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O filme da minha vida

8 ago

Interessante notar como, no cinema de hoje em dia, está se tornando cada vez mais comum a referência ao cinema do passado. Quem faz isto, e o faz muito bem, é o filme de Selton Mello “O filme da minha vida” (2017). Nele o western clássico “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948) desempenha o papel de intertexto, e um intertexto importante, uma vez que partilha uma porção de sua temática, a saber, o conflito entre pai e filho, no caso, feitos por John Wayne e Montgomery Clift.

Narrado em primeira pessoa, o filme conta a estória desse rapaz de 23 anos, Tony (Johnny Massaro), professor de francês na pequena Remanso, RG, que vive entre a saudade do pai desaparecido (o francês Vincent Cassel) e os conflitos sexuais de seus alunos, conflitos que também são seus, sempre indeciso entre duas irmãs, tão ambíguas quanto ele mesmo. Nessa busca de maturidade, ninguém o ajuda, muito menos o criador de porcos Paco (o próprio Selton Mello), amigo da família, figura sempre presente, meio “candidato a pai”, e que um dia, a contragosto, o leva à Fronteira, para uma experiência com prostitutas. Conduzido pelo trem de um maquinista meio filósofo (Rolando Boldrin), Tony termina por descobrir o paradeiro paterno e isso tem a ver com cinema, especialmente com o sempre citado “Rio Vermelho” de Hawks.

O filme adapta o livro do escritor chileno Antonio Skármeta, “Um pai de filme” (2010), porém, a adaptação é relativamente livre. Por exemplo, o filme referido no livro também é um western de Howard Hawks, mas não é o tão adequado à estória “Rio Vermelho”, e sim, “Rio Bravo” (1959) cujo título brasileiro foi, na verdade, “Onde começa o inferno”.

De qualquer forma, podemos dizer que ambos, livro adaptado e filme adaptador têm intertextos fílmicos. Para dizer a verdade, desconfio que em ambos, digo, no livro e no filme, há mais de passado cinematográfico do que a gente pensa.

Com o risco de fornecer spoilers, faço um breve resumo da estória, na perspectiva de um personagem que não é o narrador Tony. Vejam bem:

Um pai de família, que sempre foi querido e correto, comete, inadvertidamente, um grave deslize por causa de uma mulher, e, assim, desaparece do seio da família e vai viver, anônimo, noutro lugar. Ora, esse argumento está lá atrás, num filmezinho de 1940 que fez meio mundo chorar, chamado no Brasil de “Seu único pecado” e no original “The way of all flesh” (Louis King, 1940).

Em “Seu único pecado” o pai desditoso nunca volta à família, enquanto que no livro de Skármeta e no filme de Mello a narrativa providencia um final meio feliz para todos, porém, o argumento (digo, não o roteiro) é o mesmo.

Os atores Vincent Cassel e Selton Mello

O que desconfio é que, bem antes do filme de Mello, o livro de Skármeta teve, conscientemente ou não, influência de “Seu único pecado”, o que não é nada improvável, já que, ele próprio professor de cinema, Skármeta é um grande conhecedor do passado desta arte. Não é de admirar, portanto, que o filme de Mello – via livro adaptado – carregue um certo cheirinho de melodrama antigo. Vendo-o, senti esse cheirinho e foi ele que me trouxe à lembrança as lágrimas que derramamos, eu e toda uma gama de espectadores, quando assistimos a “Seu único pecado”.

Com esse passado nas costas, ou não, de todo jeito o filme de Mello agrada a todos pelas qualidades intrínsecas que possui. Uma delas é a primorosa fotografia de Walter Carvalho. Lembro que da fotografia de “Rio vermelho”, a crítica americana Pauline Kael dizia que “elevava a paisagem à categoria de personagem”. E eu pergunto, não acontece o mesmo aqui? Não me admiraria se me dissessem que Carvalho inspirou-se no preto e branco do fotógrafo Russell Harlan, pra fazer o seu colorido melancólico que nos encanta.

Em primeiro plano, Johnny Massaro no papel de Tony.

Como no livro, a estória do filme de Mello se passa em 1963, mas a direção não se preocupou muito com o rigor de datas. Alguns exemplos: uma das muitas canções que compõem a rica trilha musical do filme é “Coração de papel”, de Sérgio Reis, como se sabe um sucesso de 1967, quatro anos após o ano em que a estória ocorre. Francesas ou americanas, as outras canções tampouco obedecem a cronologias. E às vezes, assumido ou não, esse anacronismo está no diálogo: conversando com a amiga sobre cinema, Tony a escuta dizer que a atriz hollywoodiana Elizabeth Taylor já ia no terceiro casamento. Ora, o terceiro casamento de Taylor (com Michael Todd) acabou em 58, ou seja, cinco anos antes de 63.

No meu entender, esses e outros anacronismos têm uma justifica convincente. E ela ocorreu, ainda na elaboração do roteiro, no momento em que se teve o bom senso de substituir o “Rio Bravo” do livro por “Rio vermelho”. Como já dito, estória de conflito entre pai e filho, “Rio vermelho” tem tudo a ver com a temática de “O filme da minha vida”, ao passo que “Rio bravo” era, no livro, uma mera ilustração. O problema é que, enquanto “Rio Bravo”, sendo de 1959 era viável no tempo, “Rio vermelho” é de 1948, quinze anos antes da estória contada. Parece-me que essa distância temporal abriu caminhos para outras distâncias, retroativas ou prospectivas.

E, afinal de contas, nada disso atrapalha a curtição de “O filme da minha vida”, o terceiro precioso item na filmografia de um jovem talentoso cineasta que, cada vez mais, e merecidamente, conquista público e crítica.

O fotógrafo Walter Carvalho e o cineasta Selton Mello, durante as filmagens.

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“Vidas Amargas” com amigos

18 abr

Fui recentemente convidado por um grupo de amigos para conversar sobre cinema, e o filme escolhido foi “Vidas amargas” (1955). Esta matéria contém as anotações do meu comentário sobre esse clássico de Elia Kazan, que considero um dos filmes mais importantes do seu século.

Acho que há várias maneiras de ler “Vidas amargas”, e aqui não faço mais do que imaginar e sugerir algumas – quatro, na verdade, cada uma delas tendo a ver com as outras três.

Uma primeira sugestão de leitura seria colocá-lo no contexto de sua década, como um daqueles filmes que empreenderam os primeiros bombardeios ao “bom” conceito de família.  Até então esse conceito sagrado era salvaguardado pelo Código Hays de Censura, e pouca gente em Hollywood tinha a coragem de problematizá-lo. Creio que o símbolo mais concreto dessa condição intocável da família estava na imagem da cama de casal que aparecia nos filmes hollywoodianos até então: sempre dupla, uma em um lado do quarto, a outra, no outro lado, como se papai e mamãe não fizessem sexo. De repente, uma certa Hollywood, mais ousada e corajosa, começou a quebrar tabus, com filmes que, não apenas passaram a falar de sexo doméstico, mas a mostrar a roupa suja nos bastidores familiares.

Na segunda metade dos anos cinquenta, muitos filmes fizeram isto: com maior ou menor consequência recepcional, ou estética, entrariam nesse rol, por exemplo, “A caldeira do diabo” “Férias de amor”, “Imitação da vida”, “Amores clandestinos”, “Juventude transviada”, e outros mais. E “Vidas amargas” foi um dos primeiros a ter essa coragem.

Relembremos o grosso do seu enredo: supostamente viúvo, o fazendeiro Adam Trask (Raymond Massey) é pai do consciencioso e sensato, Aaron (Dick Davalos), filho predileto, e do rebelde e inconsequente Cal (James Dean). Acontece que este último detém um segredo que partilha conosco: ao contrário do que sustenta o honrado fazendeiro, não longe dali vive Kate (Jo van Fleet), a mãe dos dois rapazes, uma mulher estranha, dona de bordéis e bares, altamente respeitada na esfera mundana, que, sufocada um dia pelo moralismo do marido, abandonara o lar. Quando o fazendeiro cai em dificuldades financeiras, Cal procura essa mãe marginal e lhe pede uma grana para, sem que o pai saiba, plantar feijão, aproveitando a subida de preços, decorrente da Guerra Mundial. No dia do aniversário do pai, um Cal ansioso para agradar oferece a quantia ganha com os feijões como presente e é rechaçado pela indignação paterna, que só vê desonestidade no ato de se lucrar com a morte de soldados americanos. Confuso e em crise, Cal conduz Aaron ao bordel onde vive a mãe maldita e o resultado é a fuga do irmão e uma trombose do pai.

James Dean e Raymond Massey em cena final.

Uma outra forma de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de James Dean. De modo trágico, o jovem ator faleceu no ano de sua estreia e o mito, ajudado por seus dois outros filmes (“Juventude transviada” e “Assim caminha a humanidade”), logo tomou forma e cresceu. Nos três filmes, Dean fazia o papel de um jovem rebelde e/ou incompreendido, com quem uma parcela enorme de espectadores jovens passou a identificar-se. Os estudos de sociologia do cinema têm confirmando as mudanças comportamentais ocorridas na época em função dessa identificação. Por outro lado, vale lembrar que Dean foi o típico ator kazaniano. Veio do Actors Studio (que Kazan fundou) e foi descoberto para o cinema por Kazan. Por ter conseguido um primeiro lugar em teste para o Actors, foi contratado para os palcos da Broadway, onde protagonizou a peça “O imoralista”, baseada no livro de André Gide. Nessa peça, Dean interpretava o homossexual que afirmava sua homossexualidade de forma ostensiva, quase cruel, quase misógina. Kazan assistiu à peça e o solicitou para o papel de Cal em “Vidas Amargas”. Em entrevista, o próprio Kazan conta, com certa ironia maldosa, o quanto gostou do fato de que a relação de Dean com o pai era difícil, do mesmo modo que, durante as filmagens, foi difícil a relação de Dean com o ator veterano Raymond Massey (Adam Trask, o pai) que o detestava: tudo isso foi assumidamente usado como “laboratório” para o filme – era parte do “Método” de Kazan.

O presente recusado: conflitos entre pai e filho

Uma terceira e inevitável maneira de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de Kazan. Se comparado aos outros dezoito filmes do autor, vamos notar o quanto ele é característico de seu estilo, ao desenvolver o tema que foi o mais central em Kazan, a saber, o do outsider – outsider no grupo social, na família, ou no mundo, tanto faz. Trata-se de uma adaptação do livro de John Steinbeck, porém, Kazan cortou o que não interessava aos seus propósitos e centrou na figura do inadaptado Cal. Como nos seus filmes mais marcantes, há dois tipos de conflito, um externo (aqui, um pai puritano e uma mãe prostituta), outro, interno (o de Cal, que não consegue se fazer compreender, nem dentro, nem fora da família). O conflito interno é sempre o mais importante, porque é o que demarca o protagonista como essencialmente outsider – condição que parece ter sido a do próprio Kazan, aliás, confirmada em entrevista por ele mesmo – um eterno imigrante nos Estados Unidos, e, como se não bastasse, malquisto em vista de sua delação na Comissão de Atividades Anti-americanas.

É verdade que o personagem de Cal é, no desenlace, redimido pelo perdão paterno, mas, o que fica para o espectador é a sua condição marginal e ambígua, aliás, sugerida pela óbvia remissão bíblica, expressa já nos nomes do trio masculino: Adão (Adam), Abel (Aaron) e Caim (Cal).

Cal na roda gigante com a cunhada Abra.

Resta ler “Vidas amargas” em si mesmo, enquanto realização cinematográfica que atinge um nível de qualidade inquestionável. Para tanto, seria o caso de observar o quanto a sua forma expressa o seu conteúdo de modo estético e efetivo. Esse fato se dá em todos os aspectos do filme, da música à montagem, da fotografia às interpretações, mas, para efeito de análise chamo apenas a atenção para o modo sistemático e impressionantemente eficaz como a câmera efetua os enquadramentos, sobretudo nos momentos mais dramáticos, como: (1) na primeira visita de Cal ao bordel que a mãe administra, do qual ele, aos protestos, é expulso à força: (2) em casa, no aniversário do pai, quando o dinheiro do feijão plantado é impiedosamente recusado, o filho, em prantos, abraçado ao corpo paterno; (3) na trágica terceira e última visita ao bordel materno, agora com o irmão sendo literalmente empurrado para os braços de uma mãe indesejada. Na ocasião, com apenas dois anos de emprego, a técnica do cinemascope era novidade e, em vista de sua extensão horizontal, havia o preconceito quanto a sua possibilidade de expressar os desvãos da alma humana: Kazan é o primeiro a, na prática, derrubar o preconceito.

Como disse acima, estas quatro alternativas de leitura de “Vidas amargas”, só estão separadas para efeito de análise, quando, na verdade, elas se imbricam em um conjunto coeso, possivelmente mais pertinente do que suas partes.

Em tempo: esta matéria é, com carinho e admiração, dedicada a Zezita Matos.

Sete dias com Truffaut

21 out

De 20 a 26 deste mês de outubro, a cinefilia de João Pessoa está em festa, com a exibição, nos cinemas do Shopping Manaíra, do Festival François Truffaut.

São sete filmes, um por dia, recobrindo a carreira desse genial cineasta francês, um dos pais da Nouvelle Vague, aquele movimento cinematográfico que abalou o mundo cultural e artístico nos anos sessenta.

Seguindo a cronologia dos lançamentos, a exibição começa com o inaugural “Os incompreendidos” (1959), findando com o “O último metrô” (1980). No meio ficam: “Jules et Jim” (1961); “Beijos roubados” (1968); “A noiva estava de preto” (1968); “Domicílio conjugal” (1970), e “Amor em fuga” (1979).

François Truffaut, um dos fundadores da Nouvelle Vague.

François Truffaut, mentor da Nouvelle Vague.

De minha parte, lamentei a não inclusão de um dos melhores filmes de Truffaut, “A noite americana”, e a inclusão de um dos piores: “A noiva estava de preto”. Mas, como diz o clichê, nada é perfeito. Ao menos a mostra começa com duas obras primas: os dois primeiros filmes.

Aproveito a ocasião para relembrar a trajetória fílmica de Truffaut. A sua história é bem conhecida dos cinéfilos: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, final dos anos quarenta, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras afiadas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e numa dramaturgia congelada e falsa.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava dito num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa ideia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

"Os incompreendidos" (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

“Os incompreendidos” (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo e amado “Os incompreendidos”, onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada. O filme ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a cometer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Outra coisa interessante, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir grandes filmes, exaustivamente analisados nas páginas dos Cahiers du cinéma.

Cena em "Jules et Jim" (1961).

Cena em “Jules et Jim” (1961).

Não só aos grandes, Truffaut também era ligado aos pequenos e obscuros diretores hollywoodianos de filmes B, de quem recebeu admitida influência. Um caso que ilustra bem isso está no filme que será exibido hoje (sexta, 21), “Jules et Jim”, considerado pela crítica sua realização mais perfeita. Truffaut havido lido o livro homônimo de Henri-Pierre Roché em meados dos anos 50, e, mesmo deslumbrado com a escrita e a temática, julgou que essa estória de amor a três fosse “infilmável”. Até o dia em que entra num cinema de Paris, para ver a reprise de um faroeste de um de seus obscuros diretores B.

O diretor era Edgar G. Ulmer, e o filme, “Madrugada da traição” (“Naked dawn”, 1955), contava, com certa ambiguidade sexual, o caso de um estranho triângulo amoroso, nas brenhas do México, entre um bandido e um casal de agricultores. Rodado precariamente em 10 dias, com resultado visivelmente pífio, foi o único filme em cores de Ulmer e o único papel principal de Arthur Kennedy. Pois em entrevista à crítica Anne Gillain (Cf. o livro “O cinema segundo François Truffaut”, Nova Fronteira, 1990), Truffaut conta que saiu do cinema convencido pelo filme de Ulmer de que o livro de Roché poderia ser filmado. E, logo que pôde, filmou. Irônico que um filme tão fraco tenha motivado um tão forte.

Enfim, resta aos cinéfilos pessoenses aproveitar a chance rara de ver – acho que rever é mais o caso – o cinema sui generis de François Truffaut, que, se não foi o maior cineasta do mundo, foi, com certeza, o mais cinéfilo de todos.

Em tempo: esta matéria é, com afeto, dedicada a Carlos Aranha.

"Jules et Jim": em um fotograma emblemático...

“Jules et Jim”: em um fotograma emblemático…

Bertrand e Rebeca

13 set

Experiência agradável ver, em tela grande, “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940), o primeiro filme americano do mestre Alfred Hitchcock.

O filme foi exibido no Cine Bangüê, quinta-feira passada, dia 8, ocasião em que também foi lançado o livro do fotógrafo e cineasta Bertrand Lira, “Cinema Noir – a sombra como experiência estética e narrativa”.

Coube-me a missão dupla de apresentar livro e filme, mas, como tive pouco tempo para a apresentação, aqui completo o que faltou dizer.

Parte de sua tese de doutorado, o livro de Bertrand analisa o funcionamento artístico da fotografia no filme noir, e o faz à luz das propostas contidas na obra de Gilbert Durand, “As estruturas antropológicas do imaginário”, onde se investiga a simbologia das sombras na cultura universal.

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Grade teórica escolhida com sabedoria e aplicada com sensatez e competência. E vejam que Bertrand não escolheu bem somente a grade teórica, como também o corpus. Para close reading, privilegiou cinco filmes que foram particularmente importantes na formação do gênero, a saber “Relíquia macabra” (John Huston, 1940), “Almas perversas” (Fritz Lang, 1945), “Envolto nas sombras” (Henry Hathaway, 1946), “Maldição” (Lang, 1950) e “A marca da maldade” (Orson Welles, 1958).

Os filmes de Huston e Welles são emblemáticos no sentido de estarem nos extremos do período atribuído à vigência do cinema noir. Contando a estória de uma secretária que ajuda o patrão a se livrar de uma acusação criminosa, o filme de Hathaway ilustra o gênero de modo exemplar. E por fim, “Almas perversas” e “Maldição” são de autoria de uma figura chave, Lang, alemão de origem que foi, nos anos vinte, cabeça do Expressionismo e que, de modo pessoal, trouxe para Hollywood as sombras desse movimento artístico.

Em suma, um belo livro, bem montado e bem escrito, que deve ficar como referência para os estudiosos da arte cinematográfica, em nível local e nacional.

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Como já disse, adorei ver “Rebeca” em tela grande, porém, a meu ver, o ideal seria que o filme escolhido para exibição tivesse sido um daqueles estudados no livro de Bertrand. Para o espectador presente à sessão e futuro leitor do livro, “a aula”, então, teria sido completa.

A rigor, “Rebeca” nem é um noir típico. Como se sabe o filme noir era “B”, ou seja, tinha orçamento baixo, o que, aliás, dava a seus realizadores mais liberdade para criar, sem a fiscalização que recebiam os projetos de alto custo. Eram filmes para completar cardápio, geralmente curtos (entre 70 a 90 minutos), exibidos em dias de semana, entre segunda e quarta-feira. O cenário era quase sempre urbano e noturno, cheio de sombras, iluminação oblíqua, e trilha sonora desconcertante, para dar certo com a temática disfórica. Tratando de crime, sedução, culpa, e castigo, seus personagens podiam ser bandidos, policiais ou o cidadão comum envolvido em trama maldosa.

“Rebeca”, por sua vez, foi rodado com pompa e circunstância.

O grande produtor americano David Selznick convidou o grande cineasta inglês Hitchcock, e lhe ofereceu condições privilegiadas para filmar, em seus estúdios hollywoodianos, um romance que estava virando best-seller, e isto com um elenco de primeira: o shakespeariano Laurence Olivier, a estrela em ascensão Joan Fontaine, e até os coadjuvantes eram chique: o refinado George Sanders e a impressionante Judith Anderson, que faz a governanta mais assombrosa da história do cinema, no papel da Sra Danvers.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Selznick havia acabado de produzir o estrondoso “E o vento levou…” (1939) e ainda estava na tarefa da distribuição e exibição, quando Hitchcock – que havia muito já ganhara prestígio internacional com suas produções inglesas – aportou em Hollywood, com um contrato e a perspectiva de grande trabalho em comum.

O filme começa com o casamento de uma moça pobre com um aristocrata, mas esse cheiro de “Cinderela” vai, aos poucos, sumindo e tomando os tons de terror a que nos conduzem, tanto o cenário (a suntuosa mas funesta mansão de Manderley), como o mistério da trama, suscitado pelo espírito da ex-esposa, e encarnado de modo concreto, na governanta.

Segundo a biógrafa de Daphne du Maurier – a autora do livro adaptado por Hitchcock – antes de escrever “Rebeca”, ela havia lido os originais de um certo livro intitulado “A sucessora”, enviado para a sua editora, e que contava mais ou menos a mesma estória. A autora? A brasileira Carolina Nabuco. Mas este é outro problema, que fica para outra hora.

Por enquanto é bom lembrar: “Rebeca” continua em cartaz no Bangüê, e o livro de Bertrand está à venda na Livraria do Luiz e na Livraria do CCHLA, na UFPB.

Patroa e governanta, em "Rebeca, a mulher inesquecível" (1940)

Patroa e governanta, em “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940)

Um lugar ao sol

19 jul

 

Quantas vezes vou escrever sobre “Um lugar ao sol”? Já o fiz outras vezes, e esta, provavelmente, não será a última. Um clássico é assim – já dizia Ítalo Calvino – a ele a gente sempre retorna.

Acho que vocês lembram, “Um lugar ao sol” (“A place in the Sun”, de George Stevens) conta uma estória trágica, de paixão, crime e culpa, acontecida na época da realização do filme, 1951, porém, a rigor, a origem de sua  trama é bem mais remota.

Começa, na verdade, com um caso real. Foi em 1906, em Nova Iorque. Um operário matou a sua namorada, que estava grávida e o pressionava por um casamento que ele não queria. O crime foi cometido num lago nos arredores da cidade. O rapaz, Chester, atingiu a moça, Grace Brown, com um dos remos e a deixou afogar-se. O crime foi facilmente descoberto, Chester julgado e condenado à morte.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

Liz e Monty, juntos pela primeira vez nesta cena.

O caso todo foi à imprensa, e o escritor Theodore Dreiser o acompanhou com interesse. Não apenas o enredo era instigante, como ilustrava os malefícios do capitalismo, ponto importante para um socialista como Dreiser: a vítima era pobre, e Chester, namorando uma outra moça da sociedade, ambicionava ascender socialmente. Logo viu Dreiser que aquilo era matéria para um romance de muitas páginas, que laboriosamente escreveu e chamou de “An American Tragedy” (“Uma tragédia americana”), livro editado em 1925.

Em 1930, a Paramount pensou em filmar e comprou os direitos autorais: a tarefa foi para o cineasta russo Sergei Eisenstein, especialmente contratado depois do sucesso de “O Encouraçado Potemkin”. Muito “comunista”, o roteiro de Eisenstein não agradou aos produtores, que o descartam, e, em seguida, contrataram o alemão Josef von Sternberg. Com o mesmo título do romance, o filme de Sternberg foi rodado e lançado: não fez sucesso de público nem de crítica e deu um bom prejuízo ao Estúdio.

Quase vinte anos depois do filme de Sternberg, o cineasta George Stevens demonstrou-se interessado numa refilmagem, com a qual a Paramount, lembrada do prejuízo anterior, só concordou meio a contragosto. Enfim, o filme de Stevens foi realizado em 1949, mas teve que esperar para ser lançado em 1951, pois os estúdios não queriam a sua competição ao Ocar com outro grande projeto da casa, “Crepúsculo dos deuses” (1950).

"É um Eastman" diz o outdoor...

“É um Eastman” diz o outdoor…

O papel do rapaz tímido mas ambicioso – no romance de Dreiser chamado de Clyde Griffiths e agora renomeado de George Eastman – que se apaixonava por moça rica, depois de haver engravidado colega de trabalho, foi dado a Montgomery Clift, ator em ascensão que vinha do Actors Studios e dos palcos de Nova Iorque. A moça rica vai ser Elizabeth Taylor, que então só era conhecida como a típica jovem ingênua que aparecia na tela ao lado de cavalos de corrida e cães, tipo “a garota Lassie”. Para fazer a vítima foi escolhida a atriz Shelley Winters, em seu primeiro papel de ´moça feia e desinteressante´, condição que ela só aceitou de mau grado, embora a pecha lhe tenha caído bem, como veríamos nos seus próximos filmes.

Grande romântico, a primeira coisa que Stevens fez foi abrandar a inclinação ideológica do original. Se traz os ecos sociais do livro adaptado, seu filme é, antes de tudo uma grande estória de amor; trágica, sim, mas de todo jeito uma estória de amor.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Operários trabalhando: Alice Tripp e George Eastman.

Pela vigésima vez, revi-o há pouco entre amigos e ainda me tocam três cenas que aqui destaco. (1) Alice Tripp, a operária grávida, no consultório do médico, primeiro mentindo sobre seu estado civil, e depois, em prantos, contando a verdade sobre sua situação de mãe solteira. (2) A demorada cena no lago escuro, o barco flutuando com o casal, até o momento dramático do afogamento, percurso doloroso onde se percebe as etapas psicológicas de George Eastman, na ordem, seu plano criminoso, sua desistência, e, finalmente, sua crise provocada pela fala inconveniente da companheira. (3) Mais tarde, a simulação do afogamento durante o júri, com um barco que é trazido para o recinto, onde o advogado de acusação faz o que pode e o que não pode para provar que o réu teve a intenção de matar a moça, e que o teria feito impiedosamente.

Se for para citar uma cena mais leve, adoro aquela no salão de bilhar da mansão dos Eastman, quando Angela Vickers e George se conhecem, ela lhe perguntando se ele era “dramático, melancólico ou exclusivista”. A filmagem dessa cena foi o primeiro momento profissional entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, ela nervosa por se considerar uma novata a contracenar com um ator já experiente e conceituado. Deu tudo certo e, por sinal, ficaram amigos para o resto da vida.

Uma vez perguntaram a Charles Chaplin, qual seria o filme que ele mais amava. Sua resposta inequívoca: “Um lugar ao sol”. Vejam como estou bem acompanhado.

Em tempo: esta matéria é dedicada a José Mário e Ilma Espínola.

Uma grande estória de amor trágico.

Uma grande estória de amor trágico.

Almodóvar diferente

13 jul

Em cartaz na cidade e no mundo, o novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, “Julieta”, (2915) está intrigando os seus fãs.

Eu mesmo, na saída do cinema, fui abordado por um grupo deles que, indignados, queriam saber o que foi que aconteceu com o cineasta de “Má educação” e “Fala com ela”.

Almodóvar, como se sabe, é um cineasta de estilo forte, e como tal, deu-se sempre ao luxo de ser redundante. Todo cineasta de estilo forte redunda forma e conteúdo numa boa, e todo mundo aplaude: que o digam Bergman, Kurosawa, Fellini, Hitchcock, Ford, etc.

julieta 2

O problema começa – se é que isso é problema – quando o cineasta resolve driblar o básico de seu estilo e experimentar um pouco. É o caso deste “Julieta”.

Mais contido, menos debochado, ou para usar o nome da produtora do cineasta, bem menos “desejo”, o filme conta a estória sofrida de uma mãe que perdeu contato com a filha adolescente e passa a viver em função dessa ausência e dessa angústia.

No início do filme, Julieta está para viajar a Portugal com seu companheiro quando, por mero acaso, encontra uma amiga que lhe dá notícia de sua filha, hoje vivendo na Suíça, com três filhos pequenos. Pronto. Isto é o suficiente para ela desistir da viagem e do companheiro e ir residir no velho prédio onde, muitos anos atrás, morara com a filha, na esperança de receber alguma correspondência.

Um estória de mães e filhas...

Um estória de mães e filhas…

Não só isso: passa a escrever a estória toda, desde a concepção da filha, estória escrita que vira imagem e vai constituir o grosso do filme.

O que exatamente aconteceu a Antia, a filha de Julieta, não se sabe durante o filme inteiro, e a espera da revelação final é custosa para a protagonista… e para o espectador. E, mais, não tenho certeza se o desenlace o revela satisfatoriamente. Para muitos comentaristas do filme, tem-se sonegação diegética prolongada demais, para um fornecimento final que, em vista do esforço para chegar lá, parece pífio.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, “Julieta” é um filme sobre o sentimento da maternidade, junto com um certo ingrediente que lhe é  inerente, a culpa.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

a atriz Adriana Ugarte como a Julieta jovem.

A iniciativa de adaptar literatura é outra quase novidade em Almodóvar – um diretor conhecido pela criatividade de seus roteiros originais – mas, parece-me que bem mais que Munro, quem está por trás deste novo Almodóvar é a Hollywood clássica, como se sabe, uma fonte de inspiração sua, embora nem sempre explícita.

Com efeito, o tempo todo, “Julieta” me lembrou o grande melodrama de King Vidor, 1937, “Stella Dallas, mãe redentora”, também uma estória sobre a dor de ser mãe. No filme de Vidor, Barbara Stanwyck faz uma mulher que se sacrifica pela filha até o extremo de perdê-la para que ela possa ser feliz. Em “Julieta”, a mãe perde a filha a contragosto e passa o resto da vida no seu encalço, mas as ressonâncias dramáticas são as mesmas.

Mas, atenção, não exageremos: um Almodóvar diferente?

Maternidade, ausência e angústia...

Maternidade, ausência e angústia…

Pensando bem, nem tanto assim. Não é a primeira vez que o cineasta toca em questões maternas (Conferir, e o título já diz: “Tudo sobre minha mãe”) e não é a primeira vez que lhe interessa a condição feminina.

Ademais, “Julieta” tem o mesmo capricho cromático dos outros filmes do diretor; o mesmo bom gosto na direção de arte, e o mesmo rigor na direção de atores. A sofisticação da mis-en-scène é a mesma, se você prestar atenção a detalhes. Por exemplo, os bolos que marcam a passagem de anos da filha ausente; a cópula no trem, mostrada como reflexo no vidro da janela; a passagem do tempo na idade da protagonista, indicada pela toalha que cobre e, anos depois, descobre o seu rosto, agora mais idoso – permitindo, aliás, a substituição das atrizes (ambas ótimas) Adriana Ugarte e Emma Soares.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

As atrizes Susi Sanchez e Adriana Ugarte: mãe e filha.

Alguns lances de roteiro chegam a ser óbvios, como a interpretação que faz para seus alunos a jovem professora Julieta do simbolismo do mar na Odisseia, astutamente jogada na trama do filme como uma premonição de duas mortes: a do pescador Xoan (em tempestade marítima) e a do seu neto, também chamado Xoan, num lago suíco.

No terreno temático, aqui também estão os mesmos elementos disfóricos que atormentam os personagens almodovarianos: comas, doenças, suicídios, acidentes e depressões. Talvez aqui eles pesem mais que os “desejos”, não sei. De todo modo, se o filme começa com um mau presságio (a cena do senhor desconhecido, no trem) termina com uma esperança – o carro na estrada em direção à Suíça.

Enfim, Almodóvar diferente ou igual a si mesmo, um belo filme.

Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

mr holmes 1

O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

mr holmes 2

“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

mr holmes pro face 1

A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.