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Palavras e imagens

17 mar

Fazia tempo que não ouvia falar de Fred Schepisi, aquele cineasta australiano que despontou lá pelos anos oitenta e logo chamou a atenção da América.

Dele lembro bem de Um grito no escuro (1988), a estória da uma mulher cujo bebê é, durante um piquenique, devorado por um dingo, e que é acusada pelo acidente, papel dramático de uma ainda não tão famosa Meryll Streep. Mais ou menos da mesma época são outros filmes seus também interessantes como: Roxane, A casa da Rússia e A teoria do amor.

Agora nos chega esse Palavras e imagens (Words and pictures, 2013), para se perfilar no rol dos filmes sobre sala de aula.

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E a sala de aula é bem americana. O nível é o secundário, mas os alunos são todos bem dotados e os professores, sortudos, não têm os problemas de disciplina que, por exemplo, tiveram os pobres mestres de Sementes da violência (1955) ou de Infâmia (1961). Sim, a coisa é muito mais para Sociedade dos poetas mortos

A trama toda é montada em cima de uma dicotomia docente bem particular: um professor de inglês e uma professora de arte. Ele, arrogante e agressivo, defende a primazia da palavra sobre a imagem; ela, igualmente arrogante e agressiva, defende a primazia da imagem.

Uma imagem vale por mil palavras, ou, uma palavra vale por mil imagens? A guerra está declarada e os coitados dos alunos e alunas são praticamente obrigados a tomar partido e pegar em armas na defesa de um ponto de vista do qual nem têm essa convicção toda.

Palavras...

Palavras…

No meio do fogo cerrado, o que acontece? Inevitavelmente, os dois inimigos mor se descobrem apaixonados um pelo outro e a briga termina na cama. Sim, tal e qual está nos roteiros das velhas comédias românticas do passado que a Hollywood clássica fez aos montes…

Mas esperem: se, no enredo, este foi porventura uma espécie de “casamento” literal entre palavra e imagem, o filme seria muito curto, se ficasse só nisso.

Pois é, depois do ápice amoroso tinha que vir o turning point que desse existência à segunda metade da estória: numa crise de humildade, o prepotente e cheio de si professor revela à amada que o poema enviado à revista da Escola, para publicação, não era de sua autoria.

Entre artistas, o fake é um crime: a hostilidade entre o casal é imediatamente retomada e, de sua parte, o ´forlorn´ professor também retoma o que vinha atrapalhando seu desempenho profissional havia tempos: o alcoolismo.

Imagens...

Imagens…

Eu disse ´forlorn´ porque é o termo arcaico que a professora usa para seu colega e este, como sempre faz, se apressa em fornecer a sua etimologia e sentido original de ´abandonado´, ´perdido´, ´miserável´. As explicações etimológicas são um hábito seu, que, infelizmente, o espectador monoglota vai encontrar dificuldade em apreciar, já que as legendas em português não dão conta das acepções dos termos ingleses e muito menos de suas idades. Vocábulo medieval, `Forlorn´, por exemplo, é simplesmente traduzido como ´infeliz´, como se se tratasse de uma palavra de uso atual.

Voltando à querela básica, a esperada segunda e definitiva reconciliação só acontece com a ajuda dos alunos, os quais promovem, num evento de final de curso, o matrimônio entre palavra e imagem, agora de modo didático e público. Como é comum acontecer em “filmes escolares”, a resolução do roteiro é uma cena com discursos repletos de sábias considerações filosóficas sobre a diversidade dos meios e o bom senso de saber lidar com ela.

Naturalmente, é interessante que o defensor da palavra seja um homem e que justamente uma mulher defenda a imagem. A dicotomia deixa pano para as mangas aos pensadores dos gêneros, especialmente os que ainda lidam com a idéia de que, historicamente, os machos seriam mais logopáicos, isto é, mais racionais, cerebrais, objetivos, e as mulheres mais fanopáicas, ou seja, mais imagéticas e intuitivas. Por aí.

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Uma coisa é certa: os atores que desempenham a dupla são muito bons e dão o melhor de si para enfatizar a dicotomia tematizada, e, ao mesmo tempo, a sua problematização: Clive Owen é o professor de língua e literatura Jack Marcus, que vive explicando a si aos outros, a etimologia das palavras e seu potencial poético, e Juliette Binoche é a professora de artes Dina Delsanto, que, insatisfeita com sua própria produção plástica, critica os alunos com a dureza de quem estivesse fazendo autocrítica.

No mínimo, um filme inteligente e instrutivo, que vai inquietar meio mundo de cinéfilos, especialmente os que, mais de perto, lidam com literatura e/ou com pintura. Sem dúvida, um daqueles filmes cuja qualidade estética será sempre aumentada pelos olhos – e ouvidos – dos espectadores. Já o antevejo circulando em universidades, em cursos de currículos ligados ao seu temário.

Fora desse contexto, não sei até quando será lembrado, pois, como cinema em si, creio eu que fica apenas no nível mediano dos filmes de seu gênero – o chamado ´filme sobre artes´.

De qualquer forma, não posso deixar de recomendar.

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Pedras nos espectadores

14 nov

O filme desse jovem diretor foi rodado e está para ser lançado. Trata-se de sua primeira realização cinematográfica, e a estréia está rodeada de expectativas. Suspeitando que a reação da platéia possa ser desfavorável, e – quem sabe? – agressiva, o jovem cineasta, antes de entrar na sala de exibição, toma a providência de encher os bolsos de pedras… para revidar com igual agressividade, no caso de o público presente reagir desfavoravelmente a seu filme.

Pode? Claro que pode… se o diretor se chamar Luis Buñuel! Pois bem, é ele mesmo quem, com a maior sinceridade, nos conta o incidente, em seu livro autobiográfico “Meu último suspiro” (Nova Fronteira, 1982), incidente este, ocorrido na fervilhante Paris do final dos anos vinte.

Buñuel não precisou usar as pedras que enchiam os seus bolsos, porém, o filme, “Um cão andaluz” (“Un chien andalou”, 1929) – se me for permitida a metáfora oportunista – joga pedras na cara dos espectadores até hoje.

De fato, para quem está acostumado ao cinema tradicional, narrando uma estória com começo, meio e fim, esse curta surrealista de 16 minutos é um petardo – e isto vale para hoje, qualquer lugar, e para a Paris de 1929. É provável que a aceitação das primeiras exibições, que dispensou as pedras de Buñuel, tenha se devido a dois fatores, nada conciliáveis: (1) a sessão de estréia estava repleta de “surrealistas”, amigos de Buñuel, e (2) o público em geral gostou de ver pelo menos as cenas de nudez, coisa rara na época.

Todo composto de imagens chocantes que desafiavam os bons costumes, o filme mexia com o conceito de cinema, de moral e de ideologia, e, ostensivamente, fora concebido para incomodar.

Uma lâmina cortando um olho humano; uma nuvem cortando a lua; uma mão decepada, outra cheia de formigas; um corpo feminino nu, grosseiramente assediado por um homem, nos seios e nas nádegas; um piano de cauda puxado por cordas, cheio de cabeças de asno putrefatas; uma boca que desaparece do rosto; livros que viram armas de fogo… o curta não tinha um fio narrativo, e muito menos lógico, e isto era o seu essencial. As legendas indicando relações temporais (“dezesseis anos atrás”, “na primavera”…) eram pistas falsas que não ajudavam a construir um universo ficcional coerente.

É o próprio Buñuel quem relata a sua origem. Havia sonhado com um olho sendo cortado por uma lâmina e conta o sonho ao amigo Salvador Dali, que, por sua vez, havia sonhado, naquela mesma noite, com uma mão cheia de formigas. Os dois então concordam que isso dava um filme e imediatamente se empenham na sua realização. Sem meios, Buñuel apela para a família e é do bolso de sua genitora que sai a produção. Concebido dentro dos preceitos surrealistas, o seu roteiro (de Buñuel e Dali) não devia conter nenhum elemento que pudesse se explicar pela lógica do real. E de fato, não contém.

Tanto é assim que, depois de o filme ser consagrado pela crítica internacional, quando os resenhistas de plantão começaram a ver nele poesia e lirismo, o próprio Buñuel rebateu, afirmando publicamente que tudo não passava da manifestação de um desejo de assassinato.

Seja o que for, “Um cão andaluz” foi logo erigido como um avatar do Surrealismo, uma corrente de estilo vanguardista das mais importantes em sua época, e, desde então, seu lugar na história do cinema ficou garantido, e ainda hoje não há curso de cinema que não inclua o filme no currículo. Por causa dele, Buñuel foi convidado a trabalhar em Hollywood, embora o resultado deste contato não tenha sido propriamente edificante.

Rever “Um cão andaluz” hoje em dia é uma experiência curiosa. Embora antigo, o filme não parece de modo algum antigo – seu frescor, sua força, sua violência, sua postura  provocativa continuam atuais e, desavisadamente, ele pode até ser confundido com uma marginal realização experimental de um desses jovens enfurecidos de agorinha.

Com certeza, uma grande utilidade em seu consumo atual seria a de recapitular e revisar, à sua luz, toda a obra posterior de Buñuel. Ver como nele já estão certos elementos estratégicos e sintomáticos de, por exemplo, “Viridiana” (1961), “O anjo exterminador” (1962) “A bela da tarde” (1967), “Tristana” (1970), “O discreto charme da burguesia” (1972), “O fantasma da liberdade” (1974), “Esse obscuro objeto do desejo” (1977)… filmes em que o um dia radicalmente surrealista Buñuel aprendeu, em particular com o seu roteirista mor, Jean-Claude Carrière, a combinar pulsão inconsciente e estruturação narrativa.

Enfim, para voltar à minha metáfora oportunista lá de cima, se você se dispuser a ver “Um cão andaluz”, não leve pedras no bolso, e aceite de bom grado as que receberá na cara. Poderão vir a ser golpes produtivos.