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Para literatos?

25 out

posterNo território literário, quais são os limites entre best-seller e obra prima? No começo do Século XX, uma editora americana, a Scribner, teve um papel importante na busca do equilíbrio entre uma coisa e outra.

Mas, se Editora hoje é algo impessoal, naquele tempo era o dono, em pessoa, quem lia os originais enviados por jovens estreantes e quem decidia o que poderia porventura trazer, para a editora, não apenas dinheiro (os best-sellers), mas também prestígio (as obras primas).

Foi Max Perkins, o dono da Scribner, quem descobriu e lançou, por exemplo, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, e foi ele também quem descobriu Thomas Wolfe.

É o que está contado no filme “O mestre dos gênios” (“Genius”, 2016, do novato Michael Grandage), em exibição na cidade. Baseado na biografia do editor da Scribner, “Max Perkins – editor of genius” (Scott Berg, 1978), o filme deixa um pouco de lado a vida do biografado para centrar-se no seu relacionamento com Wolfe, desde o dia em que este lhe envia os originais do seu livro “Look homeward, angel” (1929), até o seu passamento precoce em 1938.

Hemingway e Fitzgerald têm direito a algumas cenas, mas poucas. Com sua avalanche de palavras, tanto as escritas quanto as faladas, Wolfe é o onipresente, avassalador e sufocante protagonista. Na primeira leitura dos originais, Perkins já constata o seu valor e, no íntimo, sem sequer conhecê-lo, decide lançá-lo na praça. Sua escrita inaugurava esse gênero em que, de uma maneira poética e mágica, se misturam ficção e autobiografia.

Colin Firth e Jude Law, editor e escritor

Colin Firth e Jude Law, editor e escritor

Ao conhecê-lo, o fascínio de Perkins pelo livro estende-se ao homem que – sintomaticamente – autodefine-se como um Caliban. Para quem não lembra, ou não sabe, Caliban, figura disforme que a todos assusta, ou fascina, com a sua selvageria, é o monstro que habita a ilha distante em “A tempestade” (“The tempest”, 1611), a última peça que William Shakespeare escreveu.

Do dia para a noite, com o empurrão da Scribner, eis que Thomas Wolfe vira o escritor mais lido no país, ultrapassando os já consagrados Hemingway e Fitzgerald, os quais Wolfe passa a esnobar. Uma cena sintomática é aquela do malfadado encontro entre Wolfe e Fitzgerald (este em crise de criação e com a esposa, Zelda, doente) em que os dois se acusam, respectivamente, de concisão doentia e prolixidade exibicionista.

Se Fitzgerald é mesmo conciso, fica a discutir, mas a prolixidade de Wolfe é quase um tema no filme. Seu primeiro livro, o já citado “Look Homeward, angel”, é “podado” de muitos trechos pelo próprio Perkins, isto para não falar de seu próximo livro “Of time and the river” (1935), cujos originais foram entregues a um Perkins escandalizado, com nada menos que cinco mil páginas. Esse papel de “podador” de Perkins é o que o torna uma espécie de co-autor de Wolfe, e é o que dá um sentido duplo à palavra “editor” na biografia, já citada, de Scott Berg. Aqui podar não é censura, mas partilha.

No filme, a história toda, apesar das pausas literárias (vide adiante) é narrada com fluência e as interpretações são seguras. Colin Firth desempenha o papel do sempre fleumático editor Perkins, Jude Law faz o convulsivo Wolfe, e Nicole Kidman desempenha a ciumenta e tresloucada amante do escritor em ascensão.

Nicole Kidman é a amante tresloucada de Thomas Wolfe.

Nicole Kidman é a amante tresloucada de Thomas Wolfe.

Acho que posso dizer que estamos diante de um bom filme, cujo problema – se é que há um – seria o seu assunto. No extremo, seria um filme para literatos. Sim, é provável que o espectador culto o ame, porém, tenho dúvidas se o amará o espectador comum. Pior ainda, para o espectador brasileiro que, seguramente, desconhece a obra de Thomas Wolfe (não confundir com o atual Tom Wolfe), praticamente nunca traduzida para língua portuguesa.

Com certeza, uma das queixas do espectador comum será o número de recitações dos trechos dos livros de Wolfe, nas vozes on, off, ou over dos personagens, trechos longos que retardam a narração e tornam o filme – se for o caso – monótono.

Esse excesso de verbalidade, numa arte essencialmente icônica como o cinema, pode incomodar, mas, por contraste e ironia, ressalta o valor das imagens. Um pequeno exemplo: prestem atenção à indumentária do Sr Max Perkins – o símbolo do seu indefectível fleumatismo (em contraste com as convulsões ruidosas de Wolfe) está no seu chapéu, que ele nunca tira da cabeça, ao longo do filme inteiro… exceto no desenlace, quando, tomado pela emoção (não vou contar tudo) passa a ler a carta a ele enviada por um morto.

Se porventura não fizesse outro efeito, “O mestre dos gênios” já nos deixaria com vontade de ler os longos escritos de Thomas Wolfe.

Thomas Wolfe, o próprio.

Thomas Wolfe, o próprio.

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Marguerite

4 jul

Um dos melhores itens da atual versão do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, “Marguerite” (Xavier Giannoli, 2015), filme por sorte ainda em cartaz entre nós.

Contando a estória dessa milionária que pensa saber cantar, o filme é excelente em todos os níveis. Da reconstituição de época (a França dos anos 1920) à interpretação da atriz Catherine Frot, tudo é perfeito e nos convence de que o cinema francês, superados há muito os arroubos vanguardistas dos anos sessenta, vai muito bem, obrigado. E vai mesmo.

Sem dúvida, o grande mérito do diretor Giannoli é saber lidar com o patético, sem ser patético. Sua protagonista, Marguerite Dumont, nos cativa desde o início, e, se rimos dela, não o fazemos sem pena ou constrangimento.

Marguerite poster

Sua estória, a rigor, é dramática. Irremediavelmente desafinada, Marguerite canta para um grupo de amigos que, por simpatia ou por interesse, a aplaude efusivamente. Só que esses falsos aplausos vão alimentando o seu espírito ingênuo e, de repente, ela passa a namorar a ideia de cantar ópera para um grande público.

Ludibriada por jornalistas de má fé, sua primeira aparição pública – executando a Marseillaise num cabaré anarquista – é um desastre e um escândalo, mas ela não desanima. Até que, devidamente contratado um sempre relutante professor de canto, chega ela à Ópera Nacional de Paris e…

Desmaio em pleno palco, cordas vocais sangrando, hospital, trágica auto-audição… Não vou contar o resto da estória, mas devo dizer “a verdade” (título do último capítulo do filme): que “Marguerite” é, no fundo, uma grande e bela estória de amor. E, coisa rara, uma estória de amor entre marido e mulher.

Narrado com fina elegância, o filme é francês jusqu´au coeur, e contudo, suas origens estão, curiosamente, do outro lado do Atlântico, sim, nos Estados Unidos.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

A atriz Catherine Frot no papel-título.

Visivelmente, a inspiração para a construção da personagem de Marguerite veio da vida estabanada de Florence Foster Jenkins, socialite americana que, nos anos 20/30, sonhou em ser cantora e, desafinada ao extremo, pagou caro por isso. A propósito, a estória de Florence está em outro filme recente, que deveremos ver brevemente, dirigido por Stephen Frears, com Meryl Streep no papel-título.

Além disso, o nome dado à protagonista é, assumidamente, uma variante de Margaret Dumont, aquela atriz hollywoodiana que serviu sempre de ´escada´ para as peripécias dos Irmãos Marx em muitas boas comédias malucas dos anos trinta. Se vocês lembram bem filmes como “Uma noite na ópera” e tantos outros, uma personagem com o mesmo perfil ingênuo e alienado da nossa Marguerite de agora.

Mas, as relações de “Marguerite” com o cinema americano vão mais fundo. Vendo-o, impossível não lembrar dois grandes filmes que marcaram a história da Hollywood clássica, e que nele funcionam como intertextos enriquecedores. Refiro-me a “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) e “Crepúsculo dos deuses” (Billly Wilder, 1950).

Se confrontarmos bem, a situação diegética da nossa Marguerite é semelhante a de Susan Alexander, a segunda esposa de Charles Foster Kane, aquela que ele quer, por fim e à força, transformar em uma grande cantora lírica, e não consegue. Em “Kane” a busca do sucesso nos palcos é mais do marido que da esposa, mas, mesmo assim, a similaridade persiste. Notar como a presença de pavões e outros bichos na mansão Dumont sugere a vasta fauna no castelo Xanadu dos Kane. Aliás, ambos os filmes se inspiraram na mesma figura verídica, a Florence Foster Jenkins já citada, como se percebe do segundo nome do personagem Kane.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

Uma estória de amor entre marido e mulher.

A outra figura que Marguerite inevitavelmente lembra é a Norma Desmond de “Crepúsculo dos deuses”, diva do cinema mudo que, agora, no falado, pretende voltar às telas do mundo e abafar, uma mulher obcecada pelo sucesso, com o mesmo nível de alienação e, no final, a mesma entrega descontrolada ao puro delírio psicopatológico.

Em “Marguerite” o paroxismo do delírio aparece nas gravações feitas com a paciente, no hospital, enquanto que em “Crepúsculo”, ele é predominantemente plástico, como está em sua cena final. Norma já fora estrela, e Marguerite nunca, mas, de novo, isto não diminui a semelhança. Um reforço ostensivo dessa semelhança – com toda certeza, proposital – está na presença ubíqua do mordomo negro em “Marguerite”, com sua dedicação cega à patroa, a mesma dedicação do mordomo à Norma Desmond do filme de Billy Wilder.

Claro, “Marguerite”, o filme, não precisa desses intertextos cinematográficos para funcionar, porém, com eles no subconsciente do espectador cinéfilo, funciona muito melhor.

Filmaço, que recomendo.

Inúteis aulas de canto para Marguerite...

Inúteis aulas de canto para Marguerite…

O grande Gatsby

12 jun

Calculo que “O grande Gatsby” seja um dos romances mais conhecidos da juventude americana, talvez o mais. Junto com “As aventuras de Huckleberry Finn” e “Moby Dick”, é, com freqüência, um dos livros constantes no programa do High School lá deles.

Por ter feito curso de Letras, para mim também o livro de Scott Fitzgerald é extremamente familiar: estudei-o na graduação, e, mais tarde, na condição de professor, ensinei-o várias vezes na mesma graduação. E não só isso, “O grande Gatsby” é um dos meus romances favoritos, um dos que colocaria entre os meus dez mais.

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Adoro a estória desse nouveau riche desatinado, que constrói um mundo de maravilhas materiais, só para repetir o passado, ou seja, só para voltar a ter a mulher que um dia, cinco anos atrás, fora sua. E isto contado por um narrador de primeira pessoa que o conheceu em sua aventura final.

A própria condição histórica do romance de Fitzgerald me interessa. Foi publicado quatro anos depois do ´romance que destruiu o romance´, o “Ulisses” de James Joyce (1922), e, graças a Deus, demonstrou, com sua posterior recepção de crítica e de público, que, apesar de Joyce, o romance tradicional, com começo, meio e fim, não morrera. Outra coisa: o grande protagonista do romance do século XIX tinha sido feminino : Karenina, Bovary, Luisa (de “O primo Basílio”), Hester Pryne (de “A letra escarlate”), Capitu (de “Dom Casmurro”), etc). Com “O grande Gatsby” se introduzia o homem tragicamente apaixonado que se perde pela paixão.

Não conheço a primeira adaptação cinematográfica do livro, a muda de 1926, e se vi a dos anos quarenta (Elliot Nugent, 1949), não lembro. A de Jack Clayton (1974), que vi na época em que li o romance, nunca me convenceu.

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

De modo que aguardei com curiosidade esta versão nova, do Baz Luhrmann. A par do passado fílmico de Luhrmann (“Moulin Rouge”, “Romeu + Julieta”), calculei que iríamos ter um considerável privilégio de plástica, especialmente na combinação entre coreografia, som e movimento.

E temos. Até a primeira meia hora de “O grande Gatsby” (2013) é tanta parafernália, velocidade, dança e delírio sonoro que senti vontade de sair do cinema. Os ´frenéticos anos vinte´ (Cf ´the roaring twenties´) parecem aqui hipertrofiados.

Mas enfim, depois de ficar provado que a megalomania de Luhrmann é do tamanho da do protagonista Gatsby, a coisa toda acalmou-se um pouco mais, e – ufa! – passamos ao lado humano e dramático da estória.

Com relação ao texto original, algumas mudanças foram feitas, mas nada que comprometa o conjunto significativo – em Luhrmann, Nick Carraway é um alcoólico que escreve a estória como uma tarefa psiquiátrica. De todo jeito, esses escritos parecem conter o essencial diegético do livro.

O narrador Nick (Tobey MacGuire) nos conta como, meio por acaso, vai ser vizinho desse magnata (Leonardo DiCaprio) que, em seu palacete de Long Island, oferece festas suntuosas à elite novaiorquina. E como um dia ele, pobre e anônimo, é convidado pelo anfitrião. Logo descobre o que está por trás do convite – Nick é primo de Daisy Buchanan (Carey Mulligan), a amada do passado, hoje casada, que Gatsby pensa reconquistar. A estória toda – que não vou contar – é trágica, porém, a maior descoberta de Nick sobre o seu misterioso vizinho é mesmo de ordem espiritual: a dimensão de sua alma de apaixonado.

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Sim, nos filmes ou no romance – como negar? – Gatsby é um herói à antiga, um incomensurável romântico cuja ideologia gira em torno do coração. É mesmo possível que, com o livro, Fitzgerald estivesse escrevendo o epitáfio do Romantismo, claro, pelos olhos da modernidade, aliás, olhos obsessivamente representados naquele enorme Outdoor onde um monstruoso par ocular espia os personagens e nos espia…  mas, deixo a questão para os críticos especializados.

Apesar da ênfase excessiva na parafernália plástica, no filme de Luhrmann os atores estão perfeitos em seus papéis e o doloroso confronto entre os Buchanan e Gatsby – um ponto alto na escala dramática da estória – é descrito e narrado com competência: o drama flui bem e – ninguém pode negar – os personagens nos parecem de carne e osso. Acho que para o público presente na lotada sessão dominical em que estive, um bom filme.

No mais, pergunto: um filme perdurável? Sei que, de hoje em diante, vai suscitar centenas de teses de mestrado e doutorado sobre o tema da adaptação cinematográfica, porém, o que não sei é se vai permanecer no imaginário do mundo.

Oitenta e sete anos depois de publicado, o livro permanece.

Scott Fitzgerald, autor de "O grande Gatsby" (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Scott Fitzgerald, autor de “O grande Gatsby” (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX