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Oz antes de Dorothy

13 mar

oz posterAlguma razão especial para ir ver “Oz, mágico e poderoso”? Não sei vocês, mas comigo foi somente saudades de Dorothy e seu sonho de transpor o arco-íris.

Claro, o tempo ficcional do filme de Sam “aranha” Raimi é anterior à visita de Dorothy (Conferir: “O mágico de Oz”, 1939) e nada tem a ver com ela e seus companheiros de aventura.

Ou tem?

Bem, o protagonista Oscar Diggs, como Dorothy, também é de Kansas, e sua estória, como a de Dorothy, também pode ser lida como um sonho: vejam que uma das três bruxas no reinado de Oz, Glinda, a boa, tem o mesmo corpo de Annie, a mulher amada que, na vida “real”, Oscar teve que entregar a outrem. A lógica aqui é, manjadamente, aquela de que nos sonhos, realizamos desejos irrealizáveis.

Acontece que Oscar Diggs (James Franco), o homem de carne e osso, é dono de um circo onde pratica mágicas, nem sempre honestas e nem sempre efetivas. Desmascarado, foge de balão e no caminho é levado por um tornado (outro ponto em comum com Dorothy?) para a terra mágica de Oz, lá sendo entendido como o grande salvador da pátria, posição que assume, quase de bom grado – aquele que vai livrar o lugarejo da bruxa má. `De bom grado´ porque todo o ouro de Oz vai estar ao seu dispor; ´quase´ porque, para tanto, ele precisa destruir a bruxa má, que, meio indefinida, reina desde a morte do Rei do lugar.

Evidentemente, as melhores mágicas do filme não são de Oscar Diggs, e sim da equipe de filmagem, e já começam quando Oscar pousa em Oz e faz amizade com aqueles que seriam seus companheiros de aventura: o macaquinho alado Finley, e a bonequinha de louça cujas pernas ele faz o milagre de consertar.

oz 1

Como sói acontecer no cinema atual, a mirabolante estória de como esse falso mágico virou o Mágico de Oz nos é mostrada com um monte de efeitos especiais, só possíveis na era da computação, e o filme é um show de visualidade que deslumbra, ao menos os desacostumados a esse excesso de plástica.

Em dado instante da narração, quando Oz, em pleno confronto com os malignos poderes das bruxas, aparentemente, foge da raia no balão, uma das bruxas (são três!) desabafa: “quão previsível”.

Talvez a expressão valha para o filme, porém, uma coisa que me agradou foi a solução engenhosa de Oscar Diggs – e dos roteiristas! – para vencer os seus adversários, no que o filme se revela uma grande homenagem ao cinema.

Ocorre que o mágico Oscar Diggs era um fã de Thomas Edison, como se sabe, depois dos irmãos Lumière, o segundo inventor do cinema – conforme ele revela à bonequinha de louça, em comovido tom confessional “o maior mágico de todos os tempos”, cuja grandeza ele queria ter. E, assim, o esquema de Oscar para ludibriar e conquistar os inimigos é com uma mega projeção cinematográfica, aprendida de Edison, que espanta a todos, ingênuos habitantes de Oz e malvadas bruxas.

Inevitavelmente, ao espectador ocorre a relação com filmes recentes que vêm homenageando o cinema do passado, especialmente com “A invenção de Hugo Cabret” (Martin Scorsese, 2011) cuja remissão é ao primitivo cineasta George Méliès, ele também, na origem, um homem de circo.

Oz 3

A prequela toda (no sentido de ´estória anterior a outra´) se inspira claramente nas lendas infantis conhecidas, mas há intertextos que vão além disso: um deles é certamente o shakespeariano, já que as três bruxas de Oz (sendo duas más e uma boa) configuram uma mistura de personagens em “O Rei Lear” (três filhas, sendo duas más e uma boa) e “Macbeth” (três bruxas).

Como a aventura de Dorothy em “O mágico de Oz”, a de Oscar Diggs também termina em lição de moral. A dela – vocês lembram, não é? – concluía que ´não há lugar como a nossa casa´; aqui, o edificante ensinamento consiste na mudança entre dois valores humanos, de ´grandeza´ (termo de Oscar Diggs, no início do filme usado em conversa com Annie, a amada) para ´bondade´ (termo da boa bruxa Glinda, no final, a mesma que tem o corpo de Annie, papel da atriz Michelle Williams).

A propósito de prequela, fico pensando se a moda pega. Será que alguém vai um dia fazer a de “Cidadão Kane”, contando a vida pregressa do protagonista antes de ele se tornar o grande magnata? No filme de Orson Welles o vemos criança e – grande elipse, semelhante a de Cristo – pulamos para o adulto.

Mas, enfim, valeu a pena ter visto “Oz, mágico e poderoso” (Oz, the great and powerful”, 2013)? Sei lá, acho que sim.

Oz 2

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Aulas de cinema

5 mar

Em cartaz na cidade, o filme “A invenção de Hugo Cabret” (“Hugo”, Martin Scorsese, 2011) é uma ´aula de cinema´, e não apenas metaforicamente, por ser um excelente filme, mas, no sentido literal da expressão de: ´ensinar ao espectador sobre uma determinada fase primitiva da história da sétima arte´.

Imagino mesmo quantas vezes esse filme não vai, a partir de agora, ser utilizado em salas de aula em cursos de cinema. Mas, vamos com calma: o professor vai precisar fazer a distinção entre o que nele é Ficção e o que nele é História.

A Ficção fica por conta de toda a longa aventura desse garoto órfão, Hugo Cabret, que vive escondido numa estação ferroviária, na Paris de 1931, e todo o complicado episódio de como ele vem a conhecer e redimir o grande cineasta – agora inativo, decadente e amargo – George Méliès. Quem faz o elo entre o garoto fictício e o Méliès verídico é um robô que, para funcionar, precisa de uma certa chave em forma de coração…

Já a História (em oposição à Ficção) diz respeito à vida de Méliès, de fato, digo, veridicamente falando, o primeiro grande cineasta que o mundo conheceu.

Quando o cinematógrafo foi inventado, em 1895, ninguém sabia que destinação esse aparelho teria. Para os seus inventores, os irmãos Lumière, tratava-se somente de um recurso técnico para o registro do real e nada mais.

Ora, foi o prestidigitador George Méliès quem teve a ideia brilhante de que ali estava a arte do futuro. Ao invés de limitar-se a copiar o real, Méliès investiu na fantasia, e inventado e desdobrando trucagens, criou centenas e centenas de pequenos filmes maravilhosos, extravagantemente surreais, em que, por exemplo, um homem podia, a seu bel prazer, aumentar e diminuir o tamanho de sua cabeça inflável, ou em que, um foguete empurrado da terra podia atingir a cara sorridente da Lua.

Essas fantasias fílmicas fizeram, na época, um sucesso estrondoso e daí a pouco Méliès já dispunha de um enorme Estúdio, o Star Films, com equipes de profissionais em todas as áreas a sua disposição.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial, contudo, a produção de Méliès entrou em crise, até o extremo da falência completa, quando o cineasta, em desespero de causa, ateou fogo às películas e ao set de filmagem.

Baseado no romance de Brian Selznick, o filme de Scorsese mistura o verídico e o ficcional, e o faz muito bem, tão bem que eventualmente poderá ficar difícil ao nosso referido professor de cinema fazer os alunos separarem uma coisa da outra. Exemplo: a grande homenagem que, no final, Méliès recebe realmente ocorreu, mas claro, sem ter sido motivada pela atividade do garoto Cabret.

 De todo jeito, momentos há no roteiro em que a distinção se explicita por conta própria. Cito dois. Em certa ocasião, Hugo e a amiga Isabelle vão à biblioteca em busca de livros sobre a história do cinema, e o espectador tem, então, uma reconstituição dessa história, exatamente como se estivesse lendo o livro, página a página. Noutro momento, é o próprio Méliès quem conta a história da sua vida e, de novo, o espectador acompanha a carreira do cineasta como se estivesse assistindo a um documentário em voz over.

Semioticamente distintos das aventuras ficcionais do protagonista Cabret, estes são trechos do filme que soam – não sei até que ponto pejorativamente – como “aulas expositivas de cinema”, as quais os espectadores em geral podem achar cansativas, mas que os cinéfilos com certeza adoram.

O cinema da fantasia plástica que Méliès defendeu e praticou foi importantíssimo para contrapor-se ao realismo cego dos irmãos Lumière, e ainda hoje é referência para cineastas inovadores – como o próprio Scorsese, aliás – que recusam a convenção, porém, a verdade seja dita: não foi só a Primeira Guerra que pôs em crise recepcional esse cinema essencialmente definido pela plástica. Num ano sintomático, 1915, muito distante de Paris, o americano D.W. Griffith cometeria o fundante “Nascimento de uma nação” para demonstrar que a arte cinematográfica a perdurar nem seria cópia do real, nem abstração fantasiosa, e sim, uma grande narrativa com começo, meio e fim.

Mas essa é outra questão, que não cabe aqui tocar, a não ser que seja só para lembrar que “A invenção de Hugo Cabret” ilustra a contento o modelo narrativo de Griffith. E como!

Oscar 2012 – Viva a nostalgia

3 fev

A Hollywood de hoje em dia – todo mundo sabe – é sinônimo de crise de criação. Tanto é que dizem que virou atividade comum, entre os executivos, sair por aí, mundo afora, à caça de roteiros estrangeiros filmáveis que renovem a mesmice local. Parece que a Hollywood clássica filmou quase todas as estórias interessantes, e a moderna (segunda metade do século XX) esgotou o “quase” que faltava.

Verdade ou não, quando se consideram os filmes indicados ao Oscar deste ano de 2012, uma coisa fica clara: é que, para fazer ou premiar, os ´caçadores de novidades´ parecem ter encontrado um filão temático – ironicamente, ou sintomaticamente – o passado.

Nas várias categorias da lista dos indicados, notem a quantidade de filmes – cerca de dez – cujas estórias se passam na primeira metade do século XX, ou mesmo antes. É verdade que alguns desses filmes não foram rodados em Hollywood, mas, de todo jeito, o fato de a Academia os indicar ao Prêmio sugere o centramento no passado, de que falo.

Para começar com os dois mais cotados ao Oscar, “A invenção de Hugo Cabret” (“Hugo”, Martin Scorsese) se passa na Paris dos anos trinta, e “O artista” (“The artist”, Michael Hazanavicius), na Hollywood de 1927/33 quando o som havia chegado e abalado o cinema mudo. E, engraçado, sintam o quiasmo: nos mesmos anos trinta, Paris vista por americanos e Hollywood vista por franceses.

Complicando o quiasmo, o filme de Woody Allen, “Meia noite em Paris” (“Midnight in Paris”) só parcialmente tem a Paris de hoje como assunto – nele o grande lance é mesmo o mergulho retroativo nos anos vinte, onde o protagonista vai encontrar tudo o que interessa a uma mente criativa, e – sintam a ironia – o cara tem que profissão? Sim, roteirista de Hollywood! E, claro, um roteirista em crise.

Depois de sua longa e abstrata introdução atemporal, “A árvore da vida” (“The tree of life”, Terence Mallick) se centra na estória de uma relação entre pai e filho nos anos cinqüenta. Já “Cavalo de guerra” (“Warhorse”, Steven Spielberg) cavalga mais para trás ainda, relatando o paradeiro do animal do título, e seu tempo fica em torno da Primeira Guerra Mundial (1914/1917).

Com Meryll Streep no papel-título, “A dama de ferro” (“The iron lady”, Phyllida Lloyd) reconstitui a vida da poderosa Primeira Ministra britânica, e claro, o tempo diegético inevitavelmente recobre boa parte do século passado, começando nos anos quarenta. E por falar em Inglaterra, “Sete dias com Marilyn” (Simon Curtis, “My week with Marilyn”, como o título já sugere, remonta à década de cinqüenta, na ocasião em que Laurence Olivier tentava filmar “O príncipe encantado” (1957) com a mítica e problemática Monroe.

Já “Histórias cruzadas” (“The help”, Tate Taylor) se reporta ao começo dos anos sessenta (1963) quando uma pretensa escritora recolhe, no racista Mississipi, depoimentos de uma comunidade negra feminina.

O mais remoto no tempo diegético, dos indicados, é com certeza “Albert Nobbs”, (Rodrigo Garcia), que, contando a difícil estória dessa mulher que se disfarça de homem para sobreviver (Glenn Close), se passa na Irlanda do século dezenove.

Ou seja, nesse esquema geral de remissão ao passado, “Os descendentes”, “O homem que mudou o jogo” e “Tão forte tão perto” – filmes com estórias contemporâneas – parecem exceções.

E vejam que até um não-indicado (mas que bem poderia ter sido!) também se reporta ao passado. Refiro-me ao último filme de Clint Eastwood, “J. Edgar”, semibiografia do diretor do FBI que, por trás de sua perigosa fachada de déspota, escondia um perigo – para a época – maior: a sua homossexualidade.

Alguma lição a tirar dessa nostalgia?

Só a impressão de que, tal qual uma senhora idosa e cansada, Hollywood, recriando o passado ou simplesmente premiando-o, está se lembrando de si mesma, do tempo em que era jovem e vigorosa e não lhe faltavam roteiros a filmar.

Ganhe ou perca, dentre os indicados ao Oscar deste ano, “O artista”, esse preto-e-branco mudo, que é francês, mas, como dito, tem Hollywood como cenário e tema – parece ser o filme que mais diretamente ilustra essa impressão.