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Ney nu

20 dez

Entrando no rol das ´atuais películas brasileiras sobre música´, o documentário “Olho Nu” (Joel Pizzini, 2013, exibido no FestAruanda) sustenta o nível do gênero, e, em certos aspectos, até o eleva. Construído a partir de mais de 300 horas de gravações do acervo pessoal do cantor Ney Matogrosso, o filme de Pizzini se equilibra entre a biografia, o ensaio e a poesia plástica. Como Ney, nem porra-louca nem certinho; como Ney, elegante.

ney 1

Deixando de lado o esquema tradicional da entrevista do biografado, a narração faz uso criativo de sua fala, quase sempre em over, usando imagens de suas performances em combinação com essa fala, e mais, com uma mui bem-vinda dosagem de encenações originais, concebidas para o filme, em que Ney, no papel de ator, interpreta a si mesmo – encenações, atenção, não necessariamente musicais. Uma das mais curiosas é aquele ´trompe l´oeil´ onde se vê, primeiramente uma paisagem rural, por trás da qual, de repente, vai surgindo a enorme cabeça de Ney, e só então nos damos conta de que se tratava de uma maquete.

Da vida pessoal do cantor/ator fica-se sabendo o que interessa, e o que interessa é o que de mais subjetivo nessa vida conduziu à carreira profissional desse ícone da MPB.

Claro, está lá toda a sensualidade de sua figura e o seu conhecido poder de sedução das plateias. Andrógino, mutante, polimorfo, transgressor, Ney, foi, historicamente falando, como se sabe, um dos nomes a contribuir – propositadamente ou não – para a consciência da diversidade.

Ney Matogrosso, recebendo o troféu Aruanda, em João Pessoa.

Ney Matogrosso, recebendo o troféu Aruanda, em João Pessoa.

Quando ainda pequeno – ele mesmo conta – a direção de sua libido foi despertada pela igreja. Ao se confessar, o padre teria lhe perguntado se fizera ´saliências com meninas´, e depois da resposta negativa, o padre teria insistido ´e com meninos?´ Segundo Ney, foi nesse momento que descobriu que existia a possibilidade de se fazer ´saliências com meninos´, Em dado momento chave, agradece ter tido um pai militar e moralista… ´para poder ser transgressor´.

A propósito de erotismo – um elemento decisivo na carreira do cantor – até mesmo a relação com o público é assim definida, quando confessa que, em começo de carreira ele queria ´comer´ as plateias, enquanto que hoje, ele se satisfaz em ´acariciá-las´.

Aberto, solto, sincero, esse Ney não esconde suas inseguranças. ´Não acho meu corpo bonito – diz ele – mas ajo como se fosse… e o público acredita´. Há mesmo um Ney indeciso, cindido pelo tempo: em dado momento do passado, ele aparece dizendo que precisava de um ´esquema´, e agora o vemos, assistindo a si mesmo na TV, negando isso, ou seja, discordando de si mesmo. Já um Ney brincalhão nos explica o seu sucesso pelo buraco entre os dentes: ´dizem que quem tem buraco nos dentes tem sorte: acho que é o meu caso´, solta ele, rindo e mostrando a saliência dentária.

Ney: voz, talento e sedução

Ney: voz, talento e sedução

Pouco linear, este semi-documentário ritmado e inventivo não se incomoda de misturar os tempos e um show do cantor já consagrado pode anteceder o seu relato de juventude quando, em Brasília, fazia parte modesta de um coral em que, meio por acaso, o maestro lhe descobriu o que ele não sabia que tinha: extraordinários dotes vocais.

Algumas chaves de sua carreira nos são entregues de modo franco. Uma delas, talvez despercebida para muitos, consistiu na quebra de uma regra básica nos shows televisivos de seu tempo: nunca olhar para a câmera. ´Ora – confessa ele – era o que eu mais queria fazer e foi o que eu fiz: encarar a câmera´ – com certeza, mais um de seus caminhos para a sedução do público.

No filme, mesmo sem o esquema da entrevista clássica, ele também nos olha nos olhos, daí o título “Olho nu”. E não só ´olho´ porque, sim, Ney, em dois ou três momentos da mise-em-scène, nos aparece completamente despido, nos seus setenta e um anos de idade, esbelto como um garoto e cheio de vigor.

Esse vigor, aliás, foi conferido ao vivo pelos freqüentadores do Fest-Aruanda, onde ele se fez presente, claro, para receber o troféu de ator, que, modestamente, confessou não merecer – embora ser ator tenha, na sua trajetória pessoal, lhe antecedido o desejo de ser cantor.

“Olho Nu” é claramente um daqueles filmes em que o assunto seduziu o cineasta. E com Ney Matogrosso poderia ser diferente?

Cartaz do Fest-Aruanda em sua versão 2013

Cartaz do Fest-Aruanda em sua versão 2013

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Fest-Aruanda

13 dez

Começa hoje, dia 13, sexta-feira, o Fest-Aruanda, em sua oitava versão, e se estende até o dia 19, com uma rica e vasta programação, a acontecer, desta vez, nas salas de cinema do Mag Shopping, (João Pessoa, Paraíba) e – cuidado para não errar o endereço! – não mais no Hotel Tambaú.

Apesar do lapso do ano passado, quando não foi possível realizá-lo, o FestAruanda é um festival de cinema paraibano que vem crescendo a passos largos, inclusive, desta vez com dois dias a mais de atividade.

Não vou especificar a programação, que está devidamente divulgada na imprensa, escrita, falada e virtual, mas gostaria, sim de dar uns destaques.

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

Parece-me que a versão deste ano tem um certo peso político especial, com o tema recorrente “50 anos de ditadura militar no Brasil pelo olhar do cinema brasileiro”, com mostra retroativa de filmes que trataram do assunto, como PRA FRENTE BRASIL (Roberto Farias, 81), JANGO (Silvio Tendler, 88), BARRA 68 (Vladimir Carvalho, 2000), BOILESEN (Chaim Litewski, 2009) e O DIA QUE DUROU 21 ANOS (Camilo Tavares, 2012). Este último, em apoio ao Festival, é assunto da minha coluna semanal no jornal CONTRAPONTO.

O mesmo tema, digo A ditadura militar brasileira, será assunto de uma mesa redonda, com presença de alguns dos autores dos filmes mostrados e de outros documentaristas, além de jornalistas paraibanos e brasileiros, com mediação de Maria do Rosário Caetano.

Como é de praxe, o FestAruanda costuma prestar homenagens a figuras proeminentes do mundo cinematográfico ou cultural do país. Este ano os homenageados especiais serão o cantor Ney Matogrosso, o ator Lázaro Ramos, o documentarista Sílvio Tendler e o crítico Jean-Claude Bernardet, homenagens mais que merecidas.

E fecho este meu comentário com um pouquinho de Paraíba. Na primeira noite do Fest-Aruanda, hoje, portanto, logo após a solenidade de abertura, e em homenagem à memória do cinema paraibano, será exibido um curta-metragem curioso (12 min) que se chama O MURAL QUE O VENTO LEVOU, de autoria da dupla Wills Leal e Mirabeau Dias, sobre um certo encontro de cineastas paraibanos no dia 28 de dezembro de 1995, dia em que o Cinema completou 100 anos. O encontro foi na famosa e desejada casa de Leal, em Manaíra, João Pessoa, em cuja parede externa pintores paraibanos pintaram cenas cinematográficas, tudo seguido de uma monumental farra. Eu, claro, estava lá.

No mais, leitores deste blog que gostam de cinema, é ficar atento à programação e comparecer, que o FestAruanda é gratuito.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Oz antes de Dorothy

13 mar

oz posterAlguma razão especial para ir ver “Oz, mágico e poderoso”? Não sei vocês, mas comigo foi somente saudades de Dorothy e seu sonho de transpor o arco-íris.

Claro, o tempo ficcional do filme de Sam “aranha” Raimi é anterior à visita de Dorothy (Conferir: “O mágico de Oz”, 1939) e nada tem a ver com ela e seus companheiros de aventura.

Ou tem?

Bem, o protagonista Oscar Diggs, como Dorothy, também é de Kansas, e sua estória, como a de Dorothy, também pode ser lida como um sonho: vejam que uma das três bruxas no reinado de Oz, Glinda, a boa, tem o mesmo corpo de Annie, a mulher amada que, na vida “real”, Oscar teve que entregar a outrem. A lógica aqui é, manjadamente, aquela de que nos sonhos, realizamos desejos irrealizáveis.

Acontece que Oscar Diggs (James Franco), o homem de carne e osso, é dono de um circo onde pratica mágicas, nem sempre honestas e nem sempre efetivas. Desmascarado, foge de balão e no caminho é levado por um tornado (outro ponto em comum com Dorothy?) para a terra mágica de Oz, lá sendo entendido como o grande salvador da pátria, posição que assume, quase de bom grado – aquele que vai livrar o lugarejo da bruxa má. `De bom grado´ porque todo o ouro de Oz vai estar ao seu dispor; ´quase´ porque, para tanto, ele precisa destruir a bruxa má, que, meio indefinida, reina desde a morte do Rei do lugar.

Evidentemente, as melhores mágicas do filme não são de Oscar Diggs, e sim da equipe de filmagem, e já começam quando Oscar pousa em Oz e faz amizade com aqueles que seriam seus companheiros de aventura: o macaquinho alado Finley, e a bonequinha de louça cujas pernas ele faz o milagre de consertar.

oz 1

Como sói acontecer no cinema atual, a mirabolante estória de como esse falso mágico virou o Mágico de Oz nos é mostrada com um monte de efeitos especiais, só possíveis na era da computação, e o filme é um show de visualidade que deslumbra, ao menos os desacostumados a esse excesso de plástica.

Em dado instante da narração, quando Oz, em pleno confronto com os malignos poderes das bruxas, aparentemente, foge da raia no balão, uma das bruxas (são três!) desabafa: “quão previsível”.

Talvez a expressão valha para o filme, porém, uma coisa que me agradou foi a solução engenhosa de Oscar Diggs – e dos roteiristas! – para vencer os seus adversários, no que o filme se revela uma grande homenagem ao cinema.

Ocorre que o mágico Oscar Diggs era um fã de Thomas Edison, como se sabe, depois dos irmãos Lumière, o segundo inventor do cinema – conforme ele revela à bonequinha de louça, em comovido tom confessional “o maior mágico de todos os tempos”, cuja grandeza ele queria ter. E, assim, o esquema de Oscar para ludibriar e conquistar os inimigos é com uma mega projeção cinematográfica, aprendida de Edison, que espanta a todos, ingênuos habitantes de Oz e malvadas bruxas.

Inevitavelmente, ao espectador ocorre a relação com filmes recentes que vêm homenageando o cinema do passado, especialmente com “A invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011) cuja remissão é ao primitivo cineasta George Méliès, ele também, na origem, um homem de circo.

Oz 3

A prequela toda (no sentido de ´estória anterior a outra´) se inspira claramente nas lendas infantis conhecidas, mas há intertextos que vão além disso: um deles é certamente o shakespeariano, já que as três bruxas de Oz (sendo duas más e uma boa) configuram uma mistura de personagens em “O Rei Lear” (três filhas, sendo duas más e uma boa) e “Macbeth” (três bruxas).

Como a aventura de Dorothy em “O mágico de Oz”, a de Oscar Diggs também termina em lição de moral. A dela – vocês lembram, não é? – concluía que ´não há lugar como a nossa casa´; aqui, o edificante ensinamento consiste na mudança entre dois valores humanos, de ´grandeza´ (termo de Oscar Diggs, no início do filme usado em conversa com Annie, a amada) para ´bondade´ (termo da boa bruxa Glinda, no final, a mesma que tem o corpo de Annie, papel da atriz Michelle Williams).

A propósito de prequela, fico pensando se a moda pega. Será que alguém vai um dia fazer a de “Cidadão Kane”, contando a vida pregressa do protagonista antes de ele se tornar o grande magnata? No filme de Orson Welles o vemos criança e – grande elipse, semelhante a de Cristo – pulamos para o adulto.

Mas, enfim, valeu a pena ter visto “Oz, mágico e poderoso” (Oz, the great and powerful”, 2013)? Sei lá, acho que sim.

Oz 2