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O preço da fama

2 jul

Eis uma estória que a Charles Chaplin não ocorreria conceber. Sequer ao triste palhaço Calvero de “Luzes da Ribalta” ela ocorreria. Nem mesmo ao cínico Monsieur Verdoux.

E, contudo, a estória aconteceu. Foi entre o Natal e o Ano Novo de 1977, na Suiça francesa: três dias depois do enterro, o esquife de Charles Chaplin foi roubado (sim, isso mesmo!) e os dois autores do furto pediram à família, por telefone, a soma de um milhão de francos, para a devolução. Baseado neste fato verídico, o cineasta francês Xavier Beauvois fez um belo filme, “O preço da fama” (“La rançon de La gloire”, 2014), um dos melhores entre os exibidos no último Festival Varilux do Cinema Francês. 0 O filme tem esse argumento de roteiro que, assim resumido, dá uma impressão errônea do que está na tela. Na verdade, os dois autores do plano não foram (e não são no filme) perigosos meliantes. Eddy Ricart e Osman Bricha são dois pobres coitados, imigrantes que, na rica Suiça, vivem na miséria. Aquele saído da prisão há pouco, este um sub-empregado e residente numa espécie de trailer precário, onde, com todas as dificuldades do mundo, cria uma filha pequena, pois, gravemente enferma, a esposa se encontra no hospital local, à espera de uma cirurgia, pela qual a família não pode pagar. Concebido num momento de delírio de Eddy, o plano só é executado com muita relutância, a rigor, para cobrir a cirurgia salvadora. Tanto é que, no decorrer das negociações, a quantia exigida cai de um milhão, para meio, e, logo em seguida, para os 55 mil francos que o sistema de saúde cobrava para efetuar a cirurgia. O filme começa um pouco antes da concepção do desastroso plano – que claro, só podia dar em esparrela – e, na medida em que avança, os dois protagonistas, curiosamente, vão ficando cada vez mais parecidos, eles próprios, com personagens chaplinianos.

Dois meliantes atrapalhados

Dois meliantes atrapalhados

Pensando bem, por uma estranha coincidência que só o acaso explica, um bocado dos ingredientes do universo chapliniano está presente na estória desses dois coitados: uma criança pobre, uma mãe que precisa de uma quantia para ser operada, dois vagabundos desastrados. Um deles, Eddy, até trabalha em circo e, como o palhaço de “O Circo” (Chaplin, 1928) foi parar lá por puro acaso, em parte por causa de uma bela figura circense. Enfim, melodrama e miséria, como no Chaplin da vida toda. Naturalmente, a direção tem o cuidado de contar toda a estória na perspectiva dos dois autores do plano, e é isso que nos ajuda a entender o seu drama, e aceitá-los como são, seres humanos indefesos, desesperados, mais vítimas das circunstâncias que autores dela. Não é sem razão, por exemplo, que um tempo grande de tela é dado à menina, a qual tem uma participação crucial no diálogo, com suas perguntas sobre o que está acontecendo e sua insatisfação óbvia com as respostas recebidas. Não esqueçamos que, por ironia, é o seu choro noturno (“eu quero minha mãe…”) que faz com que Osman decida dizer sim ao amigo e partir para a execução do plano. Aliás, tão intrigantemente chaplinianos são os personagens que, no júri que os julga, depois do plano malogrado, o advogado de defesa não tem muita dificuldade em convencer os jurados de sua inocência, fazendo uso justamente do argumento de que, neste caso pelo menos, a vida imitou a arte. Mas, atenção, essa similaridade entre os dois mundos, o de Chaplin e o de seus “algozes”, não nos é dada de chofre: ela vai sendo construída devagarzinho, com sutileza e com afeto, até, não apenas os personagens ficarem chaplinianos, mas o próprio filme. Sim, um pouco antes do desenlace, aquela cena no circo em que Eddy é preso em plena perfomance, é, cinematograficamente falando, puro Chaplin!

Tudo por uma cirurgia cara

Tudo por uma cirurgia cara

Um fator que ajuda nesse efeito camaleônico é, naturalmente, a trilha sonora de Michel Legrand, principalmente ao fazer evoluções em torno do “Smile” de Chaplin, que, no final das contas, o espectador associa, não só ao mito do cinema, mas a todo mundo. O jeito chapliniano do filme de Xavier Beauvois está reforçado até pelo elenco. Duas bisnetas do cineasta de “Luzes da cidade” trabalham em “O preço da fama”, Dolores (no papel de uma das filhas do cineasta) e Eugene Chaplin (como a moça do circo que conquista Eddy). No mais, o elenco está ótimo, com destaque para o par de protagonistas: Benoit Poelvoorde (Eddy) e Roschdy Zem (Osman). A esposa finalmente cirurgiada é feita por Chiara Mastroiani, a filha de Catherine Deneuve e Marcelo Mastroianni, e o “fiel escudeiro” da família Chaplin, o americano John Crooker, é o ator Peter Coyote. “O preço da fama”, uma forma sofisticada e agradável de entabular diálogo entre o cinema do passado e o cinema do presente. Fico tentado a supor que Chaplin gostaria.

Carlitos, faminto como os seus algozes...

Carlitos, faminto como os seus algozes…

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Reinventando ficções

25 jun

Fugindo da agitação de hoje em dia, vem morar na rural e tranquila Normandia, esse casal parisiense de meia idade, cujo métier passa a ser agora o fabrico de pão caseiro. Assim começa o filme “Gemma Bovery” (2014), um dos mais cativantes entre os exibidos no recente Festival Varilux de Cinema Francês.

A suposta paz do lugar logo se evapora – pelo menos para o marido Martin Joubert – ao aparecer, na vizinhança, um casal inglês, ele de nome Charles Bovery, e ela, Gemma Bovery. Sim, quase os mesmos nomes dos personagens no livro de Gustave Flaubert. Sem contar que a Normandia foi também o cenário do afamado romance.

Se o filme fosse americano, esses dados não levariam a nada, já que, na América, dificilmente padeiros gostam de literatura, porém, não esqueçamos que estamos na França. Sim, Mr Joubert (rimando com Flaubert, notaram?) não só conhece o romance canônico, como é leitor apaixonado, ao ponto de lhe saber de cor trechos inteiros. Assim, estupefato, ele logo advinha, para a sua bela vizinha, com quem acidentalmente faz amizade, o mesmo fim trágico da heroína flaubertiana.

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

O filme foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês

E, com efeito, não demora muito para a jovem Gemma arranjar um amante, com quem passa a se encontrar em lugares escusos, ou em sua própria residência, quando o marido viaja.

Tudo isso acompanhado de longe pelo vizinho voyeur, o nosso Mr Joubert, que passa a viver um misto de torcedor contra e a favor da tragédia. Fascina-lhe o estar testemunhando a repetição do romance de Flaubert diante de seus olhos, ao mesmo tempo em que se apieda da pobre Gemma e quer, por fim e à força, salvá-la do destino livresco. A bem da verdade, não é só piedade: como ele diz, de si para si, a primeira vez que avista essa mulher deslumbrante: “lá se foram dez anos de tranquilidade sexual!”

Em uma de suas visitas a casa de Gemma, protesta aos brados contra a presença de arsênico para matar ratos, e no dia em que ela e o amante planejam uma viagem a Londres, ele ousa enviar à vizinha uma carta desfazendo o plano, assinada com o nome do amante, Hervé.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Joubert e Gemma, vizinhança literária.

Depois de Hervé, surge um novo amante para Gemma, mas, um momento, não embarquemos facilmente na viagem de Mr Joubert. Na verdade, Gemma não é Emma, e, a rigor, os seus amantes estão mais emocionalmente envolvidos que ela: como ela diz em dado momento ao primeiro, referindo-se ao caso deles: “isto é bom, justamente porque é passageiro”.

E nesse momento ocorre ao espectador estar assistindo a um filme roteirizado e dirigido por uma mulher, a experiente cineasta Anne Fontaine, que tem a esperteza de fazer a narração se desenrolar em duas focalizações, uma limitada, a de Joubert, e outra onisciente, a da própria Gemma, através de um diário que ela deixou, e que Joubert às escondidas lê.

Em Flaubert – vocês lembram – Emma Bovary é dissecada feito um besouro num tubo de ensaio pelo autor, o qual explica o seu comportamento nos mínimos detalhes, como o faria um cientista. No filme, ao contrário, Gemma tem uma vida própria, que escapa ao seu pretensioso “autor”, Mr Joubert.

Neste sentido, o desenlace da estória tinha que estar em desacordo com o romance: Gemma morre, sim, mas não se trata de suicídio. Morre engasgada com o pão que, ironicamente, Joubert fabricara exclusivamente para ela. E a cena da morte, vira “Rashomon” (Kurosawa, 1951), quando três pessoas, a saber, Joubert, o marido e o novo amante, contam dela, cada um, uma versão diferente, cada um assumindo a sua devida culpa.

Gemma e seus amantes.

Gemma e seus amantes.

Mais hilário ainda é o pós-desenlace, quando, seis meses depois de tudo ocorrido, aparece no lugar um novo casal, do qual a mulher teria o nome de Anne Kalenine, quase a Anna Karenina de Tolstoi. Tudo bem, era gozação do filho de Joubert, mas o que vale é que ele, Joubert, embarca na mentira e o filme se fecha com o seu delírio.

E o espectador sai do cinema imaginando o rol de trágicas heroínas da literatura do século XIX – todas mulheres apaixonadas fora do casamento, vitimadas pelas suas paixões – que por certo habitam a cabeça desse padeiro literário que, entre um pão e outro, reinventa ficções. Eu mesmo, de minha parte, saí pensando que o filme poderia continuar ad infinitum com novas vizinhas dos Joubert, que poderiam muito bem ser: a Hester Prynne de “A letra escarlate”, a Luísa de “O primo Basílio”, ou – por que não? – a Capitu de “Dom Casmurro”.

Enfim, um delicioso filme sobre recepção literária, a que se assiste com espírito inevitavelmente interativo.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.

A bela atriz Gemma Arteton é Gemma Bovery.