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INDIANARA

10 dez

Nenhum país do mundo mata mais LGBTs que o Brasil. Segundo as estatísticas, só no ano de 2018, foram 320 (trezentos e vinte) assassinatos, quase um por dia. Situação vergonhosa que deve piorar, se considerarmos a linha visivelmente homofóbica e armamentista do governo em vigência.

Daí a importância de um filme como Indianara (2019), exibido (e premiado) entre nós na décima quarta versão do Fest-Aruanda, festival anual de cinema paraibano.  Mas não só daí.

Bem roteirizado, bem montado e bem dirigido, o documentário da dupla Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel acompanha o dia a dia dessa líder transgênero Indianara Siqueira que, com heroísmo admirável, mantém, no Rio de Janeiro, uma espécie de ONG para auxiliar toda uma população LGBT a sobreviver ao meio do preconceito e da violência.

A chamada “Casa Nem” acolhe e abriga prostitutas, gays, lésbicas, trans e bissexuais, gente sem recursos para se manter por conta própria ou, se for o caso, para progredir e profissionalizar-se. Muitos deles foram expulsos de seus lares – ou deles fugiram por não aguentar maus tratos – e, não fosse Indianara e seu projeto filantrópico – estariam nas ruas, em condição de mendicância.

Natural de Paranaguá, Paraná, a jovem Indianara saiu de casa aos dezoito anos de idade para fazer a vida e a vida não foi fácil. Sem moralismos, abraçou a profissão de prostituta, que a levou a Santos e de lá ao Rio.

Mas, atenção, o filme não é – nem pretende ser – uma biografia. Mais modesto, ele apenas registra cerca de dois anos (de 2016 a 2018) na vida de Indianara, no caso, misturando momentos privados do seu cotidiano com o esposo Maurício e cenas públicas quando a ativista trans, nas ruas e às vezes de peito aberto (literalmente) enfrenta multidões, polícia e autoridades, com seu inflamado discurso libertário e demolidor de hipocrisias. Tanto é assim que nem direita, nem esquerda, escapam de seus ataques. Seu desentendimento com o PSOL, por exemplo, vem à tona com o mesmo furor com que denuncia o falso moralismo da direita.

Esses dois anos de filmagens coincidiram com o governo Temer e, inevitavelmente, estão registrados os protestos de rua que marcaram essa fase da história brasileira. Como grita Indianara em ocasião de desabafo: “não chamem Temer de filho da puta. Putas somos nós, e ele não é nosso filho. Ele é filho de Cunha”. No meio desses protestos, dois momentos são particularmente significativos, pela sua desoladora disforia: a ocasião do assassinato de Marielle, e a vitória nas urnas de Bolsonaro – duas “mortes” recebidas pelo grupo LGBT com profunda tristeza.

E por falar em mortes, a primeira cena do filme já se dá no cemitério, onde Indianara e o pessoal da “Casa Nem” sepulta o corpo de uma amiga LGBT: em dado momento, com um travelling por sobre os túmulos, ouve-se a voz da protagonista, nos lembrando que os vermes não distinguirão entre trans, bis, homos e heteros…

O filme não é, porém, um amontoado de desolações. Ele tem seus momentos de alegria e descontração – por exemplo, nas brincadeiras com os amigos, nas farras, e nos instantes mais privados em que Indianara troca miudezas com o esposo, os dois deitados na sua cama de casal. Dois auges dessa euforia são a comemoração do aniversário da protagonista em via pública e o ritual do seu casamento com Maurício.

Em que pese a cena do anúncio da vitória de um presidente homofóbico, vista na televisão da “Casa Nem” pelos seus residentes em pranto, em que pese esta cena – uma das mais emblemáticas do filme, por apontar para um futuro incerto e temeroso, – acho que Indianara mesmo assim, nos deixa com alguma esperança. Se não for outra, a que brota da força, determinação, carisma, charme e beleza de sua protagonista.

Com sua aisance no andar, seus olhos amendoados, seus lábios grossos e seus seios generosos, a mim, ela (presente no Fest-Aruanda) me soou como uma espécie de Anita Ekberg brasileira. Torçamos para que um dia ela possa banhar-se livremente na sua Fontana di Trevi sem ser molestada. O seu Mastroianni ela já tem.

Indianara concorreu à “Palma queer” no Festival de Cannes deste ano, onde, segundo consta, foi ovacionado em três sessões especiais. Esperemos que o sucesso em festivais de cinema conduza o filme a um público maior, se possível, aos circuitos comerciais. Os parentes e amigos dos 320 LGBTs assassinados o ano passado, com certeza, agradeceriam.

Rosa da esperança

24 out

Não é para fazer inveja aos amigos – ou seria? – mas, nada como ter o raro privilégio de poder assistir a filmes no charmoso, reservado e aconchegante “Cine Mirabeau”…

Lá pude ver, a semana passada, esse “Rosa da esperança” (“Mrs Miniver”) que o grande William Wyler dirigiu, para a MGM, em 1942, como parte do esforço americano de apoio à luta contra o nazismo, então espantosamente emergente.

Desse filme Churchill teria dito que fez mais pelo esforço de guerra do que toda uma frota de destroieres. Se fez ou não, o filme foi um sucesso que deu seis Oscar à equipe: melhor filme, melhor direção, melhor atriz principal (Greer Garson), melhor atriz coadjuvante (Teresa Wright), melhor fotografia (Joseph Ruttenberg), e melhor roteiro.

Para mim, foi uma oportunidade e tanto poder ver “Rosa da esperança”, pois era a minha grande lacuna em relação à filmografia de William Wyler (1902-1981). Dos seus grandes filmes, que são muitos (Vide adiante), era o único que eu desconhecia.

Aos jovens de hoje “Rosa da esperança” deve parecer datado, talvez incomodamente datado. Conta a estória dessa família inglesa classe média que leva sua vidinha perfeita, até ser obrigada a lidar com as imperfeições da guerra, quando os nazistas dão início aos bombardeios em Londres.

Na longa Exposição (primeira das três partes do clássico roteiro hollywoodiano), nada acontece entre os Miniver, salvo futilidades: a mulher compra um chapéu extravagante, o marido adquire um carro caro, o filho chega da universidade com ideias esquerdizantes, etc. O conflito que faz qualquer enredo ir para frente só aparece, quarenta minutos de projeção decorridos, quando o padre anuncia que o país declarou guerra à Alemanha e, por questão de segurança, encerra o culto religioso.

A partir daí os Miniver vão experimentar de perto os efeitos de uma guerra cada vez mais próxima. O filho se alista como piloto e o pai é convocado para o famoso bloqueio de Dunquerque, enquanto a mulher, só em casa com as crianças, se depara com um soldado nazista que aterrissara no seu jardim.

Porém, não se trata de um filme de ação, e os efeitos da guerra, se cada vez mais ameaçadores, serão mais psicológicos que de outra ordem.

Não testemunhamos Dunquerque e não pilotamos aviões com o jovem piloto da família. Única presença física do inimigo, o soldado alemão na casa dos Miniver é pouco ativo e a cena com ele é quase que só emocional. Durante os bombardeios, por exemplo, quando a família se abriga no porão da casa, tudo que se tem são sons e reflexos de luz. Entre um lampejo e outro, vemos rostos apavorados, mas, o que ouvimos com ênfase são os estrondos das bombas que caem lá fora e destroem a residência da família. Mais tarde, na cena do carro parado na estrada, com a Sra Miniver e sua nora debaixo de um céu repleto de aviões inimigos, os recursos expressivos serão os mesmos: quase que só sons e reflexos luminosos. O que não quer dizer que o resultado emocional não seja grande.

Para ser franco, do ponto de vista semiótico não há novidades em “Rosa da esperança”; nenhuma inovação que revolucione a linguagem do cinema. Como em toda a obra de Wyler, estamos diante de um filme “diegético”, ou seja, um filme onde todo o trabalho da câmera resulta propositadamente invisível, porque pensado para fazer – só isto e mais nada – as três coisas básicas que tornam um filme consumível: descrever bem o espaço ficcional, desenvolver com lógica o enredo e acentuar as emoções do drama. Eu disse ´só isto e mais nada´? Ora isto já é o suficiente para envolver o espectador e fazer a magia da chamada Hollywood clássica.

Aliás, Wyler foi, nesse sentido, tão “diegético”, que a crítica costuma ter dúvidas se lhe cabe o epíteto de autor, alguns o dando como apenas acadêmico, um grande artesão sem aquela genialidade que produzisse um estilo.

Só para fazer justiça ao cineasta, encerro esta matéria com uma pequena antologia de títulos que ele assinou com algo mais que mera competência acadêmica, grandes filmes cujas qualidades evidentes deveriam desfazer as dúvidas dos seus críticos.

“Fogo de outono” (1936), “Jezebel” (1938), “O morro dos ventos uivantes” (1939), “A carta” (1940), “Pérfida” (1941), “Os melhores anos de nossas vidas” (1946), “Tarde demais” (1949), “Chaga de fogo” (1951), “Horas de desespero” (1955), “Sublime tentação” (1956), “Da terra nascem os homens” (1958), “Infâmia” (1962), “O colecionador” (1965).

Em tempo: superprodução de estúdios, deixo de mencionar “Benhur” (1959).