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“Vidas Amargas” com amigos

18 abr

Fui recentemente convidado por um grupo de amigos para conversar sobre cinema, e o filme escolhido foi “Vidas amargas” (1955). Esta matéria contém as anotações do meu comentário sobre esse clássico de Elia Kazan, que considero um dos filmes mais importantes do seu século.

Acho que há várias maneiras de ler “Vidas amargas”, e aqui não faço mais do que imaginar e sugerir algumas – quatro, na verdade, cada uma delas tendo a ver com as outras três.

Uma primeira sugestão de leitura seria colocá-lo no contexto de sua década, como um daqueles filmes que empreenderam os primeiros bombardeios ao “bom” conceito de família.  Até então esse conceito sagrado era salvaguardado pelo Código Hays de Censura, e pouca gente em Hollywood tinha a coragem de problematizá-lo. Creio que o símbolo mais concreto dessa condição intocável da família estava na imagem da cama de casal que aparecia nos filmes hollywoodianos até então: sempre dupla, uma em um lado do quarto, a outra, no outro lado, como se papai e mamãe não fizessem sexo. De repente, uma certa Hollywood, mais ousada e corajosa, começou a quebrar tabus, com filmes que, não apenas passaram a falar de sexo doméstico, mas a mostrar a roupa suja nos bastidores familiares.

Na segunda metade dos anos cinquenta, muitos filmes fizeram isto: com maior ou menor consequência recepcional, ou estética, entrariam nesse rol, por exemplo, “A caldeira do diabo” “Férias de amor”, “Imitação da vida”, “Amores clandestinos”, “Juventude transviada”, e outros mais. E “Vidas amargas” foi um dos primeiros a ter essa coragem.

Relembremos o grosso do seu enredo: supostamente viúvo, o fazendeiro Adam Trask (Raymond Massey) é pai do consciencioso e sensato, Aaron (Dick Davalos), filho predileto, e do rebelde e inconsequente Cal (James Dean). Acontece que este último detém um segredo que partilha conosco: ao contrário do que sustenta o honrado fazendeiro, não longe dali vive Kate (Jo van Fleet), a mãe dos dois rapazes, uma mulher estranha, dona de bordéis e bares, altamente respeitada na esfera mundana, que, sufocada um dia pelo moralismo do marido, abandonara o lar. Quando o fazendeiro cai em dificuldades financeiras, Cal procura essa mãe marginal e lhe pede uma grana para, sem que o pai saiba, plantar feijão, aproveitando a subida de preços, decorrente da Guerra Mundial. No dia do aniversário do pai, um Cal ansioso para agradar oferece a quantia ganha com os feijões como presente e é rechaçado pela indignação paterna, que só vê desonestidade no ato de se lucrar com a morte de soldados americanos. Confuso e em crise, Cal conduz Aaron ao bordel onde vive a mãe maldita e o resultado é a fuga do irmão e uma trombose do pai.

James Dean e Raymond Massey em cena final.

Uma outra forma de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de James Dean. De modo trágico, o jovem ator faleceu no ano de sua estreia e o mito, ajudado por seus dois outros filmes (“Juventude transviada” e “Assim caminha a humanidade”), logo tomou forma e cresceu. Nos três filmes, Dean fazia o papel de um jovem rebelde e/ou incompreendido, com quem uma parcela enorme de espectadores jovens passou a identificar-se. Os estudos de sociologia do cinema têm confirmando as mudanças comportamentais ocorridas na época em função dessa identificação. Por outro lado, vale lembrar que Dean foi o típico ator kazaniano. Veio do Actors Studio (que Kazan fundou) e foi descoberto para o cinema por Kazan. Por ter conseguido um primeiro lugar em teste para o Actors, foi contratado para os palcos da Broadway, onde protagonizou a peça “O imoralista”, baseada no livro de André Gide. Nessa peça, Dean interpretava o homossexual que afirmava sua homossexualidade de forma ostensiva, quase cruel, quase misógina. Kazan assistiu à peça e o solicitou para o papel de Cal em “Vidas Amargas”. Em entrevista, o próprio Kazan conta, com certa ironia maldosa, o quanto gostou do fato de que a relação de Dean com o pai era difícil, do mesmo modo que, durante as filmagens, foi difícil a relação de Dean com o ator veterano Raymond Massey (Adam Trask, o pai) que o detestava: tudo isso foi assumidamente usado como “laboratório” para o filme – era parte do “Método” de Kazan.

O presente recusado: conflitos entre pai e filho

Uma terceira e inevitável maneira de ler “Vidas Amargas” seria como um filme de Kazan. Se comparado aos outros dezoito filmes do autor, vamos notar o quanto ele é característico de seu estilo, ao desenvolver o tema que foi o mais central em Kazan, a saber, o do outsider – outsider no grupo social, na família, ou no mundo, tanto faz. Trata-se de uma adaptação do livro de John Steinbeck, porém, Kazan cortou o que não interessava aos seus propósitos e centrou na figura do inadaptado Cal. Como nos seus filmes mais marcantes, há dois tipos de conflito, um externo (aqui, um pai puritano e uma mãe prostituta), outro, interno (o de Cal, que não consegue se fazer compreender, nem dentro, nem fora da família). O conflito interno é sempre o mais importante, porque é o que demarca o protagonista como essencialmente outsider – condição que parece ter sido a do próprio Kazan, aliás, confirmada em entrevista por ele mesmo – um eterno imigrante nos Estados Unidos, e, como se não bastasse, malquisto em vista de sua delação na Comissão de Atividades Anti-americanas.

É verdade que o personagem de Cal é, no desenlace, redimido pelo perdão paterno, mas, o que fica para o espectador é a sua condição marginal e ambígua, aliás, sugerida pela óbvia remissão bíblica, expressa já nos nomes do trio masculino: Adão (Adam), Abel (Aaron) e Caim (Cal).

Cal na roda gigante com a cunhada Abra.

Resta ler “Vidas amargas” em si mesmo, enquanto realização cinematográfica que atinge um nível de qualidade inquestionável. Para tanto, seria o caso de observar o quanto a sua forma expressa o seu conteúdo de modo estético e efetivo. Esse fato se dá em todos os aspectos do filme, da música à montagem, da fotografia às interpretações, mas, para efeito de análise chamo apenas a atenção para o modo sistemático e impressionantemente eficaz como a câmera efetua os enquadramentos, sobretudo nos momentos mais dramáticos, como: (1) na primeira visita de Cal ao bordel que a mãe administra, do qual ele, aos protestos, é expulso à força: (2) em casa, no aniversário do pai, quando o dinheiro do feijão plantado é impiedosamente recusado, o filho, em prantos, abraçado ao corpo paterno; (3) na trágica terceira e última visita ao bordel materno, agora com o irmão sendo literalmente empurrado para os braços de uma mãe indesejada. Na ocasião, com apenas dois anos de emprego, a técnica do cinemascope era novidade e, em vista de sua extensão horizontal, havia o preconceito quanto a sua possibilidade de expressar os desvãos da alma humana: Kazan é o primeiro a, na prática, derrubar o preconceito.

Como disse acima, estas quatro alternativas de leitura de “Vidas amargas”, só estão separadas para efeito de análise, quando, na verdade, elas se imbricam em um conjunto coeso, possivelmente mais pertinente do que suas partes.

Em tempo: esta matéria é, com carinho e admiração, dedicada a Zezita Matos.

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Confinados

18 fev

Se você viveu, como eu, os anos cinqüenta no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, conhece a estória. Foi na rua Alberto de Brito, um pouco acima da esquina com a Coremas, sentido Centro, numa casinha pobre do lado esquerdo da rua.

Nessa casinha foi descoberta uma coisa horrível, que chocou a população: uma moça fora criada em cativeiro pela avó, desde pequena trancada num quarto escuro, sem nenhum contato com o mundo exterior. Não lembro como nem quem descobriu o cativeiro, mas sei que a moça, com cabelos desgrenhados, unhas enormes, esmolambada e mal cheirosa, grunhindo sons estranhos, parecia um bicho. Segundo a avó amalucada, o nome dela era Amorosa. A imprensa noticiou, e se você for atrás dos jornais da época com certeza vai ver o fato registrado, talvez com fotos.

w room poster

Mas, por que estou tratando disso? É que acabei de assistir a esse “O quarto de Jack” (“Room”, 2015) e, inevitavelmente, lembrei-me de Amorosa. Tudo bem, criado até os cinco anos dentro de um quarto em companhia da mãe, o garoto do filme, não chega a ter o aspecto horrendo de Amorosa, porém, o tema do confinamento é o mesmo.

Concorrendo ao Oscar, o filme de Lenny Abrahamson é bom, mas, para dizer a verdade, o seu primeiro efeito é nos fazer lembrar outros filmes com a temática; e como o conceito de confinamento é amplo, os filmes são muitos, sem importar, obviamente, os motivos pelos quais as vítimas foram confinadas, ou por quanto tempo assim permaneceram.

O primeiro que me veio à mente foi “Muito além do jardim” (Hal Ashby, 1979). Em seguida lembrei “O show de Truman” (Weir, 1998). Nestes filmes, os confinados são adultos, mas os pontos comuns com “O quarto de Jack” são muitos, a começar pelo lance da televisão. Em “Muito além”, o confinado, como o Jack de agora, só conhece o mundo lá fora pelo aparelho de TV. Em “Truman”, o protagonista está dentro da própria engrenagem da televisão, e não sabe. O terceiro filme que me ocorreu foi “O colecionador” (Wyler, 1965), já que o motivo do confinamento é o mesmo, um sequestro que devia valer para a vida toda.

x mãe e filho no quarto

O impacto do menino confinado, ao ser exposto ao mundo fora de seu quarto, traz à tona “O garoto selvagem” de Truffaut (1970), e o mais radical “O enigma de Kasper Hauser” de Herzog (1974).  Mas também nos faz pensar em “A mulher da areia” (Teshigahara, 1964), e em todos os confinamentos entre quatro paredes, como em “Um condenado à morte escapou” (Bresson, 1956) ou “O homem de Alcatraz” (Frankenheimer, 1962).

Uma coisa boa no filme de Abrahamson é que se chame “Room”, deste jeito: palavra única com letra maiúscula. (o título brasileiro estraga tudo). Vejam que depois de libertado, o menino fala que estava, “in Room”, como se estivesse dizendo ´in Canada´, ou ´in Ireland´ (no Canadá ou na Irlanda). Essa maneira de expressar-se sugere a verdade dele: a de que o quarto era o seu universo, um universo paralelo e bem diferente do que ele conhece agora. Libertado e encontrando a mãe também liberta, a primeira coisa que pede é para voltarem à cama, “in Room”. Sim, porque esse país chamado ´Room´ (´Quarto´), mesmo fisicamente limitado, prescindia de uma série de problemas com que ele se depara aqui fora. E, claro, nesse momento, o espectador inevitavelmente faz a associação com a ideia de útero. Um útero estranho, é verdade, pois abrigava ambos, filho e mãe.

Outra coisa interessante no filme são suas gritantes lacunas: ninguém sabe o motivo do sequestro, nem o paradeiro do sequestrador. Sequer a presença dos avós da criança esclarece, muito menos a polícia… Claro, é uma opção autoral, mas uma opção interesseira, que tem a serventia de enfatizar o lado simbólico da situação.

z olhando a claraboia e imaginando o mundo lá fora

Ao espectador atento não deve ter escapado que Jack só supera o trauma de seu confinamento na ausência da mãe. Naquele momento em que ele declara o seu amor à avó, sente-se que deu adeus ao país chamado `Room´. Nem precisava o adeus do desenlace. Também é interessante que o ponto de vista narrativo seja o de Jack (e não o da mãe). É a ele que é dado mais tempo de tela, e até a narração em voz over (supostamente onisciente) é dele. Dentro dessa lógica é que nós, espectadores, permanecemos, na primeira metade do filme, também confinados no quarto e só divisaremos a paisagem lá fora no instante futuro em que Jack a divisar.

As sequelas de Jack são basicamente psicológicas, mas há um traço físico que traz do confinamento: os cabelos longos que, mais tarde, serão cortados e presenteados à mãe, para lhe dar força. Agora de cabelos curtos, Jack está pronto para enfrentar e vencer esse segundo Mundo, paralelo a Room.

Cá comigo, fico imaginando qual terá sido o destino da nossa Amorosa. Se enfrentou e se porventura venceu o nosso Mundo não sei, mas que sua estória também dá filme, dá. Atenção, cineasta paraibanos!

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

Trumbo

4 fev

 Fui ver “Trumbo – Lista negra” (2015) e me envolvi tanto na estória que – pecado de crítico – nem me importei de decidir se o filme era bom ou não era.

Ocorre que sou apaixonado pela década de cinquenta, adoro estórias dos bastidores da era clássica, e me interessa muito o tema do Macarthismo… Pronto: minha rendição ao filme foi total.

Falando sério, o filme de Jay Roach conta a vida de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas que a Meca do Cinema conheceu. Não a vida toda – somente aquela fase, de 1947 em diante, quando ele passou a ser vítima da “caça às bruxas” e entrou no rol da “Lista negra de Hollywood”.

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Como muita gente boa do show business americano da época, Trumbo havia feito parte, lá pelos anos trinta, do partido comunista, e agora, finda a Segunda Guerra, e com o advento da guerra fria, todo esse pessoal “de passado suspeito” passou a constituir uma ameaça ao sistema americano. Pelo menos era o que achava o reacionário senador Joseph McCarthy e todos os seus seguidores, que não foram poucos, no país inteiro. De repente, Hollywood virou um antro de “vermelhos” que, pela magia do cinema, “queria disseminar o pensamento comunista e corromper a população”. A paranoia foi tal que a própria Hollywood começou a se auto-censurar, como se fosse culpada antes de qualquer acusação.

Formado o “Comitê de atividades anti-americanas”, figuras importantes do mundo do cinema foram intimadas a comparecer a Washington, para depor sobre o seu eventual passado esquerdista, e pior, para limpar-se através da denúncia de colegas.

Intimado, Trumbo compareceu, ironizou o Comitê, e não deu outra: foi preso e, mesmo depois de solto, ficou proibido de trabalhar. É claro que não parou de trabalhar, só que a partir daí, seus roteiros passaram a ser assinados por ´testas de ferro´, pessoas que ganhavam os créditos sem ter escrito nada. Tudo isso às escondidas de todos, exceto de sua família, que, sem alternativas, ajudava bravamente na forçada “farsa”. Nessa atividade de roteirista fantasma, Trumbo chegou a arrebanhar dois Oscar, por “A princesa e o plebeu” e por “Arenas sangrentas”, com os nomes respectivos de Ian MacLellan Hunter e Robert Rich.

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Contratado em sigilo por um produtor menor, Frank King, Trumbo escreveu dezenas e dezenas de roteiros que foram às telas em filmes de baixa categoria. Com isso, manteve o padrão de vida a que estava habituado, embora amargurado com o anonimato e a irrelevância do que fazia.

Sua volta por cima só vai acontecer no final da década, quando é contratado diretamente por Kirk Douglas para bolar o roteiro de “Spartacus” (1960) e, para espanto de todos, tem o seu nome posto nos créditos do filme. Praticamente ao mesmo tempo, o cineasta Otto Preminger faz o mesmo: põe seu nome nos créditos de “Exodus” (1960).

Ótima é aquela cena de noite de Natal, na casa de Trumbo, em que ele recebe a visita de Preminger e os dois, numa sala reservada, vão acertar a roteirização de “Exodus”. De repente, alguém toca a campainha e é Kirk Douglas, para acertar a roteirização de “Spartacus”. Preminger não sabe de Douglas e vice-versa e, assim, Trumbo os mantém em salas separadas, e os dois ficam se entreolhando de longe, desconfiados. Claro que Trumbo, que não é besta, aproveita a competição para sugerir o seu nome nos créditos dos dois filmes.

Evidentemente os inimigos de Trumbo não eram apenas o pessoal de McCarthy. No seio da Meca houve toda uma gama de ´americanistas´ que levantaram a bandeira da repressão. Dois dos mais radicais foram a colunista social Hedda Hopper e o ator John Wayne. Impagável é a cena do embate público entre o herói valentão dos faroestes e Trumbo, este jogando umas verdades na carranca do outro e, em seguida, tirando os óculos, para receber o devido bofetão.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Contudo, ninguém pode ter sido mais ferino que Edward G. Robinson, que era amigo de Trumbo, o ajudara em circunstâncias anteriores, e, de repente, vai ao famigerado Comitê e declina o seu nome.

Eu disse que não pensei na qualidade do filme. Uma coisa é certa: trata-se de um filme feito para cinéfilos. Talvez exclusivamente para cinéfilos. Você não vai gostar, se não souber quem são os personagens da estória e a importância que eles tiveram no cinema clássico. Um exemplo: se a cara larga de Edward G. Robinson não lhe é familiar das dezenas de filmes noir que ele protagonizou, a cena do conflito ético entre ele e Trumbo perde metade da força. Ou a força toda, se porventura você nunca ouviu falar de Dalton Trumbo.

Diretas ou indiretas, as referências aos filmes da época pululam e deixam o cinéfilo tonto. São cartazes em paredes, menções nos diálogos, ou mesmo cenas projetadas, em suma, tudo o que a gente viu na tela, e amou, muito tempo atrás.

Mas, atenção, também está lá o que a gente nunca viu. Por exemplo: aquela cena preto-e-branco inicial em que, aparentemente, se mostra um certo filme noir sendo rodado, com Edward G. Robinson no elenco, Trumbo como roteirista, e Sam Wood na direção, com personagens chamados de Rocco e Manny. Esse “filme” nunca existiu e a falsa cena de arquivo foi inventada de propósito para confundir os cinéfilos da vida. Eu mesmo gastei energia e memória para identificá-la, até perceber o engodo.

Aliás, o filme inteiro brinca com esse recurso de ´encenar´ o passado em preto-e-branco, como se fosse documental. Como algumas cenas são, de fato, de arquivo, o espectador aceita as falsas como verdadeiras. Fique atento a isso. E às vezes, a coisa é em cores mesmo. Lembram do trecho da arena em “Spartacus”? Pois é, parte dele é o filme de Kubrick mesmo, parte é encenação com o ator Dean O´Gorman no lugar de Kirk Douglas, sendo golpeado pelo seu rival de arena. Em cinema, a técnica do campo contra campo permite essas mágicas.

E por falar em atores, fico pensando no trabalhão que deve ter tido a produção para encontrar um elenco parecido com os personagens. Quem poderia ter o tipo físico do Duke? Ou a cara de Kirk Douglas? Helen Mirren até que encarna a contento a venenosa Hedda Hopper e Bryan Cranston – concorrendo ao Oscar – faz bem o personagem-título.

Se gostei? Vou ver de novo.

John Goodman como o produtor Frank King.

John Goodman como o produtor Frank King.

 

Carol

20 jan

Com seis indicações ao Oscar, está em cartaz na cidade e no mundo “Carol” (2015), filme de Todd Haynes, com Cate Blanchett no papel-título.

O filme é baseado em livro de 1952 de Patricia Highsmith, mas vamos por etapas. No comecinho dos anos cinquenta a jovem escritora Patricia Highsmith ainda era uma ilustre desconhecida. O seu romance de estreia  “Strangers on a train” (´Estranhos em um trem´, 1950)) mal fora notado pela crítica e pelo público. Esse anonimato, porém, não durou muito. É que no ano seguinte, essa estória de crimes trocados foi filmada por ninguém menos que Alfred Hitchcock. Pronto: a fama estava feita. A partir daí, Highsmith tornou-se uma das escritoras mais lidas nos Estados Unidos, com direito a entrevistas à imprensa e palestras universitárias. Hitchcock apenas abriu o caminho, pois, os estúdios ficaram de olho nos escritos de Highsmith e, com o passar do tempo, muitos de seus livros foram à tela, alguns até mais de uma vez, como é o caso de “The talented Mr Ripley”, que deu o filme de René Clément “O sol por testemunha” (1960) e o de Anthony Minghella “O talentoso Mr Ripley (1999).

Tudo começou numa loja de departamento

Tudo começou numa loja de departamento

Houve, contudo, um livro seu que ninguém quis filmar. Pelo menos, por muito tempo. Publicado em 1952, chamava-se “The price of salt” (ao pé da letra: ´o preço do sal´) e, diferente dos outros, não tratava de crimes perfeitos. Ao contrário, era uma forte estória de amor, para a época, nada convencional. Semi-autobiográfico e assinado com o pseudônimo de Claire Morgan, o livro narrava o relacionamento amoroso entre uma jovem atendente de loja de departamento em Nova Iorque, e uma senhora de meia idade, classe média alta, que, com uma filha pequena e um marido possessivo, vivia um casamento infeliz. Provavelmente por causa da temática lésbica, o livro hibernou com a pecha de ´infilmável´, mesmo depois da abolição da censura. E certamente ainda estaria hibernando, se o cineasta Todd Haynes não lhe tivesse posto os olhos.

Na bem cuidada adaptação de Haynes, o caso de amor entre a jovem Therese (Rooney Mara) e a elegante senhora Carol (Cate Blanchett) é descrito com delicadeza e sem muito apelo sexual. Concebida com bom gosto, a única ´cena de cama´ com as duas mulheres é mais poética que erótica, e as duas atrizes, nela e no filme inteiro, dão desempenhos convincentes e tocantes. Nos anos cinquenta, o romance de Highsmith foi considerado muito ousado, não apenas pela temática, mas, principalmente pelo seu final feliz, que parecia aplaudir a relação lésbica, atitude então inconcebível. Com a tranquilidade (?) de hoje em dia, depois de todos os movimentos LGBT, o filme segue a felicidade do final literário, o que, na sessão em que assisti, arrancou aplausos da platéia.

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

A rigor, não há um grande enredo, ou enfoque original, que justifique algum destaque especial para o filme de Haynes, porém, há qualidades inegáveis que fazem parte do estilo do diretor. Uma delas é a reconstituição de época, em que Haynes é sempre bom, sobretudo, quando a época são os anos cinquenta. Lembram de “Longe do paraíso” (2002), onde ele refilma o “Tudo o que o céu permite” de Douglas Sirk? Em “Carol” a reconstituição é tão perfeita que acho que nem precisava aquela ´marcação visual de tempo´ pela imagem de “Crepúsculo dos deuses” (1950), entrevisto em certo momento só para dizer que estamos nos anos cinquenta.

De minha parte, o de que mais gostei foi a discreta mas comovente homenagem a David Lean e o seu insuperável “Desencanto” (“Brief encounter”, 1946).

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Sim, para quem tem bons olhos, “Carol” assume a estrutura narrativa do filme de Lean – começando a estória do casal apaixonado pelo final e a esse final retornando, pouco antes do filme se concluir, reencenando uma mesma situação diegética: em despedida dolorosa, em local público (restaurante), o casal desfruta dos minutos fugazes em que deveriam estar a sós nesse derradeiro instante de privacidade, e, para desolação geral, é interrompido por um amigo inconveniente que aparece do nada e destroi completamente o clima. Até o toque da mão daquele que parte (aqui Carol, em Lean, Dr Harvey) sobre o ombro daquela que fica (Therese/Laura), digo, até isso foi encenado para que o espectador cinéfilo não tivesse dúvida sobre a homenagem prestada.

A homenagem também é interessante por sugerir igualdade entre o amor hetero e o homo, mas, por ironia, “Carol” sai, inevitavelmente, perdendo em emoção no cotejo com “Desencanto”. Não é culpa de Haynes: qualquer outra estória de amor moderna perderia para o filme de Lean.

Como disse, “Carol” não é nenhum grande filme que mereça algum tipo especial de destaque, porém, ao meio da parafernália desmedida e barulhenta que assola nossas telas, merece uma espiada. Sem violência, escatologia ou efeitos especiais, é um filme ´adulto´, no sentido simples em que esta palavra é antônima de ´infantil´.

Carol: um casamento em crise

Carol: um casamento em crise

Grandes olhos

22 maio

 

Perdi “Grandes olhos” (“Big Eyes”, 2014) quando de sua estréia nos cinemas locais, e só agora o vejo em DVD, esse meio que diminui o tamanho de todos os olhos.

Acho que a primeira coisa a ser dita é que se trata de um Tim Burton diferente, espécie de ´odd man out´ na sua filmografia, um filme sem a obsessão gótica que o persegue, salvo talvez nas estranhas imagens oculares do título.

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E nem por isso é, como querem alguns, um filme descartável. Ao contrário, pode ser visto com interesse, e até mesmo com entusiasmo, principalmente por quem, de uma forma ou de outra, está ligado aos seus temas centrais, que são dois, não propriamente isotópicos.

O primeiro tema é aquele que pode ser resumido na frase-clichê ´dormindo com o inimigo´ (título de outro filme), e que descreve a situação de mulheres vitimadas pelo casamento. O segundo é pintura.

Sim, o filme conta a estória da dona de casa e pintora americana Margaret Keane, aquela que ficou famosa pelos seus retratos de crianças com enormes olhos negros e brilhantes, assustadoramente tristes, depois imitados ad nauseam por um monte de plagiadores mundo afora.

Amy Adams é Margaret Keane

Amy Adams é Margaret Keane

Mas, como diz a frase-clichê de um de seus temas, o mal começou em casa. Vamos por etapas.

Um dia a ainda diletante Margaret está, modestamente, expondo os seus quadros numa praça em São Francisco, quando conhece um vizinho de vendas que muito a elogia. Walter está vendendo, bem mais caro que ela, pinturas que representam ruas de Paris onde ele teria, supostamente, estudado arte.

Os dois têm um caso e casam. Para resumir, o casamento vira um negócio, extremamente vantajoso para ele, degradante para ela. Como os marchands de então – anos cinquenta – não costumavam divulgar produções de mulheres, ele passa a assinar – com o sobrenome dos dois, Keane – os quadros que ela pinta. Tudo às escondidas, até da filha pequena que ela traz do primeiro casamento.

Quanto mais sucesso ele faz, e quanto mais proveito tira desse sucesso, mais ela se sente mal.

Claro, não demora muito para ela perceber que está dormindo com um trambiqueiro de marca maior, mas o tamanho do trambique aumenta consideravelmente no dia em que ela descobre que sequer as pinturas de Paris eram de autoria dele, o que significava dizer, que ele, a rigor, não pintava coisa nenhuma.

Mais tarde, em júri, isso vai ficar claro, porém, até chegar o ponto de essa mulher rebelar-se, fugir de casa e processar o marido, muita coisa rola, inclusive uma ameaça de morte.

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

O trambiqueiro Walter Keane é feito por Christoff Waltz

Nos casos conhecidos de casamento com violência masculina é comum que o homem vá minando as forças físicas da companheira até um ponto crítico, que pode ser o uxoricídio. Aqui a violência é mais sutil, quase se diria existencial, e, por isso mesmo, mais grave.

O que Walter suga em Margaret é a sua identidade, assinando seus quadros e relatando à imprensa lendas (leia-se mentiras) sobre a origem de suas motivações plásticas. As figuras de crianças de olhos grandes, segundo ele, teriam surgindo das vítimas da Segunda Guerra que ele teria visto na Alemanha, quando –  saberemos mais tarde – ele nunca pisara em solo europeu.

No papel da pintora Margaret Keane, a atriz Amy Adams está muito bem, mas, melhor ainda está esse Christoph Waltz como o marido trambiqueiro, cuja personalidade vai sendo descascada pela narração onisciente (para a esposa e para nós), como se descasca uma cebola, paulatinamente, camada por camada, cada camada uma surpresa a mais… Notem como sua interpretação cavilosa lembra o nazista que ele fez em “Bastardos inglórios” (2009).

Aquele filme com Julia Roberts que tinha a nossa frase-clichê como título (“Dormindo com o inimigo”, lembram?) era completamente ficcional, ao passo que “Grandes olhos”, como se vê, é baseado bem de perto na vida real da real Margaret Keane.

Tanto é assim que o desenlace favorável à protagonista – aquele campeonato de pintura no tribunal do Havaí, que mais parece cena de comédia hollywoodiana para sessão da tarde – não é nenhuma licença poética: aconteceu tal e qual. Para reforçar a veracidade do caso todo, os créditos finais contrapõem fotos dos dois atores principais a fotos dos personagens reais, ambos ainda hoje vivos.

Eu disse que “Grandes olhos” interessa a quem está ligado aos seus temas? Que nada. Interessa a todo mundo.

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

Na foto, a pintora Margaret Keane e a atriz Amy Adams

Esquinas de Jaguaribe

29 nov

Tinha doze anos de idade e já trabalhava. Seus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a ele cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de seu corpo franzino lhe dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que lhe jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que lhe garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer seus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a sua mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Seu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ele ser aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebeu isso, ele mais se aplicou, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o seu direito de ir a cinema quando quisesse. Sua mãe era neutra, e seus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos 500 ou 800 réis que pagavam o ingresso.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e se mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando lhe incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema à sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era ele, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto ele, ávido de meter-se tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao seu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso lhe custava o peso das sacolas carregadas.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de sua modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, sua irmã mais velha, casada e residente em Sta Rita, aparecera e lhe pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir aos três.

Circos, lapinhas, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para ele, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Moreira Franco.

O cartaz de "Orgulho e paixão",

O cartaz de “Orgulho e paixão”,

Eles vivem na noite

6 out

Semanas atrás, dei início, neste blog, à visitação do chamado cinema “noir”. Fiz uma matéria introdutória sobre este curioso gênero cinematográfico e analisei um exemplo.

Hoje o meu comentário vai para um filme que tem, em português ao menos, um título emblemático do gênero: “No silêncio da noite” (“In a lonely place”, 1950). Não vou citar aqui quantos filmes noir têm a palavra ´noite´ no título, mas são muitos – sugerindo que estamos num cenário urbano de metrópole, cheio de seus conhecidos, ou desconhecidos, perigos.

É dentro do cenário urbano de Los Angeles que esse roteirista de Hollywood, blasé, cínico e explosivo, se envolve com o perigo. Sem saco para ler o romance que o seu agente quer adaptado para a tela, ele convida uma mocinha ingênua, a chapeleira dos estúdios, para ir a sua casa e lá passar o resto da noite, lhe contando o enredo do tal romance.

Um dos cartazes do filme

Um dos cartazes do filme

A tarefa é cumprida, porém, no dia seguinte vem a notícia: no caminho de casa, a moça fora barbaramente assassinada, e, obviamente, o principal suspeito passa a ser o roteirista, que, intimado à delegacia, só não é preso porque uma desconhecida, sua bela vizinha do lado, testemunha em seu favor.

E o lucro do testemunho não é só este: o roteirista e a bela vizinha passam a viver um intenso caso de amor, tão intenso que tem o poder de aparar as arestas cínicas e violentas da personalidade do roteirista.

Quando o filme está para virar uma love story de final feliz, vêm os elementos noir. Insuflado por pequenos incidentes, o caráter explosivo do temperamento do roteirista volta à tona e começa a colocar dúvidas no espírito de sua companheira: será que o autor do crime da jovem chapeleira (afinal nunca desvendado) não teria sido ele mesmo? Os seus sucessivos rompantes não indicam algo assim?

Misturando esses ingredientes, digo, drama amoroso e mistério policial, o filme nos mantém presos à tela… até o final, que não vou contar.

Quem faz o roteirista explosivo Dixon Steele? Tinha que ser Humphrey Bogart, em uma de suas  melhores caracterizações; e a charmosa vizinha Laurel Gray é a loura Gloria Grahame, provavelmente em seu melhor desempenho.

Gloria Grahame e Humphrey Bogart em cena do filme

Gloria Grahame e Humphrey Bogart em cena do filme

Mesmo cabendo dentro do conceito de noir, “No silêncio da noite” – não há como negar – é um filme de personagem, na medida em que o seu conflito básico depende da natureza explosiva de Dixon. Quase todo seu, o ponto de vista narrativo, de fato, o exime do crime em questão, porém, o seu comportamento descontrolado em momentos de fúria o tornam, para os outros, o suspeito ideal.

Assim, de alguma maneira, o misterioso assassinato da jovem chapeleira soa, no final das contas, como uma espécie de ´macguffin´ – naquele sentido que a palavra tem de designar ´um mero pretexto para que o enredo se desenvolva´. Sem ele, o temperamento de Dixon seria apenas desastroso; com ele, passa a ser trágico.

Nesse aspecto, o desenlace é sintomático – depois de agredida pelo companheiro, num nível de violência em que o afeto é ferido para sempre, ao receber da polícia, o telefonema que o inocenta, Laurel comenta quase de si para si: “algumas horas atrás esta notícia teria feito toda a diferença – agora mais não”. E o próprio Dixon, que a escuta dizer isto, sabe que é verdade.

O diretor Nicholas Ray

O diretor Nicholas Ray

Do diretor, o grande Nicholas Ray, se dizia ser o cineasta que encenava “a poesia do homem ferido”. Aqui pode-se muito bem mudar a palavra ´homem´ por ´mulher´. Digo isto porque, com sua carga de violência e negatividade, o cinema noir traz a má fama de ser ´cinema para homem ver´. Não sei se isto é verdade. Pelo menos de “No silêncio da noite” posso dizer que é um filme que as mulheres podem amar. Não vou contar detalhes, mas, afinal de contas, seu desenlace é uma epifania feminina… e não masculina.

Para quem não lembra, Nicholas Ray fez alguns dos grandes clássicos da frutífera década de cinquenta, nem todos noir, mas talvez com o mesmo tom pessimista, casos, – para citar apenas os mais conhecidos – do faroeste sombrio “Johnny Guitar” (1954), do drama juvenil “Juventude transviada” (1955) e da ficção antropológica “Sangue sobre a neve” (1960).

Aliás, noir prototípico, o seu filme de estréia, em 1948, (no Brasil: “Amarga esperança”) tem, no original, o título que melhor define o gênero: “They live by night” – ´Eles vivem na noite´, que peço emprestado para denominar esta matéria.

Grahame, Bogart e Ray no set de filmagens de "No silêncio da noite"

Grahame, Bogart e Ray no set de filmagens de “No silêncio da noite”