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Café Society

30 ago

 

Está em cartaz na cidade e no mundo “Café Society” (2016), o último filme do octogenário Woody Allen.

A cada novo filme de Allen geralmente a pergunta é: o que há de novo em relação aos anteriores? Nunca há muito, e há quem se incomode com isso e quem não se incomode.

Aqui, como em “A rosa púrpura do Cairo” (1985) estamos nos anos trinta, e os protagonistas, como muitos outros personagens de Allen, vivem uma estória de amor.

1 poster

A diferença é o cenário, pois, pela primeira vez estamos em plena Hollywood, com seus grandes estúdios e seu star system. Aliás, só estamos lá até a metade do filme, quando somos conduzidos de volta à Nova Iorque querida do autor, com direito a cena romântica no Central Park, beijo proibido, e tudo mais.

Rapaz pobre do Bronx, Bobby (Jesse Eisenberg) vai à Meca do Cinema, no encalço de um tio, judeu como ele, que é agente de atores na indústria do cinema. Lá conhece Vonnie (Kristen Stewart), a secretária do tio, e começa um love affair. Só que a moça é amante do tio, e por aí vão surgindo os conflitos, com tom misto de comédia e drama. A separação é inevitável (ou não seria?) e, na metade Nova Iorque do filme, os dois vão – como em “Casablanca” – reencontrar-se em local público, cada um dentro de um novo relacionamento, mas sem deixar de sonhar com o passado que tiveram. Para ficar no intertexto de “Casablanca”, alguma coisa do tipo “Nós sempre teremos Hollywood”.

Não que Hollywood seja pintada com bons olhos: como dizem os próprios personagens do filme, é a terra rasa da futilidade. Já Nova Iorque, apesar das gangues e tudo mais, seria, no discurso sonhador de Bobby, a terra do intelectual e artístico “Greenwich Village”.

Os atores Jesse Eisenberg e Kristen Stewart.

Os atores Jesse Eisenberg e Kristen Stewart.

O filme é, de cabo a rabo, narrado por uma voz over, não diegética, como se estivéssemos lendo um romance do Século XIX. Na entrevista pública, em Cannes, Allen afirmou que fez assim de propósito, pois queria que o filme tivesse a estrutura literária de um livro. Não me perguntem se esse recurso melhorou ou piorou o filme. Uma coisa é certa: tornou-o mais tagarela.

Cineasta do Leste, independente e anticonvencional, Woody Allen sempre apresentou em sua obra um certo posicionamento anti-hollywoodiano, ora dissimulado, ora nem tanto. Pois em Cannes confessou que sua formação cinematográfica vinha mesmo toda da Hollywood clássica, dos filmes que viu na infância e juventude, e que, portanto, não poderia deixar de ser romântico.

Romantismo com amargura, naturalmente, como fica claro na definição da vida que o desiludido protagonista nos passa no final: “a vida é uma comédia – só que escrita por um autor sádico”. Como Allen é o autor do roteiro e diretor do filme, a frase se torna ainda mais interessante.

Em destaque, a fotografia retrô de Storaro.

Em destaque, a fotografia retrô de Storaro.

De fato, embora muitas sequências do filme sejam dedicadas aos contextos (os dois mais fortes: o show business em Hollywood e as atividades de gângsteres em Nova Iorque), o que prevalece, do início ao fim, em “Café Society” é o caso do casal Bobby e Vonnie. Neste sentido, sim, trata-se de um Woody Allen um tanto diferente, pela primeira vez contando uma estória de amor do tamanho do filme, naquele velho esquema manjado que os executivos da Meca chamavam antigamente de ´boy meets girl´ (´rapaz conhece moça´), depois do que vinha o ´but´ (´porém´) que introduzia o necessário conflito.

A reconstituição de época é um ponto alto em “Café Society” e nisso desempenha um papel importante a fotografia de Vittorio Storaro – pela primeira vez trabalhando com Allen -, pintando tudo com aquela tonalidade melancólica de retrô sofisticado. Por exemplo: a visita de Bobby a Beverly Hills, onde, guiado por Vonnie, vai avistar as fabulosas mansões dos astros e estrelas é um show de saudosismo para o espectador cinéfilo.

Acima me referi a “A rosa púrpura do Cairo” como uma estória de amor. Nele uma espectadora se apaixona por um personagem que, igualmente apaixonado, sai da tela e vem estar com ela. Em “Café Society” a fantasia tem menos espaço: Bobbie e Vonnie são pessoas de carne e osso, e, se por acaso amam o cinema, conhecem bem seu lado ilusório e porventura falso e falam dele. Como o autor do roteiro e do filme, administram seus respectivos romantismos e enfrentam a vida como ela é.

Ressalto isto para dizer que o melhor de “Café Society” está no fotograma final.

Na noite de Ano Novo, Bobby e Vonnie, perdidos ao meio de uma multidão festiva, entreolham-se de longe e… o que acontece? A tela fica subitamente escura, e caem os créditos que encerram o filme. Neste corte, tem início um novo filme (os protagonistas vão retomar o caso ou estão dizendo adeus?), que à imaginação do espectador cabe desenvolver.

Woody Allen em ação em "Café Society".

Woody Allen em ação em “Café Society”.

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Uma rosa para o cinema

5 fev

Um filme que fosse uma declaração de amor ao cinema: eis algo que Hollywood, nem a clássica nem a moderna, estranhamente, nunca fez.

Nos Estados Unidos, essa declaração apaixonada teria que vir do Leste, na forma perfeita de “A rosa púrpura do Cairo” (“The purple rose of Cairo”, 1985, de Woody Allen), filme que, aliás, está completando agora trinta anos, boa ocasião para uma reprise caseira.

Nos anos trinta, em plena depressão americana, essa pobre dona de casa, Cecília (Mia Farrow), trabalha para sustentar a si mesma e um marido vagabundo, Monk (Danny Ayello), que, ao invés de procurar emprego, vive jogando com seus pareceiros nos becos da cidade.

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A coitada não sabe o que seria de si se não fosse o cinema. Vai todo dia, desacompanhada, mas vai, porque ali, naquela sala escura, está o seu único meio de sonhar e compensar as agruras da vida – principalmente agora que, para cumular, foi despedida da lanchonete onde trabalhava.

Cecília assiste tantas vezes ao filme em cartaz (e o filme em cartaz do momento se chama ´A rosa púrpura do Cairo´) que um dia o personagem principal sai da tela e vem estar com ela no mundo real. Pode? Claro que não, ou melhor, claro que pode, pois o filme de Allen tem a lógica dos contos de fada, aqueles para os quais o leitor/espectador é convidado a empreender – como propunha o velho poeta inglês Samuel Taylor Coleridge – uma suspensão da descrença. Sem essa suspensão, o filme não anda e, sem ela, seria melhor desligar o aparelho de dvd.

Ter Tom Baxter (Jeff Daniels), o belo protagonista ao seu lado, lhe falando de amor, é, para Cecília, um encantamento. Bem ao contrário do seu marido grosseiro, o cara é o homem perfeito, utópico, mítico. O problema é que, mítico como é, ele não tem condição de sobreviver na realidade. Seu dinheiro, por exemplo, é falso, para não dizer que nada na sua figura elegante e maravilhosa se encaixa na dureza que é a vida fora da tela.

Para complicar as coisas, aparece na cidade o ator que fez o papel de Tom. É que, preocupados com a fuga do personagem, os produtores de `A rosa` mandaram ao local do acidente, Gil Shepherd (o mesmo Jeff Daniels), o ator do filme, para tentar convencer o seu personagem a voltar à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília: o olhar dirigido à tela.

Cecília e Gil se conhecem e, inevitavelmente, os dois têm um certo envolvimento, e, de repente, fica ela dividida entre o mítico Tom e o Gil de carne e osso. O amor de Tom a levara para dentro da tela, o de Gil lhe promete talvez Hollywood. Para quem, até pouco tempo atrás, só tinha a grossura e a cafajestice de Monk, ser agora o centro da atenção de um personagem fílmico e de um ator hollywoodiano famoso… é muita coisa para a pobre Cecília, que, forçada a fazer a escolha entre os dois, escolhe Gil e, no final, fica sem ninguém.

E o filme termina como começou, com Cecília sentada numa poltrona do mesmo cinema local, agora deslumbrada com o bailado celestial (“Heaven, I´m in Heaven…”) de Fred Astaire e Ginger Rogers.

Para quem anda atrás de interpretações, o filme todo pode ser entendido como um devaneio de Cecília: sufocada pela dureza da vida, ela teria imaginado tudo e, portanto, tudo o que nós, espectadores, vemos seria de natureza onírica.

Na lanchonete, sonhando com outras coisas...

Na lanchonete, sonhando com outras coisas…

O limite dessa interpretação está nas cenas realistas em que Cecília, a suposta devaneante, não está presente. Os exemplos que inviabilizam a ideia de devaneio são mais numerosos do que se pensa, mas cito apenas três sintomáticos: a irônica e deliciosa visita de Tom Baxter ao prostíbulo local, onde as garotas lhe falam de sexo e ele lhes fala de amor; as negociações dos empresários em Hollywood para encontrar uma solução técnica para o problema de ´A rosa´; e, quase no final, a cena que mostra o ator Gil Shepherd dentro do avião, de volta à Meca do cinema, com aquela cara triste de quem está constrangido de haver passado a perna em Cecília.

A verdade é que, se o filme de Allen parte da lógica dos contos de fada, depois do ´milagre´ acontecido (um personagem sair da tela), o restante vai ter outra lógica, a saber, a de um conto de Kafka. Ou seja, aceita a primeira implausibilidade, o resto da estória decorre dentro de uma lógica que pode ser dada como “realista”.

Notar que parte do humor do filme vem dessas cenas “realistas” sem Cecília, por exemplo: dentro da sala de projeção do cinema, a querela verbal entre o povo da tela e o povo da platéia… Ao passo que todo o lado sério, patético, dramático do filme está contido nos ´tempos de tela´ de Cecília.

Antípodas ou não, sonho e realidade se confundem e a confusão é o melhor de “A rosa púrpura do Cairo”. Cecília foge da realidade para o cinema, Tom Baxter foge do cinema para a realidade: num meio termo qualquer entre esses dois extremos está a verdade de um filme que é, antes de tudo, uma bela declaração de amor ao cinema…

Dividida entre dois "mitos"...

Dividida entre dois “mitos”…