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Ainda hoje Jaguaribe fala

23 nov

Noite festiva no Cine Banguê foi a estreia, quinta-feira passada, de “Pedro Osmar – pra liberdade que se conquista” (2016), documentário sobre o músico, compositor e ativista cultural do “Jaguaribe Carne”.

Com a presença dos realizadores, Eduardo Consonni e Rodrigo T. Marques, além do próprio Pedro, a sessão – lotada – teve direito à apresentação do filme, e, após a exibição, a um instrutivo debate com a plateia.

O filme, que já fora exibido em São Paulo e Brasília, se diz um “manifesto poético-político- musical”. E é. Nele está o Pedro Osmar que conhecemos e admiramos – o artista múltiplo, essencialmente avesso a qualquer tipo de convenção, inquieto, irreverente, desconcertante, e o pensador comprometido com a fundamental busca da alteridade.

Cartaz da exibição em São Paulo.

Cartaz da exibição em São Paulo.

Como esperado, o filme tem a cara de Pedro Osmar, e só pode ser dito documental até certo ponto.

Não há nele cronologias, continuidades, e muito menos, uma lógica narrativa que lhe dê começo, meio e fim. Trata-se mais de uma explosão cinemática que reflete a fértil e densa isotopia em que consiste o seu assunto: a vida e a obra de Pedro, as duas coisas juntas.

Nessa explosão, os estilhaços são de naturezas diversas – há, por exemplo, os que beiram o cinema abstrato, e há os que assumem o realismo mais mimético.

Daquela primeira categoria fazem parte os trechos em que edição de imagem e som, corroborada por enquadramentos nada convencionais e música atonal, dão ao espectador a sensação proposital de desconcerto, de desconforto, quase de improvisação. No debate, informou-se que o próprio Pedro teve direito a um uso de câmera, o que – suponho – deve ter contribuído para esse efeito, digamos, menos diegético e mais poético.

Na segunda categoria está uma boa e preciosa quantidade de material de arquivo – na maior parte dos casos, filmagens em Super 8, realizadas nos anos setenta e oitenta, assinadas por cineastas paraibanos, como Alex Santos, Marcus Vilar e Fernando Trevas, mas todas envolvendo a figura do autor.

Pedro Osmar, o mentor do "Jaguaribe Carne".

Pedro Osmar, o mentor do “Jaguaribe Carne”.

Com a qualidade precária dessa bitola, são mostrados shows que o grupo “Jaguaribe Carne” realizou em palcos diversos; registros das atividades educativas do movimento “Fala Jaguaribe”; protestos encenados em vias públicas, etc. Um trecho todo especial é a filmagem da procissão dos pescadores, no dia de São Pedro, nas águas bravias dos mares paraibanos.

Tao importante quanto a plástica do filme é o seu áudio, afinal o homenageado é essencialmente um músico. De forma que chega quase a ser um mote a ideia de que ´tudo tem som´. Em cenas recorrentes, vemos Pedro Osmar tirando som dos objetos da vida comum menos esperados, com isso, nos dando uma lição de sonoplastia e criatividade.

Disse acima que o filme tem a cara de Pedro Osmar. A cara e o pensamento, que, aqui, por conta própria, resumo numa pergunta: seria possível fazer arte experimental para o povão?

Ora, recusando qualquer forma de certeza, a primeira fala do protagonista no filme é uma indagação, ou melhor, são indagações. “Quem é você?” ele pergunta a si mesmo e sobre si mesmo, e, vai adiante, perguntando e duvidando das respostas possíveis. “Pergunto e duvido”, repete ele, e essa dúvida filosófica é um benefício de que, mui sabiamente, não abrirá mão.

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Enquanto dúvida, ela é, de alguma maneira, esclarecedora de sua postura artística e filosófica, aquela sempre experimental, e ao mesmo tempo, sempre voltada para o popular, como se, com quarenta anos de trabalho nas costas, ainda não houvesse se decidido entre os dois extremos de todo criador: agradar ao público com o já conhecido, ou provocá-lo ao novo.

O filme não responde a pergunta nenhuma – ainda bem – e é por isso que ele vale; e é por isso que ele é Pedro Osmar.

Consta que “Pedro Osmar – pra liberdade que se conquista” deverá entrar brevemente nos circuitos de exibição em todo o país.

Mas, a essa sessão de quinta-feira no Banguê eu não faltaria por nada. Jaguaribense como ele, sou amigo de Pedro desde sempre, e, claro, um admirador de sua perene e incansável militância, estética e política. Aliás, fui, eu mesmo, nos anos oitenta, um participante aguerrido do movimento que ele iniciou com o nome de “Fala Jaguaribe”.

Por falar nisso, é bom lembrar que ainda hoje Jaguaribe fala. O filme em questão é um exemplo que vem ao caso. O mundo que o escute.

Pedro visto em Jaguaribe, seu bairro de origem.

Pedro visto em Jaguaribe, seu bairro de origem.

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Américo

17 fev

Com assinatura do cineasta Alex Santos, o curta-metragem de ficção “Américo – falcão peregrino” (2015) presta uma mais que oportuna homenagem ao tão pouco lembrado poeta paraibano Américo Falcão.

Nascido em Lucena, em 1880, quando esse povoado pertencia ao Município de Santa Rita, o poeta de “Auras” foi nome de estaque na capital paraibana. Diretor da Biblioteca Pública do Estado, foi amigo de figuras importantes da época, como o poeta Augusto dos Anjos, o artista Santa Rosa, e o fotógrafo e cineasta Walfredo Rodriguez. Aliado ao governo na Revolução de Trinta, foi co-autor do hino a João Pessoa, mas, evidentemente, o que mais o imortaliza é a sua produção literária.

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Como homenagear um poeta? Tentando ser poético. É o que faz a dupla Alex Santos (diretor e roteirista) e Manoel Jaime Xavier (co-roteirista) e a primeira medida parece ter sido o descarte do gênero documental ou biográfico. Ao invés disso, os autores se entregam a um vôo imagético, onde a liberdade de criação dita a regra. Ludicamente inspirado no sobrenome do poeta, o filme começa com as imagens de um falcão em voo livre, mas a analogia entre nome e ave não fica só nisso: ao longo de filme, vê-se o poeta sempre caminhando pelas ruas da cidade e essa locomoção quase constante reforça a associação com a ave de seu sobrenome, e o faz muito bem.

Oportunamente, essa itinerância também serve a outro fim: o de vislumbrarmos a João Pessoa (Parahyba) da época, com seus casarões, seus bondes e suas ruas estreitas – verdadeiro “roteiro sentimental de uma cidade”. Nesse sentido, mais que louvável é a reconstituição de época, empreendida – nós calculamos – com enorme esforço de pesquisa e produção (o rádio, a mobília, a indumentária, o carro antigo, etc) e muita habilidade em driblar os signos da atualidade, como postes, automóveis, fios, letreiros, etc.

Cena de "Américo - falcão peregrino".

Cena de “Américo – falcão peregrino”.

A essa reconstituição se somam fatos que foram importantes na época, como a passagem do dirigível Zeppelin, refeita com perícia e criatividade. Por outro lado, toda a Revolução de Trinta é sintetizada numa elipse, com a simples substituição, na sala da Biblioteca Pública, da fotografia de João Pessoa, pela do próximo governante, Gratuliano Brito.

Para não dizer que nada é documental no filme, há o breve depoimento de uma das filhas do poeta, D. Marlinda, de 93 anos de idade, depoimento usado com sabedoria pela direção, que o distribui em duas partes: na abertura do filme D. Marlinda conta coisas miúdas e privadas sobre o genitor; no fechamento, seu comentário é comovente: “Meu pai – diz ela, entristecida – eu sabia tanta coisa sobre meu pai, mas o tempo parece que apaga tudo”.

Ao longo do filme inteiro, trechos dos poemas do autor são recitados por uma voz extradiegética, sempre com relação às imagens mostradas. Seja o poema dedicado a esposa morta, ouvido diante de seu retrato; seja aquele outro sobre a morte do amigo Augusto dos Anjos, escrito, em sua caderneta, ao lado de uma edição do EU. A religiosidade do poeta vai aparecer no interior de uma igreja, onde se escuta aquele poema sobre a força de sua crença. Já uma mera vela doméstica vai provocar a evocação dos seus versos mais conhecidos: “Não há tristeza no mundo…”.

O diretor Alex Santos.

O diretor Alex Santos.

Em que pese à tristeza do personagem, o filme se caracteriza por certa ludicidade. O voo imagético com o sobrenome do poeta já foi mencionado, mas, o espectador precisa ficar atento a mais. Por exemplo: em certa ocasião se mostram alguns livros na estante do poeta. Um deles é “O falcão maltês” de Dashiel Hammett (1929) e a razão não é outra senão – de novo – o sobrenome do poeta. Ao lado dele está o “Moby Dick” de Herman Melville e o espectador vai lembrar as cenas da pesca da baleia, exibidas anteriormente, no documentário de Walfredo Rodriguez, a que Américo Falcão assiste, com ar meio desolado. Ele mesmo escrevera as legendas para esse documentário, ele, que afinal de contas, era um amigo dos animais, como se comprova em várias cenas em que acaricia o gato caseiro.

Se é fato que o filme descarta o biográfico, não o faz de todo.  E nisso, do espectador se cobra atenção redobrada a pequenos detalhes que recompõem a vida do poeta de forma metonímica. Um exemplo, entre tantos: passeando pela sala de visita, a câmera revela uma iconografia de Santa Rosa, para nos lembrar a amizade dos dois artistas.

De forma sistemática o filme é fotografado em preto-e-branco nas cenas do passado, e em cores, nas cenas do presente, estas abrindo e fechando a projeção, com as belas imagens da praia de Lucena, como se sabe, uma paixão de Américo Facão. No papel do protagonista, o ator Ricardo Moura está impecável, mas, um capricho adicional é a sensível trilha musical, composta para o filme pelo cantor e compositor Adeildo Vieira.

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de "Américo - falcão peregrino".

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de “Américo – falcão peregrino”.