Tag Archives: A Embriaguez do Sucesso

Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

Anúncios

Revisitando “A malvada”

10 out

O que é um clássico? Não sei ao certo, e nem Ítalo Calvino me ensinou bem isso. Só sei que não existem clássicos que não sejam revisitáveis.

Esta semana revisitei um, o extraordinário “A malvada” (“All about Eve”, 1950), e o fiz junto com um grupo de amigos cinéfilos que me ajudaram a descobrir mais detalhes no filme de Joseph Mankiewicz do que eu vira em leituras anteriores.

all about eve

Digamos de início que o filme dá uma aula sobre como, em cinema, imbricar duas construções: a do personagem e a do roteiro. Do ponto de vista narrativo e ao mesmo tempo descritivo, é a estória dessa Eve do título original, uma jovem ambiciosa cujo sonho é conquistar os aplausos da ribalta da Broadway e do mundo, e que, para tanto, passa por cima de todos, e mais que isso, passa por cima de si mesma, digo, de sua própria integridade moral. Na mesma medida em que vamos conhecendo as etapas do seu astuto acesso ao mundo do teatro, vamos nos aprofundando na sua psicologia, até, no final, mais que todos os outros personagens da estória, sabermos – como mantém o título – ´tudo sobre Eve´.

Uma maestria a mais está no desenvolvimento do ponto de vista. Vejam que a estória de Eve começa a ser narrada em três pontos de vista limitados (o do crítico DeWitt, o da esposa do dramaturgo LLoyd, Karen, e o de Margo, a atriz “engolida” por Eve), para depois os abandonar e tomar a forma mais poderosa da narração onisciente, que cumula no desenlace.

Trata-se de um filme sobre teatro… que não é teatral. O espectador pode achar que há diálogo demais, porém, em nenhum momento este parece excessivo, tão adequado é o seu uso para demonstrar o nível de cinismo e sarcasmo envolvido nas caracterizações. As falas são pérolas de ironia que, aliás, ficaram – algumas – para a história do cinema, como aquela em que a amarga Margo (Bette Davis) anuncia, antes da festa de aniversário do seu companheiro e diretor: `apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências´

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Trata-se de um filme com mensagem… e que, no entanto, não é moralista. Refiro-me à famosa cena final em que, depois do sucesso conquistado, Eve se depara com essa intrusa, de nome Phoebe; na cena, a multiplicação da imagem dessa candidata à ribalda, ostentando o vestido de Eve nos espelhos da casa, quer nos dizer que Eve é só um item dentro de uma série, porém, ao invés de soar como moralismo quadrado, resulta num comentário visual mais do que apropriado, genial.

O nível de contundência psicológica é alto para a época e o filme nos parece, ainda hoje, moderno. Essa contundência está por toda parte, mas, para ilustrar, me reporto pontualmente àquela cena, quase final, em que o crítico DeWitt (George Sanders) abre o jogo com Eve (Anne Baxter), revelando a sua natureza malsã, coincidente com a dele. Segundo ele mesmo grita a uma Eve em prantos: “nós somos iguais; temos o mesmo desprezo pela humanidade, a mesma incapacidade de amar ou ser amado e o mesmo… talento”.

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Como estamos no mundo do teatro, o Cinema é, no diálogo, frequentemente criticado como um entretenimento menor, coisa do Oeste bronco e brega, em contrapartida à sofisticação da Broadway e adjacências. Dentre os personagens, Bill, o diretor da peça em andamento e marido de Margo, é o único a responder a um ou outro chamado de Hollywood, o que é visto por todos os outros como um desperdício de talento. Esse generalizado “rebaixamento” da Sétima Arte nos diálogos de “A malvada” não impediu que o filme viesse a receber onze indicações ao Oscar, das quais levou seis, incluindo os Oscar de melhor filme e de melhor diretor. Não impediu, ou talvez tenha mesmo contribuído…

O elenco todo está excelente, onde destaco a eterna coadjuvante Thelma Ritter, no papel da empregada de Margo, a primeira a lhe abrir os olhos para o comportamento perigoso de Eve. Os dois coadjuvantes com estatuto de narradores são Celeste Holm (como Karen, esposa do dramaturgo LLoyd) e George Sanders (como o crítico teatral Addison DeWitt), este último levando o Oscar nesta categoria. Em começo de carreira, Marilyn Monroe faz uma ponta como uma starlet à cata de oportunidades, pequeno papel que, ironicamente, a conduziria ao estrelato na vida real.

O que está exposto em “A malvada” são as feias e ensanguentadas entranhas do Teatro, assim como Billy Wilder expusera as entranhas do Cinema em “Crepúsculo dos deuses” (mesmo ano, 1950), e assim como Alexander MacKendrick exporia, alguns anos depois, as entranhas do Colunismo social, em “A embriaguez do sucesso” (1957).

Aliás, três clássicos isotópicos dos anos cinquenta, seja lá o que for que a palavra ´clássico´ signifique.

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

Oscar – os ignorados

18 fev

Em tempo de Oscar – e independe dos resultados deste ano – vamos falar mal de Hollywood? Sim, porque, ao longo da história do cinema, quem é que não teve/tem a sua decepção com a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas que, em certos anos, deu prêmio a um filme, quando devia ter dado a outro?

Os casos mais escandalosos que lembro são os de 1952 e 1974. Em 52 os indicados “Depois do vendaval” (John Ford), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann) e “Moulin Rouge” (John Huston) perderam para “O maior espetáculo da terra”, filme tolinho e menor de Cecil B DeMille. Já em 74 os ótimos “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula), “Rede de intrigas” (Sidney Lumet) e “Taxi driver” (Martin Scorsese) foram derrotados por “Rocky, o lutador” (John G. Avildsen). Pode?

Bem, estes foram injustiçados, mas pelo menos estiveram na lista dos indicados como melhores filmes do ano. Pior é quando nem a indicação aconteceu. Sim, bem mais grave do que o erro na premiação, é o gesto de ignorar, ou seja, o gesto de sequer indicar filmes que tinham qualidade para ganhar.

Em ordem cronológica, segue aqui uma relação de grandes filmes, hoje considerados clássicos em seus respectivos gêneros, que nunca tiveram nenhuma indicação ao Oscar – e vejam bem! – em nenhuma das muitas categorias pelas quais se premiam os melhores do ano.

O primeiro a citar é o belo “Luzes da cidade” de Chaplin (1931), vocês lembram, a comédia dramática sobre uma violetera cega que se cura com uma operação paga pelo mendigo Carlitos.

A impagável comédia “O diabo a quatro” (1933) com os irmãos Marx, é o meu segundo exemplo. No mesmo ano está a fantástica aventura de Merian C Cooper, “King Kong”, sobre o macaco gigante que quase destrói o Empire State Building.

Protagonizado por Claude Rains, e dirigido pelo mestre James Whale, “O homem invisível” (1937) ainda hoje é tido como um dos ótimos science-fiction de terror do século. No ano seguinte, a comédia maluca de Howard Hawks, “Levada da breca” tinha qualidade para competir com os indicados do ano, e não viu nem o azul da indicação.

Outro Chaplin ignorado foi “Tempos modernos” (1935), filme fundante sobre os efeitos do automatismo no trabalho. Idem para “Contrastes humanos” (1941) de Preston Sturges, essa obra prima pouco conhecida do público, talvez pela falta de indicação.

Em 1946, três grandes filmes foram esnobados: o noir “À beira do abismo” (Howard Hawks), o western “Paixão dos fortes” (John Ford) e o drama “Gilda” (Charles Vidor).

Em 1948 foi a vez de “Carta de uma desconhecida” o belo melodrama de Max Ophuls, e “A dama de Shangai”, o suspense misterioso de Orson Welles.

Em 1950 “Winchester73”o western de Anthony Mann passou batido, e em 1953 quem ficou de fora foi o forte drama policial de Fritz Lang, “Os corruptos”.

Em 1955 não deram nenhuma chance a “O mensageiro do diabo”, aquele único filme que o ator Charles Laughton dirigiu com extremo capricho. Em 1956 John Ford ficou no escanteio mais uma vez, com o seu “Rastros de ódio, mais tarde incluído na lista dos dez mais da crítica internacional.

Em 1957, quatro grandes filmes foram ignorados pela Academia, a saber: “A embriaguez do sucesso” (Alexander McKendrick), “O homem errado” (Alfred Hitchcock), “Glória feita de sangue” (Stanley Kubrick) e “Um rosto na multidão” (Elia Kazan), sem coincidência, todos filmes fortes, livremente baseados em situações reais.

Em 1958 foi esquecido o excelente science-ficction de Don Siegel “Vampiros de almas”, como também o drama policial de Orson Welles “A marca da maldade”,em que CharlstonHestontanto investiu, para poder atuar ao lado de Welles. E em 1959 foi a vez de “Onde começa o inferno”, mais um Howard Hawks desconsiderado.

Em 1961 aAcademia teve a petulância de esnobar uma produção que reunia John Huston (diretor), Arthur Miller (roteirista), Montmongery Clift, Clark Gable e Marilyn Monroe: “Os desajustados” (“The Misfits”). No ano seguinte, “Pistoleiros ao entardecer” esse comovente western maduro de Sam Peckimpah bem que poderia ter estado entre os indicados. Um outro western da década de sessenta que não teve uma só indicação foi “Era uma vez no Oeste” (Sergio Leone, 1968).

A homenagem que Woody Allen (roteirista e ator) fez a “Casablanca”, “Sonhos de um sedutor” (1972), tampouco mereceu indicação. Quase ninguém se dá conta, mas “O iluminado” de Kubrick não teve a mais simples indicação em 1980.

E para não estender mais a lista (pois ela é muito maior do que esta) “Era uma vez na América” (1984), essa bela saga da máfia por Sergio Leone foi mais um dos ignorados pela Academia de Hollywood.

Com favoritos muito a frente dos outros, tudo indica que a premiação deste ano será previsivelmente tranquila e sem surpresas, mas isto não nos fará esquecer o passado.