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Cinema armorial

21 dez

Criação de Ariano Suassuna, o movimento armorial já encontrou expressão em modalidades diversas de arte, porém, em cinema, nunca tão bem como nesse “Brincante” (2014), filme que está em cartaz na cidade e no país.

Foi preciso que Antônio Nóbrega – personagem e assunto do filme – e Walter Carvalho, o diretor, entrassem em harmonia perfeita e encontrassem, os dois juntos, o “espírito da coisa”. E quem assiste a “Brincante” não tem dúvidas de que encontraram.

Nele, coreografia, trabalho de câmera, música, fotografia, montagem… tudo está tão caprichosamente combinado que o efeito é deslumbrante para os olhos, para os ouvidos e, sobretudo, para a sensibilidade.

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Ao invés de entrevistar o artista enfocado – como seria a praxe num documentário convencional – Carvalho, mui sabiamente, preferiu pô-lo em ação, performatizando alguns dos quadros de suas peças já encenadas, acrescentando outros que pudessem sugerir um caminho fabulatório, por tênue que fosse esse caminho.

Mas isto, sem se preocupar em ser linear, ou melhor, com o intuito explícito de não sê-lo. De modo que, no filme por inteiro, não é tanto a diegese que vale, mas, ao contrário, sua atmosfera, ou seja, o imaginário, o maravilhoso, o fantástico…

Um de seus méritos é, com certeza, haver tão bem desgarrado o folclore de sua imobilidade mítica e lhe concedido uma vitalidade criativa, aquela que, se já estava no trabalho teatral do protagonista, poderia, se não bem manuseada pela direção, não estar na tela. E está.

Um exemplo entre tantos: prestem atenção ao ritmo do filme, que não vem só do corpo elástico de Nóbrega mas também dos enquadramentos, movimentos de câmera e montagem criativa de Carvalho, uma lição de cinema que evoca as melhores ousadias plásticas dos velhos Busby Berkeley da vida.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Se porventura os quadros cênicos parecem independentes entre si, não o são no espírito e o espectador percebe e, se for o caso, aceita esse jogo desde o início, até porque o elo encantatório é a figura mesma de Antônio Nóbrega esse palhaço, fantoche, mágico, saltimbanco, e tantas coisas mais, que, o que quer que faça, habita sempre o mesmo universo fantasioso que encanta e estimula a imaginação do espectador. Um universo que é nordestino… e não é.

Com efeito, seja como o camelô miraculoso vendendo o elixir que tudo cura ou como o Romeu caipira que vence a morte no diálogo (“de que quero morrer? Eu quero morrer de rir”), a mesma morte que vitimara sua amada shakespeariana; seja o dançarino que – verdadeiro Gene Kelly nordestino – transforma em frevo o folclórico “Ó mana deixa eu, ó mana eu não vou só…”, ou o mestre da ciranda que rodeia o MASP em São Paulo; seja o biográfico professor de dança em atividade didática, ou o espantalho mascarado que corta os episódios do filme como um bruxo assombroso… Seja o que for, faça o que faça, esse Tonheta é, junto com sua companheira Rosalina (a atriz Rosane Almeida, esposa de Nóbrega na vida real) o fator mágico que, em consonância com a mis-en-scène, tudo liga e concede unidade ao espetáculo fílmico.

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Sim, porque aqui espetáculo e filme se confundem – um caso peculiar de um gênero em que nós, brasileiros, nunca fomos muitos bons, o musical.

A propósito da música e da dança no filme (sobretudo, a cena final da ciranda, que une todos os dançarinos num mesmo espaço cênico), o espectador sofisticado pode pensar na troupe medieval de “O sétimo selo” (Bergman), ou nos muitos finais com música e dança em Fellini, porém, a apreciação não necessita desses intertextos, que podem ou não ter ocorrido à produção.

Enfim, um filme delicioso e estimulante, para se ver e rever muitas vezes, e, – um aviso para quem ainda não assistiu! -, não se levantem de suas poltronas antes dos créditos finais, pois estes são um verdadeiro show à parte, digno de uma antologia do gênero.

No momento, não imagino obra mais oportuna para, em qualquer circunstância que seja, oficial ou oficiosa, representar o Brasil lá fora. Sim, – por que não? – deixemos os gringos saberem que, por trás da seca, da fome e da miséria, existe um Nordeste feérico.

Não sei se Ariano Suassuna, falecido neste ano, teve tempo de ver “Brincante”, mas, de minha parte, saí do cinema imaginando, na minha cabeça de cinéfilo rendido, uma cena muito especial: imaginei Ariano, lá no seu céu armorial, assistindo ao filme e aplaudindo… de pé.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Aléssio Toni.

O diretor Walter Carvalho em ação.

O diretor Walter Carvalho em ação.

 

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O sagui, King Kong e a macaca Monga

11 set

Assisti a “Cine Holiúdy” (Halder Gomes, 2013) numa noite de sábado, a sala lotada, com a plateia gargalhando do começo ao fim.

Não esbocei um único riso, porém, cinéfilo com passado, não pude deixar de me lembrar dos velhos bons tempos das chanchadas da Atlântida, quando o cinema brasileiro quase competia em bilheteria com a hegemonia americana. Com a vantagem de então me fazer rir…

Saí do cinema pensando no “fenômeno” que é o filme de Gomes e me ocorreu o seguinte: que o famoso humorismo contemporâneo cearense afinal chega ao cinema. Sim, tinha havido antes Os trapalhões em película, mas isso foi bem antes desse atual boom de humor que assola o Estado de Padre Cícero. Pois é, assistindo a “Cine Holiúdy”, a mim me pareceu estar vendo um comediante cearense desses que estão aí, de repente, sair do palco e dar uma “voadeira” para a tela. (“voadeira” do léxico do cearensês em que o filme é falado, acompanhado de legendas em português).

Ainda bem que fez isso à guisa de homenagem à sétima arte. O enredo é simples: ameaçado pela emergência da televisão nas cidades do interior cearense, o exibidor Francisgleidisson se muda, com a família, para Pacatuba e lá instala o seu pequeno cinema, cuja programação deve, inevitavelmente, competir com a avassaladora nova mídia. Na noite da estréia, com meio caminho andado de projeção, o projetor explode e ele, para não devolver os ingressos, tem que improvisar um plano B em que ele mesmo, de carne e osso, será o astro da noite.

Por causa da temática (digo: a decadência do cinema de rua), é possível que alguém associe “Cine Holiúdy” – mal comparando – ao “Cinema Paradiso” de Tornatore, mas acho que uma má comparação também é possível com “A vida é bela” do Begnini, pelo menos do ponto de vista actancial: um casal com um filho pequeno, e ainda apaixonado (a ´princesa´ de lá é a ´graciosa´ daqui), leva uma vida difícil, com o pai sempre iludindo o filho com estórias fantasiosas.

Uma dessas ilusões paternas é a de que o sagui de estimação da família vá um dia crescer e tomar as proporções gigantescas de King Kong. Por sinal, uma fábula de pai imaginativo para filho sedento de heroísmo que ilustra mais que uma relação afetiva. Notem bem como esse sagui pode ser interpretado como o cinema cearense, na mesma medida em que King Kong pode ser tomado como uma metonímia de Hollywood. O sagui virar King Kong, o que significa isto? Precisa explicar? Aliás, a esse propósito, revejam o desenlace do filme, com a cena da entrevista na televisão (!) estrangeira onde, depois de estrondoso sucesso mundial e agora em inglês correto, o exibidor cearense Francisgleidisson expressa sua alegria e seu orgulho, e, de sobra, corrige a entrevistadora, que erra o nome de sua cidade, Pacatuba. A cena inteira é a licença poética que fez do sagui um King Kong.

cine holiudy 2

Lembro que, numa das gags do filme, o sagui doméstico, sem mais nem menos, se transforma na macaca Monga – o que, afinal de contas, já é um índice de sua vocação para o crescimento.

Tive a chance de, antes de ver “Cine Holiúdy”, assistir ao premiado curta “Cine Holiúdy: o artista contra o cabra do Mal” (2004) que deu origem ao longa em cartaz e pude observar alguns dos procedimentos da transformação. Claro, acrescentou-se um pouco de enredo novo, mas o grande enchimento de lingüiça foi mesmo com mais personagens e muitas gags. Algumas boas (por exemplo: a do ´nada consta´ na repartição pública, ou a das exigências burocráticas para o pequeno empresário no tempo da Ditadura, ou, a do escorpião capaz de furar pneu de automóvel, ou ainda, o cuidado do marido para que a médica não use o martelo nos olhos da esposa); outras nem tanto (por exemplo: o homossexual dizendo à moça que ´se gostasse de coisa feia, andava com filhote de urubu debaixo do braço – uma tirada horrivelmente manjada; outra piada batida é a dita do projetor quebrado por um espectador: “o problema é de junta: junta tudo e joga no lixo”).

Em alguns casos a gag ganha estatuto de número de ´stand up comedy´, como aparenta na relativamente longa cena em que o pai explica ao garoto como se pode falar línguas estrangeiras – chinês, francês ou alemão – usando a fruta macaíba na boca, isto sem esquecer de dizer que os estúdios Disney importavam a fruta nordestina para as tais cenas “trogloditas” (leia-se: poliglotas).

Outra forma de rechear foram os acidentes ou fatos paralelos que, se não existissem, não fariam falta à estrutura básica da narrativa. O pastor curando um paraplégico é um caso, como também o do garoto pobre que é forçado a engolir um falso toddy; o flashback cinematográfico mentiroso de Francisgleydisson, contado ao filho, pode ser outro caso, bem como os pesadelos de Graciosa, tão recorrentes ao ponto de levá-la ao médico. Às vezes há pequenas excrescências que não levam a nada, como, na despedida da família, o amigo que fica esmurrando Franiscgleydisson, com o desafio ´tu gosta de porrada, né?´ ou, ainda, aquele dono de bar que tempera a comida com o suor que lhe cai do corpo.

Um elemento que o curta tem mais que o longa é o que vou chamar de “estudo de recepção”: vejam o que acontece quando “o filme dentro do filme” termina (e “o filme dentro do filme” naturalmente inclui o show de artes marciais do projecionista na frente da tela): os espectadores, assimilando o que viram, saem do cinema imitando os personagens, os ficcionais e o real, ou seja, saem dando socos uns nos outros, ou no ar. Ora, no curta isto é feito de modo bem mais sistemático e com mais efeito cômico.

Os personagens de “Cine Holiúdy” são, naturalmente, caricaturescos e nem sempre reproduzem os tipos da cidade pequena dos anos setenta. Se, por exemplo, o prefeito foi construído com certo grau de ´realismo´ estereotipado, a figura do padre assume mais o escrache que define o estilo do filme.

Com tanta gente na tela, a direção de atores deve ter sido um sufoco, mas, com certeza, o resultado neste particular foi bom, ajudado pela agilidade da montagem, sobretudo durante a sessão no cinema, quando se corta, o tempo todo, da tela ou palco para closes da plateia. Um único ator mal dirigido acho que foi mesmo o menino rico, o dono da bola de futebol e da tv telefunken 12 polegadas, sempre artificial na interpretação de seu personagem e pior (problema de roteirização), falando difícil, usando os verbos no futuro (teremos, veremos); de qualquer forma, os outros estão tão bons que o apagam.

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Por que o gênero do Cine Holiúdy tinha que ser lutas marciais? Em dado momento o proprietário Francisgleydisson ainda coloca o rolo de um ´filme de amor´, mas os protestos da plateia são unânimes e ele é obrigado a voltar ao Karatê de sempre. Uma alternativa de explicação está em que, de fato, na década de setenta – época em que a estória se passa -, com a freqüência de cinema em baixa, os filmes de karatê tomaram conta das telas brasileiras, e o Ceará com certeza, não ficou de fora; uma outra explicação – talvez somada à primeira – é de ordem biográfica: consta que o diretor Halder Gomes é mestre em lutas marciais e escolheu um ator, Edmilson da Silva, que também as pratica.

Comecei esta matéria lembrando as chanchadas dos anos 40 e 50. Eram comédias tipicamente cariocas, assim como os filmes de Mazzaropi eram comédias paulistas, em ambos os casos, tão recorrentes e codificadas ao ponto de constituírem um gênero. Apesar das eventuais (e sem continuidade!) filmagens da obra de Ariano Suassuna, o Nordeste nunca deu um gênero cômico em cinema, e o espectador de “Cine Holiúdy” pode ser deixado pensando se este é o começo de um. Será?

Ainda que não seja, o filme decididamente tem fôlego próprio. Não me fez rir, mas isso é um problema meu e não dele, tanto é assim que está faturando milhares Nordeste afora e pode repetir a façanha no Sul do país. Para voltar à isotopia animal de seu universo, se não virar um King King, já é pelo menos uma macaca Monga… como – repito – prometido por uma de sua gags já citada.