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Os espectadores também sonham

28 maio

Ainda hoje me lembro quando, lá pelo começo dos anos sessenta, assisti, numa poltrona novinha do recém inaugurado Cine Municipal, a “Os viúvos também sonham” (“A hole in the head”, Frank Capra, 1959). Na inexperiência dos meus quinze anos, eu não sabia se estava vendo um filme bom ou ruim. Os ingredientes pareciam bons, mas o filme não era, ou seria o contrário? Por um lado, o filme batia com o bom cinema americano da minha infância, e por outro, parecia pastiche desse mesmo cinema.

De alguma maneira, que eu não sabia explicar, tudo parecia, falso, inautêntico, na estória desse viúvo, dono de um hotel falido em Miami, que vive dividido entre a responsabilidade paterna (um filho de dez anos) e a porra-louquice de uma vida libertina. Sem muito sucesso, o filme queria fazer dele o anti-herói que não combinava com o materialismo capitalista, um tipo “maluquinho” com um ´parafuso a menos´, ou, como mantém o título original ´a hole in the head´ – um buraco na cabeça. A cena final, em que praticamente todo mundo deixava para lá as questões financeiras e saia cantando “High Hopes” (a canção premiada com Oscar) pela areia da praia, era o símbolo desse despojamento anti-capitalista que eu já vira em alguns dos melhores filmes hollywoodianos.

A estória, porém, soava manjada, as encenações, tolas, tudo muito previsível e no final, se o filme foi capaz de me fazer chorar, foi um choro comprado, artificialmente fabricado. Os atores eram bons (Edward G. Robinson, Frank Sinatra, Thelma Ritter, Eleanor Parker, Carolyn Jones, Keenan Wynn), mas isso não melhorava o resultado. Ou eu estava enganado?

Eu não dominava, então, conceitos teóricos sobre a linguagem cinematográfica, nem tinha a formação e a experiência de hoje, mas aquele filme me punha em crise, achando eu que havia alguma coisa de errado, ou comigo, ou com o cinema que eu amava. E o cinema que eu amava naquele tempo era o americano. Bem entendido: filmes hollywoodianos ruins, naquela época de franca decadência dos grandes estúdios, era o que não faltava, e, eu mesmo, na minha inocência crítica, já havia aprendido, por conta própria, a distinguir o joio do trigo. “Os viúvos também sonham”, porém, me embaraçava.

Embora conhecendo os seus filmes anteriores, naquela época eu nem sabia quem era Frank Capra, e, contudo, aquele filme na minha frente me dizia que ali estava um talento que queria se manifestar e não conseguia… mais.

A crítica cinematográfica local, que eu estava adotando o hábito de ler, me assegurava que o cinema americano já era, e logo deduzi que o que “Os viúvos” me dizia era isso: que o cinema de que eu gostava estava no fim. Lembro que, depois da sessão, passei uns tempos nostálgicos, sentindo um misto vago de saudade e pena de valores que estavam se esvaindo, como se o cinema em si fosse acabar, e pior, com a sensação de que devia mesmo acabar.

O cinema ia acabar? Que nada, me acudia a crítica: a salvação vinha de outro continente, a Europa. Nessa época, a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema nórdico e o italiano já haviam aportado por aqui, e eu, estimulado pela crítica, passei a me empolgar com esse novo cinema, que vinha com toda força, para substituir Hollywood. Eram filmes que doíam (“A fonte da donzela”, “Noites de Cabíria”, “Rocco e seus irmãos”…), mas eram, estes sim, sinceros e verdadeiros.

Tal crença, na morte de Hollywood e salvação do cinema pela Europa, perdurou por uns tempos, até… Bem, esta é outra história, que deixo para outra ocasião.

Voltemos a Capra e seu “Os viúvos também sonham”. O filme foi há pouco selado em DVD e o revi com uma certa curiosidade medrosa. Não houve, porém, novidades – é um Capra agônico, inócuo, esquecível, com poucos traços do seu grande estilo, tão poucos que desaparecem no meio da convenção. Fiquei feliz em constatar que o garoto de quinze anos que o viu quase cinqüenta anos atrás, numa poltrona do Cine Municipal, estava de alguma forma certo em sua confusa reação, e – desculpem – senti saudades, não do filme, mas do garoto.

Foi este o penúltimo filme de Capra: aposentou-se com o igualmente dúbio “Dama por um dia” (1961).

Depois de ter tido acesso ao DVD, andei tentando conversar sobre “Os viúvos também sonham” com amigos cinéfilos e, para minha decepção, ninguém o conhecia, ninguém sequer ouvira falar dele. Para se ter uma idéia, nem o enciclopédico Ivan Cineminha me dava notícias dele… Foi tirado da programação do Municipal antes da data prevista, ou o quê?

Não importa: Capra continua vivo em “A felicidade não se compra” (1946) e em tantas outras obras primas. Ele, e a Hollywood clássica da minha infância.

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