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Feliz, no inferno

3 out

 

Há pouco veiculei matéria sobre Ida Lupino, uma das primeiras mulheres a assumir a profissão de diretora na Hollywood dos anos quarenta e cinquenta. Antes dela, porém, houve Dorothy Arzner.

Dorothy Arzner (1897-1979) nasceu em San Francisco, mas cedo mudou-se para Los Angeles, onde seu pai instalou restaurante, logo frequentado pelo pessoal de cinema. Ao terminar o curso secundário, Dorothy pensou em ser médica e chegou a cursar universidade e alistar-se como enfermeira na Primeira Guerra. Finda a guerra, repensou a vida e, estando entre gente da sétima arte como estava, decidiu que queria trabalhar com cinema.

Começou como estenógrafa na primitiva Paramount, e depois foi crescendo junto com a Companhia, subindo de função, até chegar a roteirista, montadora… e, finalmente, diretora. Sua primeira direção, “A mulher e a moda” (“Fashions for women”, 1927) foi um sucesso, e, a partir daí, consolidou uma carreira de cineasta que foi até o comecinho dos anos quarenta. Em 36 seu nome já constava do Directors Guild of America.

Casamento sem aliança...

Casamento sem aliança, em “Quando a mulher se opõe” (“Merrily we go to hell, 1932).

Sua filmografia completa, digo, com crédito de direção, recobre 21 títulos, de 1927 a 1943. Sempre com boa recepção de público e crítica, seus filmes mostravam mulheres fortes, ousadas e decididas que quebravam o padrão dos filmes românticos da época, alguns deslanchando as carreiras de atrizes importantes como Katherine Hepburn, Rosalind Russell, Lucille Ball e Sylvia Sidney.

Se for o caso, nesses filmes também se pode ler um certo intertexto homossexual, reflexo da opção pessoal de Dorothy que, sem alarde nem subterfúgios, teve várias companheiras ao longo da vida, terminando os seus dias com a coreógrafa Marion Morgan, nunca relação de mais de quarenta anos.

Infelizmente, a sua obra é pouco conhecida por aqui. Segundo consta, faz parte das 700 produções da Paramount, de 29 a 49, que foram vendidas a MCA/Universal em 1958, para distribuição televisiva, hoje em dia podendo ser vistas apenas em canais pagos, ou equivalentes. O fato é que, com o passar do tempo, o prestígio de Dorothy Arzner só fez crescer nos meios cinéfilos. A partir dos anos 70, o movimento feminista ajudou a resgatá-la e hoje há várias publicações sobre sua obra e sua vida de militante gay.

Sylvia Sidney, adorável como nunca em "Quando a mulher se opõe".

Sylvia Sidney, adorável como nunca em “Quando a mulher se opõe”.

No final desta matéria, arrolo pelo menos dez títulos de Dorothy Arzner, mas, antes disso, comento um dos seus filmes mais curiosos, que é esse “Quando a mulher se opõe” (“Merrily we go to hell”, de 1932. E inicio meu comentário com o título original, bem mais interessante que o brasileiro, literalmente: “com alegria, vamos ao inferno”. Mais interessante ainda porque a frase é dita pelo protagonista justamente no momento em que, na presença da noiva, toma a decisão de contrair matrimônio.

A estória é simples, porém, cheia de ironias e segundos sentidos. Joan, (Sylvia Sidney) uma mocinha ingênua, de família abastada, conhece Jerry (Fredric March) e se apaixona por esse jornalista engraçado e inconsequente, rapaz meio fora dos eixos, cujo passatempo predileto é encher a cara. O pai alerta a moça, mas ela persiste e a festa de casamento acontece, à qual Jerry chega aturdido e atrasado, sem a aliança para pôr no dedo da noiva, objeto simbólico que é improvisadamente substituído por uma chave. Como previsto no título original do filme, a relação do casal vai ´pro inferno´.

Fredric March como o beberrão inveterado...

Fredric March como o beberrão inveterado…

Como se trata de uma comédia romântica, a coisa tem um conserto que venha a garantir o futuro ´happy end´, mas, não tão facilmente assim. Por exemplo, por um tempo, o casal em crise vai viver uma situação difusa e caótica em que, sem divórcio ou outra justificativa legal, cada um toma um companheiro e tudo fica assim, meio dissoluto e indefinido. A certa altura, Joan resolve assumir a falha trágica do cônjuge e enche a cara até não saber mais o que está fazendo.

Alcoolismo, bigamia, irresponsabilidade conjugal, libertinagem: estas coisas tratadas de forma franca e direta no cinema daquela época? Pois é, isto só foi possível porque estávamos ainda em 1932, ou seja, um pouco antes da implantação do famigerado “Código Hays de Censura”. Depois do código (1934), a coisa seria diferente. Aliás, para aproveitar o título do filme comentado, deve ter sido um ´inferno´ para Dorothy, mulher e lésbica, trabalhar debaixo do Código e ser ´feliz´. Não admira que tenha parado em 43, um pouco antes de outra coisa famigerada: o maccarthysmo.

Como prometido, fecho esta matéria com dez títulos de filmes dirigidos por Dorothy Arzner: Dez mandamentos modernos (1927); Garotas na farra (1929); Esposa de ninguém (1930); A volta do deserdado (1930); Honra de amantes (1931); Naná (1934); Mulher sem alma (1936); Felicidade de mentira (1937); A vida é uma dança (1940); Crepúsculo sangrento (1943).

Atrapalhos no casamento, em, "Merrily we go to hell".

Atrapalhos no casamento, em, “Merrily we go to hell”.

Chocolate

17 jun

 

Mais uma vez o público pessoense tem a oportunidade de assistir ao Festival Varilux de Cinema Francês, com a exibição alternada, nos cinemas do Mag Shopping, de 16 produções de boa qualidade.

A abertura do Festival deu-se com a pré-estreia de “Chocolate” (2016), excelente realização do cineasta Roschdy Zem, sobre o primeiro palhaço negro na França.

Na verdade, estamos na França da Belle Époque, onde e quando tudo tinha aparência de festa. As feiras livres e os circos eram as grandes diversões populares; o cinema estava nascendo e o teatro era coisa de gente abastada e culta.

Chocolat_Omar Sy

É nesse contexto que surge Chocolate, que vinha de um circo do Interior onde fazia o papel de um canibal assustador, e foi resgatado pelo palhaço Footit, com quem passou a fazer dupla, de tanto sucesso que não demorou para serem, os dois, contratados pela maior Companhia circense de Paris.

Um negro fazendo sucesso na Paris do início do Século Vinte? É claro que isso vai ter um preço a ser pago, e é esse preço o que, com talento e aisance, nos mostra o filme de Zem.

A prisão de Chocolate em pleno sucesso, denunciado por desafetos como imigrante sem documentos, é um turning point importante na estória, porém, antes disso, o drama já se configurava.

Esse drama já estava nas próprias performances da dupla Chocolate/Footit, sempre com vantagens óbvias para este segundo, Chocolate sempre na condição inferior de ´escada´; em outros termos, na condição de negro que faz o público branco rir de sua suposta burrice e ignorância. Com o tempo, o palhaço negro começa a se sentir injustiçado, o que é reforçado pelos conselhos politizados de um seu ex-companheiro de cela, e claro, pelas suas lembranças de semi-escravo na sua África de origem, quando via o pai, empregado de mansão rica, ser humilhado pelos residentes brancos.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Para o protagonista e para nós, uma cena perturbadora é aquela da visita à Exposição Colonial, em que o famoso Chocolate, muito bem vestido e acompanhado de sua namorada branca, depara-se com a representação dos territórios franceses em solo africano e  é violentamente admoestado por um conterrâneo, em língua nativa, que não entendemos, mas, dos gestos e do olhar, deduzimos o seu grau de acusação agressiva.

Complexo de inferioridade, insegurança, revolta, dilema interior, crise existencial e ideológica, alcoolismo, jogo de azar, empréstimos a agiotas, etc, vão minando o equilíbrio de Chocolate, até a completa decadência, física e moral.

Seu sonho de superar-se e tornar-se um grande artista no palco desmorona quando, tendo sido aceito para fazer o “Otelo” de Shakespeare, decide abandonar o picadeiro, e é, apesar do bom desempenho, estrondosamente vaiado no palco pela intelligentsia parisiense.

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo...

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo…

O filme se prende aos fatos reais, e nisso a recriação da época é perfeita. Por exemplo, sua última imagem é a de um filmezinho rodado pelos irmãos Lumière, mostrando as peripécias da dupla Chocolate e Footit, os verdadeiros. Pois antes disso, essas filmagens foram reconstituídas, e o espectador pôde assistir ao momento em que os Lumière as produziram, com o seu precário e barulhento cinematógrafo. Para quem não lembra os irmãos Lumière são os inventores do cinema.

Acho que posso dizer que, até a primeira metade, o filme não parece prometer tanto, porém, cresce consideravelmente quando a situação do protagonista vai mudando, de vedete ascendente para uma figura malsinada, condenada pelas circunstâncias à tragédia, assim como o Otelo que, no final interpreta.

Num filme em que a pantomima tem tanta importância, e mais que isso, é decisiva, um ponto alto é, com certeza, o elenco. Chocolate é muito bem feito pelo ator negro Omar Sy, sim, aquele mesmo que sempre tem aberto o Festival Varilux em João Pessoa, primeiro – vocês lembram – como o enfermeiro improvisado de “Intocáveis” e depois como imigrante de “Samba”.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Já o seu parceiro Footit é interpretado pelo grande ator James Thierrée, aliás, neto de Charles Chaplin, e incrivelmente parecido com o avô, sobretudo o Chaplin mais maduro de “Mr Verdoux” e “Luzes da ribalta”.

Enfim, “Chocolate” é um bom exemplo de qualidade do cinema francês atual, infelizmente tão mal conhecido do público brasileiro. Nesse sentido, o Festival Varilux é, como já disse, uma chance rara, que só nos resta aproveitar. O Festival acontece, simultaneamente, em 52 cidade brasileiras, e João Pessoa tem a sorte de ser uma delas. Vamos lá, dar uma espiada, pois a programação se estende até o dia 22 deste mês.

E não esquecer: sábado, dia 18, às 18:45 horas, o clássico de Claude Lelouch “Um homem e uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), para reviver os anos sessenta…

A última aventura de Robin Hood

9 abr

Quem ainda lembra Errol Flynn, o espadachim bonitão que, nas matinées de antigamente, vencia todos os inimigos, sobretudo ao encarnar a bravura de Robin Hood?

Pois é, parte de sua estória está veridicamente contada em “A última aventura de Robin Hood” (2013), filme que, se não veio ao circuito comercial de exibição, está disponível em DVD e na programação da televisão paga.

Como diz o título, é sua última aventura o que nos conta o filme, mas uma aventura predominantemente amorosa. Em 1957, já cinquentão e decadente, Flynn andava entregue ao álcool e outras drogas, quando conheceu essa mocinha, aluna de um curso de dança, chamada Beverly Aadland. Saem e, num momento mais íntimo, acontece o inevitável; afinal o apelido de Flynn, nos meios artísticos, sempre foi sintomático: “pênis ambulante”. Complicações se avolumam quando Flynn vem a saber que Beverly não tinha os 18 anos que dizia ter, e sim, 15. Ocorre, porém que o ator se apega à garota e chega a convencer a mãe de que poderia lhe dar uma carreira de atriz de cinema, e, que, portanto, poderia também ficar com ela. A contra gosto, a mãe acede e a farsa sobre a idade da garota é mantida até que…

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930...

Errol Flynn como Robin Hood, anos 1930…

O affair Errol/Beverly não durou muito, pois ele vem a falecer em 1959, mas digamos que foi eterno enquanto durou. O apego desse casal improvável foi recíproco e vingou, ao meio de tramas e escândalos hollywoodianos. Na verdade, a roupa suja só veio a público, depois da morte do ator, quando o mundo do show business, a imprensa e, consequentemente, a justiça descobriram a idade de Beverly e outros detalhes do acordo sigiloso entre Flynn e a mãe, a qual perde a guarda da filha e, mais tarde (sem o consentimento desta) publica um livro contando o caso todo.

Dedicado a Beverly Aadland, o filme claramente toma seu partido e mostra como, nos seus 15 a 17 anos, ela era uma pessoa mais madura que a mãe. Vivendo no meio fútil de Hollywood, não entregou-se à busca da fama, e, de Errol Flynn, só quis o melhor, seu lado descontraído e engraçado, e claro, o seu amor e sua dedicação. Depois de sua morte, não lutou por herança e não se importou quando soube que o testamento dele, que a beneficiaria, não possuía validade jurídica.

Embora trate-se apenas de um filme mediano, “A última aventura de Robin Hood” prende o espectador,  um pouco mais se porventura ele for um cinéfilo, interessado nos bastidores da era clássica. Algumas cenas desses bastidores são impagáveis, por exemplo: é curioso saber que o primeiro nome cogitado para ser o Humbert Humbert no “Lolita” de Stanley Kubrick foi justamente Errol Flynn, o qual fez o que pôde para empurrar Beverly Aadland como a protagonista. Não deu certo porque o próprio Kubrick se opôs, mas teria sido interessante ver na tela um caso que já tinha existência na vida real.

Cena de "A última aventura de Robin Hood" (2013),

Cena de “A última aventura de Robin Hood” (2013),

Dirigido pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland (a mesma de “Para sempre Alice”, 2014), o filme tem pelo menos dois pequenos trunfos: a agudez do diálogo e as interpretações de Kevin Kline, como Flynn, e Susan Sarandon, como a mãe da menor. Já a atriz Dakota Fanning, no importante papel de Beverly Aadland, não passa a emoção esperada.

Com relação ao diálogo, os roteiristas parecem se divertir, contrapondo a saudável ingenuidade de uma mocinha de menor à suposta experiência de um ator profissional cinquentão. É o que ocorre, por exemplo, naquela cena na cama quando, já tendo feito amor, Beverly quer mais e Flynn não consegue. “Esta é a monstruosidade no amor – justifica ele – que o desejo seja ilimitado e que o ato seja escravo do limite”. “Quem disse isso, William Shakespeare?” pergunta ela. “Sim, responde ele, como você adivinhou?” E ela, sincera: “Pareceu brega”. Flynn estava citando “Troilo e Créssida”, mas Beverly não era familiarizada com o inglês semi-arcaico do Bardo.

Para quem não sabe, Flynn também foi um destacado ator de teatro, só que, em final de vida, especialmente na fase Bervely, entre um escândalo e uma crise de alcoolismo, nem a ribalta lhe devolvia as glórias do passado. Sintomaticamente, seus últimos papéis na tela foram de alcoólatras, como se viu em “E agora brilha o sol (1957), “O gosto amargo da glória” (1958), e “Raízes do céu” (1958). Faleceu numa tarde fria de outubro de 1959.

Mas, convenhamos, no final dos anos cinquenta não era só Errol Flynn que caía. Aos poucos os grandes estúdios de Hollywood desabavam, um após o outro, como em série de dominó. Da Europa e de outras partes do mundo surgiam os grandes movimentos de vanguarda e os gostos dos espectadores, no mundo todo, se adaptavam a novos conceitos.

Para trás, muito para trás, ficou o audaz espadachim das matinées de domingo.

O ator americano Errol Flynn em foto antiga...

O ator americano Errol Flynn em foto antiga…