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Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

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Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.

 

Página de jornal velho

12 out

Em suas pesquisas iconográficas sobre o passado da cidade de João Pessoa, o poeta Águia Mendes nos brindou, recentemente, com fotografias das páginas do extinto jornal O Norte, em edição de março de 1960. (Vide: FaceBook).

Uma dessas fotografias mostra a programação do Cine São José, e isso me enviou ao passado, quando eu, garoto e morador de Jaguaribe, frequentava os três cinemas do Bairro.

Incrível como a fotografia de uma página antiga de jornal pode mexer com suas emoções. Olhando a foto, de repente, estou no Jaguaribe do comecinho dos anos sessenta. Nos meus treze anos de idade, ajudava meu pai na padaria que sustentava a família, rua Primeiro de Maio com Senhor dos Passos. Tanto despachava no balcão, como entregava as sacolas de pão nas mercearias do bairro, que eram muitas. A mesada que recebia desses serviços me permitia ir ao cinema e ver o que bem entendesse e a censura permitisse.

cine-sao-jose-1960

Ao Cine São José fui com assiduidade, tanto às superlotadas soirées de final de semana, como a outras, em outros horários. Lembro com melancolia as matinées de domingo, em que vi tantos filmes de aventura que o tempo apagou da memória.

Na página fotografada de O Norte estão alguns dos filmes que vi no São José: a chanchada brasileira “O homem do Sputnik”, com Oscarito; a comédia americana “O bamba do regimento” com Jerry Lewis; o drama bíblico “O filho pródigo”, com Lana Turner; mas, nenhum desses teve a repercussão de “Sissi, a imperatriz”, o segundo filme da trilogia sobre a imperatriz austríaca, tão inesquecivelmente interpretada pela jovem e bela Romy Schneider.

Ainda hoje recordo a noite em que fui ao São José para ver esse filme. Eu havia me submetido a uma grave cirurgia de hérnia e estava saindo de casa pela primeira vez. Levaram-me minha irmã Genilda e o namorado Jackson, e a sessão estava cheia, com espectadores da vizinhança trazendo suas cadeiras de casa para completar a lotação do cinema – um costume que nunca vi, em nenhum outro cinema da cidade.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São  José.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São José.

A programação fotografada que se vê na página de O Norte deve ser de um dia de semana, pois o filme em cartaz, anunciado para as 19:45 horas, “Sob a lei da chibata”, só será exibido em um “único dia”. Calculo que esse único dia seria uma segunda-feira, dia sem prestígio para filmes sem prestígio. Para “amanhã” (provavelmente para a terça-feira e quarta) está anunciado “Rua dos fracassados”, outro filme para o qual não se conta um grande público, provavelmente bolado e exibido para uma plateia específica, fã de policiais ou filmes de ação.

As bilheterias mais promissoras ficavam para o fim de semana, e o anúncio já está dado, um pouco abaixo: “A partir de sexta feira”, “O bamba do regimento”, do qual – como nos casos anteriores – se oferece um miolo de enredo: “Ele era um problema para o sargento, um pesadelo para o capitão, e uma catástrofe para o general”. Com os nomes no elenco: Jerry Lewis e Phyllis Kirk. E com um “Vem aí!” exclamativo, sem datas especificadas, se anunciam ambos, o filme austríaco e a chanchada brasileira. Para a Semana Santa fica “O filho pródigo”, com o aviso de “cinesmascope”.

Para quem não lembra, ou não sabe, o Cine São José ficava na rua Senador João Lira, número 697, esquina com a rua Floriano Peixoto. Fundado em 1952, funcionava no prédio do Círculo Operário e tinha sessões diárias. Segundo dados deixados pela Companhia exibidora de Luciano Wanderley junto aos distribuidores, o cinema fazia uma média de 410 sessões por ano, que recebiam 51.635 espectadores.

Uma cena de "Sissi, a imperatriz", visto em 1960, no Cine São José.

Uma cena de “Sissi, a imperatriz”, visto em 1960, no Cine São José.

O Cine São José não era uma construção autônoma: fazia parte de um bloco maior, o prédio do Círculo Operário, este ocupando todo um quarteirão da Senador João Lyra. Mesmo sem individualidade arquitetônica era aconchegante, pelo menos para mim o foi. Tinha uma boa sala de espera, com uma escadaria curva que dava acesso ao setor superior, preferido pelos casais com intenções não propriamente cinematográficas. Seu salão de exibição era vasto, de dimensões mais ou menos quadradas. Se não me falha a memória, as últimas filas de assentos eram interrompidas, em dois pontos, por pilares redondos que sustentavam o setor superior da plateia.

Anos mais tarde, o Cine São José, não sei com que auspícios (possivelmente do pessoal do Círculo Operário), passou a incluir filmes de arte em sua programação e, num tempo em que, maiorzinho, já me interessava por crítica cinematográfica, lembro de ter visto lá raridades do cinema internacional, como o filme japonês Não deixarei os mortos, e outros de nacionalidades igualmente remotas.

Mas, volto a vista para a velha página de O Norte, e torno a ser criança, e assim permaneço por mágica fração de tempo.

Obrigado, poeta Águia Mendes pela visita ao Cine São José.

A jovem e bela Romy Schneider...

A jovem e bela Romy Schneider…

Com Madalena, no ap de Billy

20 mar

Um dos meus filmes mais amados e mais revisitados é “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, 1960, de Billy Wilder). Revisitei-os tantas vezes que ele terminou por entrar na apertada lista dos meus dez mais.

De “Se meu apartamento falasse” conheço todos os detalhes e tenho, na cabeça, todo o seu sequenciamento de cenas. Sei, quase de cor, os diálogos principais e ainda hoje vibro quando Fran (Shirley McLaine), dias depois de sua tentativa de suicídio por desilusão amorosa, indaga a si mesma e a Baxter (Jack Lemmon) por que será que ela, ao invés de sofrer com quem não a ama, não se apaixonava por um cara tão legal como ele, e este, filosófico e brincalhão, responde que “That´s the way it crumbles, cookie-wise”.

the apartment Baxter at work

Os tradutores das legendas se embaraçam com a frase, e com razão.  Esse “it” é uma referência à vida e uma tradução livre mas fiel seria mais ou menos “é assim que a vida se esmigalha: feito um biscoito”, sugerindo que ninguém pode fazer nada em relação ao modo como as coisas acontecem. No final do filme, quando o amante sacana (Fred McMurray) conta a Fran que Baxter perdera o emprego por causa dela, ela de súbito entendendo o que houve (paixão), responde com a mesma frase que ouvira de Baxter, e sai correndo em busca de seu novo e sincero amor.

Sempre houve, porém, uma coisa em “Se meu apartamento falasse” que me escapava e me intrigava, no caso, em sua trilha sonora. Adoro o tema melódico principal do filme, a bela composição de Adolph Deutsch, porém, a minha dúvida não residia aí. Residia numa outra música do filme, mais circunstancial, porém não menos importante na perspectiva da diegese, aquela que, com certa insistência, ouvimos toda vez que os mal intencionados colegas de Baxter se dirigem ao seu mui visitado apartamento.

Isto para não dizer que ela é executada para o próprio Baxter. Vocês lembram: na noite de Ano Novo, ele, solitário e desiludido, leva para casa aquela coroa meio porra louca que o abordou em um bar. Ao entrarem no apartamento, os dois bêbados, a primeira coisa que Baxter faz é ligar a radiola e por um disco, e a música toma conta do ambiente, enquanto o casal furtivo, gingando com o ritmo, faz os preparativos para sua performance erótica.

the apartment New Year´s Eve at the bar

Pois eu sempre achei que conhecia essa música, de onde, exatamente, não tinha a menor ideia. No filme, a execução é só instrumental, sem palavras, mas havia, nela, alguma coisa, vinda do fundo da minha memória auditiva, – como se da minha infância – que me dizia que aquela música era familiar. Em conformidade com o erotismo sugerido nesta cena e alhures, trata-se de uma música animada, de ritmo quente, feita para movimentar o corpo, com todo o jeitão de samba.

De samba? Foi aí que a ficha caiu. Um belo dia, fiquei, depois do filme revisto, com a música na cabeça e, solfejando-a de mim para mim, matei a charada. Sim, no meio do solfejo, as palavras começaram a me ocorrer: ´chorar/chorei/amar/amei…’ Não havia dúvidas: era um sucesso dos velhos carnavais brasileiros, lá dos inícios dos anos cinqüenta, por isso mesmo estava correta a impressão de estar tudo ligado a minha infância. O nome veio logo em seguida, “Madalena”, e abaixo reproduzo a primeira estrofe da letra que, tenho certeza, o pessoal da minha faixa etária facilmente identificará:

“Chorar como eu chorei, ninguém deve chorar; amar como eu amei, ninguém deve amar; chorava que dava pena, por amor a Madalena, e ela, me abandonou, diminuindo no jardim uma linda flor…”

the apartment Shirley MacLaine

A partir daí, parti para a pesquisa. Os autores são Ari Macedo e Airton Amorim e, em 1951, a canção foi gravada por Linda Batista, conquistando os foliões daquele ano e perdurando por muito tempo entre uma das mais curtidas da MPB.

Identificada a música, vieram as perguntas, para as quais infelizmente não tenho resposta. Como a equipe de Billly Wilder chegou a essa canção carnavalesca brasileira, e, mais importante, por que ela sequer é creditada no filme? Se não foi creditada, não houve reclamações? Os autores brasileiros nunca se manifestaram sobre o fato de ter uma canção usada em um filme que, inclusive, ganhou o Oscar do ano? Que disco é aquele que Jack Lemmon põe a rodar na cena acima referida? Teria a gravadora brasileira cedido os direitos autorais a alguma empresa americana?

As biografias dos compositores não indicavam qualquer tipo de relação com Hollywood, ou sequer com os States.

Descobri também que, bem antes do filme de Billy Wilder, a canção aparecera em dois filmes mexicanos de 1953, que desconheço: “Uma aventura no Rio” de Alberto Gout e “Los dineros del diablo” de Alejandro Galindo. Isto, porém, não nos ajuda em nada, salvo na constatação óbvia de que “Madalena” transpôs as fronteiras nacionais, legalmente ou contrabandeada, continuo sem saber.

the-apartment final scene

Saudades do cinema italiano

9 jan

Li outro dia que o cineasta Ettore Scola teria afirmado à impressa estar se aposentando. Seu fã inconteste, lamentei, porém, confesso que, no  momento, me ocorreu que não é só Scola que se aposenta: o cinema italiano, salvo prova em contrário, está aposentado há algum tempo.

Eu sei que, aqui e acolá, fala-se de um novo filme italiano, dirigido por não sei quem, com não sei que elenco, que alguém viu não sei onde, mas, nada que, nem de longe, engrosse o caldo de uma cinematografia, no sentido de ´produção conjunta de um país´. Até porque não há caldo a engrossar.

Pois eu e os de minha geração temos razões especiais para perguntar o que aconteceu com o cinema italiano, e mais que isso, para lamentar o vazio de hoje em dia.

Na nossa juventude – quando avidamente aprendíamos o que era cinema – curtimos o cinema italiano da forma mais entusiasmada e intensa. Sim, nos saudosos anos sessenta, víamos por aqui, tantos filmes italianos quanto americanos, e, aliás, os italianos com mais gosto, já que, na época, a Hollywood dos grandes estúdios já era sinônimo de franca decadência, ao passo que o que nos chegava da Itália tinha cheiro de inovação e criatividade.

Cena de Rocco e seus irmãos

Cena de Rocco e seus irmãos

Aquela era a época das vanguardas (a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema novo brasileiro…) e a Itália estava na frente de todas, fazendo mais e melhores filmes, embora, intrigantemente, a grande movimentação cinematográfica ocorrendo então nesse país não tenha recebido um nome. Podia muito bem ter se chamado, digamos, ‘o novo cinema italiano´ ou coisa assim, mas, ninguém da imprensa ou do meio fílmico teve a idéia de jogar a expressão no ar e o movimento (sim, o movimento) ficou inominado mesmo.

É possível que para isso tenha contribuído o peso do passado, digo, o daquele movimento cinematográfico do pós-guerra que ficou marcado, para o mundo todo, como Neo-realismo Italiano. Parece que ninguém teve a coragem de admitir o que de fato estava acontecendo – que o cinema italiano dos anos sessenta estava suplantando o neo-realismo.

Era toda uma gama de grandes cineastas realizando, um atrás do outro, filmes ótimos, a que assistíamos encantados, às vezes chocados, ou perplexos. É verdade que muitos desses cineastas vinham diretamente do neo-realismo, como Fellini, Visconti, Antonioni, DeSica, porém, nem todos tinham esta origem, e outra coisa, mesmo os que tinham, como os citados, cometiam agora um cinema essencialmente diferente, novo, pessoal, original, que pouco ou nada mais tinha a ver com o conceito de neo-realismo.

Sei dizer que esse cinema italiano – que, na minha cabeça, delimito entre 1960 e 1969 – marcou uma época e criou um estilo como se fosse uma grife. Claro que, prolífero como era, foi diversificado e múltiplo, porém, ainda que indefinida, uma constante estilística prevaleceu e entrou no imaginário de toda uma geração, a minha. Se não isso, ao menos uma atmosfera.

Cena de Oito e meio

Cena de Oito e meio

Como já sugerido, dos diretores italianos que deram aos anos sessenta esse vigor e essa coloração nem todos foram inaugurais, nem pararam de fazer cinema uma vez a década finda. Acontece que o meu enfoque aqui não é a história do cinema italiano – meu enfoque é a década de sessenta e, sobretudo, sua caracterização como um movimento cinematográfico.

A respeito da diversidade das realizações nesta década e da inexistência de um programa, aproveito para lembrar que os outros movimentos cinematográficos da época (os já citados, Nouvelle Vague, Free Cinema e Cinema Novo Brasileiro) tampouco tiveram a unidade suposta e muito menos ainda, a definição de um programa.

Pois é, passando a um nível mais pessoal, ainda hoje me vejo, entusiasmado, acertando com os amigos para irmos à sessão das 16:30 do Cinema de Arte do Cine Municipal, aquele organizado pela ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba). O filme podia ser Accatone” (Pasolini), ou “Kapo” (Pontecorvo) ou “O eclipse” (Antonioni)… Pouco importava – tratava-se de cinema italiano e, sendo assim, já era garantia de qualidade, com certeza motivo para os animados papos subseqüentes nas mesas do Luzeirinho ou de outro bar qualquer da cidade.

Recordo-me como era charmoso aprender a pronunciar os nomes de todos aqueles cineastas, quase todos terminando na desinência /ini/, ou pelo menos no sonoro /i/ que caracteriza a língua de Dante: Fellini, Zurlini, Pasolini, Comencini, Bolognini, Damiani, Antonioni, Visconti, Ferreri, Monicelli…

A própria língua italiana, com sua bela entonação cantada e suas sílabas fortes, passou a entrar no nosso vocabulário de cinéfilos e daí a pouco, nem precisávamos ler as legendas para saber o que era ´capiche´, ´bambini´, ´stanco´, ´paura´, ´ Che cosa far´…

Cena de Os companheiros

Cena de Os companheiros

De repente, os ídolos do cinema americano que reverenciávamos – os Gary Cooper e Liz Taylor da vida – começavam a abrir a rodinha do estrelado para lá caber os Marcelo Mastroiani, Vittorio Gassman, Claudia Cardinale, Monica Vitti de agora. Sem falar nos que já se confundiam com Hollywood, como Sophia Loren, Ana Magnani e Gina Lollobrigida…

Enfim, para não me estender mais, encerro com uma listinha pessoal de 20 filmes italianos que gostei de ter visto na época de suas estreias. São filmes de temáticas, gêneros e estilos variados que ilustram, ao mesmo tempo, a diversidade e a força do inominado – que aqui estou denominando – “movimento italiano de cinema dos anos sessenta”.

“Rocco e seus irmãos” (Luchino Visconti, 1960)

“A doce vida” (Federico Fellini, 1960)

 “O belo Antonio” (Mauro Bolognini, 1960)

“A moça com a valise” (Valerio Zurlini, 1961)

“Duas mulheres” (Vittorio DeSica, 1961)

“Dois destinos” (Zurlini, 1962)

“Os dias são numerados” (Elio Petri, 1962)

“A ilha dos amores proibidos” (Damiano Damiani, 1962)

“Oito e meio” (Fellini, 1963)

“Os companheiros” (Mario Monicelli, 1963)

“O leopardo” (Visconti, 1963)

“O leito conjugal” (Marco Ferreri, 1963)

“O evangelho segundo São Mateus” (Píer Paolo Pasolini, 1964)

“De punhos cerrados” (Marco Bellochio, 1965)

“O incrível exército de Brancaleone (Monicelli, 1965)

“A batalha de Argel” (Gilo Pontecorvo, 1965)

“Blow up” (Michelangelo Antonioni, 1967)

“A China está próxima” (Bellochio, 1967)

 “Queimada” (Pontecorvo, 1969)

“Teorema” (Pasolini, 1969)

Cena de Duas Mulheres

Cena de Duas Mulheres

Poliana

20 set

Sabe o filme casual, aquele que pinta na sua telinha sem você querer, só porque o aparelho está ligado, ou simplesmente porque você mudou de canal? Pois é, esta semana a casualidade me levou a “Poliana” (“Pollyanna”, 1960, de David Swift) e, sem nada mais interessante a fazer, me deixei ficar por ficar.

Lembro que lá pelo começo dos anos sessenta “Poliana” fez meio mundo chorar e foi um sucesso de bilheteria, com Oscar especial para a garota Hayley Mills.

Eu o vi na época? Devo ter visto, mas – enfronhado nas idéias vanguardistas então vigentes – devo ter feito esforços mentais para esquecer. Salvo uma vaga imagem de uma casinha trepada no topo de uma árvore frondosa, não lembrava mais nada.

Fui, agora, assistindo sem muito entusiasmo, no começo achando a coisa – desculpem a expressão – “um tanto e quanto Walt Disney”… A cada instante, pensava em trocar de canal, porém, a cada instante, me deparava, no desenrolar da estória, com um ator ou atriz – geralmente coadjuvantes – que eu admirava e fui usando isto como pretexto para continuar.

Ora era Jane Wyman (de “Farrapo humano”), ora era Richard Egan (de “Amores clandestinos”), ou Karl Malden (de “A árvore dos enforcados”), ou Nancy Olson (de “Crepúsculo dos deuses”), ou Adolphe Menjou (de “Glória feita de sangue”), ou Donald Crisp (de “Como era verde o meu vale”), ou Agnes Moorehead (de “Cidadão Kane”)…

Puxa vida, que elenco, e a própria Hayley Mills, com sua carinha ariana, seu nariz de bola e seus lábios grossos, está ótima no papel principal da órfã criada a contragosto por uma tia abastada e antipática – essa menina de boa índole, que, em sua ingenuidade, ensina o pastor a pregar e, por aí, pacifica os ânimos belicosos dos membros da comunidade.

A personagem – todo mundo sabe – virou símbolo do espírito para cima, que não se abate com as agruras da vida, e vai adiante, acreditando que tudo, no final, dará certo, e se não der, há de haver sempre uma compensação, porém, esse otimismo renitente vem mais da (sub)literatura que a gerou do que do filme.

No filme pude constatar que ela não era assim tão otimista, ou pelo menos, que seu otimismo tinha fraturas. Sem dúvida, a construção do personagem foi menos maniqueísta do que se pensa e houve mesmo terreno para uma certa ambiguidade, que a torna satisfatoriamente verossímil. Por exemplo, depois de informada pelo médico das conseqüências do acidente que muda a sua vida (ela cai da tal árvore e vai ficar paraplégica!) Poliana, estendida na cama no quarto de sua tia, vira uma criaturinha amarga, que não quer ver mais ninguém e prefere ficar a sós com sua dor. Prestando bem atenção, não foi fácil para a sua tia, convencê-la de que deve receber visitas, e só depois de algum tempo e visível esforço, ela acede.

Como é a cidade inteira que, em fila indiana, aparece para visitá-la, com presentes e tudo mais, ela melhora um pouquinho o humor e esboça algum vago sorriso, mas esse sorrisozinho insosso é só uma sombra do espírito alegre que demonstrava antes de acidentada.

Por que uma menina tão boazinha, que operou o milagre de unir uma comunidade inteira, vai sofrer um acidente desses e ficar paraplégica? – pergunta a tia, indignada, ao pastor, mas, claro, como os velhos “ubi sunt” dos poemas antigos, a pergunta não tem resposta,. A esperança reside numa cirurgia que deverá ser tentada na cidade grande, e o filme, sabiamente, termina com o embarque de Poliana, num trem que a conduz a um destino incerto. The End.

Digo, sabiamente, porque o final assim, em aberto, foi melhor para todos. Ironicamente, o filme ficou com mais qualidade, os espectadores da época certamente choraram mais, e os estúdios da Disney ganharam mais dinheiro. Se nos fosse dado o resultado da operação e a resposta emotiva da protagonista (favorável/desfavorável e Poliana triste/alegre), o filme iria virar uma tese chata, empanturrada de, para cima ou para baixo, lição de vida. Neste sentido, a roteirização dos Estúdios Disney fez muito bem em se distanciar do romance original de Eleanor Porter (1913) e suas infindáveis “continuações”.

Do jeito que está – e não me refiro só ao final, mas ao filme inteiro, por sinal muito bem dirigido e muito bem interpretado – “Poliana” é, sim, um bom produto cinematográfico, que agradeço ao acaso a oportunidade de ter (re)visto e podido reavaliar.

Não conheço a versão original, de 1920, com Mary Pickford no papel-título, e me satisfaço com esta – boa pedida para quem esteja acostumado somente ao envidraçado mito “good girl” de Poliana.