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Montgomery Clift

15 ago

Catando filme velho por aí – não digo onde – encontro, esta semana, esse “Talvez seja melhor assim” (Raoul Levy, 1966), um filmezinho sem importância de um diretor idem.

E por que me dei ao trabalho de vê-lo? Só porque foi o último filme do ator americano Montgomery Clift (1920-1966), e não resisti a curiosidade de espiá-lo em seu derradeiro papel. Clift morreria nesse mesmo ano, em 23 de julho.

A estória se passa nos dois lados do muro de Berlim, com a guerra fria no auge, e o filme é bem típico da época, com todos aqueles ingredientes de espionagem, perseguições, micro-filme roubado, deserção, CIA, etc… Mas claro, sem a qualidade de “O espião que saiu do frio”, ou coisas assim…

Porém, não foi ao filme que assisti: assisti a Montgomery Clift, um dos meus atores preferidos, no tempo da Hollywood clássica, um ator cuja carreira acompanho desde sempre. Em “The defector” (título original do filme) ele está irrisório, burocrático, decadente, mas que importa? Por contraste, o filme serviu para eu remomorar sua brilhante carreira, antes e depois do acidente de automóvel, em 1956, que quase deformou o seu belo rosto.

E, na minha mente de cinéfilo viciado, fui relembrando os seus filmes, ao menos os que mais amei.

Lembrei o filho adotivo rebelde que ele foi em “Rio Vermelho”, contracenando com o pai durão John Wayne, nesse faroeste inesquecível de Howard Hawks, de 1948.

Veio-me à mente o seu papel em “Tarde demais” (Willliam Wyler, 1949) como o rapaz ambicioso que, com seu charme discreto, planeja um ´golpe de baú´ em cima da feiosa Olivia de Havilland, e quebra a cara, primeiro pela astuta oposição do futuro sogro, e depois, por um motivo bem mais desolador…

Com Liz Taylor em “Um lugar ao sol”.

Como esquecê-lo, ao lado de Elizabeth Taylor, em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951), como o jovem Eastman, parente pobre dessa família rica, com ajuda da qual pensa ascender socialmente. E assim seria, se não tivesse engravidado uma das empregadas da empresa… e, vocês lembram, a estória dá em tragédia grega.

E ele como o padre Logan que, no confessionário, ouve uma confissão criminosa, e vai viver tolhido entre o dever sagrado do silêncio e a obrigação civil da delação? No hitchcockiano “A tortura do silêncio” (“I confess”, 1953) está um dos seus grandes desempenhos.

Em “Quando a mulher erra” (1953) ele faz um amante romano de quem a americana, casada, Jennifer Jones, não consegue se despedir na “Statioze Termini” (título original). Na verdade, não gosto muito desse filme de Vittorio De Sica, mas o elenco o salva.

Um dos seus desempenhos mais lembrados pelo grande público é, com certeza, o do melancólico soldado meio auto-destrutivo de “A um passo da eternidade”, drama de Fred Zinnemann sobre o ataque japonês a Pearl Harbor.

Em “De repente no último verão” (1959) ele faz o médico cirurgião que é quase comprado pela patriarca (Catherine Hepburn), para que ele proceda a uma lobotomia na sobrinha (Elizabeth Taylor) que vive tendo lembranças desagradáveis da morte do primo, filho da patriarca…

Em Tennessee, a construção de uma barragem vai inundar a ilha onde reside essa senhora idosa, mas firme e determinada a não se mudar (Jo Van Fleet): e Clift faz o papel do administrador que deve convencer a senhora a abandonar o local, em “Rio violento”: grande drama de Elia Kazan, 1960.

Com Donna Reed, em “A um passo da eternidade”.

Junto com Clark Gable e Eli Wallach, ele é, em “Os desajustados” (John Huston, 1960), um dos cowboys modernos que, com Marilyn Monroe metida em um caminhão, vão caçar cavalos selvagens no ensolarado deserto de Nevada.

Quem pode esquecer o seu testemunho em “Julgamento em Nuremberg” (Stanley Kramer, 1961), como o débil mental, vítima do nazismo, justamente por causa da debilidade? Seu desempenho é um exercício de interpretação que impressiona sempre.

E encerro a lista com o seu papel como o famoso psiquiatra austríaco, em “Freud além da alma” (John Huston, 1962), tratando, pela primeira vez, histeria feminina com hipnose e, noutra ocasião, com um paciente do sexo masculino, acidentalmente descobrindo o complexo de Édipo.

Montgomery Clift não rodou muitos filmes, apenas 17. Antes do cinema, trabalhou em teatro e foi ator destacado do afamado Actors Studio. Algum tempo depois de sua morte, a imprensa internacional incluiu-o no rol dos muitos astros clássicos que haviam sido homossexuais, mas, essa é outra estória que aqui não interessa.

Interessam o seu talento e o legado que deixou na tela.

Prostitutas clássicas

12 ago

Da era muda até hoje, a prostituta sempre foi uma personagem recorrente na história do cinema mundial. Vilã ou heroína, sempre marcou presença em pequenos e grandes filmes que nos ajudam a entender a natureza humana.

Ao leitor cinéfilo, sugiro um passeio mnemônico por filmes clássicos que ficcionalizaram a situação dessas mulheres as quais – sejam quais tenham sido suas razões pessoais – optaram pela “profissão mais antiga do mundo”.

Seguindo a cronologia, começo com Lulu (Louise Brooks) a exuberante e demoníaca protagonista de “A caixa de Pandora” (Pabst, 1928), mulher má que não vê outros bens a sua frente que não sejam os materiais.

Louise Brooks am "A caixa de Pandora", 1928.

Louise Brooks am “A caixa de Pandora”, 1928.

Em “A dama das camélias” (George Cukor, 1936) a protagonista (Greta Garbo) também é uma cortesã, mas, com outro coração: o da mulher apaixonada que é abandonada e, só depois, enferma e decadente, receberá de volta o afeto que perdera.

Acho que poucos lembram que uma figura essencial entre os viajantes de “No tempo das diligências” (John Ford, 1939) é a prostituta Dallas (Claire Trevor), hostilizada durante a viagem, mas, de fato uma mulher do coração de ouro, afinal, a pretendente do herói Ringo Kid, feito por John Wayne.

Em “A ponte de Waterloo” (Mervyn Leroy, 1940) Vivien Leigh faz Myra, a mocinha que, durante a guerra foi obrigada a prostituir-se, e no retorno do seu amado (Robert Taylor) dos campos de batalha, vê-se no impasse de revelar seu passado sujo, ou… Bem, sua opção é a mais drástica.

"No tempo das diligências" (1939), Claire Trevor e John Wayne.

“No tempo das diligências” (1939), Claire Trevor e John Wayne.

O filme não deixa muito claro, porém, em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953) aquelas mocinhas do Clube Social são de fato prostitutas, entre elas Lorene (Donna Reed) por quem o soldado Prew (Montgomery Clift) desenvolve afeto e é correspondido.

Já em “Vidas amargas” (Elia Kazan, 1955) não há dúvidas de que, aquilo que a ex-senhora Trask (Jo Van Fleet) mantém é um bordel. É a ela que o filho Cal (James Dean) ousa pedir dinheiro emprestado para ajudar ao pai em dificuldade financeira… E, bem, o desastroso corolário vocês conhecem.

Suponho que a prostituta mais querida do cinema seja Cabíria (Giulietta Masina), mulher pobre e sem dotes que, apesar de todos os muitos pesares, luta por uma vida digna. Cabíria, aquela que é capaz de sorrir quando não há mais nada… (Noites de Cabíria, Fellini, 1957).

Jo Van Fleet em "Vidas amargas" (1955)

Jo Van Fleet em “Vidas amargas” (1955)

Rindo da vida e de todos, a grega Ilya (Melina Mercouri) é uma mulher pra cima que acredita piamente em ´finais felizes´ e, por isso, não hesita em modificar os tristes desenlaces da mitologia de seus antepassados. A popular canção de “Nunca aos domingos” (Dassin, 1960) ajudou a eternizar sua figura.

Trágica mesmo é a Nadia (Anne Girardot) de “Rocco e seus irmãos” (Visconti, 1960), que se apaixona por um boxeur e, por isso mesmo, é morta por outro – querela entre irmãos imigrantes em uma Milão inóspita.

Já a sensação de quem assiste a “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961) é que Holly Golightly mantém a profissão de prostituta, mas ´o filme não sabe´. Ora, Audrey Hepburn tomando café da manhã nas calçadas do Tiffany´s, ao som de ´Moon River´… quem se importa com o resto?

O sorriso na cena final de "Noites de Cabíria" (1957).

O sorriso na cena final de “Noites de Cabíria” (1957).

O lado light e hilário da chamada ´vida fácil´ vai ganhar ênfase em “Irma, la douce” (Billy Wilder, 1963), com uma Shirley MacLaine literalmente impagável no papel-título, junto do ex-policial bobão Jack Lemmon.

Nada light é a vida do médico que se apaixona por Mildred (Kim Novak) quando ela era apenas garçonete, e continua apaixonado, mesmo depois de traições consecutivas que culminam na opção pela prostituição. O filme é “Servidão humana” (Ken Hughes, 1964).

Se eu não incluísse neste breve rol de prostitutas da era clássica a protagonista de “A bela da tarde” (Buñuel, 1967), com certeza e com razão, o meu leitor iria reclamar. Séverine (Catherine Deneuve) é diferente porque – senhora burguesa e bem casada – não faz aquilo por dinheiro, mas, e daí?

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em "Bonequinha de luxo" (1961.

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em “Bonequinha de luxo” (1961.

Garota de programa, Bree (Jane Fonda) vê-se envolvida num complicado caso policial, junto com o detetive Klute, os dois vivendo um jogo de esconde-esconde, onde crime e sexo são sinônimos. Dirigido por Alan Pakula em 1971, o filme é “Klute, o passado condena”.

E que tal fechar a lista com mais um Fellini? Refiro-me à Gradisca (Magali Noel) de “Amarcord” (1973), filme que se encerra com sua melancólica despedida, para uma vida, sim, de casada.

Não tenho espaço para mais, e, além disso, não creio que as prostitutas do cinema dos anos setenta em diante já possam ser ditas “clássicas”.

"Servidão humana" (1964):   Kim Novak é a prostituta Mildred.

“Servidão humana” (1964): Kim Novak é a prostituta Mildred.

Beijos, beijos, beijos…

11 abr

Neste domingo, 13 de abril, comemora-se o Dia do Beijo. Não sei quem instituiu a data, mas, aproveito o ensejo para repassar alguns beijos famosos na história do cinema, já que o gesto da carícia bucal é tão importante na sétima arte quanto na vida.

Vamos começar do começo? O cinema tinha apenas um ano de idade quando o primeiro beijo apareceu na tela. Produção do Vitaphone de Thomas Edison, com direção de William Heise, o filmezinho de vinte segundos, “The Kiss” (1896), mostrava na tela o que o título diz: os atores maduros May Irwin e John C Rice, felizes e sorridentes, colando os lábios e pronto.

O primeiro beijo no cinema: "The Kiss", 1896.

O primeiro beijo no cinema: “The Kiss”, 1896.

O efeito foi escandaloso e gerou protestos de puritanos indignados por toda parte, muitos considerando o filme “completamente nojento”. Mas claro, ninguém da então nascente indústria cinematográfica levou esses protestos a sério e, fosse o filme curto ou longo, mudo ou falado, o cinema incorporou definitivamente o beijo como um elemento inseparável de qualquer estória, de amor ou não.

Tanto é assim que, duas décadas adiante, o filme “Don Juan” (1926, de Alan Crossland) já continha nada menos que 119 beijos, todos saídos da boca do ator John Barrymore para as suas muitas amadas.

No mesmo ano, 1926, o filme “O diabo e a carne” (de Clarence Brown) já mostrava um suculento beijo de boca aberta, até então, uma novidade na vida erótica do cinema, no caso, entre Greta Garbo e John Gilbert.

Um beijo ousado em um filme inocente: "A felicidade não se compra", 1946.

Um beijo ousado em um filme inocente: “A felicidade não se compra”, 1946.

Pouco tempo depois disso, em 1930, já vai se ter o primeiro beijo lésbico da história do cinema, quando em “Marrocos”, Marlene Dietrich vestida de homem, beija na boca uma das moças que, no bar onde a cena acontecia, a ouvia cantar e dançar.

Na década de quarenta, um filme “inocente” como “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) vai produzir o primeiro beijo dentro de uma mesma longa tomada, beijo entre James Stewart e Donna Reed tão apaixonado que o rigoroso Código Hays de Censura – em vigor nos Estados Unidos de 1934 a 1964 – não gostou e hesitou em permitir a exibição.

Neste mesmo ano, o bruxo Hitchcock driblou a cronometragem obrigatória do Código Hays (oito segundos para cada beijo) e fez, em “Interlúdio” (1946), um longo beijo todo quebrado, com intervalos de bocas separadas a cada oito segundos, aliás, efeito mais erótico do que se tivesse sido ininterrupto. As bocas eram de Cary Grant e Ingrid Bergman.

Mas, ninguém tem dúvidas, o beijo mais ousado da época, o que abalou as estruturas do Código Hays, foi o que trocaram Deborah Kerr e Burt Lancaster em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953), vocês lembram, os dois com roupa de banho, deitados um por sobre o outro nas areias mornas de Pearl Harbour, ela confessando a ele, apaixonada, “nunca ninguém me beijou assim, do jeito que você me beija”.

O beijo que abalou o Código Hays de Censura: "A um passo da eternidade", 1953.

O beijo que abalou o Código Hays de Censura: “A um passo da eternidade”, 1953.

O primeiro beijo interracial vai acontecer logo depois, em 1957, no filme de Robert Rossen “Ilha dos trópicos” (“Island in the Sun”), onde a atriz branca Joan Fontaine é beijada pelo ator negro Harry Belafonte. Conta-se que, depois de distribuído o filme, Fontaine passou a receber cartas de seus fãs americanos, sugerindo que nunca mais se metesse a esse gesto indigno de “kiss a nigger”, expressão onde ´nigger´ é um termo pejorativo para uma pessoa de cor. Obviamente, a maior parte das cartas vinha dos estados racistas do Sul.

Com isso passamos, já na década de setenta, ao primeiro beijo gay da história do cinema, que está no filme inglês de John Schlessinger “Domingo maldito” (1971) e acontece entre os atores Peter Finch e Murray Head.

O primeiro beijo gay: "Domingo maldito", 1971.

O primeiro beijo gay: “Domingo maldito”, 1971.

No mesmo ano, vamos ter o primeiro beijo cinematográfico com grande diferença de idade entre os beijantes. Acho que vocês se recordam da comédia ´mórbida´ de Hal Asby “Ensina-me a viver”, onde a idosa Maude e o adolescente Harold mantêm um inusitado caso amoroso e como todos os apaixonados, trocam um beijo tão quente quanto se fossem da mesma idade.

Hoje o cinema está cheio de beijos de toda espécie e entre os beijantes mais diversos, porém, os filmes citados foram os pioneiros em suas – digamos assim – ´categorias´.

Uma coisa é certa: inovador ou convencional, o beijo é um momento especial da estória, gráfico, plástico, fotogênico, que por vezes pode perdurar na memória do espectador mais que o filme.

Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg nas águas da Fontana de Trevi em “A doce vida”… Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg no pequeno apartamento de “Acossado”… Gregory Peck e Audrey Hepburn dentro do carro em “A princesa e o plebeu”… Quais as suas cenas de beijo preferidas? Relembre-as e, com certeza, você vai incrementar o seu potencial oscular, no dia de hoje… e sempre.

Audrey Hepburn e Gregory Peck em "Roman Holiday" ("A princiesa e o plebeu").

Audrey Hepburn e Gregory Peck em “Roman Holiday” (“A princiesa e o plebeu”).