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Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

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A soma de todos os ódios

18 ago

A ocasião em que, nos Estados Unidos dos anos cinquenta, passou a vingar a lei federal que obrigava as escolas de segundo grau a aceitarem a matrícula de alunos de cor ficou conhecida como “o Dia da Integração”.

Ora, às vésperas desse dia, chega a essa pequena cidade do sul americano, racialmente segregada como muitas outras, um desconhecido misterioso que se hospeda no hotel local, informando que deve ficar por duas ou três semanas. E logo saberemos: ele veio com o fim precípuo de incitar a população do lugar a posicionar-se contra a lei e rechaçar os estudantes negros de suas salas de aula.

Um filme que começa assim, não dá para parar de ver, dá? Pois é, nos States dos anos cinquenta/sessenta, especialmente no Sul racista, o clima era tenso por toda parte, e, em cada tomada do filme “O intruso” (“The intruder”, 1962), o espectador sente isso: que está no meio de um paiol prestes a explodir, um paiol a que essa figura misteriosa – a mando não se sabe de quem – veio disposto a atear fogo.

Adam Cramer, a soma de todos os ódios...

Adam Cramer, a soma de todos os ódios…

Adam Cramer (esse o nome do ´intruso´) fala à população em nome de uma ´democracia limpa´ (leia-se: sem negros) e acusa comunistas e judeus de estarem por trás da Lei da Integração.

Os habitantes do lugar o ouvem e aplaudem, e os ânimos vão se acirrando cada vez mais. Até se partir para a ação, que é o que Cramer visivelmente tem em mente. Com efeito, no dia seguinte, quando os jovens negros deixam as suas favelas e, de livros e cadernos debaixo dos braços, se dirigem à Escola da cidade, uma multidão branca, ostensivamente fechando a entrada da Escola, encena um amplo e ruidoso protesto, com cartazes, faixas, e gritos agressivos.

Antes de Cramer, as pessoas brancas do lugar, indagadas sobre a Integração, respondiam, com uma ambiguidade sintomática, que não gostavam da ideia, mas que a aceitavam, já que agora era lei. Depois dele, o conceito de lei dissipa-se e o ódio toma a dianteira.

A massa agitada pelo "intruso"...

A massa agitada pelo “intruso”…

Não sei até que ponto o roteiro baseou-se em fato acontecido, porém, é evidente que a construção do maligno protagonista é uma chave simbólica na estrutura semântica do filme – não tenham dúvidas de que ele, Adam Cramer, não é só uma pessoa; ele é uma condensação ideológica, “a soma de todos os ódios”.

Enfim, o clima de agitação na cidade cresce ao ponto de o seu mentor perder o controle da situação, mas, não quero contar mais, e fica a sugestão para o leitor assistir a esse forte e grande filme que o mestre Roger Corman dirigiu em momento de corajosa inspiração.

Estranhamente – ou talvez não – o filme de Corman foi um fracasso de bilheteria. Algum tempo depois da estreia a produção chegou a mudar o título, primeiro para o idiomático “I hate your guts” (ao pé da letra: ´odeio suas tripas´) e mais tarde para o mais abstrato “Shame” (´vergonha´), mas essas medidas em nada melhoraram a resposta de público.

O interessante é que outros filmes denunciando o racismo tiveram, antes dele, boas bilheterias, como “Acorrentados” (Stanley Kramer, 1958), “Imitação da vida” (Douglas Sirk, 1959) e “Audazes e malditos” (John Ford, 1960).

A essa altura dos acontecimentos, não sei quem ainda lembra quem é Roger Corman. Chamei-o acima de mestre porque, de fato, ele, com sua produtora independente – provavelmente a maior no país – e sua garra de ativista artístico, formou uma escola de cinema que ensinou a toda uma geração. Francis Ford Coppola, Ron Howard, Martin Scorsese e James Cameron estão entre os seus alunos, além de atores como Peter Fonda, Jack Nicholson e Robert De Niro.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Seus grandes sucessos de direção foram filmes de terror e ficção científica, muitos deles adaptações de Edgar Allan Poe, com o seu ator preferido, Vincent Price.

Para mim, por exemplo, o que da filmografia de Corman guardo são horror movies que vi na adolescência e que me tiravam o sono com seus cenários mal-assombrados e seus personagens doentios e atormentados. Engraçado, filmes que, mais tarde, na vida adulta, me conduziriam à leitura de Poe, como “O solar maldito” (1960) que adaptava “A queda da casa de Usher”.

Neste aspecto, ‘O intruso”, com sua ênfase na ideologia, seria um Corman atípico, mas acho que nem tanto. Em certa medida, também é um filme sobre o medo (ódio e medo, como sabemos, andam de mãos dadas) – um medo mais concreto do que o que tirara o meu sono de adolescente, mas de todo jeito, medo. Além do mais, é o próprio Corman quem afirma  (cito): “em todos os meus filmes existe, sim, uma subcamada política”.

Sobre “O intruso”, não hesito em afirmar: um filme (tristemente) atual… e, pior, universal.

Protestos brancos em frente à Escola.

Protestos brancos em frente à Escola.

Shakespeare, o cinema e eu

31 jul

Neste 2016 celebra-se o aniversário de morte – 400 anos – do maior escritor de língua inglesa e um dos maiores em qualquer língua: William Shakespeare (1564-1616).

Calcula-se que seja Shakespeare o escritor com a maior fortuna crítica do mundo, em outros termos, é aquele sobre quem mais se escreveu. Sabe-se com segurança que sua obra constitui o segundo maior intertexto do mundo, só perdendo para a Bíblia. O que significa dizer que, depois do livro sagrado, é o autor mais citado em obras alheias.

Segundo assegura um certo crítico e estudioso apaixonado, foi Shakespeare quem inventou o humano, e eu acredito.

Entrando no clima da celebração, não penso aqui fazer análises, nem revisões críticas. Quero apenas dar um depoimento de ordem pessoal da minha relação com a obra do Bardo de Stratford-upon-Avon. Só isso.

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É claro que os meus primeiros contatos com Shakespeare foram através do cinema. Eu tinha cerca de onze anos de idade quando assisti, no saudoso Cinema Sto Antônio, em Jaguaribe, João Pessoa, a uma versão cinematográfica de “Otelo”, filme russo, ou melhor, soviético, meio tenebroso que, na ocasião, não entendi muito bem, e que era dirigido – soube tempos depois – por Sergei Yutkevich. A estória do Mouro que mata a esposa inocente eu só a entenderia bem, anos mais tarde, lendo o texto da peça.

Nessa mesma época, no mesmo Sto Antônio, vi “Romeu e Julieta” do Renato Castellani, que inaugurara o cinema dos padres da Igreja do Rosário e, que foi depois reprisado. A tragédia do casal de Verona ficou bem clara para os meus onze anos e nunca esqueci suas imagens, mesmo depois de conhecer o texto original e suas muitas outras versões fílmicas.

Creio que o meu terceiro contato fílmico com Shakespeare foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewicz, que é de 1953, mas deve ter chegado a João Pessoa atrasado de anos. Ou o vi em reprise? Não sei. Só sei que quando o vi, eu já era mais crescidinho e lembro que me impressionei com a cena do assassinato no Senado, e com as interpretações de James Mason (Brutus) e Marlon Brando (Marco Antonio).

Foi por esse tempo – final dos anos cinquenta – que vi uma reprise do fordiano “Paixão dos fortes” e, claro, passei batido na cena em que Doc Holiday (Victor Mature) recita trecho de Hamlet. Eram palavras cultas para um faroeste cheio de balas: foi só o que pude notar, e isso já foi muito.

Paixão dos fortes - Doc Holiday recitando Hamlet.

Paixão dos fortes – Doc Holiday recitando Hamlet.

Até então eu nunca havia lido Shakespeare e, na medida em que assistia às adaptações de sua obra, as citadas e as outras que foram chegando, ia construindo na minha cabeça uma visão essencialmente cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema.

No dia em que, pela primeira vez, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Ao contrário do que via no cinema, os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos: estes construíam o enredo, os personagens e a atmosfera. Claro, era teatro, mas que teatro poderoso, perturbador e poético!

De início li traduções, mas foi o AI-5 que me propiciou a leitura dos originais. Explico-me.

O que ocorre é que, até então, eu escondia que falava inglês, língua que aprendi na adolescência, digo, escondia dos companheiros de luta contra a ditadura, com receio de ser tomado por um pelego do capitalismo. Com o estouro do AI-5, no final dos anos sessenta, o clima – vocês lembram – passou a ser de desolação generalizada. Não era mais viável encontrar os amigos, conversar nas esquinas, ou nos bancos de praça, pois tudo parecia suspeito: de repente, ficou cada um na sua, isolado no seu mundo particular. Foi aí que comecei a ler autores ingleses no original, e Shakespeare entrou na fila. Com o AI-5 vigente, não havia mais condição de combate, sequer de contatos, e então, eu pude me entregar ao delicioso pecado solitário de fazer uso de meu inglês para ler anglo-americanos, sem qualquer patrulhamento ideológico.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

Onde conseguia esses originais? Fácil: na residência do amigo Archidy Picado (pai), na época, defronte ao Colégio Sagrada Família, também em Jaguaribe, uma verdadeira biblioteca de literatura estrangeira da melhor qualidade, cujas estantes repletas a gente avistava só de passar na calçada. Thanks, Archidy!

Logo depois fui fazer os cursos de Letras na universidade (Português, Inglês e Francês) e pude estudar Shakespeare com mais afinco, sob orientação docente. Vitória Lima foi minha primeira professora de Shakespeare, e mais tarde, Dr. Michael Smith e Dra Letícia Niederauer. Em 1977, já na condição de professor, entrei no Mestrado de literatura anglo-americana e defendi dissertação sobre o “Rei Lear”. A partir daí, passei a ensinar literatura inglesa com foco no Renascimento, e Shakespeare virou pauta das aulas que ministrei na graduação de Letras… durante trinta anos (ufa!), até a aposentadoria.

Em semestres letivos sucessivos, estudei, com turmas diferentes, quase todas as tragédias shakespearianas, embora sempre reservasse um tempo especial para os 154 sonetos, dos quais só dava para ver seis ou sete com cada turma. Tanto mastiguei, com os alunos, os seus pentâmetros jâmbicos que alguns desses sonetos aprendi de cor, e ainda hoje os recito, como se estivesse cantando. Aliás, para os alunos com dificuldade em metrificação, sugeria que cantassem o soneto estudado com a música do Hino Nacional brasileiro, pois os decassílabos deste coincidiam perfeitamente com os pentâmetros shakespearianos, compostos de cinco pés, cada pé com duas sílabas).

Obviamente, quanto mais me familiarizava com Shakespeare, mais crítico me tornava dos filmes que o adaptavam à tela. Por outro lado, ou pelo mesmo, não perdia um. A quantos assisti? Impossível dizer, até porque, a essa altura dos acontecimentos, a lista já é quilométrica.

O Lear de Kurosawa.

O Lear de Kurosawa.

O livro Guiness de Recordes registra 410 adaptações de Shakespeare para o cinema, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Como já disse, aqui não pretendo proceder a análises, muito menos das adaptações shakespearianas, mesmo porque não haveria espaço para tanto, porém, pode ser interessante lembrar alguns casos, sobretudo os que fugiram às convenções.

Um caso até certo ponto estranho, por exemplo, é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

West Side Story: um amor proibido por gangues

West Side Story: um amor proibido por gangues

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais/experimentais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) passam a ser homens, e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

"Hamlet", de Kenneth Branah

“Hamlet”, de Kenneth Branah

E nem sempre são as peças que se adaptam. Em “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation”, 1985) o cineasta Derek Jarman prefere inspirar-se nos Sonetos shakespearianos, especialmente naqueles do início, em que o interlocutor do eu lírico é o belo e jovem mancebo, o ´handsome young man´ da crítica e historiografia.

Estes são casos especiais, mas acho que vai haver reclamações dos leitores se eu não citar as adaptações canônicas, aquelas referenciadas pela crítica internacional e pela academia. Destas cito dez, em ordem cronológica:

“Romeu e Julieta” (George Cukor, 1936); “Hamlet” (Laurence Olivier, 1948), “Macbeth” (Orson Welles, 1948); “Otelo” (O. Welles, 1952); “Júlio César” (Joseph Mankiewicz, 1953); “Trono manchado de sangue” (Akira Kurosawa, 1957); “Romeu e Julieta” (Franco Zeffirelli, 1968); “Rei Lear” (Peter Brooks, 1971); “Macbeth” (Roman Polanski, 1971); “Hamlet” (Kenneth Branah, 1996).

Voltando ao Shakespeare literário, não posso encerrar este depoimento sem uma referência aos seus leitores. Sim, porque tão fascinante quanto Shakespeare são, às vezes, os shakespearianos.

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci...

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci…

O shakespeariano mais fascinante que conheço chama-se W. J. Solha. Uma das cenas indeléveis da minha vida foi o dia em que o conheci, lá por volta de 1981. Eu havia publicado no Correio das Artes uma matéria sobre o Bardo, chamada “Bakhtin e o carnavalesco em Shakespeare” – resumo de minha dissertação de mestrado – que Solha leu, e sem me conhecer, pediu a Sérgio de Castro Pinto, o editor, para lhe passar o número do meu telefone. Conversamos e um dia fui visitá-lo ali no Banco do Brasil, agência do Centro.

Entrei na sala do primeiro andar e lá estava ele, alto, alvo, simpático, falastrão, rodeado de papéis e números que, ao me ver, abandonou, e me abriu um sorriso largo de quem encontrava um cúmplice de paixão shakespeariana. E foi me bombardeando com cenas, citações e temas, discorrendo sobre os personagens das muitas peças de Shakespeare como se fossem seus vizinhos, ou amigos de longa data.

Ao longo de minha vida acadêmica participei de muitos seminários e colóquios literários, e estive em contato com scholars que dominam a fortuna crítica e os vastos conceitos sobre a poética de William Shakespeare, porém, nunca conheci ninguém que tivesse do Bardo o conhecimento empírico que Solha tem. Se precisássemos de prova, uma seria o seu belo Painel dos personagens shakespearianos, em exposição perene na reitoria da Universidade Federal da Paraíba. Aliás, prova também de seu assombroso talento.

Enfim, fecho esta matéria com o clichê inevitável. É impressionante como, quatrocentos anos após sua morte, a obra de William Shakespeare continua pulsando em nossas veias. Em um de seus dísticos ele mesmo o previra: “So long as men can breathe or eyes can see, so long lives this…” O verso refere-se ao Soneto 18, mas, claro, vale para a obra inteira.

O esgrimista

20 maio

Com assinatura do finlandês Klaus Härö, o filme “O esgrimista” (“Miekkailija”, 2015), disponível em dvd, mistura bem veracidade histórica e drama pessoal, e pode ser visto com prazer.

Sigamos as linhas mestras de seu roteiro. A estória começa na Estônia do início dos anos cinquenta, quando este país ainda fazia parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. À pequena cidade de Haapsalu chega o desconhecido e meio arisco Endel Nelis para assumir, na Escola local, o posto de professor de esportes.

Apesar de mal recebido por uma direção desconfiada, logo ele funda o clube da esgrima, ao qual acorrem alunos das várias séries, fascinados por um esporte que oscila entre a destreza da luta e a elegância da dança. Dadas e recebidas com rigor e dedicação, as aulas fazem efeito e daí a pouco, a equipe esgrimista já está bem consolidada. Sempre antipática ao novo professor, a direção da escola tenta extinguir a esgrima do currículo, porém, o corpo docente em peso, considerando o interesse evidente do alunado, vota pela permanência.

Poster do filme, com o título internacional, "The fencer"

Poster do filme, com o título internacional, “The fencer”

O impasse aparece no dia em que divulga-se o grande Evento Nacional de esgrima competitiva, a acontecer em data próxima, em Leningrado. Entusiasmados, os alunos querem participar, mas, o professor Endel, não. Ele é, como se diz nos resumos de “movie guides” americanos, “a man with a past” (´um homem com um passado´).

Ocorre que, ao tempo em que, antes dos soviéticos, a Estônia encontrava-se sob domínio alemão, Endel, como muitos outros jovens de sua faixa etária, fez, inocentemente, parte do exército daquele país. Com a vitória dos Aliados, esses jovens passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria: muitos foram enviados a campos de concentração na Sibéria por Stalin, e Endel, miraculosamente, escapara, mudando então o sobrenome de Keller para o atual Nelis.

Sob o duro regime stalinista, retornar a Leningrado era um perigo que ele não podia correr e, por outro lado, não participar da competição nacional de esgrima seria uma atitude que os alunos, sem conhecer os seus motivos, iriam repudiar. Ir a Leningrado como técnico da equipe e ser preso, ou ficar e decepcionar uma turma de adolescentes tão estimulados ao esporte?

o esgrimista 2

O que torna o dilema maior é que, sendo quase todos os alunos da escola órfãos da guerra, o professor Endel havia se tornado, para eles, querendo ou não, uma espécie de ´figura paterna´, que supria o afeto inexistente em casa. Na estação de trem, no momento da partida, é isso que lhe diz a namorada, também professora, querendo argumentar em favor de sua desistência. A resposta de Endel é, contudo, inequívoca: ‘por isso mesmo, eu tenho que ir´. E vai.

Durante a realização do torneio, já chegada ao Ginásio a polícia que deverá levar o subversivo treinador do time de Haapsalu, o diretor da escola, a sós com ele num pé de escada, ainda tem a surpreendente fineza de lhe oferecer a fuga. Diz ele, “a URSS é um país enorme”, o que Endel ouve, treme e cala. Mas não foge.

A estória do desportista estoniano Endel Nelis (1925-1993) é um caso real, historicamente datado, porém, não quer isso dizer que o filme de Härë lhe tenha sido subalterno.

A simples forma de narrar evidencia a invenção que está nos enquadramentos, na montagem, na fotografia, no uso da música, nas interpretações, nas escolhas dos cenários, enfim, em toda a mis-en-scène. Com certeza, a própria roteirização apelou para lances que transcendem a estória real, modificando-a ou lhe fazendo acréscimos.

Aulas de esgrima, para crianças...

Aulas de esgrima, para crianças…

Coisas assim ficam claras na caracterização de pelo menos dois dos alunos de Endel, a irrequieta Marta e o contido Jaan. É Marta quem suscita as aulas de esgrima ao espiar o professor em seu exercício solitário; é ela quem ganha dele o amuleto e é ela quem o devolve num momento de decepção; é dela, mera suplente no jogo de Leningrado, de quem dependerá o sucesso do time. Já Jaan é o único aluno que divisamos em casa; o único que tem um avô entusiasta da esgrima; o único que perde um ente querido durante o período do curso; e o único que contesta o talento do professor em um momento de crise: “Você só está aqui porque não é bom”, diz ele, referindo-se à pequenez de Haapsalu, em oposição à grandeza de Leningrado”.

Pode-se perfeitamente dizer que “O esgrimista”, como tantos outros, é só mais um filme sobre a relação professor/aluno, ou sobre o espírito de grupo esportivo que leva à vitória, ou sobre a dureza do regime totalitário…. mas, acontece que o cineasta Härë soube juntar bem os três temas e nos oferece uma obra singela, mas convincente e honesta.

Enfim, o espectador pode sair dele com a sensação de “já ter visto esse filme”, porém, – suponho eu – também sairá com a sensação de ter gostado da “revisão”. Eu gostei.

Na estação, a caminho de Leningrado.

Na estação, a caminho de Leningrado.

 

Últimas conversas

27 maio

Quando, em fevereiro do ano passado, soube da morte de Eduardo Coutinho, lembrei-me logo de seu último filme, “As canções” (2011), ao qual dediquei texto comovido que chamei de “Músicas e lágrimas”.

E claro, senti-me bem em haver homenageado, em sua derradeira realização, o maior documentarista brasileiro de todos os tempos e lugares.

Agora, me deparo com a novidade: “As canções” não foi exatamente o último filme de Eduardo Coutinho. Antes da tragédia que o levou, o cineasta estava rodando um documentário com estudantes do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro.

O cineasta Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

Embora com 32 horas de gravação já feitas com 28 estudantes, o filme ficara incompleto. Ou melhor, teria ficado, se amigos de Coutinho não tivessem decidido que a metragem gravada merecia uma compleição – um filme póstumo que seria uma homenagem.

E assim fizeram o cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg, que tinham a vantagem de possuir filmagens dos bastidores da produção, onde o próprio Coutinho falava do filme que estava rodando e dos problemas que estava enfrentando. Juntaram esse material autobiográfico com as gravações de nove estudantes que Coutinho já escolhera como definitivas e editaram o documentário “Últimas conversas” (2015), no momento em cartaz na cidade, e no país.

O crédito de direção é de Eduardo Coutinho, porém, o espectador familiarizado com sua obra pode se indagar até que ponto “Últimas conversas” é um filme seu. Sim, porque há diferenças entre este filme e a obra de Coutinho, pequenas mas marcantes.

A primeira é que nele Coutinho desfruta de um bom tempo de tela, coisa inexistente em seus filmes anteriores. E, nesse tempo de tela, aparece falando de si mesmo. Aliás, no filme todo, ele fala muito mais do que o habitual, interferindo nos depoimentos dos entrevistados, como nunca fizera antes. Cheio de tempos mortos e cortes bruscos, o filme não possui o seu conhecido cuidado de edição. Em alguns casos, são demorados os trajetos da porta à cadeira em que os depoentes se acomodam, em outros, o depoente já aparece em close, sem trajeto. A rigor, foram à tela vários elementos dos bastidores, alguns acidentais, como aquele momento em que o fotógrafo pergunta a Coutinho se ele está fumando, e ele responde que está terminando o cigarro.

jovens depoentes: revelações comovidas

jovens depoentes: revelações comovidas

Mas, atenção: não entendamos isso como defeito. Apenas estamos diante do filme póstumo possível, e a dupla Salles e Berg foi sábia em manter o equilíbrio entre o estilo Coutinho e um Coutinho inventado ad hoc, e à revelia de si mesmo. Nisso “Últimas conversas” é um filme que mostra suas entranhas, em vários sentidos da palavra.

“É melhor não fazer do que fazer um filme de 70 minutos em que você não acredita”: a fala de Coutinho é toda pessimista e passa a ideia de estar trabalhando por obrigação, sem inspiração e sem garra. Foi bom que essa fala desencantada tenha sido posta no início do filme, pois, o que se vê em seguida nega as palavras do autor e comove o espectador, tanto quanto – ouso dizer – nos comoveram outros filmes de Coutinho.

Escolhidos a dedo, os jovens entrevistados dão depoimentos fortes que, se for o caso, fazem o espectador revisar seu conceito de juventude.

jovens depoentes: racismo e outros males

jovens depoentes: racismo e outros males

Vejam o caso daquela jovem que, contando sua difícil relação com a família, perde o controle e chora diante da câmera, ao tratar da frieza da mãe, que a vida toda a sustentara com bens materiais, mas nunca manifestou qualquer expressão de afeto. Essa mesma mãe que preferiu acreditar no companheiro, quando soube, da boca da filha, que este costumava assediá-la sexualmente.

Ou daquela aluna negra que diz não acreditar em preconceito racial e, no entanto, relata que os irmãos, mais alvos que ela, a rejeitavam na presença dos amigos. E, mais grave ainda, no dia em que vai estudar em colégio particular, as alunas da turma, lhe pregam uma peça de mau gosto em que ela, a única negra da classe, é comprada como se fosse um objeto.

Se o espectador habitual de Coutinho por acaso surpreendeu-se com a cena inicial em que ele é entrevistado, uma segunda surpresa é deixada para o final. Quebrando a regra do projeto (entrevistas com estudantes de Ensino Médio), a última entrevistada é uma garotinha de seis anos de idade – faixa etária inédita em Coutinho! – com quem o cineasta parece estar bem mais à vontade do que com os outros depoentes.

Tão à vontade que sai do foco repetindo a frase da menina “Deus é um homem morto” e confessando, animado, que o que devia fazer era um filme só com crianças.

Quem sabe? Talvez fosse o próximo.

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Em tempo: você encontra a minha matéria sobre o filme “As canções” neste blogue: é só digitar acima, no setor de BUSCA, o seu título MÚSICAS E LÁGRIMAS.

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

 

Palavras e imagens

17 mar

Fazia tempo que não ouvia falar de Fred Schepisi, aquele cineasta australiano que despontou lá pelos anos oitenta e logo chamou a atenção da América.

Dele lembro bem de Um grito no escuro (1988), a estória da uma mulher cujo bebê é, durante um piquenique, devorado por um dingo, e que é acusada pelo acidente, papel dramático de uma ainda não tão famosa Meryll Streep. Mais ou menos da mesma época são outros filmes seus também interessantes como: Roxane, A casa da Rússia e A teoria do amor.

Agora nos chega esse Palavras e imagens (Words and pictures, 2013), para se perfilar no rol dos filmes sobre sala de aula.

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E a sala de aula é bem americana. O nível é o secundário, mas os alunos são todos bem dotados e os professores, sortudos, não têm os problemas de disciplina que, por exemplo, tiveram os pobres mestres de Sementes da violência (1955) ou de Infâmia (1961). Sim, a coisa é muito mais para Sociedade dos poetas mortos

A trama toda é montada em cima de uma dicotomia docente bem particular: um professor de inglês e uma professora de arte. Ele, arrogante e agressivo, defende a primazia da palavra sobre a imagem; ela, igualmente arrogante e agressiva, defende a primazia da imagem.

Uma imagem vale por mil palavras, ou, uma palavra vale por mil imagens? A guerra está declarada e os coitados dos alunos e alunas são praticamente obrigados a tomar partido e pegar em armas na defesa de um ponto de vista do qual nem têm essa convicção toda.

Palavras...

Palavras…

No meio do fogo cerrado, o que acontece? Inevitavelmente, os dois inimigos mor se descobrem apaixonados um pelo outro e a briga termina na cama. Sim, tal e qual está nos roteiros das velhas comédias românticas do passado que a Hollywood clássica fez aos montes…

Mas esperem: se, no enredo, este foi porventura uma espécie de “casamento” literal entre palavra e imagem, o filme seria muito curto, se ficasse só nisso.

Pois é, depois do ápice amoroso tinha que vir o turning point que desse existência à segunda metade da estória: numa crise de humildade, o prepotente e cheio de si professor revela à amada que o poema enviado à revista da Escola, para publicação, não era de sua autoria.

Entre artistas, o fake é um crime: a hostilidade entre o casal é imediatamente retomada e, de sua parte, o ´forlorn´ professor também retoma o que vinha atrapalhando seu desempenho profissional havia tempos: o alcoolismo.

Imagens...

Imagens…

Eu disse ´forlorn´ porque é o termo arcaico que a professora usa para seu colega e este, como sempre faz, se apressa em fornecer a sua etimologia e sentido original de ´abandonado´, ´perdido´, ´miserável´. As explicações etimológicas são um hábito seu, que, infelizmente, o espectador monoglota vai encontrar dificuldade em apreciar, já que as legendas em português não dão conta das acepções dos termos ingleses e muito menos de suas idades. Vocábulo medieval, `Forlorn´, por exemplo, é simplesmente traduzido como ´infeliz´, como se se tratasse de uma palavra de uso atual.

Voltando à querela básica, a esperada segunda e definitiva reconciliação só acontece com a ajuda dos alunos, os quais promovem, num evento de final de curso, o matrimônio entre palavra e imagem, agora de modo didático e público. Como é comum acontecer em “filmes escolares”, a resolução do roteiro é uma cena com discursos repletos de sábias considerações filosóficas sobre a diversidade dos meios e o bom senso de saber lidar com ela.

Naturalmente, é interessante que o defensor da palavra seja um homem e que justamente uma mulher defenda a imagem. A dicotomia deixa pano para as mangas aos pensadores dos gêneros, especialmente os que ainda lidam com a idéia de que, historicamente, os machos seriam mais logopáicos, isto é, mais racionais, cerebrais, objetivos, e as mulheres mais fanopáicas, ou seja, mais imagéticas e intuitivas. Por aí.

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Uma coisa é certa: os atores que desempenham a dupla são muito bons e dão o melhor de si para enfatizar a dicotomia tematizada, e, ao mesmo tempo, a sua problematização: Clive Owen é o professor de língua e literatura Jack Marcus, que vive explicando a si aos outros, a etimologia das palavras e seu potencial poético, e Juliette Binoche é a professora de artes Dina Delsanto, que, insatisfeita com sua própria produção plástica, critica os alunos com a dureza de quem estivesse fazendo autocrítica.

No mínimo, um filme inteligente e instrutivo, que vai inquietar meio mundo de cinéfilos, especialmente os que, mais de perto, lidam com literatura e/ou com pintura. Sem dúvida, um daqueles filmes cuja qualidade estética será sempre aumentada pelos olhos – e ouvidos – dos espectadores. Já o antevejo circulando em universidades, em cursos de currículos ligados ao seu temário.

Fora desse contexto, não sei até quando será lembrado, pois, como cinema em si, creio eu que fica apenas no nível mediano dos filmes de seu gênero – o chamado ´filme sobre artes´.

De qualquer forma, não posso deixar de recomendar.

As diabólicas

19 set

Acho que podemos dizer que tudo começou no dia em que Pierre Boileau e Thomas Narcejac se conheceram, lá pelos finais dos anos quarenta – dois escritores franceses sem grande prestígio literário, que gostavam de escrever estórias de mistério e crime e que sonhavam, um dia, ter um de seus romances adaptado para a tela por Hitchcock.

Em 1952, pensando em Hitchcock, publicaram um que se chamava “Celle qui n´était plus” (´A que não era mais´), Boileau investindo na trama ardilosa e Narcejac na caracterização dos personagens e na atmosfera sombria.

Dizem que Hitchcock leu e gostou, porém, foi o cineasta francês Henri-George Clouzot quem – por questão de horas – chegou primeiro e comprou os direitos autorais para a adaptação. O romance deve ter sido vendido sem hesitação, pois Clouzot já era um cineasta de grande nome, sobretudo depois do sucesso que fizera com o seu “O salário do medo” (“Le salaire de la peur”, 1953).

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Clouzot só começou a rodar o filme em 1954, de forma que a estreia, agora com um novo título, “As diabólicas” (“Les diaboliques”) só aconteceu em 1955.

Por que “As diabólicas”? A estória conta o caso de duas mulheres que assassinam um homem, e este é o único gancho para o título. Na medida em que adentramos o enredo esse título vai ficando enganoso e falso. O homem assassinado é o Sr Michel Delassale, o diretor tirânico de um internato que tanto tiraniza os alunos e professores como a esposa Cristina (Vera Clouzot) e a amante, Nicole (Simone Signoret), também professora no colégio.

É essa tirania desmedida que une as duas mulheres – a esposa e a amante – no plano de cometer um assassinato que – todo mostrado ao espectador nos seus mínimos detalhes – parece sórdido e hediondo. Depois de um envenenamento com vinho, e afogamento em banheira caseira, o corpo é, à noite, jogado na piscina do colégio para que, ao ser encontrado, pareça acidente ou suicídio, porém, (surpresa geral, ou quase geral: quando, dias depois, o servente esvazia a piscina, o corpo não está lá!

Preparando o vinho fatal

Preparando o vinho fatal

Evidentemente, em respeito a quem ainda não conhece o filme, não vou contar o resto da estória, mas posso ao menos dizer que o filme é uma mistura muito bem feita de thriller e terror, refletida na sua estrutura de forma simétrica: na primeira metade, temos a concepção e execução do crime, e na segunda, o terror, se não contarmos o desenlace. E é interessante como o tópico thriller/terror aparece na figura de uma criança, um dos alunos do internato. É o que teima em ter visto o diretor Michel “depois de morto” e, mais tarde, na última cena do filme, teima em ter visto a esposa dele, a professora Cristina Delasalle, que – nós acompanhamos os eventos de perto – havia falecido de tanto susto. Essa criança visionária, com certeza, tem um papel importante na significação do filme e no seu efeito sobre o público. Indagado sobre a temática de “As diabólicas” Clouzot alega que o rodou se sentindo criança, “ a criança – diz ele – que esconde a cabeça debaixo do cobertor e pede ao pai que lhe conte uma estória de assombração”.

o "crime" na banheira

o “crime” na banheira

Fotografado em expressivo preto-e-branco, o filme –- contém bons momentos de suspense dos quais conto só um: na ocasião em que o servente do colégio vai esvaziar a piscina, Cristina está dando aula de inglês a sua turma, ao mesmo tempo em que, apavorada, avista a cena da janela. O assunto da classe são os verbos irregulares, dos quais ela fornece a primeira forma e os alunos respondem com o passado e o particípio. Ora, qual é o verbo irregular que ela dita no exato momento em que o servente introduz o rodo na água: “find / found / found”, ou seja, ´encontrar/encontrou/encontrado´ – para ela o cadáver que lá ela mesma havia depositado. Um pouco mais tarde, ao mandar um aluno ao quadro negro, ela o apressa dizendo “Estou esperando”, e, sem mais dirigir-se ao aluno, repete para si mesma “estou esperando” (e nós sabemos o que ela espera…)

Nenhum cadáver na piscina vazia

Nenhum cadáver na piscina vazia

Autor de filmes importantes, como “O corvo” (1943), “Crime em Paris” (1947), e do já citado “Salário do medo”, H. G. Clouzot foi um dos cineastas rechaçados pelos jovens diretores da Nouvelle Vague, que achavam que, antes deles, o cinema francês, acadêmico e convencional, não prestava. Um filme como “As diabólicas” prova o quanto estavam enganados – e isto com uma ironia a mais: os nouvellevaguistas endeusaram Hitchcock, o qual, por sua vez, invejou o “As diabólicas” de Clouzot, tanto que, anos depois, pensando nele, quis fazer um terror preto-e-branco com o mesmo impacto, e fez (“Psicose”, 1960).

Enfim, creio ser interessante lembrar a relação que o filme tem com o Brasil: a atriz que faz a protagonista Cristina Delasalle é brasileira, Vera Clouzot, filha do escritor sergipano Gilberto Amado, e casada com o cineasta, com quem trabalhou em vários filmes, antes de, como a sua personagem em “As diabólicas” morrer do coração.

Em tempo: “As diabólicas” foi apresentado e discutido no Cineclube da Aliança Francesa, dia 18 de setembro, na Sala Vladimir Carvalho da Usina Cultural.

Vera Clouzot, a atriz brasileira de "As diabólicas"

Vera Clouzot, a atriz brasileira de “As diabólicas”