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TODOS JÁ SABEM

25 jun

 

Do cineasta iraniano Asghar Farhadi eu conhecia apenas “Procurando Elly” (2009) e “A separação” (2011), dois bons filmes, com peso especial no elemento dramático e nas interpretações.

Lançado em fevereiro deste ano, agora me chega este “Todos já sabem” (“Everybody knows”), com a mesma ênfase no drama, e com o mesmo recurso de manter o fator que a ele conduz na posição estratégica de um mero pretexto, quase um ´macguffin´, como diria no seu tempo um esperto Hitchcock.

Nessa aldeia, nos arredores de Madri, uma família que já foi abastada no passado, proprietária de vinhedos, vai festejar o casamento de um de seus parentes. Para participar, chega da Argentina, Laura (Penélope Cruz) e duas filhas, uma pequena e uma adolescente, Irene (Carla Campra). Ficam na mansão do pai e avô, um patriarca amargo e rabugento que não se conforma com a decadência.

A festa decorre na normalidade, com muita gente, muita comida e muita música, sem que nada demais aconteça, até parecendo um filme de Robert Altman. Esse clima Altman, porém, não dura muito: finda a festa, Laura vai ao quarto da filha, que bebera e não se sentira muito bem, e não consegue abrir a porta. O vizinho e amigo da família, Paco (Javier Bardem) acode, força a porta, mas não há ninguém no quarto. Pelos recortes de jornais deixados na cama, fica-se sabendo que o caso era de sequestro, não havia dúvidas.

A partir daí começam a busca, as dúvidas e, claro, o drama, muito drama. Quem teria sequestrado a adolescente de dezesseis anos? Onde conseguir o dinheiro para o resgate? Chamar a polícia, ou não? Aqui não interessa relatar o enredo, mas digamos apenas que – como sugere o título do filme – está tudo em família.

O primeiro sintoma disso – digo, de que está tudo em família – já vem contido numa das cenas iniciais. Enquanto a cerimônia de casamento decorre na igreja, a jovem Irene e seu eventual paquera escapam do maçante ritual religioso e sobem ao velho campanário da igreja, onde o rapaz lhe mostra uma inscrição na parede: duas letras, L P, que, supostamente, indiciariam o nome da mãe dela, Laura, e o de Paco, o homem que Irene conhece apenas como amigo da família. A moça não se impressiona com isso, mas, quando, irresponsavelmente, se pendura nas cordas e faz os sinos soarem para toda a aldeia ouvir, é como se, sem saber ou querer, estivesse divulgando o que “todos já sabem”.

Na cena quase final, depois de resgatada dos sequestradores, quando ela, no banco de trás do carro, ainda abatida, pergunta ao pai por que foi Paco que a resgatou, deve ter sido aquela inscrição na torre do campanário o que lhe veio à mente.

Até certo ponto o filme tem uma atmosfera de “whodunit” (ou seja, de mistério em torno da autoria de um crime a ser desvendado), porém, como já sugerido, o mais interessante é o drama que se desenrola entre os parentes e conhecidos, drama este que muito exige dos atores, em especial de Cruz (a esposa que é levada a revelar “um pulo fora do trilho”), de Bardem (o ex-amante que descobre uma paternidade inesperada) e de Ricardo Darín (um marido que deve agora lidar com o ex-amante da esposa, para a salvação de uma filha que não é sua).

Na maior parte do tempo, o filme – jogando um personagem contra o outro, cada um com suas motivações e suas interpretações dos fatos – sustenta essa tensão dramática que prende a atenção do espectador e lhe dá a sensação de estar assistindo a um filme de qualidade. Na meia hora final, porém, justamente quando o ponto de vista narrativo sai da limitação ao círculo das vítimas, e passa, oniscientemente, ao território dos algozes, essa tensão diminui e por pouco não estraga o conjunto.

Ainda bem que a derradeira cena salva o filme.

Aquela na praça da aldeia, onde uma personagem até então obscura convida o cônjuge para uma conversa a dois. A cena se fecha na interrupção do diálogo entre os dois, quando os garis, limpando tudo em torno com fortes jatos d´água, literalmente apagam as imagens, deixando a tela completamente em branco, pronta para os créditos finais. Não sabemos, mas adivinhamos, o que a esposa dirá ao marido, e a implicação do diálogo interrompido pela mágica dos garis seria a de que, não apenas a estória não terminou, como provavelmente não há resolução para ela.

Ou, se for o caso, a resolução fica com o espectador.

Gostei de ter visto e recomento.

Um instante de amor

21 jun

Dúvida não há de que o Varilux deste 2017 veio um pouco mais fraco. De todo jeito, assisti com certo prazer a este “Um instante de amor” (“Mal de pierres”, 2016) da diretora Nicole Garcia.

Nada de extraordinário, mas um drama relativamente bem feito sobre uma mulher que estima o amor de um modo tal a perder o limite entre a sanidade e a loucura, sobretudo quando esse amor ansiado lhe escapa.

Posta diante de uma imagem de Cristo na cruz, depois de uma decepção amorosa, Gabrielle implora pelo principal, e esse “principal”, é o amor que a vida teima em lhe negar. Poderia ter sido algo no nível de “O morro dos ventos uivantes”, livro que o seu professor particular lhe emprestara, mas – como diz o frio professor – isto é só literatura.

A estória de “Um instante de amor” se passa no Sul da França, algum tempo após a II Guerra, e os pais de Gabrielle são fazendeiros tradicionais, com certo poder sobre toda uma gama de trabalhadores rurais, entre os quais se encontra esse espanhol José, empregado competente e responsável.

Considerada moça velha “nervosa” – para não dizer desequilibrada – Gabrielle é oferecida a esse José, que a aceita como parte de um negócio de família. Ela logo lhe avisa que não o ama, ao que ele retruca, sincero, que tampouco a ama. Fica, assim, combinado entre os noivos que não farão sexo, e que ele procurará prostitutas quando precisar. Isto, até o dia em que ela, por alguma razão não muito clara, veste-se de prostituta e ele paga pelo ato. “Ponha o dinheiro na mesa”, lhe diz ela.

Esse casamento sem amor segue assim, até o dia em que, acometida do “mal de pedras” (conferir título original do filme), Gabrielle é interna num hospital nas montanhas suíças. Lá ela conhece outro enfermo, um jovem tenente, ferido na guerra da Indochina, um André Sauvage, de sobrenome sintomático. Esse ex-combatente fragilizado desperta nela “o principal” e com uma intensidade nunca sentida.

Um dia, porém, a ambulância vem pegá-lo e, para completo desespero de Gabrielle, o seu quarto de enfermo fica vazio. Ela se arrasa, mas, eis que logo ele retorna, são e salvo, lhe dizendo que fez isso por causa dela… Ou será que não retorna?

Para não contar o resto da estória, deixo a pergunta no ar.

Gabrielle lendo “O morro dos ventos uivantes”.

Digamos apenas que o filme tem uma estrutura narrativa bifurcada, parecida, se vocês lembram bem, com a daquele filme dos anos oitenta com Kathleen Turner, “Júlia e Júlia” (Peter Del Monte, 1987), em que realidade e delírio se intercalavam, formando como que universos paralelos, cada um com sua lógica rigorosa e sua compleição.

Como, tal qual no filme de Del Monte, a estória é narrada no ponto de vista da protagonista Gabrielle, somos tão vítimas de suas ilusões quanto ela, ilusões que só serão esclarecidas no desenlace.

Lembro-me bem que em “Júlia e Júlia” havia, na cena final, uma fotografia que deveria ser esclarecedora, mas não era (Júlia, o marido e o filho: uma família que nunca existiu). Ao contrário do esperado, essa fotografia enfatizava o universo delirante. Em “Um instante de amor” (título brasileiro que não deixa de ser curioso), diferentemente, a fotografia do final (Gabrielle recostada sobre uma cadeira vazia, ou seja, sem o seu tenente Sauvage,) é francamente esclarecedora… O que, para o bem ou para o mal estético, retira do filme parte da sua ambiguidade.

Uma foto decisiva…

Uma coisa é certa: “Um instante de amor” é um filme de mulher, em vários sentidos. Vejam bem: trata-se de uma estória sobre mulher, adaptada de um livro de autoria feminina, dirigida por mulher, com referência literária feminina (“O morro dos ventos uivantes”) e, como se não bastasse, com um desempenho feminino de primeira linha, dado pela sempre ótima Marion Cotillard, aqui mais instigante que nunca.

Penso que, sem pompa nem circunstância, a personagem de Gabrielle vem somar-se à galeria de mulheres apaixonadas que o cinema, desde a era clássica, vem sabendo retratar.

Com relação à diretora Nicole Garcia, não conhecia seus filmes, mas, lembro bem dela como atriz, especialmente do seu papel dramático e decisivo em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, 1981, de Claude Lelouch), na pele daquela violinista judia que, para salvar o filho bebê, é forçada a deixá-lo numa linha de trem que se dirige a campo de concentração, e só vem a revê-lo já velha, num asilo para idosos.

Não me surpreenderia se alguém me dissesse que os muitos papéis dramáticos que Nicole Garcia desempenhou nos filmes em que foi atriz, ajudaram a construir a figura cativante da Gabrielle de “Um instante de amor”.

Marion Cotillard, em excelente interpretação.

Setenta anos de “Desencanto”

12 nov

Em 26 de novembro de 1945, setenta anos atrás, estreava em Londres, a obra prima de David Lean “Brief encounter” (´breve encontro´), filme que mais tarde seria conhecido no Brasil como  “Desencanto”.

Setenta anos de “Desencanto”, e, contudo, não faz nem trinta que o conheço. Nasci em 46 e perdi sua estréia e reprises locais; não tenho culpa. Vi-o pela primeira vez quando saiu em VHS, nos anos oitenta, uma cópia mal cuidada e sem charme, mas, para mim foi amor à primeira vista, uma vista que se repetiu muitas vezes e ainda hoje se repete.

“Desencanto”: o nome eu conhecia de longa data, desde os anos sessenta, tempo em que vivia devorando livros de cinema, todos os que me aparecessem à frente. E quase todos citavam o filme de Lean. Um deles, a famosa “História do cinema mundial” de Georges Sadoul.

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Na infância e adolescência, nem o nome de David Lean eu conhecia. Não tive idade para ir ao cinema quando estreou, no recém fundado Cine Sto Antônio, em Jaguaribe, o seu “Summertime” (“Quando o coração floresce”, 1955). Neste cinema ainda vi “A ponte do rio Kwai” (1957), mas foi com “Lawrence da Arábia” (1962) e “Dr Jivago” (1965) que me familiarizei com seu nome. Era o Lean das grandes produções, dos épicos, que – para quem conhecia a história toda – abafava suas pequenas fitas intimistas da primeira fase de sua carreira.

No meu caso, os termos ficaram cronologicamente trocados, já que a sua fase intimista só me chegou depois da épica, fase intimista da qual fazem parte outras preciosidades como “Grandes esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948).

Nunca esqueci a primeira vez que vi “Desencanto”. Que emoção! Não sei o que mais me tocou, se a tragédia amorosa que contava ou a perfeição formal com que o fazia. Acho que as duas coisas juntas me levaram às lágrimas.

Loquei a fita várias vezes, e, logo que pude, comprei minha própria cópia original. Em 1995, ao bolar o clip “Imagens Amadas” para o lançamento do meu livro e celebração do centenário do cinema, no Hotel Globo, uma das primeiras cenas que pus no roteiro foi de “Desencanto”. Aquela em que o casal apaixonado, devastado pela culpa, se despede na Estação de trem, prometendo que se veriam mais uma vez na próxima quinta-feira. “Thursday!” grita ele do piso da estação “Thursday”, responde ela da janela do trem que parte.

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Depois disso, sem qualquer planejamento, passei a fazer uma espécie de campanha de divulgação do filme de Lean.

É que, conversando informalmente com amigos, ou em palestras sobre cinema, sempre metia “Desencanto” no meio da fala, e isso foi se repetindo… até se tornar sistemático, consciente e proposital. Tanto é que hoje em dia, muitos de meus amigos já me confessaram que só conhecem “Desencanto” por causa e através de mim. E, como vocês estão vendo, a propaganda continua.

Tenho inveja de quem pôde ver “Desencanto” em tela grande. O saudoso professor Rafael de Menezes, por exemplo. Leio no livro de Wills Leal que o filme de Lean esteve no programa da primeira sessão do “Cineclube de João Pessoa”, em 1951. E, cá com meus botões, fico pensando qual teria sido a reação daqueles padres todos, os fundadores do cineclube que Pe Fragoso coordenava. Que debate, pós-sessão, terá suscitado? Afinal de contas, o tema do filme é o adultério, em princípio algo condenado pela Igreja. A rigor, sua temática deriva do grande romance universal do Século XIX, que explorou ao extremo o motivo da “mulher casada apaixonada fora do casamento” (Karenina, Bovary, Hester Prynne, Luísa, Capitu, etc).

5 uma dona de casa

Já escrevi várias vezes sobre “Desencanto” e não vou me repetir. Na ocasião de seus setenta anos, deixem-me apenas dizer que se trata de uma das mais belas estórias de amor que a sétima arte já foi capaz de contar. Não hesito em afirmar que “Desencanto” é o “Casablanca” britânico.

Foi rodado numa Londres ainda arrasada pela guerra, nos Denham Studios, e não tem a logística de Hollywood, nem o elenco de estrelas.

Porém, o texto primoroso de Noel Coward (de sua peça “Still life”: ´natureza morta´ ou ´vida calma´), as interpretações estupendas de Trevor Howard e Celia Johnson, a fotografia impressiva de Robert Krasker e a direção genial de David Lean o tornam o que é – uma obra prima. Fiz de conta que esqueci o melhor, mas não esqueci: a música, no caso, o soberbo emprego do Segundo Concerto para Piano de Rachmaninof, perpassando o filme inteiro, e, em momentos chave, acentuando suas subidas e descidas dramáticas.

Enfim, se porventura você não conhece “Desencanto”, dê logo um jeitinho de corrigir essa falha grave.

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Blue Allen

22 jan

O último filme de Woody Allen “Blue Jasmine” (2013), que por alguma razão estranha, foi anunciado e não veio para o circuito comercial local, teve sessão especial, quinta-feira passada, no Cine Mirabeau, como sempre, com direito a debate.

Aqui resumo alguns dos pontos levantados pela seleta plateia presente, da qual tive o prazer de fazer parte.

Comecemos com o intertexto. Sim, “Blue Jasmine” é tão parecido com “Uma rua chamada pecado” (“A street car named desire”, 1951) que mais parece uma refilmagem. O argumento é o mesmo e várias situações ou detalhes de roteiro trazem à tona o filme de Elia Kazan.

jasmine

Uma mulher em crise nervosa e dificuldade financeira vem residir com a irmã, que é casada com um cara meio grosseiro e sem modos. Isto já bastaria para se fazer a associação, mas as semelhanças vão mais adiante. Por exemplo, em ambos os filmes, essa mulher em crise, acentuada pela sua condição estranha no ambiente inóspito onde se encontra, tenta uma nova relação amorosa, a qual não dá certo. Ambas terminam mentalmente descontroladas, vocês lembram, Blanche Dubois sendo levada por enfermeiros para um sanatório, e Jasmine French, sentada em um banco de praça, falando sozinha.

 Se o espectador ainda tiver dúvidas sobre a relação entre os dois filmes, pequenos detalhes as tiram. Exemplo: quando a irmã de Jasmine diz ao marido que não ´vá contar piadas polonesas´, a gente lembra o sobrenome polaco do cunhado grosseiro de Blanche no filme de Kazan: Kowalski. E o falso sobrenome de Jasmine (uma pessoa em que tudo é falso) é ´French´(francês), assim como a origem de Dubois.

O que torna a relação entre os dois filmes interessante é que cada um ataca uma camada da sociedade americana em seu tempo: em Kazan (via Tennessee Williams, base do roteiro) tinha sido a aristocracia sulista; em Allen é a alta burguesia nortista. O que há de comum entre elas – além da posição no topo da pirâmide social – é a decadência. Para fazer trocadilhos com o título de outro filme, ambas, no caso, ´levadas pelo vento´.

Pobreza em San Francisco

Pobreza em San Francisco

Se você quiser mais semelhanças entre os dois filmes, seria o caso de pensar no protagonismo e no elenco, já que ambos são – digamos – “filmes de atriz em desempenho destacado e marcante”: Vivien Leigh como Blanche e Kate Blanchet como Jasmine.

Antes de passar adiante, uma observação sobre esta relação fílmica: ela pode ser um fator favorável à apreciação (o espectador acharia que o intertexto enriquece a significação) ou desfavorável (o espectador pode achar que foi falta de originalidade se agarrar a Kazan)…

Evidentemente, os mesmo traços típicos do estilo Allen estão presentes. Dois deles que podem incomodar são: a tagarelice dos personagens, que parece colocar o verbal na frente do visual; e, aquela maneira sempre meio sacana de vulgarizar a psicanálise.

No terreno da construção narrativa, o que se repete aqui é o conflito entre pobres e ricos, incultos e cultos, tão recorrente em outros filmes do diretor. Vejam o caso das duas irmãs, figuras decisivas no desenvolvimento da estória, em que pese ao protagonismo de Jasmine: uma com seu mais que modesto trabalho de empregada de supermercado, a outra, com seus delírios de ex-socialite que só veste roupas de griffe, voa de primeira classe e consome os melhores vinhos – mesmo que não exista mais fundo para pagar as contas.

Luxo em Nova Iorque

Luxo em Nova Iorque

Um mérito do filme está na edição. Observem que, a rigor, ele conta duas estórias (digamos: Jasmine casada e rica em Nova Iorque, e Jasmine separada e pobre em San Francisco, dois extremos, não apenas geográficos) e o faz de modo quase simultâneo, pulando de um tempo a outro, sem nenhuma marcação gráfica. Com a desvantagem de, de início, confundir o espectador, mas, com a vantagem de, no decorrer da narração, as cenas do passado explicarem as do presente, de uma forma sutil e inteligente.

Woody Allen, a gente sabe, sempre se dividiu entre seus dois mitos mais queridos: a alegria dos irmãos Marx e a tristeza de Bergman. Aqui ele está mais para o sentido figurado da palavra “blue” (triste, e não azul), e não me perguntem se isto é bom ou ruim…

Enfim, sobre “Blue Jasmine”, uma camada da crítica americana e mundial parece estar se dividindo, com apreciações díspares que vão do “melhor Woody Allen já feito” ao “pior Woody Allen de todos”.

Minha impressão pessoal é que a verdade está localizada no meio desses julgamentos extremados. Bem no meio!

Em tempo: “Blue Jasmine” entrou em cartaz em João Pessoa, no dia seguinte à publicação deste post.

Woody Allen dirigindo o elenco

Woody Allen dirigindo o elenco

Os belos dias

9 jan

Um pouco mais de cinema francês no circuito local, nem que seja só para destoar um tantinho da programação típica de final/começo de ano: “Os belos dias” (“Les beaux jours”).

O filme da jovem diretora Marion Vernoux se atém à vida de aposentada dessa dentista Caroline (a ainda bela Fanny Ardant) que, aos sessenta anos, não sabendo bem o que fazer do seu tempo livre, dá-se ao luxo de assumir pequenas inconsequências, como retomar o hábito do fumo, por exemplo. Uma dessas inconseqüências é matricular-se num Centro de lazer – sintomaticamente chamado de ´Les beaux jours` – onde se pratica de quase, tudo, desde natação a dramaturgia, passando por cerâmica e computação.

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Quando Julien, o jovem professor de computação demonstra interesse pela sessentona Caroline, ela passa a viver um caso de amor extra-conjugal, com todos os  pequenos prazeres e perigos de uma relação desse tipo. Julien tem quase a metade da idade de Caroline, mas isso não parece ser problema para os dois, que aparentam levar o caso adiante sem muitos grilos, cada um aceitando os limites da situação. Os problemas ficam mais evidentes quando o marido dela demonstra estar a par do caso, e um casamento de muitos anos fica abalado.

Mulher casada vivendo um relacionamento fora do casamento – a estória é banal, e a situação diegética bem conhecida de quem curtiu os grandes melodramas do cinema clássico, ou, se for o caso, da literatura do século XIX. A diretora certamente sabe disso e há mesmo referências a filmes do passado que trataram do tema. Cito dois exemplos.

Indagada sobre sua vida logo no início do filme, Caroline responde que ´tempo é tudo que tenho´, exatamente a mesma resposta da protagonista de “Tudo que o céu permite”, o grande melodrama de Douglas Sirk, de 1958, sobre uma senhora apaixonada por um jovem jardineiro.

Quando o caso com Julien já está avançado, e depois de terem feito amor, Caroline, semi-nua, repõe as meias na frente dele e a câmera faz questão de enquadrar suas pernas levantadas, em primeiro plano, com o jovem amante no fundo da cena, praticamente reconstituindo a famosa cena (e também pôster) do filme “A primeira noite de um homem” (Mike Nichols, 1967).

Fanny Ardant, ainda bela, é a protagonista de "Os belos dias"

Fanny Ardant, ainda bela, é a protagonista de “Os belos dias”

Em outras palavras, a diretora sabe onde está pisando e enfrenta seu roteiro com gosto e decisão, ajudada naturalmente pela bela interpretação de Ardent. Uma pena que o resultado não empolgue, apesar (ou seria por causa?) da fuga ao melodrama clássico.

Há passos do roteiro que lembram o melodrama do passado, mas aqui, funcionam como se fossem pistas falsas. Como no modelo clássico, todo o relacionamento do casal é pontuado de vai-e-vens que ora endossam o caso amoroso, ora o ameaçam. Exemplo: o aparecimento de uma namorada de Julien em seu apartamento, quando o casal estava em plena curtição, promete uma ruptura, que será driblada logo em seguida por um telefonema.

O que decepciona é que o espectador não consegue se envolver emocionalmente com a protagonista, talvez por não ficar claro o que é realmente que ela sente, ou até onde vai sua paixão, se é que cabe aqui falar em paixão.

Julen e Caroline em romance proibido

Julen e Caroline em romance proibido

Talvez estejamos cobrando o que não interessava à diretora, mas o fato é que não há um aprofundamento na relação Caroline/Julien e até o rompimento, no aeroporto, soa superficial e inconsequente. Ela rompe porque Julien conversava com a mocinha na fila, ou porque essa senhora idosa ao seu lado lhe lembra a desolação do marido abandonado? Nada disso nos fica claro, assim como não fica convincente o retorno à comodidade do casamento. Tudo muito pós-moderno, no sentido negativo da palavra.

A cena da praia de nudismo é um final aberto, que deixa – talvez de propósito – o espectador se indagando sobre a que veio o filme.

Trata-se evidentemente de um filme bem feito, exemplo do cinema assíduo e minimamente competente da França de hoje, uma das cinematografias mais ativas da atualidade, porém, é só isso.

De minha parte, confesso, saí do cinema com aquela sensação – errônea ou não, admito – que há muito me persegue, a de que o melhor cinema já foi feito. Sim, dentro da temática enfocada, o adultério feminino, saí me perguntando quem é, hoje em dia, que conseguiria fazer alguma coisa com a dimensão dramática e artística de “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945, David Lean)?

Talvez, neste terceiro milênio em que nos encontramos, não possa mais existir a Laura (protagonista trágica de “Desencanto”) de 1945, pela mesma razão que não existe mais a Ana Karenina do século XIX… Que seja.

Desenlace enigmático: na praia

Desenlace enigmático: na praia

Longe do paraíso, perto de Sirk

15 out

Por que não vi “Longe do paraíso” ao tempo de sua estréia, em 2002? Ou não foi exibido localmente? Se não, por que me escapou na TV? Francamente, não sei dizer, mas agora corrijo a lacuna com a versão em DVD de um filme que entra no rol dos meus prediletos.

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A estória se passa na capital de Connecticut, a bela e ainda pequena Hartford dos anos cinquenta, cheia de seus jardins floridos, suas ruas arborizadas e seus bosques frondosos com cujo dourado resplandecente a câmera tanto se ocupa. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma jovem senhora casada que leva a vida normal esperada: casa própria, dois filhos pequenos e um marido próspero. Para a revista feminina local, ela é a dona de casa modelo, que merece foto e matéria especial.

Mas, que o paraíso está longe logo saberemos. A perfeição começa a ser desacreditada no dia em que Cathy decide levar o almoço do marido Frank (Dennis Quaid) no escritório e o flagra fazendo amor com outro homem. Como, então, homossexualidade era entendida como doença, o casal enfrenta o problema junto e um psicólogo é procurado. Enquanto isso, Cathy conhece Raymond, esse jardineiro negro (Dennis Haysbert), cujo pai trabalhara na família dos Whitaker no passado. Tenha sido pela tensão ou não, o fato é que uma atração brota entre os dois e Cathy é vista pela mulher mais fofoqueira da cidade entrando num bar ao lado de um homem de cor.

Marido gay e suposto amante negro – carga demais para uma dona de casa dos anos cinquenta. Com sua aparente leveza, ela tenta administrar os problemas como pode. A promessa de não mais rever o jardineiro e umas férias em Miami com o marido parecem pôr tudo nos eixos. Poria, se… Bem, não conto o resto da estória.

Um suposto amante negro

Um suposto amante negro

O que interessa dizer é que “Longe do paraíso” é o remake de um clássico dos anos 50, o belo “Tudo que o céu permite” (“All that heaven allows”) do grande Douglas Sirk – ou mais que isso, uma homenagem. Vejam que um procedimento básico e efetivo é mudar o conteúdo e preservar a forma do filme homenageado. Exemplos: em “Tudo que o céu permite” a protagonista é viúva e seu amante socialmente desaprovado é jardineiro, porém, branco. Parece que o diretor de “Longe do paraíso”, Todd Haynes, quis agravar os conflitos com temas da época ainda mais fortes – a homossexualidade e o racismo. Daí a diferença nos finais, quase feliz no original e infeliz na refilmagem.

Formalmente, os dois filmes são incrivelmente parecidos – ou devo dizer, crivelmente parecidos? Se nos concentrarmos, por exemplo, em três elementos – emprego de câmera, cenário e música – a sensação é de estarmos vendo o mesmo filme, sobretudo naqueles momentos simbólicos em que a paisagem, com suas flores e sua remissão à profissão do amante, é usada como comentário irônico do drama. As aberturas, por exemplo, são sugestivamente semelhantes.

Na verdade, o que se nota é o tanto que Haynes resguarda dos ensinamentos fílmicos de Sirk, na prática ou em palavras, como estão resumidos em sua famosa entrevista de 1977 para Jane e Michael Stern (Cf Bright Light Films). “A boa câmera é curiosa” – afirma Sirk na entrevista: “Não há nada nos meus filmes sem uma razão ótica”, ou ainda “o movimento de câmera deve ser justificado pelo movimento dos atores e o movimento dos atores pelo da câmera”.

Mas, as relações entre os dois filmes não fica no plano da expressão – convenhamos – e se estende a fatores contextuais. Consideremos o caso dos elencos. Notem como a grande amiga confidente da protagonista, a única a quem ela relata sua paixão pelo jardineiro, é feita por atrizes com o mesmo perfil físico: em Sirk, Agnes Moorehead, em Haynes, Patrícia Clarkson, as duas com quase os mesmos penteado, indumentária e gesticulação. E não resisto à interpretação de que o homossexualismo do marido foi introduzido no roteiro do remake para lembrar o verídico, de Rock Hudson, que em Sirk fez o papel do jardineiro.

Um marido homossexual

Um marido homossexual

Naturalmente, uma insistência do diretor é demarcar a época, o que não faria sentido no filme de Sirk. Uma forma óbvia é o apelo ao cenário urbano (automóveis, vestuário, arquitetura, etc), porém, mais que isso, o filme nos passa a impressão de estarmos vendo não apenas um filme “de época”, mas um filme “da época”. Por isso ele termina com a inscrição gráfica THE END, como se sabe, há tanto tempo fora de moda.

Outro bom recurso é fazer com que os personagens trafeguem por perto de cinemas onde estão em cartaz os filmes da época. No caminho do seu primeiro encontro homossexual, Frank passa na frente de um cinema que está exibindo “As três máscaras de Eva”, aquele drama em que a Joanne Woodward fazia uma pessoa com personalidade múltipla. Ora, personalidade múltipla é o que Frank será obrigado a assumir a partir de então.

Já próximo ao desenlace, quando Cathy e seu companheiro negro caminham furtivamente pelas calçadas de Hartford, os títulos mostrados nos cartazes do cinema são dois: “O preço da audácia” (“The bold and the brave”, de Lewis Foster, 1956) e “Idílio proibido” (“Hilda Crane”, de Philip Dunne, 1956). Como se nota, no original ou na tradução, ambos títulos sintomáticos para a situação amorosa que vivenciam. No primeiro filme eles são ´os ousados e os corajosos´ e, no segundo, ‘Hilda Crane´ era o nome da protagonista, uma mulher independente que teve a coragem de quebrar os padrões machistas então vigentes, por sinal interpretada pela mesma Jane Wyman, a viúva apaixonada pelo jardineiro no filme homenageado –  mais uma relação contextual entre “Longe do paraíso” e “Tudo que o céu permite”.

Enfim, se assistir a “Tudo que o céu permite” é delicioso, ver “Longe do paraíso” depois dele é multiplicar a delícia por dois.

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico "Tudo que o céu permite".

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico “Tudo que o céu permite”.