AH, ESSE STEVE MACQUEEN..

23 out

.Convenhamos: mesmo que não preste, não dá pra deixar de ver um filme que se chame “Procurando Steve McQueen”. Vi e, restrições guardadas, gostei.

Não. O filme não é a história do famoso ator americano. É a história, por sinal verídica, de um fã seu, mas não um fã qualquer. Sim, pois nem todo fã é ladrão, e nem todo ladrão é fã.

Harry Barber (Travis Fimmel) foi simplesmente um dos participantes de um famoso assalto a banco na California de 1972. Assalto famoso não apenas pela ousadia dos assaltantes, mas, sobretudo, porque o dinheiro roubado pertencia a uma conta suspeita do então candidato à presidência da república americana, Richard Nixon. Com um detalhe: toda a grana era ilegal, falcatruas de Nixon para subir na carreira política e pessoal.

Como o banco ficava em lugar afastado (Laguna Niguel, CA), usaram-se explosivos e o assalto, com truculências e tudo mais, durou três dias, um fim de semana inteiro, e rendeu doze milhões, parte dos trinta existentes.

Em filmes de assalto a banco, é comum que o espectador termine torcendo pelos assaltantes, como se deu em “O segredo das joias”, em “Rififi”, em “O grande golpe”, em “Onze homens e um segredo”… Aqui se tem uma razão a mais e o cabeça da operação enfatiza isso várias vezes, justificando tudo pelo mau-caratismo de Nixon.

E se o protagonista do filme mora no primeiro andar de um cinema fechado e cultua a imagem de Steve McQueen, mais razão há para a torcida do espectador. Na parede de seu quarto está um enorme pôster de “Bullit”, filme a que ele se refere sempre que pode. E não só isso: bonito como o ator adorado, Harry Barber assume, como pode, o comportamento dos personagens de McQueen e, ainda mais que isso, em certas ocasiões se faz passar por ele, ou ao menos, usa o seu nome.

Mas, claro, nem sempre é acreditado. Por exemplo: quando o policial que o multa por excesso de velocidade pergunta o seu nome e ouve ´Steve McQueen´ como resposta, retruca: “Então eu sou Ali McGraw”.

Travis Fimmel como o ladrão cinéfilo.

Mas “Finding Steve McQueen” (Mark Steven Johnson, 2019) não é só um ´bank heist movie´. Todo narrado em flashbacks que ligam o ano de 1980 ao de 1972, ele é também uma história de amor até certo ponto engraçada e tocante.

Oito anos depois do famoso assalto e procurado pelo FBI, um Harry Barber meio em crise de consciência resolve contar tudo à namorada que, durante todo esse tempo, ignorava seu lado malfeitor. Sentados os dois numa mesa de lanchonete, em Youngstown, Ohio, ele começa sua confissão: “eu não sou quem você pensa que eu sou”. E vêm, para o espectador, em imagens sequenciais, todo o esquema do assalto, em seus mínimos detalhes. E aí, naturalmente, a coisa engrossa entre o casal.

Na verdade, Barber já se entregara ao delegado local (coincidentemente, pai da namorada) e está só esperando ser preso. Ocorre que, se o mito dele era McQueen, o dela era Warren Beatty e Faye Dunnaway, ou seja, o casal de “Bonnie e Clyde”, de forma que, ao invés de aceitar a rendição pública do namorado-ladrão, ela… Bem não vou contar o desenlace, que seria spoiler.

Não se trata de nenhum grande filme, e, evidentemente, a gravidade de seu assunto (as falcatruas de Nixon, antes de Watergate) merecia uma obra de maior peso, porém, de qualquer forma, o bom humor da narração, a fluência da montagem (ligando os vários tempos da história, a partir de expressões nos diálogos), o desempenho dos atores, a trilha sonora dos anos setenta, e, last but not least, a cinefilia inveterada do protagonista, compensam a perda da hora e meia em que decorre.

CORINGA

16 out

Fui ver “Coringa” (2019) domingo à tarde, sessão lotada. Na saída, ouvi uma senhora comentando, indignada: “… feito pra justificar a violência”.

Saí pensando em quantos espectadores acharão isso. De qualquer forma, uma pequena injustiça que, certamente, vai se perder ao meio da aclamação, mais que justa, que o filme de Todd Phillips vem recebendo e, seguramente, receberá.

Não tenho formação em quadrinhos, mas é possível sentir o quanto essa história de Gotham City reinventa, ou mesmo recusa, as conhecidas.

A minha primeira anotação é que não “adapta” uma história conhecida, nem dos quadrinhos nem de lugar nenhum. Se há uma adaptação dos comics ela está no nível exclusivamente actancial, ou seja, relativo aos personagens – no caso, a um personagem só: o Joker. E a adaptação feita é, no mínimo, original, genial, estupenda.

O que temos aqui? Não um personagem maligno, ambicioso, e poderoso que queira dominar o universo, ou destruí-lo. O “coringa” do nosso filme é um pobre coitado que vive sofrendo um bullying atrás do outro, mais que isso, um doente mental espancado por uma sociedade cruel.

Palhaço terceirizado, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) vive modestamente com a mãe idosa e doente, de quem cuida. Quer ser comediante stand up, mas não possui o humor para tanto, embora, ironicamente, um dos sintomas de sua patologia sejam risadas nervosas incontroláveis.

Um dia descobre que poderia ser filho de uma figura importante, Thomas Wayne, o prefeito de Gotham, em cuja mansão a mãe fora, no passado, empregada doméstica. Vai em busca dessa pequena vantagem e, mais uma pancada da vida, quebra a cara.

É quando começa a revidar e o revide vai ser, inevitavelmente, violento. Descontrolado, já revidara um dia, no metrô, quando mata dois agressores, mas a partir de agora, o revide tem a cara pintada da vingança e o mesmo cinismo de seus adversários.

Um ingrediente fundamental nessa fase-vingança de Arthur Fleck está na dança. Muita gente vai lembrar o desempenho de Joaquin Phoenix pelas gargalhadas nervosas, mas acho que mais memorável que isso é a sua bela coreografia, ao som de uma certa canção de Frank Sinatra.

Aliás, mais que os comics da vida, o filme parece uma adaptação cinematográfica da recorrente canção de Sinatra “That´s life”. Com efeito, a letra da canção “biografa” o Coringa como uma luva. Dela cito só o refrão: “I´ve been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king…” (´Já fui um fantoche, um mendigo, um pirata, um poeta, um peão e um rei…`). Com exceção do último termo, tudo dá certo com o universo semântico do atormentado protagonista, com seus altos e baixos, seus delírios e suas quedas, e, pensando bem, mesmo o termo “rei” cabe, já que seu sonho era ser um dia o rei dos comediantes. Nem quero lembrar – e lembro – que, condizente com o desenlace do filme, o final da letra é uma afirmação suicida: “I´m gonna roll myself up in a big ball and die” – ´vou me enrolar numa grande bola e morrer´.

Suicida ou não, a vingança do coringa tem, sim, uma apoteose. É quando os palhaços profissionais da cidade se revoltam contra uma certa afirmação do prefeito (que um dia usara o termo “clown” / ´palhaço´ no sentido pejorativo) e empreendem um levante estrondoso que desarruma Gotham City.

Nesse levante, Arthur Fleck é alçado a “rei” (!) e uma das cenas mais emblemáticas de sua desesperada resiliência é aquela em que, depois de acidentado no carro da polícia, fragilizado e tombante, sente o calor do sangue na boca e, com um gesto sagaz, puxa o sangue para os lados e para cima e, assim, desenha um sorriso – o mesmo da sua máscara de palhaço. E nesse momento, o espectador recupera um remoto intertexto do filme, o romance do escritor francês Victor Hugo “O homem que ri”, também a estória sofrida de um miserável com uma deformação bucal que sugere sorriso, mas é dor.

Porém, penso eu, a mais memorável de todas as belas e cruéis imagens do filme é a seguinte a este sorriso ensanguentado: é – repito – a figura desse palhaço enlouquecido, maleável e elegante em sua extrema magreza, executando a sua desesperada e cativante coreografia em cima da lataria de um automóvel de polícia – claro, ao som de “That´s life

A propósito, acho o filme magnífico, mas, penso que seria mais artisticamente efetivo se tivesse se encerrado com esse fotograma. A cena seguinte, com Fleck na sala branca e fechada de um hospital psiquiátrico, sendo interrogado por uma médica, me soou como água na fervura – lembrando aliás, outro final choco, o do hitchcockiano “Psicose”.

Dizer o que mais? Um filme único, como não se fazia havia décadas. Um filme para ser mais sentido do que conceitualizado: gostaria que a senhora que o viu na minha sessão de domingo à tarde entendesse isso.

PÁSSAROS DE VERÃO

8 out

Com certeza, um dos mais belos filmes latino-americanos dos últimos tempos é este “Pássaros de verão” (“Pájaros de verano”, 2018) dos colombianos Cristina Gallego e Ciro Guerra, em exibição no Cine Banguê.

Com base na realidade, a sua poética narrativa nos conta a saga de uma família da Etnia Wayúu, na península Guajira, norte da Colômbia. Conta-nos como era um povo preso às suas belas tradições e como, por um percalço atrás do outro, foram levados a abrir mão disso tudo e de tanto mais… inclusive da vida.

Tudo começa lá por 1968, numa festa da comunidade em que a família da jovem Zaida a apresenta como núbil. O jovem Rapayet é quem se insinua como pretendente, mas a nada simpatizante mãe da moça, Ursula, exige dele um dote inviável para o seu modesto trabalho de cultor local de café: “30 bodes, 20 vacas e 5 colares”.

No esforço de conseguir a grana para o dote exigido, Rapayet dá início a um comércio perigoso, até então inexistente na região. Passa a vender a erva do lugar, maconha, aos jovens missionários da Peace Corp americana. Simples e inocente em si mesma, essa iniciativa deslancha uma cadeia de acontecimentos com dois efeitos dependentes: o rápido enriquecimento da comunidade Wayúu.. e a sua literal exterminação.

Os Peace Corps estão ali para prevenir os colombianos do perigo comunista. “No to comunism” é o lema exposto nas suas camisas, o que faz o amigo e sócio de Rapayet, Moisés, sugerir, em uma boutade franca e cínica, um amplo “sim” ao capitalismo. E é isso o que, daí em diante, vai fazer Rapayet…

Não convém contar os sangrentos detalhes do enredo, mas acho que é interessante apontar o belo e extremamente efetivo, do ponto de vista estético, intertexto da literatura clássica.

Vejam que a história inteira é, liricamente, narrada por um pastor cego que a “canta”, feito Homero. Sem coincidência alguma, os capítulos do filme são, como na Odisseia, chamados de “Cantos”. Cada “Canto”, com uma numeração, um subtítulo e, para marcar o caráter documental do narrado, uma indicação temporal: 1. “Erva selvagem” (1968), 2. “Tumbas” (1971), 3. “Prosperidade” (1979), 4. “A guerra” (1980) e 5. “Limbo” (1981).

Não seria demais dizer que o filme tem igualmente os ecos, bastante visíveis, aliás, de uma tragédia grega. Embora retrate a comunidade Wayúu como um todo, o protagonista da história é este Rapayet, com todos os elementos do herói aristotélico, inclusive com sua fundamental “falha de caráter”, no caso, a de haver se seduzido pela união com Zaida, ao ponto de corromper-se moralmente e entregar-se a uma segunda sedução: a do dinheiro fácil – tão fácil que, a partir de certo ponto da história, não ser mais contado, e sim, pesado.

Tudo bem, “Pássaros de verão” tem, claramente, a feição de um certo gênero cinematográfico, no modelo “saga criminosa”,  e pode fazer o espectador lembrar de outras sagas afins, como “O poderoso chefão” ou “Era uma vez na América” ou “Scarface”… Mas, creio eu, nele o equilíbrio entre as convenções de gênero e a força lírica tem um resultado estético todo particular.

Com certa razão, alguns críticos o têm comparado a “Bacurau”. E de fato, a comparação faz algum sentido. Primeiramente, pela qualidade cinematográfica de ambos; depois pela tensão entre contexto cultural e gênero (e o “western” vale para ambos), porém – não vamos esquecer – uma diferença essencial se encontra na linha tímica, ascendente no filme brasileiro, decrescente no colombiano.

E para não dizer mais nada sobre “Pássaros de verão”: um filme que recomendo… de coração e de mente.

AMORES DE CHUMBO

1 out

Em cartaz no Cine Banguê, “Amores de chumbo” (2017), da pernambucana Tuca Siqueira, é mais um dos filmes recentes sobre os fantasmas da ditadura brasileira.

Sem flashbacks gráficos, conta a história de um casal maduro que, hoje comemorando quarenta anos de casamento, é atropelado pela presença de uma figura que ressurge do passado, quando os três eram jovens e lutavam contra a ditadura.

Professor de sociologia na Universidade, Miguel é casado com Lúcia, e tem um filho e uma neta pequena. A recém aparecida Maria Eugênia havia sido seu grande amor do passado, mas o caso fora interrompido por cartas que a ele nunca chegaram.

As cartas – fica-se sabendo agora – foram desviadas pela sua atual esposa, e o conhecimento desse dado leva o casal a uma crise, como leva também ao ressurgimento dos sentimentos entre Miguel e Maria Eugênia.

Que rumo dar a essa história de amor e desencontro? Bem, o espectador terá que aguardar o desenlace e, aliás, com paciência, pois cada uma das cenas do filme é demorada e com pouco movimento interno. Tanto é assim que não há propriamente sequências (conjuntos de cenas com um eixo comum). A não ser que se diga que o filme inteiro é uma longa sequência.

Além disso, as encenações são teatrais, mas atenção, teatrais de propósito, o que já está indicado na inclusão da “peça de teatro” apresentada no auditório da universidade. Essa teatralidade é ubíqua, mas um bom exemplo dela está na cena que ocorre dentro da cela do ex-presídio, com Miguel e Maria Eugênia falando devagar e compassado, enquanto alisam as pareces imundas que tantas torturas escondem.

Em consequência, o ritmo é lento, outro fator que pode deixar o espectador impaciente, sobretudo se habituado à celeridade do cinema mainstream. Cena com algum movimento, só a do centro de Recife, quando Maria Eugênia, de volta depois de tanto tempo, passeia pelas ruas da cidade, sem deixar de passar na frente do Cinema São Luiz – mas isto é exceção.

Disse acima que não há flashbacks que recriem o passado do casal quando jovem, mas, de qualquer forma, essa lacuna (economia de produção?) é bem compensada pelas imagens das fotografias “antigas” e demais papéis de arquivo, isto para não nos referirmos às desviadas e decisivas velhas cartas de amor, finalmente queimadas numa cena privada que, por contraste bem concebido, remonta, simetricamente, à festiva abertura da história. Por sinal, simetria é um termo que vem ao caso em vários aspectos: lembrem como, em locais e momentos diferentes, as duas mulheres (primeiro a esposa, depois a amante) ensaiam suas respectivas seduções para Miguel – com coreografias muito semelhantes.

Um cacoete de estilo que funciona bem está em encerrar uma cena com uma pergunta não respondida. Por exemplo: na cena da cela do ex-presídio, Miguel pergunta a Maria Eugênia se há alguém em sua vida, e, sem resposta, vem o corte brusco para uma cena completamente diferente. Mais tarde veremos nós (mas Miguel, não) a resposta na tela do laptop de Maria Eugênia…

O diálogo tem lá seu capricho. Em classe, o professor de sociologia Miguel dá aula sobre a relatividade do conceito de “verdade” – uma palavra que, com esta mesma ambiguidade de sentido, vai aparecer nas falas dos personagens em vários momentos e em situações diferentes. Só pra lembrar: o filho do casal, Ernesto, ciente do lance da sonegação das cartas, consola a mãe assim: “eu sei que você tem a sua verdade”.

Aliás, esse filho, apesar do nome Ernesto (dado pelo pai, um fã de Che Guevara), é um bom representante diegético da juventude atual, bem menos ideologizada que os jovens de antigamente. Sim, de alguma forma melancólica, “Amores de chumbo” é um filme sobre a terceira idade dos revolucionários.

Vendo-o, senti ecos de outros cineastas, como o iraniano Kiarostami, o brasileiro Leon Hirzsman, o italiano Antonioni. Talvez seja delírio de minha cinefilia, mas, extremamente melodramática, aquela cena da acareação entre a ex-amante Maria Eugênia e a esposa Lúcia me parece dever um pouco aos filmes de amor do dinamarquês/americano Douglas Sirk.

Pode não ser um grande filme, mas, com certeza, este é um filme que cumpre bem o objetivo a que se propôs. Nem mais nem menos. Como diz sua dedicatória: “para todos os amores gerados em tempos estéreis”.

SANTIAGO, ITÁLIA

25 set

Lembram de “Desaparecido – um grande mistério” (“Missing”, Costa-Gavras, 1982)? Pois é, trinta e seis anos depois, a sua temática retorna às telas, agora em formato de documentário.

A temática é o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que, sob os auspícios dos Estados Unidos, tirou o socialista Salvador Allende do poder no Chile e pôs no lugar a sangrenta ditadura de Pinochet.

O documentário é “Santiago, Itália” (2018) do italiano Nanni Moretti, em exibição no nosso tão especial e querido Cine Banguê.

Mas, claro, os enfoques nos dois filmes são diferentes.

Na ficção (baseada em fatos reais) de Costa-Gavras um respeitável cidadão americano vai ao Chile visitar o filho, jornalista, e descobre que o rapaz se encontra desaparecido. Junto com a nora, apelam para a Embaixada americana, e, depois de muitas buscas inúteis, constatam o pior: que o rapaz fora uma das vítimas fatais do novo regime.

Já o documentário de Moretti é mais sistemático e mais direto, como, aliás, é próprio do gênero. Seu grande lance são os depoimentos de pessoas, hoje idosas, que foram vítimas do regime militar, ameaçadas, perseguidas, presas e/ou torturadas, e que, entre muitos percalços, sobreviveram.

De início, não entendemos por que essas pessoas falam italiano, e não espanhol. Um pouco adiante, na segunda parte do filme, vem o esclarecimento: elas estiveram no rol dos mais de duzentos “sortudos” que, na ocasião do golpe, receberam abrigo na Embaixada italiana, e, de lá, foram expatriados para a Itália, neste país se estabelecendo em nova forma de vida, hoje plenos cidadãos italianos. E aí o espectador retrocede e entende o título do filme: Santiago, Itália.

A narração começa, porém, bem antes disso, ainda na campanha de Allende pela eleição presidencial, com fotos e filmes de arquivo. Das falas de Allende e do apoio popular à sua proposta de governo, passa-se ao golpe, mas não sem antes apontar o quanto – no périplo de três anos – os militares, com os americanos por trás, engendraram situações econômicas e sociais que contribuíssem para o descrédito da gestão Allende. Do golpe mostram-se cenas no mínimo estarrecedoras, uma das mais plasticamente impressionantes sendo a do Palácio de La Moneda, destroçado e em chamas, bombardeado pela força aérea da ditadura.

O Palácio de La Moneda em chamas.

Para quem lembra o Moretti de “Caro diário” (1993), de “O quarto do filho” (2001), e de tantos outros filmes tristes e engraçados, desesperados e cômicos, reconhece, aqui, o seu jeito tão pessoal de fazer um cinema pessoal.

Mesmo se tratando de um documentário, um dos aspectos curiosos em “Santiago, Itália” é a sua parcialidade assumida. Entrevistando um dos militares que fizeram o golpe, em dado momento de acirramento, o próprio Moretti (que é, como sempre, um dos personagens do filme) manifesta sua posição de esquerda, afirmando taxativamente que não é imparcial. Em outras, palavras, que está fazendo um filme contra o conceito de ditadura.

Não é por acaso que sua câmera permanece ligada quando aquele senhor que se diz ateu, relatando a enorme e providencial ajuda humanitária às vítimas da ditadura, recebida de um certo cardeal da Igreja Católica, perde o controle emocional e… chora. Bem de propósito, Moretti concede tempo de tela a seu choro, e, conhecendo muito bem a resposta, lhe pergunta por que está chorando.

Enfim, um filme importante, entre outras coisas, para nos fazer lembrar os males de um regime militarista e os perigos de seu retorno. Pensando bem, sua exibição no Brasil do momento atual vem bem a calhar.

Vamos ao Banguê.

O cineasta e ator Nanni Moretti em cena do filme.

O HOMEM DE FERRO

18 set

Não curto esporte, mas gostei de ver o documentário “1932 – a medalha esquecida” (Ernesto Rodrigues, 2017), sintomaticamente (re)apresentado no Canal Brasil, no dia 7 de setembro deste ano.

Entre documental e ficcional, o filme reconstitui a história da participação brasileira nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932, com tudo que teve ela de patético e heroico.

Estávamos então no Brasil de Vargas, um país falido, com a queda da bolsa de Nova Iorque, queda que trouxe a desvalorização do nosso principal produto de exportação – o café, e, por tabela, a revolução constitucionalista de São Paulo.

Para Los Angeles segue a comitiva brasileira, no navio cargueiro Itaquicê, com falsa fachada de navio de guerra, escondendo, no subsolo, nada menos que 55 mil sacas de café e muita cachaça.

A falsa fachada bélica era para ganhar isenção da obrigatória taxa de travessia do Canal de Panamá, porém, a polícia local descobre a tramoia e a taxa tem que ser paga de qualquer jeito. As sacas de café eram para ser vendidas no percurso, para pagar a taxa de desembarque no Porto de Los Angeles, porém, que país da igualmente pobre América Central teria grana pra bancar tanto café? E em L. A. o nosso falso navio de guerra fica detido sem poder fazer o devido atracamento.

A corrupção brasileira vem de longe, diz a voz narrativa do filme, e para provar dá mais exemplos: a comitiva japonesa levou para L. A. 200 atletas e apenas dois técnicos. Já a comitiva brasileira foi com 80 atletas e cerca de 120 acompanhantes que pouco ou nada tinham a ver com esporte. Como a narração faz questão de mencionar, a cantora Carmem Miranda (ainda no Rio e ainda sem fama internacional) perde um namorado, pois o rapaz embarca na turma do oba oba para L. A.

O Itaquicê não atraca no Porto de Los Angeles, mas isto não impede que, lá onde estava, se transforme numa espécie de paraíso etílico-erótico, com farras monumentais que entraram para o anedotário da Califórnia. Em plena lei seca, os americanos não podiam tomar whisky em solo pátrio, mas, se entupiam de cachaça nas dependências do navio brasileiro, e isto, ao som do samba mais animado, executado por uma orquestra que fazia parte da tripulação.

Uma figura, no entanto, destoou dessa zorra toda, e nela o filme se centra: o atleta-marinheiro Adalberto Cardoso, que deixou sua marca na corrida de dez mil metros – não ganhando, e sim, perdendo, mas perdendo de forma heroica.

Ocorre que, junto com parte dos atletas, Adalberto fora instalado em São Francisco e, no dia em que devia competir, foi obrigado a fazer a difícil viagem num carro velho de São Francisco a L. A., uma viagem cheia de atropelos (carro quebrado no meio da estrada, fome, cansaço). De modo que, esgotado e mal nutrido, vestindo uma roupa emprestada de última hora (pois a pressa o fizera esquecer a farda no automóvel) enfrenta o desafio e vai sofrer o que poderia perfeitamente chamar-se de “o calvário na pista”.

Na corrida de dez mil metros, fragilizado e ofegante, fica atrás desde o início, porém, em sua posição de último lugar, corre – ou melhor dizendo, se arrasta – até o final, mesmo depois de o anúncio do nome vitorioso já haver sido devidamente divulgado pelos amplificadores. No seu penoso e demorado arrastado, sofre, como Cristo, três quedas e, diferentemente de Cristo, quanto mais se arrasta e mais cai, mais aplausos recebe das comovidas plateias americanas, boquiabertas diante de tão grande sacrifício inútil. No diante seguinte, os jornais de L. A. mal citam o Brasil: em seu lugar só dá “The iron man”, “o homem de ferro”, epíteto que honrosamente lhe concede a imprensa americana.

Em “Retratos da vida”, o cineasta francês Claude Lelouch conta uma história comovente que se inicia com uma derrota – a bailarina russa que não consegue o primeiro lugar no concurso do balé Bolshoi.

“Derrota” também é o tema no filme de Rodrigues, mas nele, a palavra é – em vário sentidos – mais grave.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e pesquisador Edônio Alves.

YESTERDAY

10 set

E se os Beatles nunca tivessem existido?

O filme “Yesterday” (2019), do cineasta inglês Danny Boyle, em cartaz na cidade, cria essa hipótese e viaja em cima dela.

Depois de sofrer um acidente de automóvel, o jovem compositor e cantor frustrado Jack Malic (Himesh Patel) vem a descobrir que, ao seu redor e no mundo todo, ninguém tem a mínima ideia de quem são os Beatles. Descobre esse fato estranho numa roda de amigos e amigas quando canta, no violão, o belo “Yesterday” e o pessoal pergunta que música era aquela.

Intrigado com o fato, Jack corre para o Google e lá, para seu espanto, comprova a inexistência do genial quarteto de Liverpool. Ao digitar a palavra “Beatles” o aplicativo a transforma em “beetle” (´besouro´), lhe fornecendo os dados e as imagens do tal inseto.

A primeira providência de Jack é tentar recordar, uma por uma, as letras das canções, já que ele é, agora, a única criatura no planeta que as conhece – uma espécie de museu musical ambulante. Tem trabalho com “Eleanor Rigby” e canções de letras mais longas, porém, no geral recorda quase todas, e não só isso, passa a cantá-las publicamente e, inevitavelmente, se transforma de repente no maior compositor e cantor do mundo – reconhecido até pelo astro pop Ed Sheeran, que, no filme é interpretado por si mesmo.

A fama, e uma série de pequenos mal-entendidos, fazem com que Jack perca a amizade e o amor de uma amiga íntima – Ellie Appleton, sua primeira agente – mas, esse desdobramento do enredo, que, da metade em diante, transforma o filme numa ´historinha romântica´, pode ficar pra lá.

O bom mesmo é a criação desses dois universos paralelos (um sem os Beatles versus o outro, com os Beatles), tão bom quanto as performances musicais do ator Patel, executando, no seu estilo, as canções que amamos, mais tarde acompanhado por conjuntos, em super-shows para plateias gigantescas.

Jack seria o engate entre os dois universos paralelos, porém, lá adiante, vamos descobrir que não é o único: um senhor e uma senhora, bem mais coroas que ele, um belo dia lhe aparecem do nada para lhe dizer – sem levantar nenhuma questão jurídica sobre falsidade ideológica – que ele está fazendo um belo trabalho e que estão gostando. E não fazem só isto: lhe dão um endereço secreto e, aí, Jack vai ter com ninguém menos que John Lennon. Pode? Em filmes de universos paralelos tudo pode.

O ator Himesh Patel e o músico Ed Sheeran em cena no filme

No desenlace, o cantor Jack assume a verdade, desiste da falsa carreira e volta ao grande amor reprimido do passado, o que, no meu entender, comprometeu um pouco a qualidade do filme, lhe tirando o ritmo e deixando no ar um certo cheiro de “não sabemos o que fazer com o final da estória e vamos encerrá-la assim,  desculpem”.

De todo jeito, gostei daquela cena bem no finalzinho, quando, Jack, conversando com a companheira Ellie, se refere por acaso a “Harry Potter” e ela pergunta: o que é isso? E aí se abre o espaço pós-tela para um novo mundo onde o best-seller de J. K. Rowling jamais teria existido, muito menos os filmes deles derivados…

Ufa! Ainda bem que era só Harry Potter, e não, por exemplo, William Shakespeare…

Até certo ponto, o filme tem as ousadias e as peripécias de Danny Boyle, que a gente lembra de “Cova rasa” (1994), “Trainspotting” (1996), “A praia” (2001) e “Quem quer ser um milionário” (2008), mas, aqui, com mais descontração e mais ludicidade.

À parte a questão da qualidade, “Yesterday” é um filme agradável, para se assistir com a mesma descontração nele proposta, se possível acompanhado de amigo(a)s com a mesma faixa etária sua e amantes dos Beatles. Foi o que ocorreu comigo.

Aliás, para dar a esta matéria um toque charmoso de Estética da Recepção, relato que, depois da sessão, comendo um delicioso spaghetti com as duas amigas com quem assisti ao filme, fiquei pensando em outros “universos paralelos”, no caso, no contexto brasileiro. Na verdade, confesso encabulado, que fiquei imaginando escrever uma estória em que Chico Buarque não existiria, e eu seria a única privilegiada criatura no universo a ter na memória as suas canções.

Não daria um conto legal, no estilo André Ricardo Aguiar? Só que iriam logo dizer que imitei o Danny Boyle – o que, obviamente, seria verdade.

Hemish Patel fazendo esforços para interpretar os Beatles…