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DIA DA IMPRENSA

1 jun

No DIA DA IMPRENSA, primeiro de junho, dez filmes clássicos sobre profissionais da área: proprietários de jornais, editores, repórteres, jornalistas, colunistas sociais, etc.

 

A PRIMEIRA PÁGINA, de Lewis Milestone, 1931, com Adolphe Menjpu e Pat O´Brien.

ACONTECEU NAQUELA NOITE, de Frank Capra, 1934, com Clark Gable e Claudette Colbert.

JEJUM DE AMOR, de Howard Hawks, 1940, com Cary Grant e Rosalind Russell.

CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO, de Alfred Hitchcock, 1940, com Joel McCrea e George Sanders.

ADORÁVEL VAGABUNDO, de Frank Capra, 1941, com Barbara Stanwyck e Gary Cooper.

CIDADÃO KANE, de Orson Welles, 1941, com Orson Welles e Joseph Cotten.

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES, de Billy Wilder, 1951, com Kirk Douglas e Jan Sterling.

A HORA DA VINGANÇA, de Richard Brooks, 1952, com Humphrey Bogart e Ethel Barrymore.

A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO, de Alexander MacKendrick, 1957, com Burt Lancaster e Tony Curtis.

UM AMOR DE PROFESSORA, de George Seaton, 1958, com Clark Gable e Doris Day.

 

Na foto: Barbara Stanwyck e Gary Cooper no comovente “Adorável vagabundo” (“Meet John Doe”).

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Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

Tudo sobre os gringos

11 fev

Quem são os americanos, afinal de contas? Gente materialista e obtusa que só pensa em dinheiro e poder? Um povo laborioso e empreendedor que construiu a primeira democracia do planeta e a maior potência econômica do mundo? Uma nação ambiciosa e autoritária que vive de intervir nos destinos alheios? Uma civilização liberal que acolhe pensadores de toda parte do mundo? Um país etnocêntrico e racista que não tem visão para a alteridade? Uma raça de gênios que já abocanhou 320 prêmios Nobel?

Enfim, seriam os Estados Unidos o leito maligno do capitalismo selvagem, ou “o país das oportunidades”?

Quem nos convida a refletir sobre esse assunto instigante é o historiador brasileiro Antônio Pedro Tota, no seu livro “Os americanos” (2009), na verdade, um item na série “Povos e Civilizações” que, mui oportunamente, a Editora Contexto vem publicando.

Nada mais complicado – e também arriscado – do que definir uma civilização, o que, aparentemente, só poderia ser feito através de estratégias conceituais. Se assim é, a de Tota foi recontar a história dos Estados Unidos, do começo até hoje, mas isto, driblando a historiografia tradicional e atacando a questão com um enfoque novo e interessante.

Assumindo o recurso criativo do ensaio, Tota privilegia uma abordagem que se equilibra entre o pessoal e o imparcial, e que torna a leitura, não apenas instrutiva, mas também saborosa, às vezes divertida.  Havendo residido nos Estados Unidos, não hesita em incluir experiências particulares, que são eventualmente contrapostas a experiências alheias, retiradas de trechos obscuros da bibliografia consultada.

No geral, o seu enfoque é predominante comparativo, e Tota não se incomoda de quebrar a cronologia da narração para confrontar fenômenos equivalentes ou tematicamente relacionados, embora distantes no tempo (exemplo: a escravidão negra e a eleição de Obama); do mesmo modo que desmonta o espaço (no caso, o território americano) para cotejar fatos ou atitudes americanas com – por exemplo – fatos ou atitudes brasileiras.

Um dos cotejos que opera com certa graça é o da realidade com a ficção. Com freqüência, marcas de produtos comerciais, quadrinhos, pinturas, letras de música, desenhos animados, propagandas e slogans são evocados como textos que iluminam problemas sociais, econômicos e/ou políticos de modo esclarecedor.

Às vezes as suas explicações são verdadeiras aulas de semiótica, como quando convida o leitor a considerar a ironia na expressão “Cuba Libre”, a famosa bebida cubana, surgida ao tempo do ditador Batista, e composta, como se sabe, do rum autenticamente cubano com a americana Coca Cola. Tudo isso, para ilustrar o nada discreto intervencionismo dos Estados Unidos na ilha vizinha.

Um cotejo usual é com o cinema, a quem, aliás, Tota dedica um capítulo final. Mas, na verdade, o interessante não é vê-lo tratar do “país do entretenimento”, coisa já sabida do leitor; o mais interessante é quando, ao longo do livro, Tota evoca cenas ou sequências cinematográficas para explicar a formação do país.

Assim, os filmes de Frank Capra lhe servem para ilustrar a fé do povo americano no New Deal de Roosevelt, o pacote governamental que teria tirado o país da depressão de 29. Às películas “Adorável vagabundo” e “A mulher faz o homem” Tota dedica uma discussão da vida americana, como se os personagens fílmicos fossem verídicos. Do mesmo modo, as ficções científicas dos anos cinqüenta (mais o “Doutor Fantástico” de Stanley Kubrick) ajudam o leitor a entender a guerra fria e o marcartismo.

De modo extremamente pertinente, os faroestes de John Ford exemplificam pontos chave, não apenas na conquista do Oeste, mas noutra conquista maior, a dos direitos civis, que mais tarde desaguariam na instituição da democracia, num país que sequer unidade territorial possuía. Citado em várias instâncias, o personagem Ransom Stoddard (James Stewart), o advogado que vem ao Oeste bravio com um livro de direito debaixo do braço, parece ser, para Tota, uma figura tão significativa quanto qualquer líder real da história política americana.

Na mesma linha comparativa, “O poderoso chefão I” de Francis Ford Coppola é citado a propósito da imigração do começo do século XX, e “Touro indomado” de Martin Scosese, a respeito da obsessão americana por entretenimento.

Os paradoxos da vida americana despontam em toda parte e enriquecem a discussão. Um exemplo pequeno, mas bem sintomático: quem diria que o grande pensador, estadista e democrata Abraham Lincoln planejou – assim que a abolição da escravatura estivesse devidamente confirmada – enxotar a população negra do país, (cerca de quatro milhões de ex-escravos!)  para a nossa Amazônia, e só não o fez por causa da reação negativa do governo brasileiro?

Muito bem explicado está por que é que os avançados democratas de hoje eram republicanos, e os retrógrados republicanos do momento, eram democratas no passado. Pois é, antes, durante e mesmo um pouco depois da Guerra de Secessão, os aristocráticos ruralistas do Sul, que defendiam o sistema de escravidão, se auto-denominavam “democratas”, e a população esclarecida do Norte que, antenada com Lincoln, lutou pela abolição, se auto-intitulava “republicanos”. Pode?

Um tópico que não podia faltar é o da opinião alheia sobre os americanos. A esse respeito Tota argumenta que “o antiamericanismo anda de mãos dadas com o americanismo”. E cita o caso do Líbano onde, segundo pesquisa internacional, 60% da população é francamente hostil aos Estados Unidos, e onde, no entanto, o consumo de filmes hollywoodianos é avassalador. E, claro, o leitor sabe que o Líbano é apenas um caso entre muitos, no meio dos quais está o Brasil.

Correndo as páginas de “Os americanos”, em momento algum o leitor sente que está lendo um maçante Livro de História. Tudo nele parece mais um depoimento inteligente, vivaz, diversificado, rico, profundo – um depoimento de quem vivencia na pele as questões tratadas, no caso a pele de um brasileiro, ao mesmo tempo fascinado e intrigado (vários sentidos da palavra ´intrigado´) com esse povo tão antropologicamente diferente de nós.

À guisa de conclusão, Tota levanta algumas palavras que poderiam resumir o perfil antropológico do povo americano: “fé”, “perseverança”, “segurança”, “patriotismo”, “nacionalismo”, “eficiência”, “engenhosidade”, “autoestima”, “excepcionalidade” – explicando cada uma na perspectiva do já exposto ao longo do livro. A impressão que o leitor tem, contudo, é que algumas dessas palavras podem estar no corpo antropológico de outros povos: vejam o caso da última: será que todo povo, se comparado a outros, não se revela excepcional?

De minha parte, senti falta de uma discussão da expressão “o sonho americano”, conceito tão inerente à realidade dos Estados Unidos. Considerem que nunca se ouviu falar do “sonho brasileiro” ou do “sonho francês”, ou do “sonho russo” e, no entanto, o sonho americano é uma expressão-conceito que faz parte da civilização desse povo: está no folclore, na literatura, na música, nas artes em geral, na política e, sobretudo, no imaginário americano, assim como o carnaval, ou o futebol está no nosso imaginário. Acho que, num livro desses, cabia uma retomada da expressão.

Em tempo: com um pouco de ironia, o título desta matéria faz referência ao título do filme americano “All about Eve”, ou seja, ´tudo sobre Eva´. Para ficar mais clara a ironia: no Brasil, a ´Eva´ do filme é “A malvada”.