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Um homem, uma mulher e nós

22 jun

2Exibido como “o clássico” da programação do Festival Varilux de Cinema Francês, o filme “Um homem e uma mulher” (1966) lotou, sábado passado, a sala 3 dos cinemas do Mag Shopping.

O filme de Claude Lelouch está, agora, completando cinquenta anos. Mas vamos por etapas. Até 1966 Lelouch não passava de um ilustre desconhecido. Com seis fracassos de público e crítica nas costas, o cineasta, na verdade, andava deprimido. “Lembrem-se bem deste nome: vocês nunca mais ouvirão falar dele”. Foi com esta frase cruel que, em 1963, a revista de cinema “Cahiers du Cinéma” tentou descartá-lo de vez do cenário cinematográfico.

A ironia do destino é que quatro anos mais tarde, em 1967, Lelouch ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original por seu novo filme. Ao contrário do que diagnosticara o “Cahiers”, na França e em todo o mundo era só do que se falava, sim, do filme “Um homem e uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966).

De cara mexendo, o pessoal do “Cahiers” quis voltar atrás e, na imprensa, François Truffaut ousou sugerir que “Um homem e uma mulher” tinha o espírito da Nouvelle Vague, movimento de cinema, como se sabe, saído do seio da revista que criticara Lelouch. Dando o troco à altura, na mesma imprensa, Lelouch peremptoriamente declarou que seu filme não tinha nada, absolutamente nada a ver com a Nouvelle Vague.

Desde então ficou comprada a briga entre Lelouch e a crítica de uma maneira geral, briga que faz o cineasta jogar farpas maliciosas do tipo: “Um dia farei um filme para os críticos – quando tiver dinheiro para perder”.

A carreira de Lelouch deslancharia vertiginosamente depois do estrondoso sucesso de “Um homem e uma mulher”, e a frase do Cahiers ficou registrada, no anedotário cinematográfico, como uma das grandes mancadas da crítica. A filmografia do cineasta já contém mais de cinquenta títulos e seu nome, já faz muito tempo, consta entre os grandes realizadores de seu país.

A praia de Deauville, norte da França, é o cenário.

A praia de Deauville, norte da França, é o cenário.

Para o bem ou para o mal, existe um “estilo Lelouch” e ele já estava todo prometido em “Um homem e uma mulher”: câmera móvel, em muitos casos, na mão ou no ombro, diálogos improvisados, voz over para as revelações mais íntimas dos personagens, flashbacks com imagens narradoras, no lugar dos diálogos, visual de clips publicitários, ritmo preso a uma trilha musical generosa, uso cronológico das cores… são alguns desses traços de estilo. É um estilo que redunda temáticas e fórmulas narrativas e plásticas, dando a impressão de se estar, sempre, rodando o mesmo filme, mas e daí?

No caso de “Um homem e uma mulher” o enredo não poderia ser mais exíguo, talvez o único dado que difere da filmografia posterior do cineasta: um viúvo parisiense que, todo fim de semana, vai pegar o filho pequeno num orfanato em Deauville, cidade litorânea ao norte da França, conhece uma viúva que sempre vai pegar a filha no mesmo local. Um dia ela perde o trem, ele lhe dá carona e a amizade está garantida, logo virando amor. No primeiro encontro íntimo, os dois aprendem que o luto não passa fácil e que precisam de delicadeza para contorná-lo.

À simplicidade do enredo corresponde a simplicidade da forma. Nada de angústias existenciais, filosóficas ou metafísicas, apenas as angústias das pessoas comuns; nada de experimentos formais inovadores, salvo os que os espectadores comuns tenham condição de acompanhar e aceitar. Nesse sentido, a trilha sonora principal, é exemplar, com sua batida simples e sua melodia delicada. Embora já consagrados, os atores Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée dão interpretações despojadas, como se vivendo a estória de verdade. O tom geral do filme, se não é eufórico, é alegre, tanto quanto aquele cachorrinho saltitando na praia e nos lembrando – por causa de um certo diálogo anterior do casal sobre Rembrandt, gatos e incêndios – que ´a vida vale mais que a arte´.

A beleza de Anouk.

A beleza de Anouk.

Não me recordo como a crítica local reagiu a “Um homem e uma mulher” quando de sua estreia, mas lembro bem que o público adorou o filme, em especial, o seu lado brasileiro, com o carinhoso emprego da música “Samba da bênção” de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Apesar da ditadura, era aquela uma época em que o Brasil estava em evidência, com a bossa nova, o futebol, o Cinema Novo, as misses, o boxe, a arquitetura de Brasília, etc, e a parcela brasileira do enredo massageava o nosso ego.

Sim, foi muito bom poder rever “Um homem e uma mulher” em tela grande! Se não fosse por outros motivos, seria pela recordação dos anos sessenta.

Parabéns aos organizadores do Festival Varilux pela escolha clássica deste ano.

O cartaz clássico do filme de Lelouch.

O cartaz clássico do filme de Lelouch.

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Cinquentões em 2016

8 jan

 

Neste 2016 que começa, que filmes estarão completando idade redonda? Sugiro que retrocedamos meio século e chequemos aqueles que vão ser os cinquentões do ano, ou seja, os estreados em 1966.

São muitos, mas fiquemos com os mais significativos, no caso, os dezesseis que tomei a liberdade de selecionar pela importância que tiveram na década de sessenta. Por falta de melhor critério, listo-os na ordem alfabética de seus diretores.

Assim, começamos com o italiano Michelangelo Antonioni e o seu ainda hoje perturbador “Blow up”, no Brasil chamado de “Depois daquele beijo”. Rodado na Inglaterra, o filme usava o nonsense para desconstruir um gênero, o policial.

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Em seguida, vem o sueco Ingmar Bergman com o seu impactante “Persona”, drama psicológico que marcou e definiu o estilo do diretor. No Brasil, outra reintitulação equivocada: “Quando duas mulheres pecam”.

No modelo ação a todo custo, o americano Richard Brooks roda “Os profissionais”, onde Burt Lancaster, Lee Marvin e Robert Ryan são os durões contratados para resgatar a esposa sequestrada (Claudia Cardinale) de um figurão.

O também americano John Frankenheimer comparece com essa estória sombria sobre uma cirurgia plástica secreta que concederia ao cidadão a chance de mudança de identidade: “O segundo rosto” (“Seconds”). Rock Hudson é o cirurgiado que apaga o passado.

Paul Newman e Julie Andrews em "Cortina rasgada"

Paul Newman e Julie Andrews em “Cortina rasgada”

O filme do ano de Jean-Luc Godard não é dos mais badalados nem dos melhores. Em postura francamente existencialista “Masculino/Feminino” junta um bando de jovens num apartamento, discutindo o sentido, ou a falta de sentido, da vida.

“Cortina rasgada” (“Torn curtain”) é o contributo de Alfred Hitchcock para o dilema do Muro de Berlim. Paul Newman é o cientista americano enviado ao lado oriental da cidade, seguido, sem o saber, pela esposa curiosa, Julie Andrews.

O francês Claude Lelouch ganha o Oscar de filme estrangeiro com o singelo “Um homem, uma mulher” (“Um homme, une femme”), em que, ao meio de referências musicais ao Brasil, Jean-Louis Trintingnat e Anouk Aimée fazem um par de viúvos que se apaixonam.

"Um homem, uma mulher: Trintignant e Aimée.

“Um homem, uma mulher: Trintignant e Aimée.

Sérgio Leone engendra o seu terceiro título no modelo “faroeste espaguete”: “Três homens em conflito” (“Il buono, Il bruto, Il cativo”), com o trio Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef, e, naturalmente, a bela música de Ennio Morricone.

Já Joseph Losey surpreende com “Modesty Blaise”, comédia amalucada, do tipo James Bond de saia, em que as estrelas da época, Monica Vitti, Terence Stamp e Dick Bogarde, não têm receio de enfrentar o ridículo.

Promovendo a estreia de Candice Bergen, Sidney Lumet nos dá “O grupo” (“The group”), estória de mulheres que lutam por afirmação profissional, lá pelos anos trinta. Baseado no romance da escritora Mary MacCarthy.

Liz Taylor em "Quem tem medo de Virginia Woolf?" de Mike Nichols.

Liz Taylor em “Quem tem medo de Virginia Woolf?” de Mike Nichols.

“Quem tem medo de Virginia Woolf?” (“Who is afraid of Virginia Woolf?”) é a estreia de um jovem e promissor diretor, Mike Nichols. Baseado na peça de Edward Albee, o filme trata de conflitos conjugais em que se misturam alcoolismo e agressão. O desempenho elogiado de Elizabeth Taylor lhe deu o Oscar de melhor atriz.

Um filme forte sobre linchamento, racismo, adultério, e poder é “Caçada humana” (“The chase”) onde Marlon Brando faz o sherif em uma cidade sulista nada tranquila. Direção segura de Arthur Penn.

Com “A batalha de Argel” (“La Battaglia di Algeri”), Gillo Pentecorvo nos oferece um relato duro e imparcial do que teria sido a luta pela independência na Argélia, contra o domínio francês.

Oskar Werner, o policial lendo, em "Farenheit 451".

Oskar Werner, o policial lendo, em “Farenheit 451”.

Filmando o romance de Ray Bradbury, o diretor francês François Truffaut reporta-se a uma sociedade futura em que os livros são proibidos e devem ser queimados na temperatura de “Farenheit 451”. Oskar Werner é o policial que entra em crise após haver lido alguns dos livros a serem queimados.

Do mestre Billy Wilder vem uma comédia modesta, “Uma loura por um milhão” (“The fortune cookie”), sobre uma farsa para burlar o sistema de indenização por um acidente de trabalho. É a inauguração da dupla Jack Lemmon e Walter Mattheau, que depois deste, tantos filmes fariam juntos.

E por fim, fechamos a lista com “O homem que não vendeu sua alma” (“A man for all seasons”), realização brilhante do grande Fred Zinnemann, que arrebanhou nada menos que cinco Oscars, inclusive os três mais importantes, de melhor filme, melhor diretor, e melhor ator para Paul Scoffield, no papel título de Thomas More, em sua luta insubmissa contra o rei Henrique VIII, na Inglaterra do século XVI.

A cara da década de sessenta: "Persona".

A cara da década de sessenta: “Persona”.