Tag Archives: 1962

Ida (English version of the previous post)

27 mar

A Polish friend of mine once told me that, in communist Poland, the most revolutionary thing for young people to do was to get married in Church, with veil, wreath, nuptial hymn and all. The country being, by tradition, deeply Catholic, the communist regime imposed, by force, an atheism which was not welcome at all.

So, in the fifties and sixties, as juvenile rebellion, in the capitalist world,  consisted of drinking, smoking, playing rock´n´roll, and eloping, in Poland church wedding was the great gesture of extreme courage for young people who were dissatisfied with the status quo.

But, why am I talking about this?

The reason is I´ve just watched “Ida” (2014), the Polish movie that received the best foreign film Oscar this year, and, which, somehow, has something to do with the situation once evoked by my friend.

ida 1

In 1962, in this faraway convent, there lives this novice Anna who, together with other novices, will soon take her vows and become a nun. Before this happens, she is sent to town by Mother Superior, to stay some days with an aunt she had never seen, nor known she existed, for, according to her novitiate documents, she was an orphan who had no relatives whosoever.

Open-minded and libertine, Aunt Wanda shows to a surprised Anna some pictures of her parents, Jews who were killed during the war. It turns out that Anna – now identified as Ida – is convinced by her aunt to go for what was left of the family, an old house in the rural area, nowadays occupied by strangers.

It is in the cow barn of this house that Anna will see the stained glasses which – her aunt so said –  her mother had put in the windows, so that the cows could feel happier. A small detail that gives the girl an idea of who her mother was, probably an artistic and anti-conventional soul and a person full of life.

Aunt and niece suffering together

Aunt and niece suffering together

Questions asked all around, the two women are finally led, in the middle of a humid, dark forest, onto a painful truth which I prefer not to reveal to the reader who hasn´t seen the movie yet.

Let me just say that, back in the Convent, Anna  realizes she is not yet ready for the vows. When she returns to town, for her aunt´s funeral, she decides she must for a moment try life as it is. She puts on her aunt´s dress and high-heel shoes, she smokes and drinks like her aunt used to do, and gives her body to a boy they had met on their way to town.

While still in bed, the boy suggests they should elope, and she asks “And next?”. The boys says they could get married and have children; and she asks again: “And next?”. Not knowing what else to say,  he says: “Whatever, life”.

All these “sins” committed, Ida/Anna puts back on her veil and heads back for the Convent, to lead a life of religious reclusion forever. And the movies ends up with a frontal take of her face, clearly determined not to have the “life” the boy had mentioned.

Without the novice veil

Without the novice veil

This ending considered, it might look a bit ironical – or doesn´t it? – that the movie is called “Ida”, and not “Anna”.

Anyway, it must be stressed that, in this movie, we are very far away from any kind of manicheistic schedule that might separate the two entities, Anna and Ida. That´s why, in the previous paragraph, I was careful enough to use quotation marks for the word “sins”.

I guess that, watching “Ida”, makes one recall “The nun´s story” (1959), a movie with a similar issue, where the nun Audrey Hepburn hesitates between faith and the world. In Fred Zinnemann´s film the choice is other, but, anyway, similarities persist.

Except for Andrzej Wajda, Roman Polanski and krzysztof Kielowski, the Polish cinema is hardly known amog us. I recently  wrote about Wajda (See my post “Walesa”), and, as to the other two, they are far more active outside their country, than inside.

“Ida” is directed by Pawel Pawlikowski and the young actress Agatha Trzebuchowska is very good as the main character. I call attention, however, to the beautiful black and white cinematography (by Lucasz Zal), a chromatic choice that, very appropriately, causes the viewer to bring to mind the many shades of grey of the European art cinema shot more or less at the fictional time of “Ida”, late fifties, early sixties. I mean films like “The 400 blows”, “Breathless”, “Rocco and his brothers”, “La dolce vita”, “Persona”, and so many others…

P.S: This article is dedicated to my Polish friend Jack Slosky, at present living in the United States.

The actress Agatha Trzebuchkowska as the protagonist.

The actress Agatha Trzebuchkowska as the protagonist.

Anúncios

Suave é a noite

4 set

Por que alguém hoje decidiria ver, ou rever, o filme “Suave é a noite” (“Tender is the night”, 1962, Henry King)? Por ser adaptação do romance homônimo de Scott Fitzgerald? Por causa do elenco: Jennifer Jones, Jason Robards e Joan Fontaine? Pela bela canção, também homônima, muito popular na época?

Revi-o por motivos mais privados, puro saudosismo. Foi um dos primeiros filmes (a rigor, o terceiro) exibidos no Cine Plaza, depois da grande reforma por que passou aquela bela casa de espetáculos, reinaugurada em julho de 1963. Para nós, que éramos jovens então, qualquer coisa que ocupasse a tela charmosa desse cinema, surpreendentemente moderno para os padrões de João Pessoa, nos enchia de alegria, e se fosse uma estória de amor da 20th Century Fox, cinemascope e colorida, com uma trilha sonora agradável…

Tomara que algum leitor meu se lembre do enredo: meio surtada por causa de uma estória feia com o pai, essa mocinha rica, Nicole, (Jennifer Jones) é tratada, numa clínica da Suíça, por esse psiquiatra americano, Dr Diver (Jason Robards); ao longo do tratamento se apaixonam e – a moça aparentemente curada – casam-se e vão residir em uma luxuosa mansão da Riviera francesa. Entre obrigações sociais, festas vazias e muito álcool, reduzido à condição de marido de mulher rica, o psiquiatra semi-aposentado vai desmoronando moralmente, até – como ocorrera com a sua ex-paciente – chegar à beira de um surto. E um psiquiatra sabe muito bem quando vai surtar.

Como disse, loquei o filme por saudosismo, mas gostaria de retomar as hipóteses com que abro esta matéria.

Se o espectador vai ver “Suave é a noite” por causa do livro, creio que a decepção será grande. Não que o filme não seja fiel, mas, como se sabe, fidelidade não é tudo no terreno da adaptação, e principalmente, não é garantia de qualidade.

Um tanto e quanto superficial, engessado, arrastado, o filme tem falhas visíveis que nem a influência do lendário produtor David Selznick (marido de Jennifer Jones) conseguiu evitar. Um dos problemas mais óbvios parece ser o anacronismo na recriação da época, anos vinte, que ao espectador de hoje – mais talvez que ao de então – soam como anos sessenta. Embora os supostamente retratados no livro sejam os milionários Murphy (Gerald e Sarah), dizem que livro e filme têm muito de autobiográfico, e traços dos protagonistas adviriam do homem Fitzgerald e da esposa endinheirada Zelda, mas, se é verdade, isto tampouco melhorou a adaptação.

Se o espectador procurou o filme pelo elenco, também não creio que se satisfaça. Não há dúvidas de que os atores são grandes, porém, grande não foi a direção de atores. De minha parte, praticamente nenhum deles me convenceu plenamente, salvo talvez Joan Fontaine, como Baby, a irmã dominadora de Nicole. No seu papel de desequilibrada mental, Jennifer Jones parece mais uma ´doidinha´ do que um caso sério. Tom Ewell, por exemplo, (lembram dele em “O pecado mora ao lado”?), amigo do casal, está muito pouco convincente no papel do compositor em crise. Enfim, interpretações chapadas, nos fazendo lembrar que, na época, Hollywood era mesmo sinônimo de decadência.

Se a motivação do espectador foi a música, pode ser que fique satisfeito. Há primeiro a ´background music´ do grande Bernard Herrman, executada nos momentos mais dramáticos, com ecos identificáveis de sua trilha para o hitchcockiano “Um corpo que cai”, sim. Mas, claro, a música mais famosa é a composição de Sammy Fain, com letra de Paul Francis Webster “Tender is the night”, que dá título ao filme e dera ao livro. Suave como o adjetivo no seu nome, a canção é bela e ainda hoje continua encantando, com sua atmosfera de tristeza amorosa e romantismo.

Acho que vale lembrar que a frase (nome e também primeiro verso da canção), Fitzgerald foi buscá-la em um dos mais belos poemas de John Keats, “Ode to a nightingale” (`Ode a um rouxinol´, 1819)) que lê assim: “tender is the night, / and haply the Queen-Moon is on her throne / Cluster´d around by all her starry Fays”. Traduzo: “suave é a noite, e feliz a Lua-Rainha está em seu trono, circundada por todas as suas fadas estelares”.

Uma pena que a lua de Keats não tenha inspirado a produção cinematográfica de “Suave é a noite”.

Mas, que importa, para mim, fica a lembrança do Plaza e da minha juventude.

Cinquentões em 2012

4 abr

A imprensa adora datas e, com certeza, aqui e acolá, vão aparecer, ao longo deste ano de 2012, matérias sobre um ou outro filme famoso que esteja completando cinquenta anos.

Aqui nos adiantamos e damos uma lista de títulos de filmes que estrearam em 1962, alguns, exemplares do vanguardismo da época; outros, produtos do classicismo tardio de Hollywood; outros ainda, nem uma coisa nem outra.

Vamos começar com o Brasil? Desse ano são: “O pagador de promessa”, de Anselmo Duarte, adaptação bem sucedida da peça de Dias Gomes, com o mérito de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes; e “Os cafajestes”, de Ruy Guerra, que muita gente foi ver por causa da nudez de Norma Benghel, mas o filme tinha mais a mostrar. Ainda não era propriamente o Cinema Novo Brasileiro, mas, era quase…

Da América latina, não esqueçamos ainda: “O anjo exterminador” de Luis Buñuel, diretor espanhol em atuação no México. Surreal e inquietante, o filme mostrava um grupo de burgueses inexplicavelmente encurralados numa sala.

Das vanguardas europeias, lembremos “Jules et Jim” de François Truffaut, avatar da então efervescente Nouvelle Vague, sobre uma relação a três que termina em tragédia. Na Itália, devemos recordar “O eclipse” de Michelangelo Antonioni, o terceiro item de uma trilogia perturbadora sobre o tédio burguês (os outros foram: “A aventura” e “A noite”). Outros filmes importantes desse fértil ano italiano foram: o político “O bandido Giuliano” de Francesco Rosi, e o intimista “Dois destinos” de Valério Zurlini.

Ainda na Europa: da Grécia, “Electra” de Michael Cacoyannis, adaptando Eurípedes; da Inglaterra, não pode deixar de ser citada a superprodução de David Lean que levou quatro Oscar, “Lawrence da Arábia”, com Peter O´Toole no papel-título. E acrescentemos uma co-produção (vários países europeus) que Orson Welles dirigiu: “O processo”, com Anthony Perkins no papel do protagonista kafkiano.

Com isso, passamos a Hollywood, já não mais tão clássica, mas ainda dona do mercado mundial e lutando para assim permanecer. Dramas marcantes do ano são:

“O que aconteceu a Baby Jane?” de Robert Aldrich, filme que contrapunha duas atrizes rivais na vida real, Bette Davis e Joan Crawford, fazendo irmãs inimigas, numa situação de terror doméstico de arrepiar.

“O sol é para todos”, de Robert Mulligan, com Gregory Peck no papel do viúvo, com um casal de filhos pequenos, que é forçado a, profissionalmente, enfrentar o preconceito racial no sul americano – filme baseado no romance autobiográfico da escritora Harper Lee.

“Vício maldito”, de Blake Edwards, um dos filmes mais contundentes que se conhece sobre o tema do alcoolismo, com Jack Lemmon e Lee Remick como o casal que afunda de mãos dadas nos “dias de vinhos e rosas” (título original).

“Freud além da alma” de John Huston analisava uma certa fase da vida e carreira do psicanalista austríaco (Montgomery Clift), mostrando o percurso privado da descoberta do complexo de Édipo.

“Doce pássaro da juventude” de Richard Brooks, adaptação da peça de Tennessee Williams, uma estória de amor frustrado pelo preconceito social no Sul dos Estados Unidos, com Paul Newman e Geraldine Page.

“O milagre de Ana Sullivan” de Arthur Penn, narrava o caso verídico de uma menina autista que é curada por uma ousada fisioterapeuta (Anne Bancroft), quando, aos olhos dos pais, e de todos, tudo parecia perdido.

“O homem de Alcatraz” de John Frankenheimer descrevia a situação de um encarcerado (Burt Lancaster) que se redimia, na cela, criando pássaros e se tornando um célebre ornitólogo.

A esses dramas, acrescento dois westerns, o de um cineasta em começo de carreira, Sam Peckinpah, e outro em fim de carreira, John Ford. O filme de Peckinpah é “Pistoleiros ao entardecer”, e o de Ford, “O homem que matou o facínora”, ambos, sintomaticamente, estórias de cowboys maduros em vias de aposentadoria. Não esqueçamos que, em que pese ao surgimento de Peckinpah, nesses tempos, o western, enquanto gênero, já estava se encaminhando para os seus estertores.

E para fechar, um filme de guerra que teve grande aceitação de público: a superprodução de elenco monstruoso “O mais longo dos dias” (vários diretores), que reconstituía as operações aliadas de desembarque na Normandia, no fatídico dia D.

Evidentemente, a lista é bem maior, mas, fiquemos com estes vinte cinquentões que a gente não esquece.