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A luz do Tom

28 fev

Quem, o ano passado, assistiu ao filme “A música segundo Tom Jobim” (2011) saiu do cinema com a sensação de que aquela hora e meia de projeção era pouco para o tamanho do assunto. E era mesmo.

O cineasta Nelson Pereira dos Santos e sua equipe (Miúcha, inclusive) sabiam disso e não hesitaram em dar continuidade ao projeto de retratar, na tela, o afamado e genial compositor brasileiro.

Em parte baseado no livro da irmã do compositor, Helena Jobim, “Um homem iluminado”, a segunda parte do projeto ganhou o nome de “A luz do Tom” (2012) e está em cartaz na cidade.

Se o primeiro filme tratava preferencialmente do trabalho de Tom Jobim, este segundo vai mais ao homem, e isto a partir, da voz de três mulheres que o conheceram muito bem, na ordem narrativa do filme, a irmã Helena, a primeira esposa Tereza, e a segunda, Ana. Para cada uma, há um cenário diferente, embora os três tragam uma marca da personalidade de Jobim: seu apego à natureza.

Helena, irmã e autora do livro "Um homem iluminado"

Helena, irmã e autora do livro “Um homem iluminado”

Passeando na orla carioca, Helena nos conta a primeira fase da sua vida, seu interesse pelas árvores, pássaros e, claro, música. Num sítio em Itaipava, Petrópolis, Tereza nos fala de como a carreira do compositor deslanchou, dos primeiros percalços aos primeiros sucessos. No Jardim Botânico, Ana nos informa de uma fase já consagrada e mais tranqüila.

O resultado desses relatos femininos sobre um homem é que o espectador fica com um fio biográfico que lhe serve de guia para, se for o caso, melhor entender, apreciar, ou amar, a obra do músico.

Sendo do ramo ou não, para o espectador é ótimo saber, por exemplo, que o menino Tom fazia incursões pelas florestas cariocas com o avô e voltava desses passeios, cheio de música – a que ouvia dos pássaros.

Por outro lado, é curioso saber, que o jovem Jobim tinha sido um desportista dedicado e, por isso, mesmo, tinha mãos rudes e dedos grossos, nada aconselháveis para quem queria ser pianista, com um agravante: estava começando no piano aos 18 anos, quando os profissionais geralmente começam na infância.

Tereza, a primeira esposa

Tereza, a primeira esposa

Igualmente interessante é ficar sabendo que, no processo de compor, Jobim era tão obcecado pela harmonia musical, ao ponto de chamar a atenção dos amigos, que achavam que nisso havia um componente ideológico, como se ele quisesse dar harmonia, não apenas à música, mas também ao mundo. Essa obsessão pela harmonia era tão preponderante que muitas vezes ele esquecia o tema da composição, e, com freqüência, precisava ser lembrado pela esposa, a qual, afinal, terminou por providenciar o que ele não gostava: um gravador.

Naturalmente, emocionante é ouvir as estórias dos primeiros contatos: com Vinicius, com João Gilberto, com Chico Buarque, e, last but not least, com Sinatra.

Creio que um momento todo especial, nos depoimentos, é sobre o primeiro lampejo de “Águas de março”: segundo Tereza, estirado no sofá da sala, depois de um dia de trabalho puxado, exausto de uma reforma que estava fazendo na casa do sítio, Jobim toma o violão e começa a dedilhar e solfejar ´é pau, é pedra, é o fim do caminho…´ e, aí, ela, conhecendo seu hábito malsão de esquecer o tema, o acode e, mesmo desentoada, lhe assegura, via memória auditiva, a linha melódica da canção.

Evidentemente os relatos das três mulheres são dourados com elementos da paisagem (muito mato, muita água e um urubu, pássaro pelo qual, segundo consta, o protagonista tinha especial estimação), de forma que Antônio Carlos Jobim mesmo tem, no filme, um tempo mínimo de tela.

Ana, a segunda esposa

Ana, a segunda esposa

Das três mulheres, a irmã parece ter um destaque, talvez por ser a autora do livro em que o filme foi baseado. Ela está sempre usando aquele característico chapéu do irmão, de modo que, numa primeira tomada, à distância e em plongée, o espectador é levado a confundir os dois. Outro detalhe é que é com ela que o filme se fecha, lembrando (ela) a qualidade contemplativa do irmão. “Eu queria tanto ver o que Tom vê” – segundo ela, teria dito uma prima que visitava a família, referindo-se ao fato de o rapaz permanecer, horas a fio, fitando a paisagem a sua frente.

Embora, como dito, “A luz do Tom” seja a continuação assumida de “A música segundo Tom Jobim”, são dois filmes diferentes. Talvez a maior diferença seja, no segundo, a ausência gráfica do protagonista e, possivelmente com mais peso, o excesso de falas. Não há como negar: o primeiro filme é mais cativante, envolvente, e tem mais charme e ritmo.

Uma coisa é certa – não faz sentido julgar um filme independentemente do outro. Parece-me que, na perspectiva da recepção, o ideal seria vê-los juntos, um imediatamente após o outro. Afinal, esta foi a proposta autoral.

O cineasta Nelson Pereira dos Santos orienta Tereza sobre as filmagens

O cineasta Nelson Pereira dos Santos orienta Tereza sobre as filmagens

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Tom segundo Nelson e Dora

24 jan

Ao escrever sobre o filme de Walter Carvalho “Raul: o início, o fim e o meio” fiz o levantamento dos filmes brasileiros recentes que tratam de música – cerca de 16 – e aventei a hipótese de estarmos, sem o saber, criando um gênero. (Conferir neste blog: “Raul sem fim”).

Pois, mais um para a lista é este magnífico documentário “A música segundo Tom Jobim” (Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, 2012), no momento em cartaz na cidade.

Só que, em relação à lista citada, este traz uma novidade: não gasta fotograma com biografia e o filme inteiro é música, exclusivamente música. Sabiamente, os autores decidiram que Antônio Carlos Jobim já é suficientemente conhecido do público brasileiro, para ser biografado, e que as suas composições falariam por si mesmas. O argumento, epígrafe do filme, é do próprio Jobim: “A linguagem musical me basta”.

Se pluralizarmos o pronome pessoal da frase, é justamente o que acontece em “A música segundo Tom Jobim” – uma longa e deliciosa cadeia de performances musicais, que se sucedem, sem serem interrompidas por explicações, para encanto de espectador. Tanto é que o filme, com uma hora e meia de duração, soa bem mais curto.

Quem quiser saber quando nasceu Jobim, ou onde estudou, que vá às bibliotecas ou internet: o filme não tem uma única palavra falada, só cantada, e as informações epocais, quando as há, aparecem rapidamente nos cartazes dos shows, capas de discos, ou trechos de jornais ou revistas da época.

O que há de mais próximo ao biográfico é, na verdade, contextual: na abertura do filme, as imagens de arquivo do Rio de Janeiro dos anos 50/60, cidade, como se sabe, amada e decantada por Jobim.

Na disposição dos números musicais, a linha seguida é mais estética que propriamente temporal. Por exemplo: da execução de uma canção por um cantor brasileiro, passa-se a outras por estrangeiros, ou vice-versa, sem importar o tempo real que porventura teria dividido tais interpretações.

E o espectador vai ouvir/ver quase toda a discografia de Jobim, em línguas e vozes as mais variadas – de Agostinho dos Santos a Ella Fitzgerald, de Nara Leão a Sarah Vaughan, de Elis Regina a Frank Sinatra, etc… Sem falar em interpretações francesas, italianas, alemãs, japonesas, de suas canções.

Certamente conseguidas com tenacidade extrema, as imagens de arquivo são relíquias preciosas que dão ao documentário uma dimensão histórica. A voz rouca de Maysa interpretando “Por causa de você” em closes dramáticos, ou a dicção fina de Judy Garland cantando “Insensatez” são dois exemplos entre muitos.

Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim (neta do compositor) assinam a direção, no caso presente, um conceito que merece comentário. Uma vez que não há entrevistas com os envolvidos e, menos ainda, encenações, o conceito de direção, sem apagar-se, aqui se dilui em pelos menos três atividades distintas, a saber, pesquisa, roteirização e montagem. Claro, para o resultado sair a contento, é preciso que os diretores tenham tido o filme na cabeça, antes ou durante a realização, principalmente o seu ritmo, digo, o ritmo cinematográfico, que abrange plástica e som, composição e continuidade. E não há dúvidas de que a dupla o tinha – o filme é uma delícia de se acompanhar e, como na música de Jobim, não há quebras ou sopapos, salvo os propositais.

Para não interromper esse ritmo cinematográfico, e no mesmo sentido de descartar os códigos verbi-visuais, os nomes dos intérpretes não aparecem quando das execuções, ficando tudo para o final, onde os créditos vêm ladeados por fotogramas das respectivas execuções musicais.

Em outra matéria sobre o mesmo assunto – i.é, filmes brasileiros recentes tratando de música – tive o cuidado de lembrar uma contradição curiosa da cultura e arte brasileiras do século XX– um país musical como o Brasil nunca foi bom em realizar “musicais cinematográficos”. O mais próximo que já estivemos disso foi com as Chanchadas dos anos 40/50, onde, de todo jeito, os números musicais não possuíam organicidade suficiente para determinar o gênero. Pois nessa mesma matéria, chamo a atenção para o fato de o Cinema Novo Brasileiro ter sido meio anti-musical, e, sem coincidência, cito o filme “Vidas Secas” (1963) como um protótipo disso, onde o gemido atonal do carro de boi simbolizava, na minha visão e audição, essa relativa anti-musicalidade do Cinema Novo, ironicamente um movimento coetâneo à Bossa Nova.

Ora, o que temos agora? Uma volta de 180 graus – o mesmo autor de “Vidas Secas” comete o mais musical de todos os recentes “filmes brasileiros sobre música”.

Já não era sem tempo…