquele pai desgrenhado, sujo e esquisito que, saído do deserto, se intrometia no seu tranquilo e limpo cotidiano pequeno-burguês; por ironia, acho que foi essa sua hostilidade de menino indignado que me arrancou do meu vazio interior e me fez querer me “vestir de pai”. No dia em que fui apanhá-lo na Escola todo pronto e ele, afinal, aceitou vir para casa a pé, caminhando pelo outro lado da rua, senti o meu retorno ao normal, senti que estava voltando a experimentar sentimentos.

Conversar mesmo de pai para filho, lhe dizer as verdades doídas que escondo, isso nunca pude fazer cara a cara. Fiz isso através do walkie-talkie, já aqui em Houston, depois de haver achado sua mãe. Engraçado como só foi possível resolver as coisas de modo indireto, através de algum meio técnico que intermediasse o contato. Eu mesmo não entendo essa necessidade de artifícios, porém com Hunter foi o walkie-talkie que me salvou, e com Jane, o telefone do peep-show. Sinto que frente a frente, a compreensão não teria brotado, nem teríamos, juntos, conseguido mergulhar na dor do passado, para apaziguá-la.

E até o primeiro passo do meu retorno ao real foi promoção de um meio indireto. Foi assistindo à felicidade de nossa família, felicidade de quatro anos atrás, filmada pela câmera Super 8 de Walt, que comecei a sair do meu torpor e a saborear um vago desejo de tornar a viver.

Claro, não vou ter, provavelmente nunca mais, aquela felicidade que está impressa na película Super 8 de meu irmão, mas já foi muita coisa ter vencido o torpor, me resgatado do nada, e mais que isso, haver promovido o encontro de Jane e Hunter.

Se não tiver mais nada de bom nessa minha vida sem perspectiva, vou ter o conforto de saber os dois juntos, se amando como mãe e filho. Não importa o que possa me acontecer: isso me basta.

Isso devia me bastar.

A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

O Netflix e o conceito de clássico

5 set

Outro dia estávamos num restaurante, tomando um bom vinho e batendo papo sobre cinema, eu e um amigo, grande cinéfilo, que me perguntou se eu já tinha o Netflix. Ao ouvir que não, foi logo, munido de seu potente celular, me mostrando, entusiasmado, as maravilhas desse aplicativo de cinema.

“Tem filmes clássicos?” Perguntei, e ele: “Claro. Quer testar? Diga aí o nome de um clássico que você queira rever”. E eu: “Crepúsculo dos deuses”. Ele foi lá, cutucou daqui, cutucou dali, e nada… Não tinha. Ele: “Esse, por coincidência, não tem. Diga outro”. E aí eu apelei pro óbvio: “Casablanca”. Não tinha. Depois foi “E o vento levou”. Também não tinha. “Cantando na chuva”. Também não.

Com as negativas seguidas, o entusiasmo de meu amigo foi virando embaraço, e, sensatamente, mudamos de assunto, e passamos a comentar a boa qualidade do espaguete com molho de camarão servido, e principalmente o buquê especial do Chianti.

Ora, algumas semanas depois desse jantar que o amigo tão gentilmente me oferecera, o que me acontece? Ganho, dos meus filhos, o acesso ao Netflix, instalado no meu notebook – sintomaticamente – pelo meu neto de nove anos de idade.

Fiquei muito feliz com mais essa fonte de acesso ao cinema, que é realmente maravilhosa. Meu notebook é ligado ao meu aparelho de tv de 46 polegadas, e, assim posso ver os filmes do Netflix – que são de fato, em grande quantidade, e alguns, muito bons – na tela (mais ou menos) grande, com uma qualidade de imagem impressionante. Nesse dia, entendi o entusiasmo de meu amigo cinéfilo…

“Cantando na chuva”, um dos muitos clássicos fora do Netflix

Mas, voltemos aos clássicos. Na página principal do Netflix há um quadro com as categorias dos filmes disponíveis, e uma dessas categorias é CLÁSSICOS. Curioso, cliquei lá e – como já supunha que aconteceria – a decepção foi enorme.

Da totalidade dos filmes disponíveis nessa categoria, só consegui detectar cinco filmes que, a rigor, poderiam ser chamados corretamente de clássicos, que são: “Janela indiscreta” (1954), “Um corpo que cai” (1958), “Psicose” (1960), “Spartacus” (1960) e “Bonequinha de luxo” (1961)… Todo o restante são filmes lançados na segunda metade do Século XX, se estendendo até o ano 2000. Muitos são realmente filmes bons, alguns muito bons, mas, clássicos?

Ok, vamos considerar – e se for o caso, aceitar – que o pessoal do Netflix esteja, por conta própria, chamando de “clássico” tudo o que se produziu antes deste Novo Milênio em que estamos. A idade da maior parte dos seus jovens usuários deve justificar esse elastecimento do conceito de “clássico”.

Pois bem, mesmo assim, permanece o problema: se for “clássico” tudo o que o Século passado produziu, por que só está no Netflix a segunda metade? E a primeira? Não existe? A ironia é que, se for pelo critério de ´quanto mais antigo mais clássico´, essa primeira metade ausente é muito mais clássica que a segunda!

“Onde os fracos não têm vez”, como filme noir – parece piada.

A minha segunda decepção com o Netflix tem a ver com outra categoria, a de filme noir: fui checar os títulos e – desta feita não adianta acochambrar – não existe um só filme noir, dentre os filmes noir oferecidos pelo Netflix. Ocorre que o noir é um gênero historicamente datado, que vai de 1940 (com “Relíquia macabra”) ao final dos anos cinquenta (com “A marca da maldade”, 1958). São todos filmes preto e branco, com uma estrutura semiótica particular, com um estilo plástico e enredo bem particulares, com ingredientes diegéticos igualmente particulares. Aliás, diga-se de passagem, todos eles REALMENTE clássicos.

Mas, sosseguem: não estou aqui para meter o pau no Netflix. Como se trata de um Programa novo, pode ser que, com o tempo e aos poucos, venham a ser incluídos mais títulos antigos no seu repertório de clássicos. Aguardemos. Na verdade, estou curtindo um bocado tê-lo a meu inteiro dispor. É legal poder ver ou rever, com uma qualidade de imagem de fato excelente, grandes sucessos dos anos 70, 80 e 90, bem como os filmes da atualidade.

Contanto que não tenhamos que chamar “Uma linda mulher” de clássico, e “Onde os fracos não têm vez” de noir!

Rick e Ilsa (Casablanca, 42), provavelmente, se perguntando: por que não estamos no Netflix?