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Cinegenia

28 out

Vamos aprender uma palavra nova? É um neologismo do mundo cinematográfico, mas, na verdade, tardio, pois já devia ter sido inventado há muito tempo. Hoje em dia usado por estudiosos da sétima arte, a palavra é “cinegenia”, com o seu adjetivo “cinegênico”.

É fácil de entender por comparação. De uma pessoa que se sai bem ao ser fotografada não se diz que é fotogênica? Pois cinegênica seria a pessoa que se sai bem ao ser filmada. E não esquecer que entre fotogenia e cinegenia está uma coisa essencial em cinema, que é o movimento.

A existência do termo (e do conceito, evidentemente) se justifica pelo fato de que – assim como no caso da fotografia – há pessoas que são cinegênicas e há outras que não o são. Além disso, vale lembrar que cinegenia não coincide, necessariamente, com beleza: nem todos os belos são cinegênicos e nem todos os cinegênicos são belos.

Giulietta Massina

Giulietta Masina

Exemplos? Um que me ocorre de chofre é o da atriz italiana Giulietta Masina. Ninguém diria que ela é bela, sequer bonita, e, no entanto, há rosto mais cinegênico? Lembrem sua carinha pintada de palhaço em “A estrada da vida” (La strada, 1954) ou borrada de lágrimas em “Noites de Cabíria” (Le Notte di Cabiria, 1957) e concordem comigo. E aqui – como, aliás, nos exemplos a seguir – não se trata só de rosto, mas do todo, corpo, poses e gesticulações.

Nos velhos tempos do Free Cinema inglês, começo dos anos sessenta, surgiu uma atriz que, por todos os critérios seria considerada feia: Rita Tushinham, lembram dela? Fazia parte daquele movimento cinematográfico colocar na tela ´gente comum como a gente´. O rosto comum de Rita, porém, é, independente de seu talento de atriz, extremamente expressivo na tela, ou seja, cinegênico. Para conferir revisite filmes como “Um gosto de mel” (“A taste of honey”, 1961), “Um amor sem esperanças (“Girl with green eyes, 1964), “A bossa da conquista” (“The nack and how to get it”, 1965).

No cinema brasileiro há casos assim, digo, de atrizes que, não sendo propriamente bonitas, são ou foram, cinegênicas ao extremo: Maria Ribeiro (de “Vidas secas”, 1963), Miriam Pires (“Chuvas de verão”, 1977), Dina Sfat (“Macunaíma”, 1969) e Isabel Ribeiro (“São Bernardo”, 1972), são exemplos que me ocorrem no momento em que escrevo.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

A inglesa Rita Tushingham, atriz do Free Cinema.

No cinema americano mais recente me vêm pelo menos dois casos: Frances McDormand (revejam “Fargo”, 1996, ou “Mississipi em chamas”, 1988) e Kathy Bates (“Tomates verdes fritos”, 1991, “Louca obsessão”, 1990, etc). No passado talvez seja o caso de se falar em Joan Crawford. Ou Bette Davis seria um exemplo melhor?

Entre os homens, a mesma coisa. No cinema clássico americano ninguém deve ter sido mais feio que Karl Malden, com aquele narigão de bola, olhos apertados e boca miúda. E, no entanto, quando seu rosto aparecia na tela prendia a atenção, e os motivos eram cinegênicos. Lembrem dele como o padre angustiado de “Sindicato de ladrões, 1954, como o marido traído de “Boneca de carne”, 1956, ou como o mineiro mau caráter no western “A árvore dos enforcados”, 1958.

Outro feioso para quem a gente gostava de olhar era o sempre coadjuvante Peter Lorre, normalmente em papéis meio sórdidos, como foram os seus em “Casablanca” (1942), “Relíquia macabra” (1940), “Este mundo é um hospício” (1944), “Zona proibida” (1949), “Muralhas do pavor” (1962) e tantos outros.

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

O americano Karl Malden e seu nariz de bola

Estou falando de pessoas, mas, o conceito de cinegenia, claro, também vale para outros seres: objetos, armas, edifícios, construções, paisagens, etc. – uns mais estáticos outros menos, mas todos sempre explorados pela mobilidade da câmera.

Entre os meios de transporte, por exemplo, não conheço um que seja mais cinegênico que o trem. Pensem em cenas fílmicas com trens e, mais uma vez, concordem comigo. E vejam que tudo começou com os irmãos Lumière, em 1895, com um trem chegando à estação e fazendo os espectadores correrem com receio de serem atropelados. Depois disso, os cineastas vindouros descobriram que a câmera cinematográfica era apaixonada por trens… E o resto da história vocês conhecem. Eu mesmo cheguei a redigir um longo ensaio, publicado neste Correio das Artes, em que analiso a presença do trem no cinema de todos os tempos.

Acho que um navio não é tão cinegênico, e muito menos um automóvel. Tudo bem, concordo em que a relação do objeto filmado com a câmera pode incrementar a cinegenia. As diligências de John Ford eram incrivelmente cinegênicas, é verdade.

O trem, personagem central de

O trem, personagem central de “A General”.

Na categoria das paisagens é fato que os desertos e colinas do Oeste americano ficavam muito bem nas mãos hábeis de diretores como Raoul Walsh, Anthony Mann e Howard Hawks, mas, a terra esturricada do nordeste brasileiro em “Vidas secas”, também é impressionantemente cinegênica.

O mar pode ser muito cinegênico, a depender do cineasta. Recordo – só para não deixar de dar exemplos – as ondas avassaladoras que quebram por cimas das rochas no documetário de Robert Flaherty “O homem de Aran” (1934) ou, no melodrama hollywoodiano “Sagrado e profano” (1947) ou no drama adúltero de David Lean “A filha de Ryan” (1970). Quanto ao deserto, ninguém tem mais dúvidas se é cinegênico depois de ter visto “Lawrence da Arábia” (1962).

Já com a paisagem citadina a coisa complica. Num filme noir, preto e branco, ruas estreitas, calçadas molhadas e becos mal iluminados são extremamente cinegênicos, porém, se o filme, nesse gênero, é colorido o efeito pode ser outro. Ainda hoje se discute, por exemplo, se o colorido gritante de “Amar foi minha ruína” (“Leave her to Heaven”, 1947) dá certo com sua temática sombria e criminosa.

A cor gritante de

A cor gritante de “Amar foi minha ruína” num filme noir.

Para não deixar de fora os objetos, lembremos o telefone, imagem recorrente no suspense de William Castle “Eu vi que foi você” (1965), ou seu efeito perturbador na  cena final de “Assim estava escrito” (1952), o drama de Vincente Minnelli sobre os feios bastidores de Hollywood. Outros objetos marcantes: a gravata em “Frenesi” (Alfred Hitchcock, 1972), ou os sapatos em “Pacto sinistro (1951) do mesmo diretor. Neste mesmo viés icônico, o relógio pode ser lembrado em dois westerns muitos parecidos: “O matador” (Henry King, 1950) e “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952). O chapéu, no caso feminino, tem uma significação especial em “Testemunha de acusação” (Billy Wilder, 1956) e “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1963). E por falar em moda, destaco os muitos vestidos que Madeleine/Judy Barton (ambas Kim Novak) usam em “Um corpo que cai” (1958). Mesmo se você não é ligado em indumentária, sai do cinema com a imagem na cabeça. Isto para não falar no coque de Carlotta Valdez, que tem os mesmos contornos centrípetos da vertigem de John Ferguson, o personagem de James Stewart.

Bem, como é possível que a cinegenia (tanto quanto a beleza em Platão) dependa dos olhos de quem vê, o jeito é conceder ao leitor o direito de duvidar dos meus exemplos… e escolher os seus.

Cinquentões em 2015

9 jan

 

 

Neste 2015 que começa, quais são os filmes que estarão completando cinquenta anos? Aqui proponho uma mexida no baú do passado, aquele baú em cuja fechadura está gravado o número 1965.

Acho que de chofre todo mundo vai lembrar-se de “A noviça rebelde” (“The sound of music”, Robert Wise), “Dr Jivago” (David Lean) e “A maior história de todos os tempos” (“The greatest story ever told”, George Stevens), os três maiores sucessos de bilheteria de 1965, mas, claro, a lista é grande e pede uma triagem.

Omar Sharif e Julie Christie em "Dr Jivago".

Omar Sharif e Julie Christie em “Dr Jivago”.

Sugiro que comecemos com as cinematografias menores, e a primeira pode ser a brasileira. Em 1965, auge do chamado Cinema Novo, pelo menos quatro filmes não podem deixar de ser mencionados: “A grande cidade” de Carlos Diegues, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Menino de engenho” de Walter Lima Jr, e “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

No Japão, o grande Akira Kurosawa lançou o seu drama hospitalar “O barba ruiva”, filme de tom existencial, baseado no escritor Shugoro Yamamoto, com o seu ator predileto Toshiro Mifune.

Na Índia é a vez do não menos grande Satyajit Ray mostrar ao mundo ocidental o comovente drama conjugal “A esposa solitária”, título, aliás, bem sintomático para todas as estórias (no viés de “Desencanto” ou “Casablanca”) sobre mulheres apaixonadas fora do casamento.

Música nas montanhas em "A noviça rebelde".

Música nas montanhas em “A noviça rebelde”.

Já no México, e quase solitariamente, o sempre perturbador Luis Buñuel lança a sua fantasia pseudo-religiosa “Simão do deserto”.

Com o que passamos à Europa. Na Checoslováquia, um país até então sem grande destaque cinematográfico, um certo boom ocorria na época e um dos seus mais ativos cineastas era um jovem ainda pouco conhecido no mundo, chamado Milos Forman, que em 1965, produziu o interessante “Os amores de uma loura”.

Na França ainda se estava em plena Nouvelle Vague, embora o ano de 1965 não tenha sido particularmente significativo. É verdade que Jean-Luc Godard lançou, neste ano, dois petardos bem típicos de sua proposta cinemática, “O demônio das onze horas” e “Alphaville”, mas, foi só. A não ser que se queira citar a comédia aventuresca de Louis Malle “Viva Maria”, com as musas Bardot e Moreau.

"Thunderball" - James Bond e suas mulheres.

“Thunderball” – James Bond e suas mulheres.

A Itália era outra cinematografia em ebulição, que, no ano em questão, estranhamente também não foi lá muito expressiva. Dignos de nota são apenas: o drama social “De punhos cerrados” de Mario Bellocchio, o esteticamente indeciso “Vagas estrelas da Ursa” de Lucchino Visconti, e o fraco “Julieta dos espíritos” de Federico Fellini. Por outro lado, na terra das massas finas começava a dar os primeiros passos um novo gênero, o faroeste spaghetti de Sérgio Leone, e o seu representante do ano foi “Por uns dólares a mais”.

Quem balançou o coreto no ano foi certamente a Inglaterra, com produções próprias, engrossadas por co-produções interessantes. Considerados expressões do movimento Free Cinema foram os filmes “Darling a que amou demais”, de John Schlessinger, “O ente querido” de Tony Richardson, “Help” e “A bossa da conquista”, estes dois últimos do criativo e inovador Richard Lester. Isso era o lado cult da ilha, mas também houve o comercial, com uma das maiores bilheterias do ano: “007 contra a chantagem atômica”, de Terence Young. Somem-se a isso as muitas co-produções, principalmente com os Estados Unidos, por exemplo: “O espião que saiu do frio” (Martin Ritt), “Bunny Lake desapareceu” (Otto Preminger), “Lord Jim” (Richard Brooks) e “Repulsa ao sexo” (Roman Polanski).

"Pierrot le fou - Belmondo e Ana Karina.

“Pierrot le fou” – Belmondo e Ana Karina.

Em processo de transformação, Hollywood hesitava entre superproduções (as citadas na abertura desta matéria) e filmes menores, dirigidos a públicos específicos. Podiam ser filmes históricos, como “O senhor da guerra (Franklin Schaffner) e “Agonia e êxtase” (Carol Reed); ou dramas existenciais como “A nau dos insensatos” (Stanley Kramer); ou suspenses tipo noir, como “Eu vi que foi você” (William Castle) e “O colecionador” (William Wyler); ou policiais mais convencionais como “O gênio do mal” (Robert Mulligan); ou dramas raciais como “Quando só o coração vê” (Guy Green), ou filmes de guerra, como “A colina dos homens perdidos” (Sidney Lument), ou então comédias faroeste como “Dívida de sangue” (“Cat Ballou” de Elliot Silverstein)…

Um óbvio sintoma de que a velha Hollywood clássica estava cansada de guerra vinha numa estória de amor com grande elenco (Elizabeth Taylor, Richard Burton, Eva Marie Saint e Charles Bronson) e bela música, dirigida por um dos grandes do passado, ninguém menos que Vincente Minnelli, mas que não conquistava mais ninguém, nem críticos nem público. Refiro-me melancolicamente a “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”), localmente exibido no nosso saudoso Plaza, a que assisti junto com alguns poucos espectadores tão melancólicos quanto eu mesmo.

E, assumido o risco das omissões, fecho o baú.

Liz Taylor e Richard Burton em "Adeus às ilusões".

Liz Taylor e Richard Burton em “Adeus às ilusões”.