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A ODISSEIA DOS TONTOS

7 nov

Com jeitão de levar o Oscar de filme estrangeiro, o argentino “A odisseia dos tontos” (Sebastián Borensztein, 2019) estreia no Brasil e no mundo, conquistando facilmente crítica e público em geral.

O fato é que, embora se baseie num certo incidente da vida política argentina, sua terrível e ao mesmo tempo divertida temática (depois de roubado, como roubar o ladrão?) tem qualidade universal e emociona quaisquer plateias. E do jeito inteligente e criativo como está abordada, mais ainda.

Para nós, brasileiros, acho que o filme de Sebastián Borensztein (o cineasta do ótimo “Um conto chinês”, lembram?) toca um pouco mais, na medida em que nos faz recordar um fato histórico idêntico, acontecido há não tanto tempo – refiro-me ao plano Collor de congelamento das poupanças privadas, de 1991.

Para o mal dos argentinos a coisa lá aconteceu dez anos depois, em 2001, quando o Presidente Fernando (!) de la Rua tomou a mesma drástica medida de Collor de Mello, lá chamada de “Corralito”, palavra que maldosamente significa ´cercadinho´.

Cercadinho, o país todo afundou, mas, o filme, sabiamente, concentra-se no caso particular desse grupo de comerciantes de uma cidade pequena que se cotizara para criar uma cooperativa com o fito de reativar uma pequena indústria de silos.

Levantada a grana – o que foi feito com muita dificuldade – o mentor do projeto, o sr Fermin Perlassi (Ricardo Darin) é convencido por um astuto gerente bancário a fazer o depósito do valor inteiro, e isto no dia anterior à medida do congelamento das contas bancárias. E pior, logo o grupo todo fica sabendo que Fermin havia sido vítima de um golpe, uma vez que a medida econômica já era conhecida do gerente, e de um seu comparsa, um figurão local, de nome Manzi, que beneficiou-se com a medida e embolsou o dinheiro todo dos associados da cooperativa e muito mais.

Depois do choque dessa perda coletiva, fazer o quê?

É aí que entra a parte mais divertida do filme que, evidentemente, não vou contar. Só dizer que ela implica vingança e muita astúcia para reaver o perdido, fazendo o espectador lembrar, não apenas a acepção clássica do termo “odisseia” do título, mas também aquele gênero de filme de ação onde se concebe e se executa um grande, ousado e arriscado roubo. Para os cinéfilos, com um prazer adicional, já que o vingativo novo plano dos associados da cooperativa inspira-se numa certa estratégia (o que fazer para desativar um alarme incômodo?) mostrada num filme clássico, lá dos anos sessenta, a que Fermin por acaso, assistira na televisão ao lado do filho: “Como roubar um milhão de dólares” (William Wyler, 1966), com Audrey Hepburn e Peter O´Toole.

Diferentemente do tradicional “filme de roubo”, os personagens são cidadãos e cidadãs de bem, – na narração apelidados de “tontos” – que só entram na empreitada pelas forças das circunstâncias, mas, de qualquer modo, há entre eles as diferenças esperáveis. Um que faz diferença, por exemplo, é esse anarquista que argumenta com bolo de chocolate e Bakunin.

Porém, o “tonto” psicologicamente mais aprofundado é mesmo Fermin, em tudo um personagem que a teoria chamaria de “redondo”, no sentido em que evolui ao longo da projeção, passando de sonhador, a pessimista, a sonhador de novo (com novo sonho) a realista e, mais uma vez, a sonhador de sonho realizado. Vejam também que é dele que vem a narrativa em voz over, a qual lhe concede estatuto de protagonista, embora, claro, a estrutura narrativa do filme comporte as devidas “paralepses”, que nos informam sobre as idas e vindas de um personagem fora do alcance de Fermin: o vilão Manzi.

E, pra encerrar, atenção: não saiam da sala antes dos créditos finais, para não perder mais uma pequena modalidade de “vingança”, agora envolvendo o consumo do típico chimarrão argentino. Bom filme.

Marguerite

4 jul

Um dos melhores itens da atual versão do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, “Marguerite” (Xavier Giannoli, 2015), filme por sorte ainda em cartaz entre nós.

Contando a estória dessa milionária que pensa saber cantar, o filme é excelente em todos os níveis. Da reconstituição de época (a França dos anos 1920) à interpretação da atriz Catherine Frot, tudo é perfeito e nos convence de que o cinema francês, superados há muito os arroubos vanguardistas dos anos sessenta, vai muito bem, obrigado. E vai mesmo.

Sem dúvida, o grande mérito do diretor Giannoli é saber lidar com o patético, sem ser patético. Sua protagonista, Marguerite Dumont, nos cativa desde o início, e, se rimos dela, não o fazemos sem pena ou constrangimento.

Marguerite poster

Sua estória, a rigor, é dramática. Irremediavelmente desafinada, Marguerite canta para um grupo de amigos que, por simpatia ou por interesse, a aplaude efusivamente. Só que esses falsos aplausos vão alimentando o seu espírito ingênuo e, de repente, ela passa a namorar a ideia de cantar ópera para um grande público.

Ludibriada por jornalistas de má fé, sua primeira aparição pública – executando a Marseillaise num cabaré anarquista – é um desastre e um escândalo, mas ela não desanima. Até que, devidamente contratado um sempre relutante professor de canto, chega ela à Ópera Nacional de Paris e…

Desmaio em pleno palco, cordas vocais sangrando, hospital, trágica auto-audição… Não vou contar o resto da estória, mas devo dizer “a verdade” (título do último capítulo do filme): que “Marguerite” é, no fundo, uma grande e bela estória de amor. E, coisa rara, uma estória de amor entre marido e mulher.

Narrado com fina elegância, o filme é francês jusqu´au coeur, e contudo, suas origens estão, curiosamente, do outro lado do Atlântico, sim, nos Estados Unidos.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

Visivelmente, a inspiração para a construção da personagem de Marguerite veio da vida estabanada de Florence Foster Jenkins, socialite americana que, nos anos 20/30, sonhou em ser cantora e, desafinada ao extremo, pagou caro por isso. A propósito, a estória de Florence está em outro filme recente, que deveremos ver brevemente, dirigido por Stephen Frears, com Meryl Streep no papel-título.

Além disso, o nome dado à protagonista é, assumidamente, uma variante de Margaret Dumont, aquela atriz hollywoodiana que serviu sempre de ´escada´ para as peripécias dos Irmãos Marx em muitas boas comédias malucas dos anos trinta. Se vocês lembram bem filmes como “Uma noite na ópera” e tantos outros, uma personagem com o mesmo perfil ingênuo e alienado da nossa Marguerite de agora.

Mas, as relações de “Marguerite” com o cinema americano vão mais fundo. Vendo-o, impossível não lembrar dois grandes filmes que marcaram a história da Hollywood clássica, e que nele funcionam como intertextos enriquecedores. Refiro-me a “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) e “Crepúsculo dos deuses” (Billly Wilder, 1950).

Se confrontarmos bem, a situação diegética da nossa Marguerite é semelhante a de Susan Alexander, a segunda esposa de Charles Foster Kane, aquela que ele quer, por fim e à força, transformar em uma grande cantora lírica, e não consegue. Em “Kane” a busca do sucesso nos palcos é mais do marido que da esposa, mas, mesmo assim, a similaridade persiste. Notar como a presença de pavões e outros bichos na mansão Dumont sugere a vasta fauna no castelo Xanadu dos Kane. Aliás, ambos os filmes se inspiraram na mesma figura verídica, a Florence Foster Jenkins já citada, como se percebe do segundo nome do personagem Kane.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

A outra figura que Marguerite inevitavelmente lembra é a Norma Desmond de “Crepúsculo dos deuses”, diva do cinema mudo que, agora, no falado, pretende voltar às telas do mundo e abafar, uma mulher obcecada pelo sucesso, com o mesmo nível de alienação e, no final, a mesma entrega descontrolada ao puro delírio psicopatológico.

Em “Marguerite” o paroxismo do delírio aparece nas gravações feitas com a paciente, no hospital, enquanto que em “Crepúsculo”, ele é predominantemente plástico, como está em sua cena final. Norma já fora estrela, e Marguerite nunca, mas, de novo, isto não diminui a semelhança. Um reforço ostensivo dessa semelhança – com toda certeza, proposital – está na presença ubíqua do mordomo negro em “Marguerite”, com sua dedicação cega à patroa, a mesma dedicação do mordomo à Norma Desmond do filme de Billy Wilder.

Claro, “Marguerite”, o filme, não precisa desses intertextos cinematográficos para funcionar, porém, com eles no subconsciente do espectador cinéfilo, funciona muito melhor.

Filmaço, que recomendo.

Inúteis aulas de canto para Marguerite...

Inúteis aulas de canto para Marguerite…