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RATADAS DE CINÉFILO

1 abr

Esta semana (re)vi “Os amantes” (1958) e terminei rindo. Nada de engraçado no filme de Louis Malle, e o riso foi comigo mesmo.

É incrível como somos traídos por nossa memória. Vi o filme quando ainda adolescente e nunca mais o revi, salvo agora nesta mostra do Telecine. Pois, de lá pra cá, minha memória operou “modificações” consideráveis. Sim, no filme.

É o seguinte. Toda vez que, conversando com amigos, se fazia referência a “Os amantes”, eu ficava em dúvida se, realmente, o tinha visto. A filmografia de Malle eu conheço toda, porém, “Os amantes” por alguma razão, me escapava da lembrança. Se o vi (e agora estou certo disso) foi no velho e saudoso Cine Bela Vista, provavelmente promoção do pessoal que organizava o “Cinema de Arte”, lá por 1959 ou 60.

Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory em Os Amantes.

Mas, as coisas não batiam. Uma cena especial, supostamente muito erótica, que eu lembrava bem – ou achava que lembrava – era a de Jeanne Moreau com seu amante, os dois quase nus estirados na cama, ela beijando o corpo musculoso dele. E, na minha cabeça, sabe quem era o ator? Ninguém menos que Stephen Boyd (lembram dele como o Messala de “Benhur”?). Só que, quando eu procurava nas fontes devidas, não havia nenhum Stephen Boyd em “Os amantes”, e a esse propósito, em nenhum filme com a Moreau. Como pode?

Pois bem. Revendo agora o filme, o que constato? Stephen Boyd não está lá, mas está um ator que é a cara escaldada e esculpida dele, o Alain Cuny (lembram dele, como o amigo de Mastroianni em “A doce vida”?). Com um detalhe, e foi esse detalhe que me fez rir de mim mesmo: no filme, Cuny não é o amante da Moreau, é o marido, que em momento algum da projeção aparece fazendo amor com a esposa. O amante é o jovem Jean-Marc Bory, que de Stephen Boyd simplesmente não tem nada, digo, absolutamente nenhum traço semelhante.

Alain Cuny como o marido traído.

Ora, o que fez minha memória de cinéfilo? Tirou da cama da Moreau o corpo do amante, e lá colocou o corpo do marido. Não me perguntem por quê, pois não tenho a menor ideia. Só Freud pra explicar essa moralista interferência de espectador no filme de Malle. Aliás, por falar no pai da psicanálise, vejo que minha memória trabalhou assim como se diz que os sonhos trabalham, por associação e deslocamento…

Não é a primeira vez que minha memória de cinéfilo me trai, mas esta eu achei digna de nota.

Às vezes quero crer que o filme que vi no Bela Vista foi outro, e me ocorre um do mesmo ano, “Les bijoutiers du clair de lune” (horrivelmente traduzido no Brasil como “Vingança de mulher”), dirigido por Roger Vadim, que contém cenas de cama bem ousadas com Stephen Boyd, mas, a atriz não é a Moreau, e sim Brigitte Bardot. Além do mais, o IMDB me diz que o filme de Vadim é colorido, e o que lembro era – tenho certeza – preto e branco. Fica o mistério…

O ator Stephen Boyd, que não está no filme de Malle.

No mais, não lembro bem se na adolescência gostei de “Os amantes”, provavelmente sim, mas, agora gostei um pouco menos. Pareceu-me cheio daquele defeito do cinema francês, que algumas línguas maldosas resumem na palavra frescura. Os desempenhos parecem artificiais, e não convence muito o fogo da paixão entre essa burguesona e seu amante arqueólogo que a conheceu no meio da estrada, num carro quebrado, e isto, mesmo nas cenas de alcova mais “pesadas”, que, aliás, hoje parecem leves demais e até inocentes. O balé dos corpos de amantes é muito mais efetivo e mais belo num filme, também francês, da mesma época, “Hiroshima, meu amor” (Alain Resnais, 1959).

Depois da estreia, “Os amantes” entraria, por tabela, somente por ser francês, no território sagrado da Nouvelle Vague, mas esta é outra história de que não trato aqui. O assunto desta crônica é tão somente o estranho – e perigoso – trabalho da memória de um espectador de cinema.

TODOS JÁ SABEM

25 jun

 

Do cineasta iraniano Asghar Farhadi eu conhecia apenas “Procurando Elly” (2009) e “A separação” (2011), dois bons filmes, com peso especial no elemento dramático e nas interpretações.

Lançado em fevereiro deste ano, agora me chega este “Todos já sabem” (“Everybody knows”), com a mesma ênfase no drama, e com o mesmo recurso de manter o fator que a ele conduz na posição estratégica de um mero pretexto, quase um ´macguffin´, como diria no seu tempo um esperto Hitchcock.

Nessa aldeia, nos arredores de Madri, uma família que já foi abastada no passado, proprietária de vinhedos, vai festejar o casamento de um de seus parentes. Para participar, chega da Argentina, Laura (Penélope Cruz) e duas filhas, uma pequena e uma adolescente, Irene (Carla Campra). Ficam na mansão do pai e avô, um patriarca amargo e rabugento que não se conforma com a decadência.

A festa decorre na normalidade, com muita gente, muita comida e muita música, sem que nada demais aconteça, até parecendo um filme de Robert Altman. Esse clima Altman, porém, não dura muito: finda a festa, Laura vai ao quarto da filha, que bebera e não se sentira muito bem, e não consegue abrir a porta. O vizinho e amigo da família, Paco (Javier Bardem) acode, força a porta, mas não há ninguém no quarto. Pelos recortes de jornais deixados na cama, fica-se sabendo que o caso era de sequestro, não havia dúvidas.

A partir daí começam a busca, as dúvidas e, claro, o drama, muito drama. Quem teria sequestrado a adolescente de dezesseis anos? Onde conseguir o dinheiro para o resgate? Chamar a polícia, ou não? Aqui não interessa relatar o enredo, mas digamos apenas que – como sugere o título do filme – está tudo em família.

O primeiro sintoma disso – digo, de que está tudo em família – já vem contido numa das cenas iniciais. Enquanto a cerimônia de casamento decorre na igreja, a jovem Irene e seu eventual paquera escapam do maçante ritual religioso e sobem ao velho campanário da igreja, onde o rapaz lhe mostra uma inscrição na parede: duas letras, L P, que, supostamente, indiciariam o nome da mãe dela, Laura, e o de Paco, o homem que Irene conhece apenas como amigo da família. A moça não se impressiona com isso, mas, quando, irresponsavelmente, se pendura nas cordas e faz os sinos soarem para toda a aldeia ouvir, é como se, sem saber ou querer, estivesse divulgando o que “todos já sabem”.

Na cena quase final, depois de resgatada dos sequestradores, quando ela, no banco de trás do carro, ainda abatida, pergunta ao pai por que foi Paco que a resgatou, deve ter sido aquela inscrição na torre do campanário o que lhe veio à mente.

Até certo ponto o filme tem uma atmosfera de “whodunit” (ou seja, de mistério em torno da autoria de um crime a ser desvendado), porém, como já sugerido, o mais interessante é o drama que se desenrola entre os parentes e conhecidos, drama este que muito exige dos atores, em especial de Cruz (a esposa que é levada a revelar “um pulo fora do trilho”), de Bardem (o ex-amante que descobre uma paternidade inesperada) e de Ricardo Darín (um marido que deve agora lidar com o ex-amante da esposa, para a salvação de uma filha que não é sua).

Na maior parte do tempo, o filme – jogando um personagem contra o outro, cada um com suas motivações e suas interpretações dos fatos – sustenta essa tensão dramática que prende a atenção do espectador e lhe dá a sensação de estar assistindo a um filme de qualidade. Na meia hora final, porém, justamente quando o ponto de vista narrativo sai da limitação ao círculo das vítimas, e passa, oniscientemente, ao território dos algozes, essa tensão diminui e por pouco não estraga o conjunto.

Ainda bem que a derradeira cena salva o filme.

Aquela na praça da aldeia, onde uma personagem até então obscura convida o cônjuge para uma conversa a dois. A cena se fecha na interrupção do diálogo entre os dois, quando os garis, limpando tudo em torno com fortes jatos d´água, literalmente apagam as imagens, deixando a tela completamente em branco, pronta para os créditos finais. Não sabemos, mas adivinhamos, o que a esposa dirá ao marido, e a implicação do diálogo interrompido pela mágica dos garis seria a de que, não apenas a estória não terminou, como provavelmente não há resolução para ela.

Ou, se for o caso, a resolução fica com o espectador.

Gostei de ter visto e recomento.

Um instante de amor

21 jun

Dúvida não há de que o Varilux deste 2017 veio um pouco mais fraco. De todo jeito, assisti com certo prazer a este “Um instante de amor” (“Mal de pierres”, 2016) da diretora Nicole Garcia.

Nada de extraordinário, mas um drama relativamente bem feito sobre uma mulher que estima o amor de um modo tal a perder o limite entre a sanidade e a loucura, sobretudo quando esse amor ansiado lhe escapa.

Posta diante de uma imagem de Cristo na cruz, depois de uma decepção amorosa, Gabrielle implora pelo principal, e esse “principal”, é o amor que a vida teima em lhe negar. Poderia ter sido algo no nível de “O morro dos ventos uivantes”, livro que o seu professor particular lhe emprestara, mas – como diz o frio professor – isto é só literatura.

A estória de “Um instante de amor” se passa no Sul da França, algum tempo após a II Guerra, e os pais de Gabrielle são fazendeiros tradicionais, com certo poder sobre toda uma gama de trabalhadores rurais, entre os quais se encontra esse espanhol José, empregado competente e responsável.

Considerada moça velha “nervosa” – para não dizer desequilibrada – Gabrielle é oferecida a esse José, que a aceita como parte de um negócio de família. Ela logo lhe avisa que não o ama, ao que ele retruca, sincero, que tampouco a ama. Fica, assim, combinado entre os noivos que não farão sexo, e que ele procurará prostitutas quando precisar. Isto, até o dia em que ela, por alguma razão não muito clara, veste-se de prostituta e ele paga pelo ato. “Ponha o dinheiro na mesa”, lhe diz ela.

Esse casamento sem amor segue assim, até o dia em que, acometida do “mal de pedras” (conferir título original do filme), Gabrielle é interna num hospital nas montanhas suíças. Lá ela conhece outro enfermo, um jovem tenente, ferido na guerra da Indochina, um André Sauvage, de sobrenome sintomático. Esse ex-combatente fragilizado desperta nela “o principal” e com uma intensidade nunca sentida.

Um dia, porém, a ambulância vem pegá-lo e, para completo desespero de Gabrielle, o seu quarto de enfermo fica vazio. Ela se arrasa, mas, eis que logo ele retorna, são e salvo, lhe dizendo que fez isso por causa dela… Ou será que não retorna?

Para não contar o resto da estória, deixo a pergunta no ar.

Gabrielle lendo “O morro dos ventos uivantes”.

Digamos apenas que o filme tem uma estrutura narrativa bifurcada, parecida, se vocês lembram bem, com a daquele filme dos anos oitenta com Kathleen Turner, “Júlia e Júlia” (Peter Del Monte, 1987), em que realidade e delírio se intercalavam, formando como que universos paralelos, cada um com sua lógica rigorosa e sua compleição.

Como, tal qual no filme de Del Monte, a estória é narrada no ponto de vista da protagonista Gabrielle, somos tão vítimas de suas ilusões quanto ela, ilusões que só serão esclarecidas no desenlace.

Lembro-me bem que em “Júlia e Júlia” havia, na cena final, uma fotografia que deveria ser esclarecedora, mas não era (Júlia, o marido e o filho: uma família que nunca existiu). Ao contrário do esperado, essa fotografia enfatizava o universo delirante. Em “Um instante de amor” (título brasileiro que não deixa de ser curioso), diferentemente, a fotografia do final (Gabrielle recostada sobre uma cadeira vazia, ou seja, sem o seu tenente Sauvage,) é francamente esclarecedora… O que, para o bem ou para o mal estético, retira do filme parte da sua ambiguidade.

Uma foto decisiva…

Uma coisa é certa: “Um instante de amor” é um filme de mulher, em vários sentidos. Vejam bem: trata-se de uma estória sobre mulher, adaptada de um livro de autoria feminina, dirigida por mulher, com referência literária feminina (“O morro dos ventos uivantes”) e, como se não bastasse, com um desempenho feminino de primeira linha, dado pela sempre ótima Marion Cotillard, aqui mais instigante que nunca.

Penso que, sem pompa nem circunstância, a personagem de Gabrielle vem somar-se à galeria de mulheres apaixonadas que o cinema, desde a era clássica, vem sabendo retratar.

Com relação à diretora Nicole Garcia, não conhecia seus filmes, mas, lembro bem dela como atriz, especialmente do seu papel dramático e decisivo em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, 1981, de Claude Lelouch), na pele daquela violinista judia que, para salvar o filho bebê, é forçada a deixá-lo numa linha de trem que se dirige a campo de concentração, e só vem a revê-lo já velha, num asilo para idosos.

Não me surpreenderia se alguém me dissesse que os muitos papéis dramáticos que Nicole Garcia desempenhou nos filmes em que foi atriz, ajudaram a construir a figura cativante da Gabrielle de “Um instante de amor”.

Marion Cotillard, em excelente interpretação.