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Christabel

31 mar

As relações entre cinema e literatura nem sempre são óbvias e, às vezes, me parece, quanto menos óbvias, mais férteis.

Vejam o caso desse filmezinho de Nicholas Ray, de 1950, “Alma sem pudor”, no original “Born to be bad” (´Nascida para ser má´), que a crítica – acho que injustamente – teima em subestimar.

Como o seu coetâneo “A malvada” (“All about Eve”, 1950), conta a estória de uma moça que vive para subir na vida. A “Eve” de Mankiewicz quer uma carreira de atriz, mas a nossa Christabel – eis o seu nome – quer um marido rico que ela possa, se for o caso, divorciar e herdar sua fortuna.

Christabel observando suas vítimas...

Christabel observando suas vítimas…

Quando o filme começa Christabel é só uma jovem estudante de Biblioteconomia que tem um tio editor em São Francisco. A pedido dela, o tio acerta para que ela venha morar na casa de uma funcionária sua, Donna, a qual ocorre ser noiva de um rapaz rico, Curtis. Desde que se conhecem, o plano de Christabel passa a ser: dar um jeito de desfazer o noivado de sua anfitriã e, claro, conquistar o noivo. O que ela faz com competente artimanha e sem nenhum escrúpulo.

Casada com Curtis, ela torna-se uma invejada senhora da sociedade de São Francisco, e tudo iria bem se, antes, não lhe tivesse aparecido esse cara atraente, Nick, escritor em ascensão, por quem se apaixona. Ele, também apaixonado, quer ficar com ela, porém, Christabel não abre mão do dinheiro do marido. E o drama está dado.

Espécie de melodrama noir – daqueles que a RKO gostava de rodar – “Alma sem pudor” vai fundo na análise da personalidade ambiciosa que, na vida diária, calcula cada passo, cada gesto, cada palavra, para obter os fins desejados, sejam esses fins materiais (a fortuna alheia), ou de outra natureza (o amor do amante). Quem faz Christabel é Joan Fontaine, seu primeiro ´papel malvado´, tão bem interpretado que nada fica a dever à Anne Baxter do já citado “A malvada”.

Christabel sendo observada...

Christabel sendo observada…

Mas, onde está a relação com a literatura? Pois é, a ficção literária está repleta de ardis femininos, porém, no caso presente, a fonte é inequívoca, como indica o nome da protagonista. Sim, toda a leitura do filme seria outra, se o nome da personagem principal não fosse justamente Christabel, o mesmo nome que dá título a um famoso poema narrativo do grande poeta inglês do século XIX, Samuel Taylor Coleridge.

Como quase tudo em Coleridge, o poema é gótico e, cheio de florestas, brumas e mistérios, situa-se na Idade Média. Não tenho espaço para reproduzir o seu longo e tortuoso enredo, mas devo dizer que sua estória gira em torno de duas donzelas, uma boa, Christabel; a outra má, Geraldine.

Acontece, porém, que o poema é de propósito ambíguo e, em várias instâncias, confunde as duas figuras como se fossem uma só. No castelo desse barão viúvo, a filha, Christabel, acolhe a bela e misteriosa estranha, Geraldine, que foi atacada por homens na floresta e que, à noite, dorme nos seus braços. Interpretações freudianas à parte, as duas moças fazendo amor no leito parecem ser, no contexto do poema, os dois lados – o bom e o mau – de uma mesma criatura.

Posando para um quadro valioso...

Posando para um quadro valioso…

Não admira que, no filme, uma das verdades jogadas na cara de Christabel pelo amante Nick seja esta: a de que existiriam duas Christabels, uma falsa, a outra verdadeira. Uma, a Christabel que só pensa em ascender socialmente; a outra, a que se apaixona sem interesse. O problema é como conciliá-las, ou talvez, suspeita ele, não haja chance de conciliação.

Nick, que é escritor, certamente leu Coleridge, e sabe o que diz. Visivelmente é o alterego do roteirista, ou do diretor do filme. Sintomaticamente, é da sua boca que saem os melhores momentos do diálogo. Duas expressões suas foram títulos provisórios do filme: “all kneeling” (´todos de joelho´: referência irônica ao que deviam fazer as pessoas na presença de Christabel) e “a bed of roses” (´um leito de rosas´, referência igualmente maldosa à vida de casada da amante).  Outros exemplos que vêm ao caso: respondendo a uma declaração de amor da amante ele, sem hesitar, retruca que “só há uma pessoa no mundo, Christabel, que você ama. E é um amor de vida inteira”. Bem mais tarde, ao dar-se conta da incorrigível maldade da amante ele, acenando um adeus definitivo, solta sua tirada mais contundente e também a mais dramática: “Te amo tanto que gostaria de gostar de ti”.

Ao redigir esta matéria, consultei a fortuna crítica do filme de Ray, e me surpreendi ao constatar que nenhum dos seus comentaristas anglo-americanos faz qualquer referência ao poema de Coleridge. Fico pensando que, se um poeta fundamental como Coleridge estivesse no repertório cultural desses comentaristas, talvez a cotação crítica de “Alma sem pudor” fosse um pouco mais alta.

Joan Fontaine em "papel malvado"...

Joan Fontaine em “papel malvado”…

Revisitando “A malvada”

10 out

O que é um clássico? Não sei ao certo, e nem Ítalo Calvino me ensinou bem isso. Só sei que não existem clássicos que não sejam revisitáveis.

Esta semana revisitei um, o extraordinário “A malvada” (“All about Eve”, 1950), e o fiz junto com um grupo de amigos cinéfilos que me ajudaram a descobrir mais detalhes no filme de Joseph Mankiewicz do que eu vira em leituras anteriores.

all about eve

Digamos de início que o filme dá uma aula sobre como, em cinema, imbricar duas construções: a do personagem e a do roteiro. Do ponto de vista narrativo e ao mesmo tempo descritivo, é a estória dessa Eve do título original, uma jovem ambiciosa cujo sonho é conquistar os aplausos da ribalta da Broadway e do mundo, e que, para tanto, passa por cima de todos, e mais que isso, passa por cima de si mesma, digo, de sua própria integridade moral. Na mesma medida em que vamos conhecendo as etapas do seu astuto acesso ao mundo do teatro, vamos nos aprofundando na sua psicologia, até, no final, mais que todos os outros personagens da estória, sabermos – como mantém o título – ´tudo sobre Eve´.

Uma maestria a mais está no desenvolvimento do ponto de vista. Vejam que a estória de Eve começa a ser narrada em três pontos de vista limitados (o do crítico DeWitt, o da esposa do dramaturgo LLoyd, Karen, e o de Margo, a atriz “engolida” por Eve), para depois os abandonar e tomar a forma mais poderosa da narração onisciente, que cumula no desenlace.

Trata-se de um filme sobre teatro… que não é teatral. O espectador pode achar que há diálogo demais, porém, em nenhum momento este parece excessivo, tão adequado é o seu uso para demonstrar o nível de cinismo e sarcasmo envolvido nas caracterizações. As falas são pérolas de ironia que, aliás, ficaram – algumas – para a história do cinema, como aquela em que a amarga Margo (Bette Davis) anuncia, antes da festa de aniversário do seu companheiro e diretor: `apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências´

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Trata-se de um filme com mensagem… e que, no entanto, não é moralista. Refiro-me à famosa cena final em que, depois do sucesso conquistado, Eve se depara com essa intrusa, de nome Phoebe; na cena, a multiplicação da imagem dessa candidata à ribalda, ostentando o vestido de Eve nos espelhos da casa, quer nos dizer que Eve é só um item dentro de uma série, porém, ao invés de soar como moralismo quadrado, resulta num comentário visual mais do que apropriado, genial.

O nível de contundência psicológica é alto para a época e o filme nos parece, ainda hoje, moderno. Essa contundência está por toda parte, mas, para ilustrar, me reporto pontualmente àquela cena, quase final, em que o crítico DeWitt (George Sanders) abre o jogo com Eve (Anne Baxter), revelando a sua natureza malsã, coincidente com a dele. Segundo ele mesmo grita a uma Eve em prantos: “nós somos iguais; temos o mesmo desprezo pela humanidade, a mesma incapacidade de amar ou ser amado e o mesmo… talento”.

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Como estamos no mundo do teatro, o Cinema é, no diálogo, frequentemente criticado como um entretenimento menor, coisa do Oeste bronco e brega, em contrapartida à sofisticação da Broadway e adjacências. Dentre os personagens, Bill, o diretor da peça em andamento e marido de Margo, é o único a responder a um ou outro chamado de Hollywood, o que é visto por todos os outros como um desperdício de talento. Esse generalizado “rebaixamento” da Sétima Arte nos diálogos de “A malvada” não impediu que o filme viesse a receber onze indicações ao Oscar, das quais levou seis, incluindo os Oscar de melhor filme e de melhor diretor. Não impediu, ou talvez tenha mesmo contribuído…

O elenco todo está excelente, onde destaco a eterna coadjuvante Thelma Ritter, no papel da empregada de Margo, a primeira a lhe abrir os olhos para o comportamento perigoso de Eve. Os dois coadjuvantes com estatuto de narradores são Celeste Holm (como Karen, esposa do dramaturgo LLoyd) e George Sanders (como o crítico teatral Addison DeWitt), este último levando o Oscar nesta categoria. Em começo de carreira, Marilyn Monroe faz uma ponta como uma starlet à cata de oportunidades, pequeno papel que, ironicamente, a conduziria ao estrelato na vida real.

O que está exposto em “A malvada” são as feias e ensanguentadas entranhas do Teatro, assim como Billy Wilder expusera as entranhas do Cinema em “Crepúsculo dos deuses” (mesmo ano, 1950), e assim como Alexander MacKendrick exporia, alguns anos depois, as entranhas do Colunismo social, em “A embriaguez do sucesso” (1957).

Aliás, três clássicos isotópicos dos anos cinquenta, seja lá o que for que a palavra ´clássico´ signifique.

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

Tudo sobre os gringos

11 fev

Quem são os americanos, afinal de contas? Gente materialista e obtusa que só pensa em dinheiro e poder? Um povo laborioso e empreendedor que construiu a primeira democracia do planeta e a maior potência econômica do mundo? Uma nação ambiciosa e autoritária que vive de intervir nos destinos alheios? Uma civilização liberal que acolhe pensadores de toda parte do mundo? Um país etnocêntrico e racista que não tem visão para a alteridade? Uma raça de gênios que já abocanhou 320 prêmios Nobel?

Enfim, seriam os Estados Unidos o leito maligno do capitalismo selvagem, ou “o país das oportunidades”?

Quem nos convida a refletir sobre esse assunto instigante é o historiador brasileiro Antônio Pedro Tota, no seu livro “Os americanos” (2009), na verdade, um item na série “Povos e Civilizações” que, mui oportunamente, a Editora Contexto vem publicando.

Nada mais complicado – e também arriscado – do que definir uma civilização, o que, aparentemente, só poderia ser feito através de estratégias conceituais. Se assim é, a de Tota foi recontar a história dos Estados Unidos, do começo até hoje, mas isto, driblando a historiografia tradicional e atacando a questão com um enfoque novo e interessante.

Assumindo o recurso criativo do ensaio, Tota privilegia uma abordagem que se equilibra entre o pessoal e o imparcial, e que torna a leitura, não apenas instrutiva, mas também saborosa, às vezes divertida.  Havendo residido nos Estados Unidos, não hesita em incluir experiências particulares, que são eventualmente contrapostas a experiências alheias, retiradas de trechos obscuros da bibliografia consultada.

No geral, o seu enfoque é predominante comparativo, e Tota não se incomoda de quebrar a cronologia da narração para confrontar fenômenos equivalentes ou tematicamente relacionados, embora distantes no tempo (exemplo: a escravidão negra e a eleição de Obama); do mesmo modo que desmonta o espaço (no caso, o território americano) para cotejar fatos ou atitudes americanas com – por exemplo – fatos ou atitudes brasileiras.

Um dos cotejos que opera com certa graça é o da realidade com a ficção. Com freqüência, marcas de produtos comerciais, quadrinhos, pinturas, letras de música, desenhos animados, propagandas e slogans são evocados como textos que iluminam problemas sociais, econômicos e/ou políticos de modo esclarecedor.

Às vezes as suas explicações são verdadeiras aulas de semiótica, como quando convida o leitor a considerar a ironia na expressão “Cuba Libre”, a famosa bebida cubana, surgida ao tempo do ditador Batista, e composta, como se sabe, do rum autenticamente cubano com a americana Coca Cola. Tudo isso, para ilustrar o nada discreto intervencionismo dos Estados Unidos na ilha vizinha.

Um cotejo usual é com o cinema, a quem, aliás, Tota dedica um capítulo final. Mas, na verdade, o interessante não é vê-lo tratar do “país do entretenimento”, coisa já sabida do leitor; o mais interessante é quando, ao longo do livro, Tota evoca cenas ou sequências cinematográficas para explicar a formação do país.

Assim, os filmes de Frank Capra lhe servem para ilustrar a fé do povo americano no New Deal de Roosevelt, o pacote governamental que teria tirado o país da depressão de 29. Às películas “Adorável vagabundo” e “A mulher faz o homem” Tota dedica uma discussão da vida americana, como se os personagens fílmicos fossem verídicos. Do mesmo modo, as ficções científicas dos anos cinqüenta (mais o “Doutor Fantástico” de Stanley Kubrick) ajudam o leitor a entender a guerra fria e o marcartismo.

De modo extremamente pertinente, os faroestes de John Ford exemplificam pontos chave, não apenas na conquista do Oeste, mas noutra conquista maior, a dos direitos civis, que mais tarde desaguariam na instituição da democracia, num país que sequer unidade territorial possuía. Citado em várias instâncias, o personagem Ransom Stoddard (James Stewart), o advogado que vem ao Oeste bravio com um livro de direito debaixo do braço, parece ser, para Tota, uma figura tão significativa quanto qualquer líder real da história política americana.

Na mesma linha comparativa, “O poderoso chefão I” de Francis Ford Coppola é citado a propósito da imigração do começo do século XX, e “Touro indomado” de Martin Scosese, a respeito da obsessão americana por entretenimento.

Os paradoxos da vida americana despontam em toda parte e enriquecem a discussão. Um exemplo pequeno, mas bem sintomático: quem diria que o grande pensador, estadista e democrata Abraham Lincoln planejou – assim que a abolição da escravatura estivesse devidamente confirmada – enxotar a população negra do país, (cerca de quatro milhões de ex-escravos!)  para a nossa Amazônia, e só não o fez por causa da reação negativa do governo brasileiro?

Muito bem explicado está por que é que os avançados democratas de hoje eram republicanos, e os retrógrados republicanos do momento, eram democratas no passado. Pois é, antes, durante e mesmo um pouco depois da Guerra de Secessão, os aristocráticos ruralistas do Sul, que defendiam o sistema de escravidão, se auto-denominavam “democratas”, e a população esclarecida do Norte que, antenada com Lincoln, lutou pela abolição, se auto-intitulava “republicanos”. Pode?

Um tópico que não podia faltar é o da opinião alheia sobre os americanos. A esse respeito Tota argumenta que “o antiamericanismo anda de mãos dadas com o americanismo”. E cita o caso do Líbano onde, segundo pesquisa internacional, 60% da população é francamente hostil aos Estados Unidos, e onde, no entanto, o consumo de filmes hollywoodianos é avassalador. E, claro, o leitor sabe que o Líbano é apenas um caso entre muitos, no meio dos quais está o Brasil.

Correndo as páginas de “Os americanos”, em momento algum o leitor sente que está lendo um maçante Livro de História. Tudo nele parece mais um depoimento inteligente, vivaz, diversificado, rico, profundo – um depoimento de quem vivencia na pele as questões tratadas, no caso a pele de um brasileiro, ao mesmo tempo fascinado e intrigado (vários sentidos da palavra ´intrigado´) com esse povo tão antropologicamente diferente de nós.

À guisa de conclusão, Tota levanta algumas palavras que poderiam resumir o perfil antropológico do povo americano: “fé”, “perseverança”, “segurança”, “patriotismo”, “nacionalismo”, “eficiência”, “engenhosidade”, “autoestima”, “excepcionalidade” – explicando cada uma na perspectiva do já exposto ao longo do livro. A impressão que o leitor tem, contudo, é que algumas dessas palavras podem estar no corpo antropológico de outros povos: vejam o caso da última: será que todo povo, se comparado a outros, não se revela excepcional?

De minha parte, senti falta de uma discussão da expressão “o sonho americano”, conceito tão inerente à realidade dos Estados Unidos. Considerem que nunca se ouviu falar do “sonho brasileiro” ou do “sonho francês”, ou do “sonho russo” e, no entanto, o sonho americano é uma expressão-conceito que faz parte da civilização desse povo: está no folclore, na literatura, na música, nas artes em geral, na política e, sobretudo, no imaginário americano, assim como o carnaval, ou o futebol está no nosso imaginário. Acho que, num livro desses, cabia uma retomada da expressão.

Em tempo: com um pouco de ironia, o título desta matéria faz referência ao título do filme americano “All about Eve”, ou seja, ´tudo sobre Eva´. Para ficar mais clara a ironia: no Brasil, a ´Eva´ do filme é “A malvada”.