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TODOS JÁ SABEM

25 jun

 

Do cineasta iraniano Asghar Farhadi eu conhecia apenas “Procurando Elly” (2009) e “A separação” (2011), dois bons filmes, com peso especial no elemento dramático e nas interpretações.

Lançado em fevereiro deste ano, agora me chega este “Todos já sabem” (“Everybody knows”), com a mesma ênfase no drama, e com o mesmo recurso de manter o fator que a ele conduz na posição estratégica de um mero pretexto, quase um ´macguffin´, como diria no seu tempo um esperto Hitchcock.

Nessa aldeia, nos arredores de Madri, uma família que já foi abastada no passado, proprietária de vinhedos, vai festejar o casamento de um de seus parentes. Para participar, chega da Argentina, Laura (Penélope Cruz) e duas filhas, uma pequena e uma adolescente, Irene (Carla Campra). Ficam na mansão do pai e avô, um patriarca amargo e rabugento que não se conforma com a decadência.

A festa decorre na normalidade, com muita gente, muita comida e muita música, sem que nada demais aconteça, até parecendo um filme de Robert Altman. Esse clima Altman, porém, não dura muito: finda a festa, Laura vai ao quarto da filha, que bebera e não se sentira muito bem, e não consegue abrir a porta. O vizinho e amigo da família, Paco (Javier Bardem) acode, força a porta, mas não há ninguém no quarto. Pelos recortes de jornais deixados na cama, fica-se sabendo que o caso era de sequestro, não havia dúvidas.

A partir daí começam a busca, as dúvidas e, claro, o drama, muito drama. Quem teria sequestrado a adolescente de dezesseis anos? Onde conseguir o dinheiro para o resgate? Chamar a polícia, ou não? Aqui não interessa relatar o enredo, mas digamos apenas que – como sugere o título do filme – está tudo em família.

O primeiro sintoma disso – digo, de que está tudo em família – já vem contido numa das cenas iniciais. Enquanto a cerimônia de casamento decorre na igreja, a jovem Irene e seu eventual paquera escapam do maçante ritual religioso e sobem ao velho campanário da igreja, onde o rapaz lhe mostra uma inscrição na parede: duas letras, L P, que, supostamente, indiciariam o nome da mãe dela, Laura, e o de Paco, o homem que Irene conhece apenas como amigo da família. A moça não se impressiona com isso, mas, quando, irresponsavelmente, se pendura nas cordas e faz os sinos soarem para toda a aldeia ouvir, é como se, sem saber ou querer, estivesse divulgando o que “todos já sabem”.

Na cena quase final, depois de resgatada dos sequestradores, quando ela, no banco de trás do carro, ainda abatida, pergunta ao pai por que foi Paco que a resgatou, deve ter sido aquela inscrição na torre do campanário o que lhe veio à mente.

Até certo ponto o filme tem uma atmosfera de “whodunit” (ou seja, de mistério em torno da autoria de um crime a ser desvendado), porém, como já sugerido, o mais interessante é o drama que se desenrola entre os parentes e conhecidos, drama este que muito exige dos atores, em especial de Cruz (a esposa que é levada a revelar “um pulo fora do trilho”), de Bardem (o ex-amante que descobre uma paternidade inesperada) e de Ricardo Darín (um marido que deve agora lidar com o ex-amante da esposa, para a salvação de uma filha que não é sua).

Na maior parte do tempo, o filme – jogando um personagem contra o outro, cada um com suas motivações e suas interpretações dos fatos – sustenta essa tensão dramática que prende a atenção do espectador e lhe dá a sensação de estar assistindo a um filme de qualidade. Na meia hora final, porém, justamente quando o ponto de vista narrativo sai da limitação ao círculo das vítimas, e passa, oniscientemente, ao território dos algozes, essa tensão diminui e por pouco não estraga o conjunto.

Ainda bem que a derradeira cena salva o filme.

Aquela na praça da aldeia, onde uma personagem até então obscura convida o cônjuge para uma conversa a dois. A cena se fecha na interrupção do diálogo entre os dois, quando os garis, limpando tudo em torno com fortes jatos d´água, literalmente apagam as imagens, deixando a tela completamente em branco, pronta para os créditos finais. Não sabemos, mas adivinhamos, o que a esposa dirá ao marido, e a implicação do diálogo interrompido pela mágica dos garis seria a de que, não apenas a estória não terminou, como provavelmente não há resolução para ela.

Ou, se for o caso, a resolução fica com o espectador.

Gostei de ter visto e recomento.

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A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.