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A pioneira Ida Lupino

25 ago

Hoje em dia, no mundo inteiro, o número de mulheres dirigindo filmes está próximo ao número de homens. Mas não foi sempre assim. Até a primeira metade do Século XX, mulher por trás das câmeras, só se fosse continuísta, ou maquiadora, ou figurinista.

A primeira mulher a romper a barreira profissional e impor-se como diretora de cinema foi a até então atriz Ida Lupino (1918-1995). E isto já nos anos quarenta/cinquenta. Nos Estados Unidos, antes dela, uma ou outra havia experimentado a mise-en-scène, mas sem sucesso nem prosseguimento – exceção feita apenas a dois nomes: Lois Weber e Dorothy Arzner.

Entre 1949 e 1966, Ida Lupino rodou seis filmes de longa metragem, e – por razões óbvias – nem estamos contando sua participação na televisão.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Com o título de “Never fear” (no Brasil, “Quem ama não teme”, 1949), seu primeiro filme era a estória de uma dançarina acometida de Polio que ficava paraplégica, e com muito sofrimento, recuperava a capacidade de se locomover.

No ano seguinte, enfrenta um tema difícil, sobretudo para a época, o estupro. O filme – que comentarei com mais detalhes adiante – é “Outrage” (´ultraje´), entre nós, “O mundo é culpado”, 1950.

Em 1951 vem “Laços de sangue” (“Hard, fast and beautiful”) a estória de uma tenista hesitante entre a profissão e o amor. Em 1953 ela se rende ao gênero noir e faz esse “Hitchhiker” (“O mundo odeia-me”), sobre um carona que se revela psicopata – tema, como sabemos, de muitas refilmagens posteriores. Neste mesmo ano também roda um filme de tema curioso em que um homem bem casado, mas sem filhos, é descoberto como pai em outro casamento: “The bigamist” (“O bígamo”).

O cartaz de "Outrage" : "O mundo é culpado", 1950.

O cartaz de “Outrage” : “O mundo é culpado”, 1950.

Seu último filme para o cinema passa-se todo em um convento onde três noviças cometem uma traquinagem atrás da outra, até o dia em que vestem o hábito e, então, passam a dar lições de vida. “Anjos rebeldes” (1966) só não fez mais sucesso por causa de “A noviça rebelde”, lançado no mesmo ano.

Voltando a “O mundo é culpado”, o filme conta a trágica estória de Ann Walton, essa mocinha de família modesta, filha única que ajuda os pais como funcionária de uma firma local. Tem um namorado e agora que o rapaz conseguiu um aumento de salário, resolvem pedir aos pais o consentimento para o noivado.

Tudo vai bem, até aquela noite em que, saindo do trabalho mais tarde, Ann é perseguida por um estranho. O estupro se consuma e, a partir de então, a vida de Ann passa a ser um inferno. Sentido-se observada por todos, na rua, no trabalho, onde vá, ela entra em crise e, embora o noivo mantenha a ideia de casamento, ela foge e vai viver anônima noutro lugar, bem longe de casa. No dia em que um rapaz de sua nova vizinha, cortejando-a, tenta beijá-la ela, apavorada, o atinge com um golpe fatal e vai terminar no tribunal de justiça, na condição de ré.

Como os outros filmes dirigidos por Lupino, “O mundo é culpado” é uma produção barata, distribuída pela RKO, realizada por um grupo pequeno, chamado de “The filmakers”, do qual faziam parte amigos e o então esposo de Lupino, Collier Young, na função de co-roteirista e produtor.

Cena de "Outrage", o estupro discutido.

Cena de “Outrage”, o estupro discutido.

Vocês hão de convir que, em pleno 1950 deve ter sido difícil rodar um filme com tal temática, e enfrentar o rigoroso e ainda vigente Código Hays de Censura. Tanto é assim que não há, na narrativa, nada que se diga explícito e, da atriz que faz Ann (Mala Powers) muito se exige em termos de expressões faciais, sem qualquer enfoque em outras partes de seu corpo.  Por exemplo: a cena da perseguição da vítima é longa e cheia de suspense, mas, o ataque mesmo acontece off-screen, e, mais tarde, em toda a sequência do júri, o crime de estupro é sempre referido pelo advogado como “Criminal attack” ou “Assault”, nunca como “rape” – a palavra inglesa para ´estupro´.

De todo jeito, uma coisa que impressiona em “O mundo é culpado” é a sua (lamentável) atualidade.

É possível que Ida Lupino não seja muito lembrada como cineasta, mas, com certeza, o espectador/leitor de mais idade recorda-se dela como a grande atriz que foi, trabalhando com astros de primeira grandeza e dirigida por mestres da direção em filmes que fizeram a história do cinema clássico. Ao todo, entre os anos de 1932 e 1978, ela atuou em mais de sessenta filmes, dos quais, para refrescar a memória do leitor, cito apenas cinco, sem coincidência, todos noir, um gênero em que ela sempre esteve muito à vontade:

“Seu último refúgio”, 1941, de Raoul Walsh, com Humphrey Bogart; “Dentro da noite”, 1940, de Walsh, com George Raft; “A taverna do caminho”, 1948, de Jean Negulesco, com Cornell Wilde: “Cinzas que queimam”, 1951, de Nicholas Ray, com Robert Ryan; “No silêncio de uma cidade, 1956, de Fritz Lang, com Dana Andrews.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

Fazendo (melo)drama

4 ago

Como se faz um melodrama? Hoje em dia não sei, mas nos velhos tempos da Hollywood clássica havia uma fórmula corriqueira e… eficaz. Ou fórmulas que se combinavam.

O tema, obviamente, tinha que ser o amor, e, claro, amor com conflito. Quanto mais intenso o amor, melhor; quanto mais ameaçador e intransponível o conflito, melhor.

A estória funcionava bem se fosse assim: os dois, homem e mulher, se conheciam por acaso, ficavam amigos e, dentro de pouco tempo, apaixonavam-se perdidamente. Depois de apaixonados é que o conflito ia se intrometendo – por exemplo: ela era solteira, porém, ele era casado.

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama...

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama…

O cenário ideal era um lugar romântico, se possível no exterior; a Itália, por exemplo. Mas, o que fariam na Itália esses dois americanos? Estavam de férias, livres de compromissos e rotinas, e por isso, mais abertos a novas experiências, ora.

Até aqui, todos estes itens estão dentro do roteiro de um monte de filmes que você já viu…

Mas, atenção: os roteiristas mais tarimbados tinham o direito de ampliar os contornos da fórmula e, por vezes, metiam desdobramentos narrativos mais complicados e mais ousados.

Suponhamos, portanto, que no dia do retorno à América – o dia do adeus – o casalzinho apaixonado, entre beijos, drinques e passeios turísticos, chegasse atrasado ao aeroporto e… perdesse o avião.

Elaboremos mais: suponhamos que no dia seguinte, os dois, tomando o seu café da manhã na pousada, lesse no jornal, abismados, que o avião sofrera um acidente do qual ninguém, ninguém mesmo, escapara.

Roma, cenário romântico de muitos melodramas...

Roma, cenário romântico de muitos melodramas…

Vejam só: de repente, os dois davam-se contas de que estavam “mortos” (entre aspas) para os seus respectivos familiares nos Estados Unidos e – assim quis o destino – vivinhos da silva na bela Itália, apaixonados e dispostos a viver um grande amor.

Pois é, vamos supor que ousassem fazer o gesto supremo de assumir novas identidades e nova vida, bem longe dos proibitivos grilhões domésticos. E assim, vão ser felizes para sempre, nesse paraíso romântico que é a bela e acolhedora Itália.

Como se trata de melodrama, naturalmente não serão felizes para sempre. E é aqui que entrará a parte mais grossa do conflito.

Que tal se, algum tempo depois de curtir o luto, a esposa dele – digo, a pseudo viúva – decidisse, junto com o filho adolescente, conhecer o país que o marido havia escolhido para gozar suas férias solitárias? E, evidentemente, por maior que seja a Itália, os roteiristas darão um jeito de perpetrar o desastroso encontro.

Não será muito legal que a “viúva” encontre o marido. Será bem mais efetivo que ela, por algum acaso, venha a conhecer a sua rival, a qual, por sua vez, depois do encontro, vai sofrer com a culpa e providenciar, para o filme, o desenlace melodramático que ele requer.

Um trabalho adicional da produção de um filme desses vai ter a ver com a música. Sim, terá que haver uma trilha sonora bem romântica, falando de perda, saudade e dor, alguma coisa assim como “September Song”, ou como o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Ou os dois juntos, combinados em arranjo perfeito.

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco...

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco…

Um lance interessante será dar à amante a profissão de pianista, de modo que isto facilite a intromissão da música no enredo.

O elenco terá que ser também bem especial, para agradar ao público pagante. Que tal Joan Fontaine e Joseph Cotten para o casal fujão e Jessica Tandy para a esposa chorosa? Acho que daria certo.

Não sei se, a essa altura dos acontecimentos, você identificou, mas o melodramático enredo aqui construído, com música, elenco e tudo mais, é de um filme existente. Talvez seja muito pedir a identificação do filme, mas, com certeza, os cinéfilos de carteirinha, já chegaram lá.

La vai: o filme é “Paraíso proibido” (“September affair”), uma produção em preto-e-branco da Paramount que o mestre William Dieterle dirigiu em 1950.

O interessante não é tanto que “Paraíso proibido” caiba, inteiro, dentro de fórmulas. O interessante é que, do jeito que está feito, as fórmulas funcionam. E muito bem.

Revi há pouco, e confirmo.

Na abertura desta matéria, digo que não sei como se fazem melodramas hoje. Na verdade, desconfio que não se fazem mais.

O cartaz original de "Paraíso Proibido".

O cartaz original de “Paraíso Proibido”.

Christabel

31 mar

As relações entre cinema e literatura nem sempre são óbvias e, às vezes, me parece, quanto menos óbvias, mais férteis.

Vejam o caso desse filmezinho de Nicholas Ray, de 1950, “Alma sem pudor”, no original “Born to be bad” (´Nascida para ser má´), que a crítica – acho que injustamente – teima em subestimar.

Como o seu coetâneo “A malvada” (“All about Eve”, 1950), conta a estória de uma moça que vive para subir na vida. A “Eve” de Mankiewicz quer uma carreira de atriz, mas a nossa Christabel – eis o seu nome – quer um marido rico que ela possa, se for o caso, divorciar e herdar sua fortuna.

Christabel observando suas vítimas...

Christabel observando suas vítimas…

Quando o filme começa Christabel é só uma jovem estudante de Biblioteconomia que tem um tio editor em São Francisco. A pedido dela, o tio acerta para que ela venha morar na casa de uma funcionária sua, Donna, a qual ocorre ser noiva de um rapaz rico, Curtis. Desde que se conhecem, o plano de Christabel passa a ser: dar um jeito de desfazer o noivado de sua anfitriã e, claro, conquistar o noivo. O que ela faz com competente artimanha e sem nenhum escrúpulo.

Casada com Curtis, ela torna-se uma invejada senhora da sociedade de São Francisco, e tudo iria bem se, antes, não lhe tivesse aparecido esse cara atraente, Nick, escritor em ascensão, por quem se apaixona. Ele, também apaixonado, quer ficar com ela, porém, Christabel não abre mão do dinheiro do marido. E o drama está dado.

Espécie de melodrama noir – daqueles que a RKO gostava de rodar – “Alma sem pudor” vai fundo na análise da personalidade ambiciosa que, na vida diária, calcula cada passo, cada gesto, cada palavra, para obter os fins desejados, sejam esses fins materiais (a fortuna alheia), ou de outra natureza (o amor do amante). Quem faz Christabel é Joan Fontaine, seu primeiro ´papel malvado´, tão bem interpretado que nada fica a dever à Anne Baxter do já citado “A malvada”.

Christabel sendo observada...

Christabel sendo observada…

Mas, onde está a relação com a literatura? Pois é, a ficção literária está repleta de ardis femininos, porém, no caso presente, a fonte é inequívoca, como indica o nome da protagonista. Sim, toda a leitura do filme seria outra, se o nome da personagem principal não fosse justamente Christabel, o mesmo nome que dá título a um famoso poema narrativo do grande poeta inglês do século XIX, Samuel Taylor Coleridge.

Como quase tudo em Coleridge, o poema é gótico e, cheio de florestas, brumas e mistérios, situa-se na Idade Média. Não tenho espaço para reproduzir o seu longo e tortuoso enredo, mas devo dizer que sua estória gira em torno de duas donzelas, uma boa, Christabel; a outra má, Geraldine.

Acontece, porém, que o poema é de propósito ambíguo e, em várias instâncias, confunde as duas figuras como se fossem uma só. No castelo desse barão viúvo, a filha, Christabel, acolhe a bela e misteriosa estranha, Geraldine, que foi atacada por homens na floresta e que, à noite, dorme nos seus braços. Interpretações freudianas à parte, as duas moças fazendo amor no leito parecem ser, no contexto do poema, os dois lados – o bom e o mau – de uma mesma criatura.

Posando para um quadro valioso...

Posando para um quadro valioso…

Não admira que, no filme, uma das verdades jogadas na cara de Christabel pelo amante Nick seja esta: a de que existiriam duas Christabels, uma falsa, a outra verdadeira. Uma, a Christabel que só pensa em ascender socialmente; a outra, a que se apaixona sem interesse. O problema é como conciliá-las, ou talvez, suspeita ele, não haja chance de conciliação.

Nick, que é escritor, certamente leu Coleridge, e sabe o que diz. Visivelmente é o alterego do roteirista, ou do diretor do filme. Sintomaticamente, é da sua boca que saem os melhores momentos do diálogo. Duas expressões suas foram títulos provisórios do filme: “all kneeling” (´todos de joelho´: referência irônica ao que deviam fazer as pessoas na presença de Christabel) e “a bed of roses” (´um leito de rosas´, referência igualmente maldosa à vida de casada da amante).  Outros exemplos que vêm ao caso: respondendo a uma declaração de amor da amante ele, sem hesitar, retruca que “só há uma pessoa no mundo, Christabel, que você ama. E é um amor de vida inteira”. Bem mais tarde, ao dar-se conta da incorrigível maldade da amante ele, acenando um adeus definitivo, solta sua tirada mais contundente e também a mais dramática: “Te amo tanto que gostaria de gostar de ti”.

Ao redigir esta matéria, consultei a fortuna crítica do filme de Ray, e me surpreendi ao constatar que nenhum dos seus comentaristas anglo-americanos faz qualquer referência ao poema de Coleridge. Fico pensando que, se um poeta fundamental como Coleridge estivesse no repertório cultural desses comentaristas, talvez a cotação crítica de “Alma sem pudor” fosse um pouco mais alta.

Joan Fontaine em "papel malvado"...

Joan Fontaine em “papel malvado”…

Menores que nós

3 jul

Estamos em Belo Horizonte e a data é 19 de junho de 1950. Mais especificamente, o local é o Estádio de Futebol da cidade, o evento é o primeiro jogo da Copa do Mundo, e as seleções em confronto são a inglesa e a americana.

Lotando as arquibancadas, os mineiros e demais brasileiros presentes torcem com gosto pelos americanos e têm uma razão para isso: a seleção inglesa é uma das favoritas da Copa, ao passo que a americana, coitada, mal citada na imprensa, não constituirá perigo para o Brasil, quando ou se a ocasião chegar.

A partida é renhida e o resultado – surpresa para todos! – é “um a zero” para a desprestigiada seleção americana, cujos jogadores comemoram feito loucos, levando nos braços, campo afora, o autor do gol, Joe Gaetjens, o único negro do time.

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Cinquenta e cinco anos depois, quem conta o fato é o cineasta americano David Anspaugh no seu filme de 2005 “Duelo de campeões”, título português pouco apropriado para o original, bem mais modesto, “The game of their lives” (‘o jogo de suas vidas’). Sim, pois, composta quase toda de jogadores inexperientes, a precária seleção americana não tinha nada de campeã, e, baseado nos fatos reais, o filme narra, desde o início, a sua problemática formação, com todos os duros percalços, até a zebra de 19 de junho em Belo Horizonte.

Tudo começou na pequena St Louis, Missouri, onde um grupo de rapazes, quase todos ex-combatentes na II Guerra e quase todos de descendência italiana, passava o pouco tempo livre de que dispunha, treinando esse esporte tão pouco popular nos States, lá chamado de “Soccer”. Ninguém sabe bem como, esse pessoal inexperiente e sem currículo esportivo é convidado a integrar a seleção do país, para a disputa da Copa do Mundo. Os familiares não vêem com bons olhos esse gosto por soccer, mas os rapazes enfrentam a oposição como podem. Um está de casamento marcado, o outro deve fazer curso técnico para seguir a profissão do pai, um outro tem medo de avião… No final, esses e outros problemas são contornados e Borghi, Bahr, PeeWee, Gloves, Pariani e Keough são levados a Nova Iorque para juntar-se ao resto da equipe.

Cheios de desentendimentos e pessimismos, os treinos em Nova Iorque não ajudam muito e, mais apreensivos que felizes, esses rapazes provincianos embarcam para o Rio de Janeiro, e, de lá, entre sambas e bandeiras verde-amarelas, para essa cidade de que nunca ouviram falar, de nome difícil de pronunciar, Belo Horizonte, onde, por azar, enfrentarão justamente a seleção que mais temiam.

Anspaugh faz questão de concluir a narrativa na euforia do gol em Belo Horizonte, até porque, como se sabe, foi este o único momento de glória da seleção americana naquela Copa. Depois disso, corta-se a narração para o tempo presente (ou seja, o ano de 2005), e, numa celebração na St Louis de hoje, mostram-se, documentalmente, alguns dos jogadores da heróica seleção, hoje idosos, mas sorridentes e orgulhosos de seu feito.

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Obviamente, “Duelo de campões” tinha que ter aquele tom patriótico que tanto agrada às platéias americanas. Se os Estados Unidos nunca foram bons em futebol, a estória sobre o esporte bretão a contar tinha que ser esta, e exatamente até aí, o instante de um gol, pela diegese tornado mítico. Como anuncia o cartaz do filme “America´s finest moment in the world´s greatest game”: ´o melhor momento dos Estados Unidos no maior esporte do mundo´.

Não se trata, de modo algum, de um grande filme e a crítica concorda, por exemplo, em que está muito aquém do excelente “Momentos decisivos” (“Hoosiers”), filme de Anspaugh também sobre esporte que, em 1986, deu um Oscar de coadjuvante a Dennis Hopper. De fato, os personagens não têm densidade psicológica, ao desenvolvimento do enredo falta originalidade, e o desenlace é excessivamente previsível.

De qualquer forma, acho que “Duelo de campeões” é um filme interessante para o espectador brasileiro, especialmente para o amante de futebol.

Se não agradar muito enquanto cinema, agradará de outro modo. Não sei que resultado teremos nesta Copa de 2014, mas, como, de qualquer maneira, já somos penta, talvez, vendo o filme de Anspaugh, nos regozijemos com a ideia ufanista de que, pelo menos em um item particular, os imperialistas do planeta são menores que nós.

Por aí.

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Maracanã, 1950

19 jun

Que resultados teremos no dia 13 de julho ninguém sabe, mas, esta Copa em solo brasileiro nos faz lembrar – com receio ou com esperança – que já tivemos uma outra aqui, infelizmente de triste fim.

Até eu, que não curto futebol, sei do caso. Foi em 1950: na partida final, jogando em pleno Maracanã, na condição de favorito absoluto para quem um empate seria vitória, o Brasil, por causa de um gol aos 34 minutos do segundo tempo, que mudou o placar de 1 x 1 para 2 x1, perdeu para o Uruguai, no dia 16 de julho de 1950, possivelmente a data mais fatídica de toda a história do esporte brasileiro.

o gol que fez o país chorar

o gol que fez o país chorar

Tão fatídica que virou literatura e, depois, cinema. Foi o gaucho Jorge Furtado quem teve a idéia de adaptar para a tela o texto de Paulo Perdigão “Anatomia de uma derrota”, e fez o belo curta-metragem “Barbosa” (1988). Barbosa, para quem não sabe, era o nome do goleiro que sofreu o gol do artilheiro uruguaio Ghiggia, gol que fez muitos milhões de brasileiros chorar.

No filme de Furtado, um senhor, carioca de meia idade (Antônio Fagundes) entra numa máquina do tempo e vai parar nas arquibancadas do então recém construído Maracanã, exatamente no dia da final Brasil vs Uruguai, local onde, trinta e oito anos atrás, ele estivera como criança, na companhia do pai.

A angústia é grande, já que ele sabe o resultado do jogo. Sabe, mas – como todo torcedor brasileiro – nunca se conformou. E o que faz? Ao se aproximar o momento fatídico do gol uruguaio, ele deixa a arquibancada e, sorrateiramente, se dirige a uma entrada do estádio que leva aos fundos do campo, por trás da trave de Barbosa, com a intenção de avisar ao goleiro brasileiro, exatamente na ocasião do chute do adversário, e assim, evitar o trágico gol.

A entrada não é permitida, mas, em um instante de distração do guarda, ele o dribla e adentra os arredores da quadra, e, por trás da trave, no exato momento em que o artilheiro uruguaio chuta a bola, ele grita a todo pulmão “Barbosa!”.

Cenas de rua no filme semi-docujmental de Jorge Frutado

Cenas de rua no filme semi-docujmental de Jorge Frutado

Ora, o que acontece? Ouvindo o seu nome chamado, Barbosa se vira para trás e, por causa disso, a bola entra na trave… e o gol foi feito.

Triste conseqüência: ao invés de evitar o gol, o nosso personagem o provocou. E agora, vai carregar nas costas, pelo resto da vida, a culpa da derrota brasileira de 1950…

Como se percebe, o filme é um ensaio criativo e inteligente sobre o imaginário do torcedor, sempre povoado, como sabemos, dos sonhos mais ditosos, e – já que a um time ganhador tem que corresponder um perdedor – dos pesadelos mais horrendos.

E aqui o pesadelo é mais horrendo, porque tem, nas imagens do filme, o seu lado cru e cruelmente realista.

As cenas ficcionais são todas circundadas por filmagens documentais de arquivo, e o filme já começa, nos seus créditos, com a transmissão radiofônica verídica dos momentos que precedem o jogo, o locutor, enfatizando o favoritismo do Brasil, informando sobre os preparativos da partida, e convidando ao microfone, ninguém menos que o prefeito da cidade Ângelo Mendes de Morais, o construtor do estádio carioca. “Eu, que vos dei o Maracanã, – diz a voz emocionada do prefeito – já vos considero vencedores”.

Antônio Fagundes em cena do filme

Antônio Fagundes em cena do filme

Igualmente documentais, e mais recentes no tempo, são as entrevistas com o próprio Barbosa, que relembra o passado com a melancolia de um injustiçado. Como é sabido, por causa daquela falha infeliz, o jogador tornou-se uma espécie de persona non grata do mundo futebolístico e viveu, para sempre, no ostracismo e na miséria. Conta ele em dado momento da entrevista que, algum tempo depois do jogo, despachando na sua humilde loja, uma freguesa teria dito ao filho pequeno, lhe apontando um dedo acusativo: “está vendo, meu filho, foi este homem que fez o país inteiro chorar”.

Mas, as cenas documentais de arquivo mais doídas são, sem dúvida, aquelas da saída do estádio, depois do jogo findo, mostrando a multidão caminhando meio sonâmbula, milhares de desesperados e desiludidos, alguns chorando pelas ruas, muitos sem entender bem o que havia acontecido e por quê.

Em 1950 eu tinha apenas quatro anos de idade e não lembro nada, mas lembro bem, oito anos adiante, a Copa de 1958, e hoje me dou conta de que, embora o lugar e os adversários fossem outros, as estrondosas comemorações dessa primeira vitória brasileira na Copa “descontavam” a fatalidade de 50.

Infelizmente mal conhecido dos torcedores, o curta-metragem de Furtado é extremamente bem concebido e realizado, além de tocante, até para quem, como eu, não acompanha de perto o esporte bretão. Aos interessados, aproveito para informar que “Barbosa” está inteiramente disponível no Youtube.

Enfim, fiquemos por aqui, torcendo para que o dia 13 de julho de 2014 nada tenha a ver com o 16 de julho de 1950.

Moacir Barbosa, tema do curta de Jorge Furtado.

Moacir Barbosa e a Copa de 1950, tema do curta de Jorge Furtado.