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Um lugar ao sol

19 jul

 

Quantas vezes vou escrever sobre “Um lugar ao sol”? Já o fiz outras vezes, e esta, provavelmente, não será a última. Um clássico é assim – já dizia Ítalo Calvino – a ele a gente sempre retorna.

Acho que vocês lembram, “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”, de George Stevens) conta uma estória trágica, de paixão, crime e culpa, acontecida na época da realização do filme, 1951, porém, a rigor, a origem de sua  trama é bem mais remota.

Começa, na verdade, com um caso real. Foi em 1906, em Nova Iorque. Um operário matou a sua namorada, que estava grávida e o pressionava por um casamento que ele não queria. O crime foi cometido num lago nos arredores da cidade. O rapaz, Chester, atingiu a moça, Grace Brown, com um dos remos e a deixou afogar-se. O crime foi facilmente descoberto, Chester julgado e condenado à morte.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

O caso todo foi à imprensa, e o escritor Theodore Dreiser o acompanhou com interesse. Não apenas o enredo era instigante, como ilustrava os malefícios do capitalismo, ponto importante para um socialista como Dreiser: a vítima era pobre, e Chester, namorando uma outra moça da sociedade, ambicionava ascender socialmente. Logo viu Dreiser que aquilo era matéria para um romance de muitas páginas, que laboriosamente escreveu e chamou de “An American Tragedy” (“Uma tragédia americana”), livro editado em 1925.

Em 1930, a Paramount pensou em filmar e comprou os direitos autorais: a tarefa foi para o cineasta russo Sergei Eisenstein, especialmente contratado depois do sucesso de “O Encouraçado Potemkin”. Muito “comunista”, o roteiro de Eisenstein não agradou aos produtores, que o descartam, e, em seguida, contrataram o alemão Josef von Sternberg. Com o mesmo título do romance, o filme de Sternberg foi rodado e lançado: não fez sucesso de público nem de crítica e deu um bom prejuízo ao Estúdio.

Quase vinte anos depois do filme de Sternberg, o cineasta George Stevens demonstrou-se interessado numa refilmagem, com a qual a Paramount, lembrada do prejuízo anterior, só concordou meio a contragosto. Enfim, o filme de Stevens foi realizado em 1949, mas teve que esperar para ser lançado em 1951, pois os estúdios não queriam a sua competição ao Ocar com outro grande projeto da casa, “Crepúsculo dos deuses” (1950).

"É um Eastman" diz o outdoor...

“É um Eastman” diz o outdoor…

O papel do rapaz tímido mas ambicioso – no romance de Dreiser chamado de Clyde Griffiths e agora renomeado de George Eastman – que se apaixonava por moça rica, depois de haver engravidado colega de trabalho, foi dado a Montgomery Clift, ator em ascensão que vinha do Actors Studios e dos palcos de Nova Iorque. A moça rica vai ser Elizabeth Taylor, que então só era conhecida como a típica jovem ingênua que aparecia na tela ao lado de cavalos de corrida e cães, tipo “a garota Lassie”. Para fazer a vítima foi escolhida a atriz Shelley Winters, em seu primeiro papel de ´moça feia e desinteressante´, condição que ela só aceitou de mau grado, embora a pecha lhe tenha caído bem, como veríamos nos seus próximos filmes.

Grande romântico, a primeira coisa que Stevens fez foi abrandar a inclinação ideológica do original. Se traz os ecos sociais do livro adaptado, seu filme é, antes de tudo uma grande estória de amor; trágica, sim, mas de todo jeito uma estória de amor.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Pela vigésima vez, revi-o há pouco entre amigos e ainda me tocam três cenas que aqui destaco. (1) Alice Tripp, a operária grávida, no consultório do médico, primeiro mentindo sobre seu estado civil, e depois, em prantos, contando a verdade sobre sua situação de mãe solteira. (2) A demorada cena no lago escuro, o barco flutuando com o casal, até o momento dramático do afogamento, percurso doloroso onde se percebe as etapas psicológicas de George Eastman, na ordem, seu plano criminoso, sua desistência, e, finalmente, sua crise provocada pela fala inconveniente da companheira. (3) Mais tarde, a simulação do afogamento durante o júri, com um barco que é trazido para o recinto, onde o advogado de acusação faz o que pode e o que não pode para provar que o réu teve a intenção de matar a moça, e que o teria feito impiedosamente.

Se for para citar uma cena mais leve, adoro aquela no salão de bilhar da mansão dos Eastman, quando Angela Vickers e George se conhecem, ela lhe perguntando se ele era “dramático, melancólico ou exclusivista”. A filmagem dessa cena foi o primeiro momento profissional entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, ela nervosa por se considerar uma novata a contracenar com um ator já experiente e conceituado. Deu tudo certo e, por sinal, ficaram amigos para o resto da vida.

Uma vez perguntaram a Charles Chaplin, qual seria o filme que ele mais amava. Sua resposta inequívoca: “Um lugar ao sol”. Vejam como estou bem acompanhado.

Em tempo: esta matéria é dedicada a José Mário e Ilma Espínola.

Uma grande estória de amor trágico.

Uma grande estória de amor trágico.

Almas em leilão

22 nov

Fazia tempo que eu não avistava Simone Signoret. Dessa atriz francesa não sou apenas fã – ela foi/é uma das minhas musas do cinema, e nunca vou esquecer o seu belo rosto arredondado onde flutuava um par de olhos ao mesmo tempo grandes e apertados. Não era alta nem esbelta e seu peso parecia acima da média, porém, a expressividade do seu rosto e o seu enorme talento apagavam o que em outra atriz seria visível.

Pois agora a reencontro nesse “Almas em leilão” (“Room at the top”) a que re-assisti com gula saudosista, filme pelo qual ela recebeu o Oscar do ano de melhor atriz, dado pela primeira vez a uma francesa.

Não sei se vocês lembram – dirigido por Jack Clayton em 1958, o filme conta, com providencial fluência, uma estória trágica de ambição e paixões proibidas entre pobres e ricos no norte da Inglaterra.

Fugindo à miséria de sua aldeia natal, Joe Lampton (Laurence Harvey) chega a esta cidade industrial, Warley, para um emprego de funcionário numa grande empresa. Bonitão e charmoso, logo se envolve com duas figuras femininas que não poderiam ser mais diferentes – Susan é a filhinha mimada de uma família rica (Heather Sears), cujo pai, patrão de Joe, é um magnata da indústria local, enquanto que Alice (Signoret), dez anos mais velha que ele, é uma francesa sem muitos recursos que carrega as dores de um casamento sem amor.

Facilmente conquistada, Susan representa, para Joe, a chance de ascender socialmente e logo o plano de um casamento é acionado na sua cabeça ambiciosa. Só que, no meio do caminho, a relação escusa com Alice vai virando amor verdadeiro, e o desenlace – se vocês não viram o filme, imaginam – não poderia ser mais drástico.

O filme é baseado no romance do escritor John Braine, publicado em 1957, porém, revendo-o agora, não consegui me desvencilhar das semelhanças que ele (e o livro) traz com um filme da mesma década, “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”) que George Stevens havia dirigido em Hollywood, apenas seis anos atrás, em 1951.

Não vou aqui reconstituir o enredo de “Um lugar”, mas, é possível dizer, sim, que ambos os filmes lidam com uma situação dramática análoga – um jovem arrivista se envolve sexualmente com duas mulheres de classes sociais diferentes e se dá mal, quando uma delas, no caso a pobre, é vitimada por ele, que vai ter que enfrentar uma culpa insuportável.

Os meandros dos dois enredos, naturalmente diferem (em Stevens, George Eastman é condenado pela lei, em Clayton, Joe Lampton é condenado pela sua consciência), porém, as semelhanças dão na vista, e fico pensando se porventura o escritor Braine não conhecia o filme de Stevens, ou, em último caso, o romance de Theodore Dreiser em que é baseado. Um detalhe que me leva a crer que sim: em ambos os filmes, a mulher vitimada tem o mesmo nome, Alice.

De qualquer forma “Almas em leilão” não depende de intertextos. Em si mesmo, é um grande filme, forte, intenso, sincero, cortante, convincente, um belo melodrama no melhor sentido da expressão. Olhando para trás, dou-me conta de que foi um dos primeiros lampejos do que a crítica chamaria, mais tarde, de “Free Cinema Inglês”, movimento nacional que se somou às muitas vanguardas mundiais do começo dos anos sessenta.

Ao espectador de hoje deve parecer que há tabagismo demais na tela. E há mesmo. O caso Joe/Alice é todo pontuado por fumaça de cigarros, mas lembro um detalhe sintomático: ao chegar ao recanto isolado onde o casal vai passar um fim de semana idílico, ela recusa o cigarro oferecido por ele, alegando que não quer entorpecentes, para poder sentir tudo real. Quando, inesperadamente, a coisa desanda entre eles, ela volta a pedir um cigarro.

Na impossibilidade de uma análise mais acurada, reporto-me ao expressivo processo narrativo do desenlace, conduzindo ao vazio espiritual do protagonista Joe, com que o filme se fecha; esse processo se inicia desde o momento em que, no alvoroçado ambiente de trabalho, ele, ao meio das congratulações pelo futuro casamento com a filha do patrão, tem a notícia da morte de Alice, ponto a partir do qual a câmera se empenha (em ângulos, movimentos, iluminação,) em descrever cinematograficamente a sua queda moral num impiedoso crescendo. A embriaguez e a surra que leva podem ser óbvias, mas, aquele carrinho de brinquedo que o garoto de rua joga em sua direção – metáfora do acidente automobilístico de Alice – é um pequeno detalhe diegético, imagem que diz mais do que diriam mil monólogos interiores.

Nunca mais Jack Clayton dirigiria um filme tão bom, mas esta é outra questão que fica para outra ocasião.