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Viagem aos seios de Duília, o filme.

7 ago

A cinefilia doméstica costuma associar os anos sessenta ao movimento do Cinema Novo Brasileiro, como se, nessa década, nada mais no país, em termos de atividade cinematográfica, tivesse sido feito.

E não é o caso. Para se ter uma idéia, a década de sessenta inteira produziu nada menos que 404 películas, das quais duvido que 40 possam ser caracterizadas como realizações do Cinema Novo.  E ainda que possam, sobram 364 realizações fora do esquema do famoso movimento.

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Uma dessas “sobras” é “Viagem aos seios de Duília”, película de 1965 de Carlos Hugo Christensen, cineasta oriundo da Argentina que ninguém de bom senso enquadraria na turma de Glauber Rocha, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Não porque fosse argentino, mas porque, desde sua chegada ao Brasil, vinha cometendo filmes com fins visivelmente comerciais, como “Matemática zero, amor dez” (1958) e “Meus amores no Rio” (1959), comédias românticas completamente antagônicas ao espírito vanguardista e político dos cinemanovistas.

Em 65 Christensen resolveu adaptar o antológico conto de Anibal Machado e se deu bem, mas não creio que isso o torne um cinemanovista. Como o conto, o filme narra a desventura desse senhor idoso, solteirão recém aposentado, que decide empreender uma viagem ao passado, em busca de uma miragem: a visão deslumbrante dos seios da jovem Duília, que nunca lhe saíra da memória. Na remota Pouso Triste de sua infância e adolescência, um dia, a moça lhe abrira a blusa e…

Agora a aposentadoria o angustia e José Maria, para surpresa de sua velha empregada, arruma as malas e se entrega a uma viagem penosa que, lamentavelmente, tem um final mais penoso ainda: professora primária e viúva idosa, a Duília de seus sonhos eróticos não tem mais nada a ver com a imagem que dela guardava, e o encontro dos dois é puro desencanto.

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Mesmo sem a perfeição do conto – considerado a obra prima de Anibal Machado – o filme de Christensen tem qualidade e merece uma espiada.

Evidentemente, o primeiro problema da adaptação foi a pouca extensão do texto. Em sua inteireza, o conto daria um curta, ou talvez um média metragem, mas dificilmente um filme de duração padrão. O problema foi resolvido com um relativamente longo preenchimento diegético, onde se narra o que não está no conto, mas, aristotelicamente falando, poderia estar: as primeiras semanas de vida aposentada de José Maria e a crise existencial dela decorrente.

Na ocasião de sua despedida da repartição, os colegas oferecem uma festa a José Maria, mas isso é tudo. O que vem depois é frieza e indiferença. Nas próximas tentativas de contato, José Maria começa a se dar conta do que é ser considerado velho, e, portanto, descartável. Vários incidentes lhe revelam a dureza de ser idoso entre os mais jovens, e aos poucos ele vai aprendendo a se manter no seu lugar de inativo e inútil.

Uma dessas decepções ocorre na noite em que aceita o convite de um dos colegas a ir a uma boate da cidade, na companhia de duas moças, amigas do ex-colega – e a cidade, não esqueçamos, é o Rio de Janeiro – e se vê passado para trás pela companheira de noitada, além de ser conduzido a pagar a conta, e depois, deixado na rua, porque, dali, os dois casais, formados na boate, iam para outras paradas, mais íntimas.

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Todo esse preenchimento diegético poderia estragar a imagem que se tem do conto de Anibal Machado, e, no entanto, não é bem assim. Não apenas ele não macula o conto, como vem a contento para o filme, ajudando a incrementar o conflito central do personagem: o seu enfrentamento da velhice.

Depois de ver o filme (eu não o vira na época de sua estréia), fiquei curioso em checar a autoria de um roteiro tão eficiente, e não tive surpresa em constatar que era de ninguém menos que o escritor Orígenes Lessa.

Um outro ponto nevrálgico da adaptação é o desenlace. Como fazer para expressar em imagens a desolação do protagonista, no encontro com Duília? A voz em off, repetindo as palavras do texto, seria um recurso manjado que, se consolaria os apreciadores do conto, não soaria satisfatório para os espectadores do filme. Sensata e criativamente, Christensen optou praticamente pelo contrário: ao invés de qualquer verbalidade, encheu a tela de imagens onde se vê uma sequência de cenários vazios, digo, sem a presença física do ator/personagem, sequência que simbolicamente refaz a vida triste de um personagem que, sem saída, se entrega à tristeza de sua condição.

Um comovente filme sobre a ´terceira idade´, rodado numa época em que sequer se conhecia a expressão.

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Só para relembrar Omar Sharif

14 jul

A morte do ator Omar Sharif (1932-2015) foi assunto da imprensa nestes dias. Aqui o relembramos através do seu filme mais amado, “Doutor Jivago” (1965), que por sinal, neste 2015, está completando cinquenta anos.

Se pudermos começar o nosso relato com um close, vamos nos centrar na mão iluminada de um grande poeta russo, que, debaixo da dureza do regime totalitário, rabiscava – e quando podia publicava – os seus poemas de tom místico e humanista que em nada batiam com a fechada ideologia vigente.

De repente, esse poeta inspirado, Boris Pasternak, decide escrever em prosa e produz – ironicamente – a obra pela qual ficaria internacionalmente conhecido: o romance semi-autobiográfico que conta a estória de um certo médico perdido entre a Revolução, a literatura e um amor adúltero.

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Inaceitável na URSS, “Doutor Jivago” é editado na Itália em 1957 e – surpresa! – ganha o prêmio Nobel, que Pasternak, evidentemente, é obrigado a recusar, vindo a falecer três anos depois, em 1960.

Uma estória dramática, um romance premiado, um autor injustiçado e morto… Os grandes estúdios americanos ficam de olho, até porque a grandiosidade da narrativa cabia nos parâmetros das superproduções a que a Hollywood decadente da época se agarrava com unhas e dentes.

Foi a já cambaleante MGM quem assumiu a realização da adaptação, chamada pelos comentaristas de “salada russa”, com referência à mistura das nacionalidades envolvidas: rodado na Finlândia, na Espanha e no Canadá, a companhia produtora foi a italiana de Carlo Ponti, e do elenco faziam parte alemães (Klaus Kinski), americanos (Rod Steiger), ingleses (Alec Guiness), e, claro, o egípcio Omar Sharif no papel-título. A trilha sonora foi para o francês Maurice Jarre e a fotografia para o inglês Freddie Young. Aliás, música e fotografia, as duas juntas, são um destaque estético que torna o filme memorável – acho que o leitor concorda comigo.

Omar Sharif e Julie Christie em "Doutor Jivago"

Omar Sharif e Julie Christie em “Doutor Jivago”

A direção vai para as mãos hábeis de um inglês que já provara ser bom em grandes produções. David Lean tinha feito “A ponte do rio Kwai” (1957), e em 1962 deslumbrara o mundo com o seu – também uma adaptação e também épico – “Lawrence da Arábia”, onde Sharif – vocês lembram – já estava. Ninguém melhor que Lean, sem contar que esse romântico inveterado já revelara, desde o intimista “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945) que, independente do tamanho da produção, a sua temática preferida, aquela em que mais rendia, era a da ´mulher apaixonada fora do casamento´, sim, aquela mesma dos grandes romances do século XIX.

Mas como adaptar à tela um romance tão vasto, apesar do lirismo, de escala épica, cuja narrativa se iniciava no início do Século XX e se estendia para além da Segunda Guerra Mundial? A missão do roteirista Robert Bolt (o mesmo de “Lawrence”) foi reduzir a extensão da história e centrar-se no caso de amor entre o médico Yuri Jivago e a sua bela enfermeira Lara – uma imposição dos estúdios que o diretor – imagino – deve ter abraçado de muito bom grado.

Não vou resumir o enredo de um filme que todo mundo conhece, mas, cabe referir as críticas que o filme recebeu na época de sua estreia: o de trair a dimensão lírica e mística do romance de Pasternak, de cujas páginas fazem partes muitos de seus poemas mais inspirados. O outro ponto crítico foi a exploração do lado melodramático da narrativa, no investimento que faz no desafortunado romance entre Jivago e Lara, a Revolução Russa e seus efeitos aparecendo como pano de fundo.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

Frio e solidão na paisagem gelada da URSS.

O público é que não quis saber de nada disso e, não apenas acorreu aos cinemas, como, passado o tempo, incluiu o filme no imaginário da comunidade cinéfila do planeta. Hoje, quem tem dúvidas de que “Doutor Jivago” é um dos clássicos mais lembrados?

Do ponto de vista estrutural, uma mudança básica na adaptação está na escolha do foco narrativo, a estória inteira sendo contada a partir de um longo flashback, quando, tempos depois da Revolução de Outubro, o irmão do protagonista, Yevgraf (Guiness), encontra essa moça, operária nesse novo país, a URSS, que teria sido a filha do casal adúltero, Jivago e Lara.

Acho que o flashback funciona bem, agora, aqui para nós, o que nunca me pareceu apropriada foi a escolha de Rita Tushingham – uma das atrizes mais feias na história do cinema – para ser justamente a filha dos belos Julie Christie e Omar Sharif. Atriz talentosa, Rita esteve ótima naqueles filmes sobre ´gente como a gente´ do Free Cinema (Cf “Um gosto de mel”, por exemplo), porém, aqui lhe faltou o que a natureza não lhe deu: physique du rôle, ou seja, o físico apropriado ao papel.

Enfim, “Doutor Jivago”, um belo filme. Vamos ligar o aparelho de DVD e, entre outras coisas, relembrar Omar Sharif.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Rita Tushingham e Alec Guiness, em cena de abertura do filme.

Cinquentões em 2015

9 jan

 

 

Neste 2015 que começa, quais são os filmes que estarão completando cinquenta anos? Aqui proponho uma mexida no baú do passado, aquele baú em cuja fechadura está gravado o número 1965.

Acho que de chofre todo mundo vai lembrar-se de “A noviça rebelde” (“The sound of music”, Robert Wise), “Dr Jivago” (David Lean) e “A maior história de todos os tempos” (“The greatest story ever told”, George Stevens), os três maiores sucessos de bilheteria de 1965, mas, claro, a lista é grande e pede uma triagem.

Omar Sharif e Julie Christie em "Dr Jivago".

Omar Sharif e Julie Christie em “Dr Jivago”.

Sugiro que comecemos com as cinematografias menores, e a primeira pode ser a brasileira. Em 1965, auge do chamado Cinema Novo, pelo menos quatro filmes não podem deixar de ser mencionados: “A grande cidade” de Carlos Diegues, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Menino de engenho” de Walter Lima Jr, e “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

No Japão, o grande Akira Kurosawa lançou o seu drama hospitalar “O barba ruiva”, filme de tom existencial, baseado no escritor Shugoro Yamamoto, com o seu ator predileto Toshiro Mifune.

Na Índia é a vez do não menos grande Satyajit Ray mostrar ao mundo ocidental o comovente drama conjugal “A esposa solitária”, título, aliás, bem sintomático para todas as estórias (no viés de “Desencanto” ou “Casablanca”) sobre mulheres apaixonadas fora do casamento.

Música nas montanhas em "A noviça rebelde".

Música nas montanhas em “A noviça rebelde”.

Já no México, e quase solitariamente, o sempre perturbador Luis Buñuel lança a sua fantasia pseudo-religiosa “Simão do deserto”.

Com o que passamos à Europa. Na Checoslováquia, um país até então sem grande destaque cinematográfico, um certo boom ocorria na época e um dos seus mais ativos cineastas era um jovem ainda pouco conhecido no mundo, chamado Milos Forman, que em 1965, produziu o interessante “Os amores de uma loura”.

Na França ainda se estava em plena Nouvelle Vague, embora o ano de 1965 não tenha sido particularmente significativo. É verdade que Jean-Luc Godard lançou, neste ano, dois petardos bem típicos de sua proposta cinemática, “O demônio das onze horas” e “Alphaville”, mas, foi só. A não ser que se queira citar a comédia aventuresca de Louis Malle “Viva Maria”, com as musas Bardot e Moreau.

"Thunderball" - James Bond e suas mulheres.

“Thunderball” – James Bond e suas mulheres.

A Itália era outra cinematografia em ebulição, que, no ano em questão, estranhamente também não foi lá muito expressiva. Dignos de nota são apenas: o drama social “De punhos cerrados” de Mario Bellocchio, o esteticamente indeciso “Vagas estrelas da Ursa” de Lucchino Visconti, e o fraco “Julieta dos espíritos” de Federico Fellini. Por outro lado, na terra das massas finas começava a dar os primeiros passos um novo gênero, o faroeste spaghetti de Sérgio Leone, e o seu representante do ano foi “Por uns dólares a mais”.

Quem balançou o coreto no ano foi certamente a Inglaterra, com produções próprias, engrossadas por co-produções interessantes. Considerados expressões do movimento Free Cinema foram os filmes “Darling a que amou demais”, de John Schlessinger, “O ente querido” de Tony Richardson, “Help” e “A bossa da conquista”, estes dois últimos do criativo e inovador Richard Lester. Isso era o lado cult da ilha, mas também houve o comercial, com uma das maiores bilheterias do ano: “007 contra a chantagem atômica”, de Terence Young. Somem-se a isso as muitas co-produções, principalmente com os Estados Unidos, por exemplo: “O espião que saiu do frio” (Martin Ritt), “Bunny Lake desapareceu” (Otto Preminger), “Lord Jim” (Richard Brooks) e “Repulsa ao sexo” (Roman Polanski).

"Pierrot le fou - Belmondo e Ana Karina.

“Pierrot le fou” – Belmondo e Ana Karina.

Em processo de transformação, Hollywood hesitava entre superproduções (as citadas na abertura desta matéria) e filmes menores, dirigidos a públicos específicos. Podiam ser filmes históricos, como “O senhor da guerra (Franklin Schaffner) e “Agonia e êxtase” (Carol Reed); ou dramas existenciais como “A nau dos insensatos” (Stanley Kramer); ou suspenses tipo noir, como “Eu vi que foi você” (William Castle) e “O colecionador” (William Wyler); ou policiais mais convencionais como “O gênio do mal” (Robert Mulligan); ou dramas raciais como “Quando só o coração vê” (Guy Green), ou filmes de guerra, como “A colina dos homens perdidos” (Sidney Lument), ou então comédias faroeste como “Dívida de sangue” (“Cat Ballou” de Elliot Silverstein)…

Um óbvio sintoma de que a velha Hollywood clássica estava cansada de guerra vinha numa estória de amor com grande elenco (Elizabeth Taylor, Richard Burton, Eva Marie Saint e Charles Bronson) e bela música, dirigida por um dos grandes do passado, ninguém menos que Vincente Minnelli, mas que não conquistava mais ninguém, nem críticos nem público. Refiro-me melancolicamente a “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”), localmente exibido no nosso saudoso Plaza, a que assisti junto com alguns poucos espectadores tão melancólicos quanto eu mesmo.

E, assumido o risco das omissões, fecho o baú.

Liz Taylor e Richard Burton em "Adeus às ilusões".

Liz Taylor e Richard Burton em “Adeus às ilusões”.