O PRIMEIRO WIM WENDERS

15 abr

Sabe aquele filme que você conhece de referência, mas nunca assistiu? Meu caso com “O medo do goleiro diante do pênalti” (1972) que só agora vejo, esta semana, uma cortesia do Canal Arte 1.

Embora não curta futebol, o título sempre me intrigou, o mesmo em alemão, “Die Angst des Tormanns beim Elfmeter”, e mais ainda por ser a primeira realização de um cineasta que tanto admiro, o grande Wim Wenders.

A rigor, ele já era, na época, autor de uma série de curtas e de um trabalho de curso desconhecido, chamado de “Summer in the city”, e co-autor (com mais oito cineastas) do misterioso “Kaspar Hauser”, mas nada que lhe houvesse dado identidade fílmica – de modo que se pode dizer que “O medo do goleiro diante do pênalti” é o primeiro Wim Wenders.

O cineasta alemão Wim Wenders

O primeiro, e mesmo assim, só veio a público atrasado no tempo. Ocorre que o filme tinha uma rica trilha musical, com canções de, entre outros, Rolling Stones e Elvis Presley, e as gravadoras não autorizaram a distribuição. Em nova cópia, Wenders foi obrigado a mudar essa trilha musical, e claro, em detrimento da qualidade.

E de que trata o filme? Baseado em livro de Peter Handke, conta uma história de uma hora e quarenta minutos com um mínimo de ação.

Na Viena da época, o goleiro Josef Bloch engole uma bola, briga com o juiz, e é despedido. Depois disso, fica vagando por aí meio sem rumo. Conhece uma bilheteira de cinema, com quem sai, e… a mata. Em seguida, se desloca pra uma cidade vizinha, onde se hospeda na pensão de uma conhecida, e passa o tempo fazendo coisas indefinidas até o filme terminar. Uma das coisas que faz é ler jornal. Num deles, o caso da bilheteira estrangulada é mostrado, mas o assassino não foi identificado e nunca será… e assim o filme termina.

A última cena mostra Bloch assistindo a uma pelada, e explicando a um senhor ao lado, que na hora de uma cobrança perigosa, todo mundo olha a bola, mas ninguém presta atenção ao goleiro. Deve ser verdade, mas o filme não deixa claro por que a jovem bilheteira foi estrangulada por esse goleiro frustrado… E, suponho, o espectador tem, ao final, uma árdua tarefa de preencher as lacunas semânticas e temáticas com que o filme o abandona.

O ator Arthur Brauss, que faz o papel do goleiro Josef Bloch.

Tudo bem, aqui já estão alguns dos traços que entrariam no estilo Wim Wenders que veio a ser conhecido depois: a alienação, o comportamento antissocial, o vagar sem destino, a dificuldade de comunicação entre as pessoas, o vazio da existência, o gosto pela cultura americana (presente nas músicas), etc, mas de todo jeito, não posso dizer que o filme tenha me conquistado. Se o tivesse visto na época, não adivinharia, nele, o Wim Wenders dos belos “Paris, Texas” e “Asas do desejo”.

Bem ou mal, visto ou apenas noticiado, “O medo do goleiro diante do pênalti” deve ter entrado no clima do movimento de cinema, surgido então, e que foi, mais tarde, chamado pela crítica de “O novo cinema alemão”, do qual também fizeram parte importante Volker Schlondorff, Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog.

Enfim, não sei se, com a trilha musical original, “O medo do goleiro diante do pênalti” faria outro efeito. Nem sei e, pelo jeito, nem ninguém jamais saberá…

RATADAS DE CINÉFILO

1 abr

Esta semana (re)vi “Os amantes” (1958) e terminei rindo. Nada de engraçado no filme de Louis Malle, e o riso foi comigo mesmo.

É incrível como somos traídos por nossa memória. Vi o filme quando ainda adolescente e nunca mais o revi, salvo agora nesta mostra do Telecine. Pois, de lá pra cá, minha memória operou “modificações” consideráveis. Sim, no filme.

É o seguinte. Toda vez que, conversando com amigos, se fazia referência a “Os amantes”, eu ficava em dúvida se, realmente, o tinha visto. A filmografia de Malle eu conheço toda, porém, “Os amantes” por alguma razão, me escapava da lembrança. Se o vi (e agora estou certo disso) foi no velho e saudoso Cine Bela Vista, provavelmente promoção do pessoal que organizava o “Cinema de Arte”, lá por 1959 ou 60.

Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory em Os Amantes.

Mas, as coisas não batiam. Uma cena especial, supostamente muito erótica, que eu lembrava bem – ou achava que lembrava – era a de Jeanne Moreau com seu amante, os dois quase nus estirados na cama, ela beijando o corpo musculoso dele. E, na minha cabeça, sabe quem era o ator? Ninguém menos que Stephen Boyd (lembram dele como o Messala de “Benhur”?). Só que, quando eu procurava nas fontes devidas, não havia nenhum Stephen Boyd em “Os amantes”, e a esse propósito, em nenhum filme com a Moreau. Como pode?

Pois bem. Revendo agora o filme, o que constato? Stephen Boyd não está lá, mas está um ator que é a cara escaldada e esculpida dele, o Alain Cuny (lembram dele, como o amigo de Mastroianni em “A doce vida”?). Com um detalhe, e foi esse detalhe que me fez rir de mim mesmo: no filme, Cuny não é o amante da Moreau, é o marido, que em momento algum da projeção aparece fazendo amor com a esposa. O amante é o jovem Jean-Marc Bory, que de Stephen Boyd simplesmente não tem nada, digo, absolutamente nenhum traço semelhante.

Alain Cuny como o marido traído.

Ora, o que fez minha memória de cinéfilo? Tirou da cama da Moreau o corpo do amante, e lá colocou o corpo do marido. Não me perguntem por quê, pois não tenho a menor ideia. Só Freud pra explicar essa moralista interferência de espectador no filme de Malle. Aliás, por falar no pai da psicanálise, vejo que minha memória trabalhou assim como se diz que os sonhos trabalham, por associação e deslocamento…

Não é a primeira vez que minha memória de cinéfilo me trai, mas esta eu achei digna de nota.

Às vezes quero crer que o filme que vi no Bela Vista foi outro, e me ocorre um do mesmo ano, “Les bijoutiers du clair de lune” (horrivelmente traduzido no Brasil como “Vingança de mulher”), dirigido por Roger Vadim, que contém cenas de cama bem ousadas com Stephen Boyd, mas, a atriz não é a Moreau, e sim Brigitte Bardot. Além do mais, o IMDB me diz que o filme de Vadim é colorido, e o que lembro era – tenho certeza – preto e branco. Fica o mistério…

O ator Stephen Boyd, que não está no filme de Malle.

No mais, não lembro bem se na adolescência gostei de “Os amantes”, provavelmente sim, mas, agora gostei um pouco menos. Pareceu-me cheio daquele defeito do cinema francês, que algumas línguas maldosas resumem na palavra frescura. Os desempenhos parecem artificiais, e não convence muito o fogo da paixão entre essa burguesona e seu amante arqueólogo que a conheceu no meio da estrada, num carro quebrado, e isto, mesmo nas cenas de alcova mais “pesadas”, que, aliás, hoje parecem leves demais e até inocentes. O balé dos corpos de amantes é muito mais efetivo e mais belo num filme, também francês, da mesma época, “Hiroshima, meu amor” (Alain Resnais, 1959).

Depois da estreia, “Os amantes” entraria, por tabela, somente por ser francês, no território sagrado da Nouvelle Vague, mas esta é outra história de que não trato aqui. O assunto desta crônica é tão somente o estranho – e perigoso – trabalho da memória de um espectador de cinema.

CREPÚSCULO DOS DEUSES – setenta anos

22 mar

Há filmes que são maiores que o cinema. Filmes que são grandes, não apenas na história da sétima arte, mas na historia da Arte como um todo. Acho que é o caso de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), que por sinal está, neste ano de 2020, completando setenta anos.

E de sobra é também um filme sobre a história do próprio cinema, ou ao menos uma parte dela. Conta o drama de uma grande estrela da era muda, há muito aposentada, Norma Desmond (Gloria Swanson), que, nos seus cinquenta anos de idade, ou seja, no auge do cinema falado, amarga a solidão, o oblívio e a decadência. Decadência que ela atribui, não a si mesma, mas ao cinema falado: “Eu sou grande – diz ela – os filmes é que ficaram pequenos”.

Ora, o acaso lhe põe dentro de casa (digo, dentro de sua luxuosa mansão do sofisticado bulevar Sunset) um jovem roteirista de Hollywood, e, de repente, ela vê nele a esperança de um retorno retumbante às telas. Eufórica com a alternativa desse retorno, ela literalmente compra esse jovem roteirista em dificuldade financeira, que deve transformar uma mirabolante estória, escrita por ela mesma, num brilhante roteiro de filme que deverá ser um sucesso de crítica e público.

Gloria Swanson é Norma Desmond

Mesmo a contragosto, ele, Joe Gillis (William Holden) passa a residir na mansão de Norma Desmond, que o mima com luxos que ele nunca conhecera. O rapaz, por sua vez, entra em crise no dia em que percebe que não é mais, para a velha estrela, apenas um empregado, e sim, um suposto amante. Numa noite de vinho e tango, os dois quase a sós na velha mansão, ele recusa esse amor, e o corolário inevitável é, da parte dela, uma tentativa de suicídio.

A partir daí, a situação se torna insustentável e o pior está por vir. Mas, ora, esse pior já nos havia sido mostrado na abertura do filme: o corpo de um jovem roteirista, boiando na piscina com três tiros nas costas. A cena é plasticamente impressionante, pois vemos tudo de baixo pra cima como se estivéssemos, nós espectadores, no fundo da piscina. E tem mais, como em Machado de Assis, quem nos conta a estória toda, em seus mínimos detalhes é esse cadáver.

Brilhante.

Billy Wilder e Charles Brackett escreveram o roteiro juntos, roteiro que vagamente se baseou num boato criminal antigo, do tempo do cinema mudo, em que a atriz Norma Talmage estaria, ou não, envolvida no assassinato do cineasta William Desmond Taylor. A estória do filme ficou diferente, porém, de todo jeito, o nome da protagonista – Norma Desmond – veio da mistura dos dois envolvidos nesse caso obscuro.

Holden e Swanson em cena do filme

A primeira ideia da dupla era começar o filme com uma cena numa mortuária, com dois cadáveres conversando, um contando sua morte ao outro. Por sorte, desistiram e bolaram a cena da piscina, que aliás, deu um trabalho danado ao diretor de arte, John Mehen, já que a câmera não poderia se molhar, e ele teve que usar de criatividade para inventar uma tomada dentro de um tanque, com a câmera envolta em vidro.

Tempos depois da consagração universal do filme, Wilder disse à imprensa que era para ter sido uma comédia, com Mae West e Marlon Brando no elenco, mas, pessoalmente, não acredito: Wilder, como se sabe, era mestre em gozações.

Na verdade, o elenco primeiramente pensado era outro. O primeiro nome para fazer Joe Gillis não tinha perfil de cômico, Montgomery Clift, que, por motivos pessoais, desistiu antes de as filmagens começarem. O papel de Norma Desmond era para ter sido de Greta Garbo, ou Mary Pickford, ambas estrelas do passado que recusaram, mas hoje ninguém tem dúvidas que a escolha de Gloria Swanson – ela também uma diva do passado mudo – deu muito certo. Seu desempenho apropriadamente afetado foi perfeito, e muitas de suas cenas se tornaram antológicas, a exemplo, da sempre citada tomada do final, em que a velha atriz enlouquece de vez e, na chegada da polícia (foi ela quem atirou nas costas de Joe Gillis, na borda da piscina) pensa estar sendo filmada pela Paramount e, arrebatada pelas luzes, solta sua frase definitiva: “Estou pronta, Mr DeMille, para o meu close up”. (Referia-se ao cineasta da Paramount Cecil B. DeMille).

Depois desse papel, Gloria Swanson realmente decaiu e praticamente não filmou mais. Os personagens que lhe ofereciam, depois disso, eram derivações canhestras de Norma Desmond, que ela, felizmente, teve a sensatez de recusar.

Já Billy Wilder e Charles Brackett brigaram furiosamente sobre o modo de efetuar a montagem, este tentando amenizar o sentido mórbido do filme (lembram o velório do macaco?) e aquele enfatizando justamente isso.  E nunca mais trabalharam juntos.

Mas, a glória de “Crepúsculo dos deuses” está aí, pra quem quiser comprovar. Depois de setenta anos, parece cada vez mais forte, mas definitivo e mais tragicamente belo.

QUEM PODE DEIXAR DE LER UM LIVRO DESSE?

15 mar

 

Não sei mais quantos livros de cinema li na vida, mas o livro de Sérgio Augusto eu o li como se estivesse conversando com ele. Passava as páginas de “Vai começar a sessão – ensaios sobre cinema” (Objetiva, 2019) e me sentia, isso mesmo, batendo papo com o autor, trocando figurinhas de um álbum imaginário e fascinante. E olhe que nem nos conhecemos.

Não nos conhecemos? O amor pelo cinema e pela crítica nos une como se fôssemos velhos amigos – é esta pelo menos a sensação que alimento.

Li devagar, me detendo nos parágrafos, nas frases, e/ou nas palavras, vibrando com cada nova informação, confirmando as já conhecidas, e me deleitando com os temas escolhidos, os enfoques e as sacadas.

Que cinema está em “Vai começar a sessão”? O cinema dos cinéfilos. E inevitavelmente os cinéfilos da faixa etária do autor, ou, como eu, próximos dela. Embora os textos datem de 2001 ao presente, os filmes, eventos e personagens referidos são, em sua maioria, coisas, fatos e figuras do passado clássico, tempo da preferência do autor, que assim confessa várias vezes ao longo do livro.

No livro estão, de sobejo, sua erudição, seu conhecimento de causa, sua experiência, sua paixão, sua entrega, e, sobretudo, a leveza de seu estilo jornalístico, e, last but not least, sua esperta habilidade de concatenar o histórico com o pessoal, para usar uma categoria da teoria do cinema, o fílmico com o cinematográfico. Com efeito, uma das coisas boas do livro – e o livro está cheio de coisas boas – são os relatos pré e pós câmera, ou seja, os bastidores e os efeitos colaterais da sétima arte, com tudo que isso implica de gênio e de show business, de talento e de escândalo. Uma delícia.

O subtítulo diz “ensaios”, mas, a rigor este é um termo elástico – e ainda bem que é – onde cabem os conceitos de reportagem, crítica, e mesmo de crônica. Em muitos casos, os textos são depoimentos sobre eventos cinematográficos e, aí o autor nos mata de inveja com suas tantas viagens aos centros cinematográficos do mundo e seus encontros com gente famosa da área.

Para citar só alguns casos, morri de inveja de suas viagens pelos cenários hitchcockianos de “Ladrão de casaca”, e mais ainda, pela São Francisco de “Um corpo que cai”. Como também de suas conversas, no Rio dos anos sessenta/setenta com, por exemplo, François Truffaut, na estreia de “Jules et Jim”, e depois com Jeanne Moreau, na estreia de “Joana Francesa”.

O crítico Sérgio Augusto

Os assuntos dos 89 textos constantes do livro podem ser: a vida de um ator ou atriz, um filme, o métier de um diretor, a militância de um crítico, a participação de um escritor, uma fase do cinema, e/ou um gênero e/ou um dado técnico.

Na primeira categoria, alguns são: Greta Garbo, Marlene Dietrich, Bing Crosby, Bob Hope, James Dean, Jerry Lewis, Marilyn Monroe, Isabelle Hupert, etc. Na segunda: Matar ou morrer, Casablanca, Alamo, Curva do destino, O bouleverd do crime, Dr Mabuse, Terra em transe, etc. Na terceira: Jean Renoir, Ernst Lubitsch, Charles Chaplin, John M Stahl, Joseph Losey, Orson Welles, Dino Risi, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, etc. Na quarta: Moniz Vianna, Pauline Kael, Susan Sontag, Paulo Emilio, etc. Na quinta: Faulkner, Lévi-Strauss, Nabokov, James Baldwin, etc. Na sexta: o cinema dos anos setenta, o western e seu cenário, a chegada do cinemascope, a qualidade fílmica de Nova York, etc.

Não resisto em fazer um destaque para três crônicas comoventes, escritas com especial inspiração: “O cinema de garfo e faca” sobre a cinefilia gastronômica; “A bela e o monstro”, sobre seu contato pessoal com Sharon Tate; e “Miséria de vida”, sobre o encanto de “A felicidade não se compra”.

Moniz Vianna

O trabalho de Sérgio Augusto, claro, eu já conhecia, pois o acompanho de longa data e sempre fui seu leitor atento. Costumava ler seus comentários críticos circunstancialmente no Estadão, Veja ou Isto é, mas a sua fase que mais me pegou foi a do Pasquim, onde sua escrita entrava no clima de descontração peculiar ao jornaleco carioca, ou assim era lida.

Se não for ousadia minha, diria que, pessoalmente, me identifico com sua forma de tratar o cinema e sua maneira de escrever. Fui no passado (como ele) leitor do insuperável Moniz Viana e do vasto Paulo Emílio, porém, é com Sérgio Augusto que mais me identifico e – enxerimentos à parte – é com ele que me acho parecido.

Inevitavelmente, eu e ele escrevemos sobre as mesmas coisas. Como não? O seu relato sobre a estada de Orson Welles no Brasil poderia ser confundida com a matéria que fiz quando da chegada de “Four men on a raft”. (Conferir, neste blog, o ensaio “A cara brasileira de Mr Welles”, constante do livro “Imagens Amadas”). Suas várias abordagens de “Casablanca” coincidem, em vários pontos e aspectos, com os meus textos, também disponíveis neste blog, “Casablanca setentão” e “Vertigem no cânone”, este último sobre a pernada que o filme de Hitchcock deu no “Cidadão Kane”, ao lhe tomar, em 2012, o seu primeiro lugar na lista internacional dos melhores filmes do mundo.

Mas, você não precisa fazer crítica de cinema para amar “Vai começar a sessão”. Basta amar o cinema.

Em tempo: a sedução do cinéfilo já começa pela capa do livro: em posição de confronto, as figuras de Judy Barton e Madeleine Elster, personagens feitas por Kim Novak em “Um corpo que cai”.

Enfim, quem pode deixar de ler um livro desse?

Obs: Nos créditos do livro, consta que a foto da capa seria de “Sunset Boulevard”. Problemas de edição.

VELHINHAS CLÁSSICAS

9 mar

 

Neste 8 de março de 2020, Dia da Mulher, aqui homenageio dez atrizes do cinema clássico que, com charme e talento, nos encantaram nos velhos tempos, e que ainda estão vivas. Nos parênteses, os anos de nascimento. (As fotos, evidentemente, não são atuais).

 

Olivia De Havilland (1916)

Rhonda Fleming (1923)

Eva Marie Saint (1924)

Angela Lansbury (1925)

Gina Lollobrigida (1927)

Ann Blyth (1928)

Kim Novak (1933)

Sophia Loren (1934)

Julie Andrews (1935)

Ali MacGraw ( 1939)

PEQUENOS GESTOS

1 mar

Segurar a maçaneta da porta, apertando-a ou soltando-a, sem saber se deve descer do carro ou nele permanecer, enquanto o sinal não abre.

Perfilar os chinelos no assoalho antes de deitar-se, de forma que, ao acordar, se saiba onde pôr os pés sem sequer olhar pra baixo.

Fechar bem a garrafa vazia, antes de jogá-la fora, embora isto não faça a menor diferença, no deserto árido em que a pessoa se encontra.

Ao subir a velha escada de casa, beijar o enfeite do corrimão, embora ele esteja quebrado, como quase tudo nessa precária residência.

Entrar apressada no trem, sentar-se, olhar em torno a cabine e os passageiros, e, ato contínuo, levantar-se e sair na mesma pressa em que entrou, com o trem já dando partida.

O que podem significar estes pequenos gestos na vida de uma pessoa?

No geral e em si mesmos, não sei, mas nos filmes em que eles são mostrados significam muito – embora comumente passem despercebidos para a grande maioria dos espectadores. São pequenos lances de roteiro, ou de direção, ou das duas coisas juntas, que enriquecem tremendamente os filmes em que se encontram.

A MÃO NA MAÇANETA DO CARRO

Sentada ao lado do marido, na camioneta da família, Francesca olha a chuva lá fora. Sua mão direita se move e segura a maçaneta, como se ela fosse abrir a porta do veículo e pular pra fora, em plena chuva. Em seguida sua mão recua, afrouxa um pouco, para depois voltar a apertar a maçaneta, esse movimento nervoso se repetindo por alguns segundos – enquanto o sinal não abre. Lá fora, numa das calçadas da esquina, um homem ensopado pela chuva aguarda ansioso que ela tenha a coragem de abrir a porta da camioneta da família e correr, também ensopada de chuva, para os seus braços. “As pontes de Madison” (“The bridges of Madison County”, Clint Eastwood, 1995) não tem o final feliz que Francesca e os espectadores queriam, mas essa imagem de uma mão indecisa prendendo a maçaneta da porta do carro é um detalhe extremamente feliz.

CHINELOS EM ORDEM

“Sociedade dos poetas mortos” (“Dead poets society”, Peter Weir, 1989) é a estória de estudantes secundaristas numa tradicional e rigorosa escola americana. Um deles, contra a vontade da família, uma família mais rigorosa que a escola, quer seguir a carreira teatral, o que não lhe é, sob hipótese alguma permitido. Sentindo-se frustrado no fundo da alma, o garoto toma uma atitude drástica: comete suicídio.

E onde entram os chinelos em ordem? Horas após o suicídio, a câmera nos conduz ao quarto do pai rigoroso, que, vai se levantar com o telefone tocando e (nós sabemos) vai ouvir a terrível notícia. Pois antes de focar a figura do pai na cama, a câmera de Peter Weir foca os seus chinelos debaixo da cama, bem arrumadinhos numa simetria impecável – impecável como sua mentalidade ideologicamente simétrica, tão simétrica que levou o filho ao suicídio.

GARRAFA VAZIA FECHADA

No início de “Paris Texas” (Wim Wenders, 1984) estamos em pleno deserto, acompanhando essa figura estranha, um homem de roupa surrada e boné, que, sujo de poeira, caminha em linha reta, como se tivesse um destino. Logo saberemos que não tem um destino, sequer tem consciência de si mesmo. Mais tarde conheceremos seu drama (um lar desfeito, uma esposa devassa, um filho que não o reconhece), mas, por enquanto, é só um louco que observamos com curiosidade e talvez um pouco de impaciência. A certa altura da caminhada, ele toma o último gole de água de uma garrafa de plástico que carrega. Olha em torno a paisagem árida e inóspita, confere o vazio da garrafa e a joga fora, mas, atenção, não sem antes ter o cuidado e fechá-la com cuidado, girando a tampa até o fim.

O espectador pragmático pode se indagar por que, em pleno deserto, o cuidado de fechar a garrafa descartada, sobretudo partindo de uma pessoa que – visivelmente – não tem o mínimo cuidado consigo mesmo. Se esse homem está louco, tudo indica que (como em “Hamlet”) há método nessa loucura. O método veremos no desenrolar do filme de Wim Wenders, que, suponho, não preciso  reconstituir.

BEIJO NO CORRIMÃO

George Bailey entrou numa fria. Pai de família em séria dificuldade financeira, não vê saída pra seus problemas e decide pelo suicídio. Na hora do gesto drástico, ao invés de morrer, salva um afogado. Ocorre que o afogado era um anjo que lhe mostra que o mundo seria terrível se George Bailey nunca tivesse existido. E lhe dá a prova, prendendo-o dentro desse mundo sem George Bailey. Ao conseguir voltar ao mundo real – o seu precário mundo real – George passa a achar tudo maravilhoso, até o enfeito de corrimão quebrado, que, subindo as escadas para rever os filhos e a esposa, ele … beija. A cena é de “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946), mas duvido que os espectadores se detenham nesse beijo.

ENTRANDO E SAINDO DO TREM

Estamos na estação de Milford, Inglaterra. O trem noturno já apitou e a partida, para Ketchworth, está anunciada. Às pressas, entra essa mulher descabelada, senta, olha em torno, a cabine e os passageiros, e, ato contínuo, se levanta e sai, com a mesma pressa que entrara, ao som do derradeiro apito que indica a partida. Quando a cena acontece – em “Desencanto” (“Brief encounter”, David Lean, 1945) – já estamos na metade da estória de Laura, essa senhora bem casada, com dois filhos, que teve o infortúnio de se apaixonar fora do casamento. Em algum apartamento furtivo o amante a espera, enquanto, longe dali, na vizinha Ketchworth, o marido e os filhos aguardam, tranquilos, a sua habitual chegada, como ocorre toda quinta-feira.

LÁGRIMAS TARDIAS

19 fev

 

Quem iria ver um filme de um tal de Byron Haskin? Ninguém.  E se o filme for de 1949, com Lizabeth Scott, Arthur Kennedy e Dan Duryea? Nada disso ajuda muito e se você vai ver “Lágrimas tardias” (“Too late for tears”) é porque – como eu – é doido por filmes noir. Vai ver e não se arrepende.

A estória já lhe prende do início. Nos arredores de Los Angeles, esse casal que dirige em uma rodovia à noite toma um susto com um carro que vem em sentido contrário e quase abalroa. Depois do susto, notam que o motorista lhes jogou uma maleta preta. Curiosos abrem e, pasmos, constatam que a maleta está repleta de dinheiro. Pelo menos uns sessenta mil dólares.

O marido Alan Palmer (Arthur Kennedy) pensa em entregar esse tesouro à polícia, mas a mulher, Jane (Lizabeth Scott) não quer nem ouvir falar disso. Concordam que guardarão a maleta misteriosa por uma semana, tempo para pensar, conversar e decidir. Isso é só o comecinho do filme, e, pergunto, quem conseguiria parar aí?

Logo cedo, as concordâncias conjugais vão desaparecendo: “Não vê – pergunta Jane ao marido – que esse dinheiro foi literalmente jogado nas nossas mãos?” Ao que Alan responde: “Não percebe, Jane, que isso é uma bolsa de dinamites, algum pagamento indevido, provavelmente de chantagem?”

Assídua no gênero noir, Lizabeth Scott faz muito bem a típica femme fatale. Não que seja bonita, mas, ambição (e maldade) é o que não lhe falta e, claro, um certo cínico poder feminino de sedução.

Até o gangster Danny Fuller, feito pelo típico vilão de filmes noir Dan Duryea, ela consegue até certo ponto ludibriar. Ele que só confia, desconfiando. O apelido que ele lhe dá é perfeito: “tigresa”. Aquele beijo que os dois trocam, quando as más intenções recíprocas já estão bem postas, entra muito bem na galeria dos “beijos malvados” que um dia pretendo aditar e enviar de presente aos amigos cinéfilos.

Cada um tem seu instante de fraqueza, mas, isto é coisa pontual. Danny despencando pra embriaguez no momento de – sugestão de Jane para eliminar a cunhada Kathy, que dela desconfiava – comprar veneno pra uma segunda vítima, e Jane desmaiando ao constatar que o ticket que guarda a maleta do dinheiro na Estação Rodoviária fora substituído por um cartão em branco.

O enredo não é novidade (tudo girando em torno de uma maleta de dinheiro) nem precisa ser. O noir era feito disso – de um amontoado de clichés, cuja mistura sempre funcionava às maravilhas. Como se sabe, ajudavam muito nesse efeito, as angulações distorcidas, os jogos de luzes e sombras, e em particular a trilha sonora. Não esqueçamos: eram filmes baratos, realizados às pressas, para preencher o programa da semana, sem fiscalização das produtoras, e nunca foram feitos para ganhar Oscar. Nem ganharam. Sem a cobrança dos Estúdios, os diretores, menores ou maiores, se sentiam à vontade para rodar o filme do jeito que quisessem. É o caso desse Byron Haskin aqui.

Revendo “Lágrimas tardias” hoje, depois de tanta água rolada, dá pra notar como a tal maleta cheia de grana era um mero pretexto para pôr a estória em andamento e para revelar as características pessoais dos protagonistas, em termos modernos um autêntico “macguffin” – invenção genial do teórico da narrativa Alfred Hithcock.

Sim, há alguns turning points que conduzem a um final relativamente imprevisível, mas o núcleo da maleta perdura. Um desses turning points é o aparecimento súbito e inexplicável desse Don Blake (Don Defore), um suposto amigo do marido de Jane (este agora desaparecido, e, a gente sabe, morto).

O envolvimento de Blake com Kathy, a cunhada e vizinha de Jane, é o que vai dar ao espectador a esperança de que o mundo não é só dos malvados. A presença e ação do casal é que vão levar à revelação do passado criminoso de Jane/Lizabeth Scott e à solução do problema. Inevitavelmente, a tese é a de que “o crime não compensa”.

Mais um clichê, mas quem se importa?