Tag Archives: 2001: uma odisséia no espaço

Revisitando Kubrick

20 nov

 

Em edição caprichada, a Perspectiva vem de lançar esse “Stanley Kubrick: o monstro de coração mole” (2017) de autoria do escritor e publicitário Marcius Cortez. Revisitando o cineasta de “2001 – uma odisseia no espaço”, o livro vem sendo lançado em capitais brasileiras, e sexta-feira, dia 17, foi a vez de João Pessoa: à Livraria Saraiva, no Shopping Manaíra, compareceu o autor, para os autógrafos e conversas.

Fã de Kubrick, cheguei cedo e tive a oportunidade de bater um longo papo com o autor, como esperado, sobre o cineasta e seu estilo inconfundível. Cortez, que eu não conhecia pessoalmente, é um ótimo causeur e a conversa foi, além de instrutiva, descontraída e divertida. Aliás, a conversa – posso dizer – funcionou como uma espécie de trailer do livro, que, constato agora, é igualmente instrutivo, descontraído e divertido. Consta que é o resultado de oito anos de pesquisa, mas não esperem uma obra de teórico, cheia de heurísticas e hermenêuticas. Nada disso: trata-se antes de tudo de um livro de espectador apaixonado, que além de espectador, sim, também é um cinéfilo sofisticado e um escritor de mão cheia.

A rigor, acho que posso dizer que não é só um livro de fã – é, mais que isso, um livro de cúmplice. Suas espontâneas, curiosas e ricas interpretações dos treze filmes enfocados deixam isso claro desde o início. Com efeito, não é difícil perceber que Cortez, no geral, toma o partido do cineasta, em alguns casos, contra certas reações críticas, teóricas ou populares. Vejam o caso, por exemplo, de suas insistentes refutações aos comentários quase sempre desfavoráveis da crítica americana Pauline Kael.

As análises de cada filme – para cada um, um capítulo – estão cheias de “intromissões” que trazem para a discussão elementos dos bastidores das filmagens, fatos biográficos, opiniões alheias, episódios periféricos, dados contextuais, boatos, etc… Mas isto, sem que essa colcha de retalhos obscureça o andamento da argumentação.

Dou pelo menos três exemplos. Na análise de “O grande golpe” (“The killing, 1958), vejam o espaço que é dado ao roteirista Jim Thompson e suas muitas afinidades “noir” com Kubrick, e mesmo sua amizade pessoal. No enfoque de “Laranja mecânica” (“Clockwork Orange”, 1972), prestem atenção à ênfase dada à presença do ator Malcolm McDowell, apresentado como uma espécie de coautor do filme, tal o seu entendimento e investimento na construção do protagonista. Na abordagem de “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”, 1998), observem a longa referência à festa erótica, isto feito pelo viés do roteirista Frederic Raphael, segundo este, um bacanal todo inspirado em aventuras verídicas da família Kennedy e adjacências.

No capítulo que abre o livro, Cortez apelida Kubrick de ´O lobo das elipses´. Bem apropriado ao cineasta, o engraçado é que o apelido também parece valer para o autor do livro. Os casos elípticos são muitos, mas creio que o mais ostensivo está no amplo comentário de um filme menor de Kubrick, “A morte passou por perto” (“Killer´s kiss”, 1955): aí, em dado momento, corta-se a argumentação ao meio para introduzir uma infindável lista das produções desse ano, 1955, as americanas e as internacionais, uma lista, ufa, que toma páginas e páginas e que dá a impressão de que o autor se perdeu. Mas – atenção! – não é o caso.

O grande golpe, com Sterling Hayden.

Dentro do mesmo espírito de – digamos – `relativa desordem controlada´, há, nas abordagens um certo coeficiente de humor, expresso em linguagem coloquial, às vezes com gírias engraçadas, particularmente naqueles momentos da análise em que o autor está cumprindo a tarefa de reconstituir os enredos dos filmes discutidos. Esse humor sorrateiro, sente-se, é, derivado do lado debochado de Kubrick.

Ao contrário do que o autor recomenda na abertura, o livro pode ser lido em qualquer ordem, o leitor escolhendo o que ler primeiro a partir de suas preferências. Lendo em que ordem for, o efeito é de estar revendo os filmes, e a vontade é de, ao dobrar a última página, correr à filmografia completa de Kubrick e ver tudo de novo, agora – o livro de Cortez a tiracolo – com mais informação e mais luz interpretativa.

Não há dúvidas: do conjunto dessas análises fílmicas desponta a estilística kubrickiana, sua visão do mundo, com as inevitáveis e talvez necessárias contradições, e claro, a forma como essa visão está expressa no seu fazer cinematográfico. “O que nos queria dizer esse fazedor de obras primas?” Cortez pergunta a si mesmo e a nós. Seja qual for a resposta, uma coisa é certa para Cortez: (cito) “Kubrick é ainda um artista desconhecido”.

Disponível nas livrarias do país, “Stanley Kubrick: o monstro de coração mole” nos aponta, de modo extremamente agradável, o caminho para esse conhecimento. O conhecimento da obra de um dos maiores cineastas da história do cinema.

Stanley Kubrick (1928-1999)

Anúncios

Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

 

Quero ser Stanley Kubrick

17 out

Por razões que nem a psicanálise explica satisfatoriamente, a troca de identidades – em outros termos, a impostura – foi sempre um tema que fascina a mente humana, tema que vem do folclore universal e está na arte de todos os tempos. Em “Chapeuzinho Vermelho” o Lobo Mau já se disfarçava de Vovozinha; na Odisséia de Homero, Ulisses se travestia de mendigo, e as comédias de Shakespeare estão cheias de trocas de identidade. O “Cyrano de Bergerac” consiste numa “impostura”, assim como o nosso “Grande sertão: veredas”.

São ficções que – sei lá – estimulam talvez nossa pulsão de ser outro, mas curioso mesmo é quando a coisa acontece na vida real – caso a que vou me referir aqui.

O caso aconteceu na Inglaterra, mais ou menos entre os anos de 1996 e 1998, período em que o cineasta americano Stanley Kubrick rodava, nos Estados Unidos, o que viria a ser o seu último filme “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”), lançado em 1999.

Pois bem, Kubrick devia estar mesmo de olhos bem fechados, porque, do outro lado do Atlântico um certo senhor inglês, de nome Alan Conway, dizia ser Stanley Kubrick e, por incrível que pareça, era acreditado. Digo por incrível que pareça porque Conway, nem parecia tanto com o cineasta de “2001: uma odisséia no espaço”: seis anos mais novo, o único traço que assemelhava o seu sósia era a acentuada calvície e quase mais nada. Por exemplo: para produzir o sotaque americano de Kubrick, Conway fazia esforços consideráveis que lhe distorciam o rosto.

 

Ilustração de PHILLIP FIVEL NESSEN*

Claro que Conway não assumia a persona de Kubrick diante da imprensa, nem de órgãos públicos. Suas vítimas eram, geralmente, jovens que ficavam fascinados em estar em contato com um diretor de cinema tão famoso e, aí, lhe brindavam com presentes ou lhe pagavam bebidas, almoços e jantares. Na maior parte dos casos Conway/Kubrick lhes prometia participações em seus hipotéticos novos projetos cinematográficos, e, naturalmente, quanto mais promessas, mais mordomias para o suposto cineasta. Quando possível, entre essas mordomias estava sexo, pois Conway era homossexual assumido.

Pobre e sem renda fixa, Conway vivia – não se sabe ao certo desde quando – dessas circunstanciais benesses, sem planos para o futuro, e sem muito cuidado em ser pertinente no seu fingimento. Sabia o risco que corria e nem se importava em pesquisar a vida de Kubrick para ser um sósia mais conseqüente. Uma vez foi desmascarado num bar ao confirmar que, entre os filmes que dirigira também estava “Julgamento em Nuremberg”, como se sabe, filme dirigido por outro Stanley, o Kramer. Fugiu do local e nunca mais lá voltou.

Uma de suas estratégias era dar, aos novos enganados, um endereço num bairro rico de Londres e, na hora marcada para ser apanhado de carro, esperar as novas vítimas na calçada da residência. Normalmente, depois de haver explorado a sua vítima até a exaustão, desaparecia das redondezas e ia procurar outras, em outros setores da cidade.

Cai, finalmente, em desgraça ao passar por Kubrick para um famoso comediante e cantor inglês: empanturrando-o com promessas de uma carreira de sucesso em Las Vegas, é hospedado em luxuoso hotel com tudo que merece uma celebridade no nível de Kubrick, e quando está no cúmulo da boa vida, é subitamente desmascarado pelo agente do comediante. Lançado literalmente ao mar, faz-se então de louco e, convencendo os médicos de seu estado mental (mais uma impostura), vai parar num chique hospital psiquiátrico londrino onde passa a viver com relativo luxo.

Por ironia do destino, Alan Conway vem a falecer no mesmo ano de 1999, poucos meses depois de Stanley Kubrick.

Bem, a estória que conto teria se encerrado aí, se dois membros da equipe cinematográfica de Stanley Kubrick – o seu assistente de direção Brian W. Cook e o seu co-roteirista Anthony Frewin – não tivessem tido conhecimento do caso Alan Conway e, melhor ainda, não tivessem ficado impressionados com o potencial ficcional de um caso verídico.

Tão impressionados ficaram que se uniram para quê? Sim, para produzir um filme sobre a figura de Alan Conway. Tiveram a sorte de conseguir ninguém menos que John Malkovich para o papel principal e o filme foi lançado, em 2005, com um título irônico e cheio de trocadilhos: “Colour me Kubrick: a true…ish story”. No Brasil, os distribuidores preferiram simplificar, ou complicar mais: “Totalmente Kubrick”.

Inspirados no personagem, fizeram um filme “falso”, um falso Kubrick, digamos, no sentido positivo do adjetivo, se é que isto é possível. Inevitavelmente, o filme está contaminado de uma atmosfera comicamente kubrickiana, que vai das indumentárias à trilha sonora (sim, a valsa de Strauss, a nona sinfonia de Beethoven, etc…), sem falar nas muitas referências, diretas ou indiretas, à filmografia de Kubrick, naturalmente todas de propósito incorretas ou equívocas.

Um exemplo sintomático: depois de constatar o lado gay desse “Kubrick” que, admirados, acabaram de conhecer, dois rapazes londrinos passam a delirar sobre “2001”, propondo um deles que o Hal do filme seria, na verdade, um homo-computer, no caso, a senha deixada pelo cineasta, para a posteridade, sobre a sua secreta opção sexual. Ao tratar do elenco de “Spartacus” – o que ele faz várias vezes – o nosso falso Kubrick sempre se refere ao ator principal como “a Senhorita Kirk Douglas”, o que deixa, naturalmente, os seus interlocutores perplexos. E nós, espectadores, mais ainda, quando se sabe que o ator referido – ao contrário de muita gente em Hollywood – nunca foi gay.

E Conway/Kubrick conta a seus interlocutores abismados vários segredos de sua própria vida e carreira. Teria feito um papel infantil no filme “Grandes esperanças” de David Lean (1946). Ao começar a dirigir quis fazer uma refilmagem de “Sansão e Dalila” de Cecil B DeMille (1949). e ainda alimentava planos de rodar um remake de “Darling, a que amou demais” (1965), com ou sem o consentimento de John Schlessinger.

Mas não é só às suas vítimas que Conway/Kubrick fala. Composto de vários sketchs com os golpes do protagonista e seus ora bem sucedidos ora desastrosos resultados, o roteiro intercala elementos de reportagem, em que os personagens se dirigem à tela e depõem. Trata-se de uma farsa sobre um impostor e, portanto, de propósito, não há aprofundamento, nem psicológico, nem de outra ordem, e o papel de Malkovich é basicamente caricaturesco, com a complicação adicional de que o que temos, a rigor, é um grande ator fingindo ser um péssimo ator.

Filmes bem conhecidos como, “O grande impostor” (Robert Mulligan, 1961), “Kagemusha” (Akira Kurosawa, 1980) e “Prenda-me se for capaz” (Steven Spielberg, 2002) levaram o tema da impostura a sério. “Totalmente Kubrick”, ao contrário, é uma comedia camaleônica que brinca com o assunto ao ponto de beirar a irresponsabilidade.

O fã de Stanley Kubrick tem duas alternativas diante do filme, a depender de suas inclinações temperamentais: uma é relaxar e se divertir; a outra, indignar-se e irritar-se. Fica a seu critério.

De minha parte, não consegui me desvencilhar de um sentido irônico a mais que “Totalmente Kubrick” adquire por causa da mera presença de John Malkovich. Como se sabe, tanto prestígio tem o ator, em Hollywood e no mundo, que há não muito tempo foi lançado um filme sobre uma viagem no interior de sua mente, que se chamou “Quero ser John Malkovich” (Spike Jonze, 1999).

Ora, não é este o título mais apropriado para a estória de Alan Conway: “Quero ser Stanley Kubrick”?

 

* Ilustração publicada no site: http://www.thestranger.com/seattle/Content?oid=297435