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OS FILMES QUE MINHA ESPOSA ESQUECEU

16 jun

Não. Ela não era cinéfila. Sequer gostava muito de cinema. Mas, coitada, casou com um cinemaníaco inveterado e, pelo menos nos primeiros tempos de namoro e casamento foi “obrigada” a ir a cinema. Essa “obrigação” de namorada e jovem esposa, contudo, deu alguns frutos. Viu filmes que não lhe disseram nada, porém, também viu alguns pelos quais se apaixonou. Poucos, na verdade.

Adorou “A noviça rebelde”, seu modelo perfeito de cinema, romântico, sem violência ou cenas explícitas, com crianças, música, e claro, um final feliz. Um outro de que gostou muito foi o pesado e triste “Cria cuervos” de Saura, aliás, nem sei por que, talvez pela presença da criança e pelo eco da música. Apesar do final trágico, gostou do “Romeu e Julieta” de Zeffirelli, e se divertiu muito com a comédia “Um convidado bem trapalhão”, a que sempre se referia. Ficou muito tempo abalada com “O destino do Poseidon”, filme que aumentou seu pavor de água e afogamento.

A noviça rebelde e suas crianças

Com o passar dos anos, foi indo cada vez menos a cinema, e mesmo em casa, não era de curtir um filmezinho. De alguma maneira, o nível de violência, o baixo astral e a escatologia dos filmes modernos – digo, dos anos 70 pra cá – terminaram por anular de vez seu já fraco interesse por essa sétima arte que o marido tanto amava.

Como era louca por gatos, levei-a um dia, já anos oitenta, ao Banguê, pra ver a reprise de “Um dia, um gato”, mas não gostou nadinha do humor negro desse filme checo. Em tempos menos remotos, gostou muito do documentário “A marcha dos pinguins” (2006), e acho que o último filme que viu foi o “Titanic”, que, se não estou enganado, apreciou um pouco mais que eu mesmo.

Não sei que filmes minha esposa viu antes de me conhecer, no seu pequeno Picuí, que afinal era pequeno, mas cinema tinha. Com certeza, não foram muitos. Lembro que às vezes a ouvia falar de um filme muito tocante, que vira na adolescência, sobre uma garota que era dona de um cavalo e, com muita dificuldade, o treinava para uma grande corrida… Não lembrava o nome do filme e muito menos os atores, só sabia que se comoveu até as lágrimas, e que era tudo muito bonito, filmado em cores, com paisagens deslumbrantes.

Pelo que deduzo, hoje, das lembranças dela, penso que o filme teria sido “A mocidade é assim mesmo” (de Clarence Brown, 1944) onde a pequena e principiante Elizabeth Taylor desempenhava Velvet, a garota do cavalo. O título original é “National Velvet”, que mistura o nome da garota, com o do tal concurso nacional de corrida equestre, o britânico “Grand National”.

E fico imaginando ela, minha esposa, tão jovem quanto a protagonista do filme, acomodada nos bancos de madeira do precário Cine Guarany, em Picuí, assistindo a uma das reprises de “A mocidade é assim mesmo”, chorando e torcendo pela vitória dessa menina e seu cavalo. Agrada-me supor que quando eu e ela, já idosos, íamos de férias a Gravatá e ela montava com tanto garbo os cavalos do hotel fazenda (que eu não tinha coragem de montar) era o espírito de Velvet que, sem saber, ela assumia.

Ellizabeth Taylor e Mickey Roone em “A mocidade é assim mesmo”.

A ser citada por inteiro, a sua lista de filmes preferidos não seria longa, porém, um houve que, mais que todos, marcou sua acidental e curta experiência cinematográfica: um filme de que ela sempre falava com enorme entusiasmo, como tendo sido o melhor filme a que já assistira em toda a sua vida. E este fui eu, sim, que a levei a ver.

Na época éramos recém casados, morávamos em Campina Grande e acho que foi no Cine Babilônia que vimos “Todas as noites às nove horas”.

Era a história de uma família pobre, uma mãe com muitos filhos, todos pequenos, sem marido, que fugira ou morrera, não lembro. O fato é que o único sustento da família era uma magra pensão que a mulher ia, todo mês, receber no Banco da cidade. Um dia essa mãe morre. Sem parentes nem aderentes, a lei imporia um orfanato. As crianças sabiam disso e isso era tudo o que elas mais temiam. E o que fazem? Escondem a morte da mãe. Sem ninguém no lugar saber, enterram o corpo da genitora no quintal da casa, e, imitando a sua caligrafia, ficam recebendo a tal pensão, alegando no Banco que a mãe estava enferma e não podia vir. Às nove da noite, todo dia, se reuniam em torno do “túmulo” para rezar, daí o título do filme em português.

Obviamente, minha esposa saiu do Babilônia banhada em lágrimas e, pelo resto da vida, se emocionava só de lembrar o filme.

Só veio a esquecer “Todas as noite às nove horas” em idade mais avançada, quando esse monstro hediondo e impiedoso a que dão o nome de Alzheimer foi, aos poucos e cruelmente, lhe apagando a consciência… até lhe apagar a vida.

Saudades.

 

(Hoje, dia 16 de junho de 2020, faz dois anos do falecimento de minha querida esposa, Hildette Macedo de Brito)

Cena do comovente “Todas as noites às nove horas”.

Cinquentões em 2015

9 jan

 

 

Neste 2015 que começa, quais são os filmes que estarão completando cinquenta anos? Aqui proponho uma mexida no baú do passado, aquele baú em cuja fechadura está gravado o número 1965.

Acho que de chofre todo mundo vai lembrar-se de “A noviça rebelde” (“The sound of music”, Robert Wise), “Dr Jivago” (David Lean) e “A maior história de todos os tempos” (“The greatest story ever told”, George Stevens), os três maiores sucessos de bilheteria de 1965, mas, claro, a lista é grande e pede uma triagem.

Omar Sharif e Julie Christie em "Dr Jivago".

Omar Sharif e Julie Christie em “Dr Jivago”.

Sugiro que comecemos com as cinematografias menores, e a primeira pode ser a brasileira. Em 1965, auge do chamado Cinema Novo, pelo menos quatro filmes não podem deixar de ser mencionados: “A grande cidade” de Carlos Diegues, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Menino de engenho” de Walter Lima Jr, e “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

No Japão, o grande Akira Kurosawa lançou o seu drama hospitalar “O barba ruiva”, filme de tom existencial, baseado no escritor Shugoro Yamamoto, com o seu ator predileto Toshiro Mifune.

Na Índia é a vez do não menos grande Satyajit Ray mostrar ao mundo ocidental o comovente drama conjugal “A esposa solitária”, título, aliás, bem sintomático para todas as estórias (no viés de “Desencanto” ou “Casablanca”) sobre mulheres apaixonadas fora do casamento.

Música nas montanhas em "A noviça rebelde".

Música nas montanhas em “A noviça rebelde”.

Já no México, e quase solitariamente, o sempre perturbador Luis Buñuel lança a sua fantasia pseudo-religiosa “Simão do deserto”.

Com o que passamos à Europa. Na Checoslováquia, um país até então sem grande destaque cinematográfico, um certo boom ocorria na época e um dos seus mais ativos cineastas era um jovem ainda pouco conhecido no mundo, chamado Milos Forman, que em 1965, produziu o interessante “Os amores de uma loura”.

Na França ainda se estava em plena Nouvelle Vague, embora o ano de 1965 não tenha sido particularmente significativo. É verdade que Jean-Luc Godard lançou, neste ano, dois petardos bem típicos de sua proposta cinemática, “O demônio das onze horas” e “Alphaville”, mas, foi só. A não ser que se queira citar a comédia aventuresca de Louis Malle “Viva Maria”, com as musas Bardot e Moreau.

"Thunderball" - James Bond e suas mulheres.

“Thunderball” – James Bond e suas mulheres.

A Itália era outra cinematografia em ebulição, que, no ano em questão, estranhamente também não foi lá muito expressiva. Dignos de nota são apenas: o drama social “De punhos cerrados” de Mario Bellocchio, o esteticamente indeciso “Vagas estrelas da Ursa” de Lucchino Visconti, e o fraco “Julieta dos espíritos” de Federico Fellini. Por outro lado, na terra das massas finas começava a dar os primeiros passos um novo gênero, o faroeste spaghetti de Sérgio Leone, e o seu representante do ano foi “Por uns dólares a mais”.

Quem balançou o coreto no ano foi certamente a Inglaterra, com produções próprias, engrossadas por co-produções interessantes. Considerados expressões do movimento Free Cinema foram os filmes “Darling a que amou demais”, de John Schlessinger, “O ente querido” de Tony Richardson, “Help” e “A bossa da conquista”, estes dois últimos do criativo e inovador Richard Lester. Isso era o lado cult da ilha, mas também houve o comercial, com uma das maiores bilheterias do ano: “007 contra a chantagem atômica”, de Terence Young. Somem-se a isso as muitas co-produções, principalmente com os Estados Unidos, por exemplo: “O espião que saiu do frio” (Martin Ritt), “Bunny Lake desapareceu” (Otto Preminger), “Lord Jim” (Richard Brooks) e “Repulsa ao sexo” (Roman Polanski).

"Pierrot le fou - Belmondo e Ana Karina.

“Pierrot le fou” – Belmondo e Ana Karina.

Em processo de transformação, Hollywood hesitava entre superproduções (as citadas na abertura desta matéria) e filmes menores, dirigidos a públicos específicos. Podiam ser filmes históricos, como “O senhor da guerra (Franklin Schaffner) e “Agonia e êxtase” (Carol Reed); ou dramas existenciais como “A nau dos insensatos” (Stanley Kramer); ou suspenses tipo noir, como “Eu vi que foi você” (William Castle) e “O colecionador” (William Wyler); ou policiais mais convencionais como “O gênio do mal” (Robert Mulligan); ou dramas raciais como “Quando só o coração vê” (Guy Green), ou filmes de guerra, como “A colina dos homens perdidos” (Sidney Lument), ou então comédias faroeste como “Dívida de sangue” (“Cat Ballou” de Elliot Silverstein)…

Um óbvio sintoma de que a velha Hollywood clássica estava cansada de guerra vinha numa estória de amor com grande elenco (Elizabeth Taylor, Richard Burton, Eva Marie Saint e Charles Bronson) e bela música, dirigida por um dos grandes do passado, ninguém menos que Vincente Minnelli, mas que não conquistava mais ninguém, nem críticos nem público. Refiro-me melancolicamente a “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”), localmente exibido no nosso saudoso Plaza, a que assisti junto com alguns poucos espectadores tão melancólicos quanto eu mesmo.

E, assumido o risco das omissões, fecho o baú.

Liz Taylor e Richard Burton em "Adeus às ilusões".

Liz Taylor e Richard Burton em “Adeus às ilusões”.

 

 

 

 

 

Robert Wise centenário

3 mar

Neste 2014 o mundo vai estar celebrando o centenário de nascimento de um dos grandes cineastas do século XX, o americano Robert Wise (1914-2005), e aqui me adianto na celebração, já que Wise é um dos meus diretores favoritos.

Nascido na pequena Winchester, Indiana, o jovem Robert queria mesmo era ser jornalista, mas, a Depressão em que o país se encontrava o obrigou a interromper os estudos e, aos dezenove anos de idade, rumou Oeste para Los Angeles, no encalço de um irmão mais velho, ligado ao mundo do cinema, que lhe arranjou emprego de operador de som na RKO, onde, logo mais, ele seria alçado à condição de montador.

O diretor Robert Wise

O diretor Robert Wise

Montou dezenas de filmes (muitas das comédias de Fred Astaire dos anos trinta, por exemplo), porém, claro, sua montagem mais famosa foi a de “Cidadão Kane” (1941), embora sua relação com Orson Welles já fosse ficar abalada com o filme seguinte, “Soberba” (1942), quando o Wonder Boy, sem rumo no Brasil, perdeu prestígio com os estúdios e, assim, Wise foi forçado a, na sua ausência, cortar o seu filme em sequências que ele não queria. E, dizem, até mesmo fazer acréscimos de sua própria autoria.

Fato é que a Wise apareceu a chance de dirigir, uma atividade que não mais largou, até a aposentadoria. Inicialmente foram produções B de terror, a exemplo de “A maldição do sangue da pantera”, a sua primeira direção, em 1944, até se revelar um grande autor com estilo próprio e muito forte, no excelente “Punhos de campeão” (“The set up”, 1949) onde – vocês lembram – Robert Ryan fazia um pugilista em crise.

Suponho que Robert Wise seja mais conhecido e lembrado do público em geral pelos seus grandes sucessos de bilheteria, que são ao menos três, dois musicais e um science-fiction: o drama social “Amor sublime amor” (“West Side Story”, 1961) que dirigiu junto com o coreógrafo Jerome Robbins, o romântico “A noviça rebelde” (“The sound of music”. 1965) e o interplanetário “Jornada nas estrelas, o filme” (“Star Trek: the motion picture” 1979).

"The sound of music", um dos Oscars de Wise

“The sound of music”, um dos Oscars de Wise

De minha parte gosto de lembrá-lo em realizações mais modestas e, por isso mesmo, mais livres das imposições dos estúdios e mais pessoais. São três filmes dos anos cinqüenta que sempre que posso revejo com carinho especial.

O primeiro, “O dia em que a terra parou” (“The day the earth stood still”, 1951), é um sentido libelo pela paz universal, simples mas extremamente competente e, mais que isso, cativante. O segundo, “Marcado pela sarjeta” (“Somebody up there likes me”, 1956) é um drama contando a estória mais ou menos verídica do lutador Rocky Grazziano (papel de Paul Newman), retorno consolidado de Wise ao contexto do boxe. O terceiro, “Homens em fúria” (“Odds against tomorrow”, 1959, é um noir mais ou menos obscuro, sobre um assalto a banco, que vi no meu querido Cine Teatro Sto Antônio, e nunca esqueci os desempenhos do trio: Ed Begley, Robert Ryan e Harry Belafonte.

Cena de "West Side Story"

Cena de “West Side Story”

De gêneros diversos, outros filmes de Wise que porventura o leitor pode ter visto e que, por razões artísticas e/ou comerciais, merecem ser mencionados são:

“Entre dois juramentos” (1950); “Ratos do deserto” (1953); “Um homem e dez destinos” (1954); “Helena de Tróia” (1956); “Honra a um homem mau” (1956); “O mar é nosso túmulo” (1958); “Quero viver” (1958); “Dois na gangorra” (1962); “O enigma de Andrômeda” (1971); “O dirigível Hindenburg” (1975).

Com quatro Oscar, num total de vinte e uma indicações, Robert Wise envelheceu coroado de louros, um dos quais foi sua nomeação para Presidente da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, função que exerceu de 1985 a 1988.

Reavaliando sua filmografia, a crítica alega que seus filmes da segunda metade do século perderam o vigor que ainda existiu até “A noviça rebelde”, mas, a esse respeito, a pergunta poderia ser: que grande cineasta do passado clássico não decaiu junto com a queda do sistema de grandes estúdios, no final dos anos sessenta? Não cabe responder, para não entrarmos em discussão paralela ao que aqui interessa: a comemoração do centenário de um mestre da sétima arte.

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em "Odds againts tomorrow" ("Homens em fúria', 1959)

Harry Belafonte, Robert Ryan e Ed Begley em “Odds againts tomorrow” (“Homens em fúria’, 1959)