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UMA OBRA-PRIMA

22 ago

De que é feita uma obra-prima? Difícil dizer, até porque conceitos estéticos variam com as épocas e os lugares. Como inexiste um limbo abstrato onde residam os traços essenciais e imutáveis da perfeição artística, o melhor é ir atrás de uma obra concreta, consumada e consumida, a que o juízo comum já tenha aproximado o conceito de prima.

Não é o caso do filme O anjo azul (Der blaue Engel, 1930) do cineasta alemão Josef Von Sternberg? Nele parece se materializar, se não outro, pelo menos aquele princípio elementar da necessária igualdade entre forma e fundo.

Sem espaço para uma abordagem mais ampla, destaco aqui alguns aspectos do filme que ilustrariam a pergunta inicial.

Começo com o tema, mas para tanto, preciso passar por uma reconstituição mínima do argumento. Lecionando literatura inglesa no prestigiado Colégio Ludwig, o Professor Immanuel Rath (Emil Janning) tem o infortúnio de conhecer essa vedette de cabaré itinerante por quem se apaixona, uma tal de Lola-Lola (Marlene Dietrich), que canta e dança para os homens, com as pernas de fora. Transtornado pelo desejo, abandona o magistério, vai ser palhaço no cabaré, decai moralmente, até o dia em que a companhia teatral revisita sua cidade de origem, e ele, em surto, morre agarrado à mesma cátedra onde antigamente lecionava.

Como se percebe, a temática trabalha com contrastes em bloco duplo: de um lado, o conceito de cultura fica associado ao de dignidade, e de outro, o de boemia ao conceito de decadência. Esses contrastes, na verdade, se desdobram em outros, na maior parte dos casos, de forma irônica. Por exemplo: um dos textos literários ensinados pelo prof Rath a seus jovens alunos é uma tragédia onde, portanto, alguém tem uma falha de caráter: a falha de Hamlet é outra, mas o professor vai ter a sua, e sua história é, sim, uma tragédia.

Além disso: são os próprios alunos que, involuntária, mas significativamente, introduzem o Prof Rath às fotos de Lola-Lola, e o conduzem ao cabaré e a seus braços. Ou seja, enquanto o professor lhes ensina tragédia (Shakespeare), os alunos fornecem a ele, o material para fazer a sua própria tragédia.

Nesse sentido, nada mais expressivo da opção (errada) do professor perante a dicotomia cultura vs boemia: ao fugir do bordel, no meio da noite, ele procura o colégio, agarra-se às bordas do bureau e morre agarrado, os seus dedos presos, significando isso o que ele, no fundo, queria: nunca mais se desgarrar do antigo prestígio que detinha no passado.

Naturalmente, todas as implicações do tema se estendem à psicologia do protagonista. Eis um dos exemplos de como isso se dá. No dia do casamento de Lola-Lola e Rath, o prestidigitador tira, ainda brincando, ovos do nariz do noivo que imita o “cocoricó” de um galo. Ora, quando o professor vira palhaço, profissionalmente (já que os seus proventos de professor não mais existem), é esse “cocoricó” que ele performatiza, e mais que isso, na ocasião de seu surto nervoso é com esse mesmo “cocoricó” que ele vai atacar a esposa-prostituta e seu novo parceiro. Ou seja, delineando a evolução de sua personalidade, o “cocoricó” passa, na narrativa, por três estágios: brincadeira, instrumento profissional e delírio.

Muito presa ao desenvolvimento psicológico do prof. Rath está a narração e seus recursos. Combinando montagem com construção de cena, vejam como dois momentos da narrativa, justapostos no tempo, se expressam de forma cinematográfica.

No começo da vida a dois, as fotos de Lola-Lola caem da valise nas mãos desastradas do professor e ele protesta, dizendo que enquanto tiver dinheiro, essas fotos obscenas não serão vendidas aos fregueses. Corte, e a cena seguinte mostra, exatamente, ele caminhando por entre as mesas superlotadas do cabaré, vendendo as fotos da esposa seminua.

Um dos trabalhos mais ricos da narração está em quebrar a linearidade do tempo, misturando elementos do futuro aos do presente e passado, tudo isso com justificativas psicológicas, presas à história do protagonista.

Vejam como ao prof. Rath  é dado um alterego, na pessoa daquele palhaço, empregado do cabaré, que o espia desde o primeiro dia, como quem diz ‘eu conheço essa triste história, porque fui a vítima antes do senhor’. No final do filme, ao surgir esse novo pretendente rico para Lola-Lola, o tal de Mazena, se fecha o ciclo, na ordem: palhaço, Rath, Mazena.

O uso da câmera é um outro elemento exemplar. Basta considerar a simetria perfeita e extremamente eloquente daqueles dois travelings dentro da sala de aula, executados lentamente, do bureau para os fundos da sala; uma primeira vez, no começo do filme, na ocasião da última aula ministrada pelo professor, e depois no final, no momento de sua morte, como última tomada.

O emprego da música é outro item que vem ao caso, incrementando a ironia do discurso. “O que posso fazer? – pergunta Lola-Lola, na letra da canção recorrente – é da minha natureza: só sei amar; os homens se aproximam e, como mariposas perto da luz, queimam as asas e morrem”. Cantada para o professor em sua primeira visita ao bordel, essa canção é repetida algumas vezes, mas o mais sintomático é que Lola-Lola a esteja cantando para os fregueses justamente na ocasião em que o professor Immanuel Rath, perto do final, desaparece no meio da noite em busca da dignidade perdida.

Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

A soma de todos os ódios

18 ago

A ocasião em que, nos Estados Unidos dos anos cinquenta, passou a vingar a lei federal que obrigava as escolas de segundo grau a aceitarem a matrícula de alunos de cor ficou conhecida como “o Dia da Integração”.

Ora, às vésperas desse dia, chega a essa pequena cidade do sul americano, racialmente segregada como muitas outras, um desconhecido misterioso que se hospeda no hotel local, informando que deve ficar por duas ou três semanas. E logo saberemos: ele veio com o fim precípuo de incitar a população do lugar a posicionar-se contra a lei e rechaçar os estudantes negros de suas salas de aula.

Um filme que começa assim, não dá para parar de ver, dá? Pois é, nos States dos anos cinquenta/sessenta, especialmente no Sul racista, o clima era tenso por toda parte, e, em cada tomada do filme “O intruso” (“The intruder”, 1962), o espectador sente isso: que está no meio de um paiol prestes a explodir, um paiol a que essa figura misteriosa – a mando não se sabe de quem – veio disposto a atear fogo.

Adam Cramer, a soma de todos os ódios...

Adam Cramer, a soma de todos os ódios…

Adam Cramer (esse o nome do ´intruso´) fala à população em nome de uma ´democracia limpa´ (leia-se: sem negros) e acusa comunistas e judeus de estarem por trás da Lei da Integração.

Os habitantes do lugar o ouvem e aplaudem, e os ânimos vão se acirrando cada vez mais. Até se partir para a ação, que é o que Cramer visivelmente tem em mente. Com efeito, no dia seguinte, quando os jovens negros deixam as suas favelas e, de livros e cadernos debaixo dos braços, se dirigem à Escola da cidade, uma multidão branca, ostensivamente fechando a entrada da Escola, encena um amplo e ruidoso protesto, com cartazes, faixas, e gritos agressivos.

Antes de Cramer, as pessoas brancas do lugar, indagadas sobre a Integração, respondiam, com uma ambiguidade sintomática, que não gostavam da ideia, mas que a aceitavam, já que agora era lei. Depois dele, o conceito de lei dissipa-se e o ódio toma a dianteira.

A massa agitada pelo "intruso"...

A massa agitada pelo “intruso”…

Não sei até que ponto o roteiro baseou-se em fato acontecido, porém, é evidente que a construção do maligno protagonista é uma chave simbólica na estrutura semântica do filme – não tenham dúvidas de que ele, Adam Cramer, não é só uma pessoa; ele é uma condensação ideológica, “a soma de todos os ódios”.

Enfim, o clima de agitação na cidade cresce ao ponto de o seu mentor perder o controle da situação, mas, não quero contar mais, e fica a sugestão para o leitor assistir a esse forte e grande filme que o mestre Roger Corman dirigiu em momento de corajosa inspiração.

Estranhamente – ou talvez não – o filme de Corman foi um fracasso de bilheteria. Algum tempo depois da estreia a produção chegou a mudar o título, primeiro para o idiomático “I hate your guts” (ao pé da letra: ´odeio suas tripas´) e mais tarde para o mais abstrato “Shame” (´vergonha´), mas essas medidas em nada melhoraram a resposta de público.

O interessante é que outros filmes denunciando o racismo tiveram, antes dele, boas bilheterias, como “Acorrentados” (Stanley Kramer, 1958), “Imitação da vida” (Douglas Sirk, 1959) e “Audazes e malditos” (John Ford, 1960).

A essa altura dos acontecimentos, não sei quem ainda lembra quem é Roger Corman. Chamei-o acima de mestre porque, de fato, ele, com sua produtora independente – provavelmente a maior no país – e sua garra de ativista artístico, formou uma escola de cinema que ensinou a toda uma geração. Francis Ford Coppola, Ron Howard, Martin Scorsese e James Cameron estão entre os seus alunos, além de atores como Peter Fonda, Jack Nicholson e Robert De Niro.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Nem todo mundo ´engole´ Cramer: o jornalista desconfiado.

Seus grandes sucessos de direção foram filmes de terror e ficção científica, muitos deles adaptações de Edgar Allan Poe, com o seu ator preferido, Vincent Price.

Para mim, por exemplo, o que da filmografia de Corman guardo são horror movies que vi na adolescência e que me tiravam o sono com seus cenários mal-assombrados e seus personagens doentios e atormentados. Engraçado, filmes que, mais tarde, na vida adulta, me conduziriam à leitura de Poe, como “O solar maldito” (1960) que adaptava “A queda da casa de Usher”.

Neste aspecto, ‘O intruso”, com sua ênfase na ideologia, seria um Corman atípico, mas acho que nem tanto. Em certa medida, também é um filme sobre o medo (ódio e medo, como sabemos, andam de mãos dadas) – um medo mais concreto do que o que tirara o meu sono de adolescente, mas de todo jeito, medo. Além do mais, é o próprio Corman quem afirma  (cito): “em todos os meus filmes existe, sim, uma subcamada política”.

Sobre “O intruso”, não hesito em afirmar: um filme (tristemente) atual… e, pior, universal.

Protestos brancos em frente à Escola.

Protestos brancos em frente à Escola.