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Espectadores (1) Joaquim Inácio Brito

1 out

 

Com esta matéria, dou início a um projeto sobre recepção cinematográfica onde pretendo entrevistar, como diz o título, espectadores de cinema. Não críticos, nem cinéfilos, nem profissionais da área, mas apenas espectadores, ou seja, pessoas que adoram assistir a um bom filme e que fazem, ou fizeram, disso um hábito especial, enfim, os chamados amantes do cinema.

Eventualmente, são pessoas que nunca leram um livro de teoria fílmica, que nunca estiveram por trás das câmeras, e que nunca escreveram sobre a sétima arte. E, para quem, no entanto, o cinema tem uma importância – ou influência – avassaladora em suas vidas.

Um dos objetivos do projeto é demonstrar o quanto a recepção cinematográfica é mais complexa, mais rica e mais interessante do que aparenta à primeira vista. Para que as entrevistas pudessem render mais, senti a necessidade de arguir espectadores que já conheço e cujas reações ao cinema – idiossincráticas ou convencionais – me inspirassem questões pertinentes. De tal forma que, não apenas das respostas, mas também das perguntas, pode se deduzir um perfil do entrevistado.

Assim, inicio a série com Joaquim Inácio Brito.

"Casablanca" é um dos filmes preferidos do entrevistado.

“Casablanca” é um dos filmes preferidos do entrevistado.

 

Entre amigos, você é conhecido por não gostar de filmes com final infeliz. No entanto, em enquete que fiz para o Correio das Artes sobre o cânone pessoense de cinema, você escolheu, como os seus três mais amados, “Casablanca”, “Pacto de sangue” e “Tubarão”, filmes que estão longe de um final feliz. Como explicar a contradição?

 

Realmente, não gosto e não assisto mais a filmes com temas tristes, que abordam dissolução de família, injustiças irreparáveis, sofrimento de crianças, isso nem pensar. Agora, os três filmes aqui citados não são tristes. Em “Pacto de sangue” o final é espetacular: o corretor tinha que pagar pelo crime e pagou; Em “Tubarão”, a fera é morta e o sossego volta à praia: Já no final de “Casablanca”, Bogart é acometido de burrice patológica. Deixar Ingrid Bergman ir embora daquela forma. Meu Deus!!!
Acho que se pode dizer que o gênero que você mais ama e conhece é o noir. Há razões especiais para isso? Alguma forma inconsciente, ou talvez consciente, de identificação? Enfim, o que é que o noir tem que os outros gêneros não têm?

 

O filme noir me proporciona 80, 90 minutos de puro deleite. Sem maiores pretensões (nunca um noir ganhou nada, prêmio algum) o filme tem tiro, bandido, detetive, cabaré, loiras belíssimas, sempre com enredos de fácil percepção e entendimento. Veja bem; os críticos em suas variadas análises, afirmam que ele veio do expressionismo alemão, entre outras complicações. Eu adoro filme noir; não sei o que é expressionismo alemão e nem quero saber…

 

Sobre o problema da adaptação cinematográfica você também tem uma posição bem definida: como leitor assíduo e apaixonado da grande literatura universal, você se recusa a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Fale um pouco sobre essa recusa.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

 

Sua colocação é um tanto radical. Não me recuso a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Alguns romances que considero excepcionais, entretanto, prefiro mantê-los como os pintei na imaginação e guardá-los sem a reprodução de terceiros.

 

Muitas vezes você é pego justificando a boa qualidade de uma interpretação, ou de uma música, ou de uma direção, pela conquista que tiveram do Oscar. O prêmio da Academia de Hollywood é importante mesmo?

 

Vários amigos meus, que sabem ler e escrever, esnobavam a Academia Paraibana de Letras sob as mais diferentes justificativas. No entanto, quando convidados para a imortalidade, raríssimos não aceitaram. Guardado o devido tamanho, suponho que o mesmo se verifica com o prêmio da Academia de Hollywood.

 

Em conversa, você demonstra uma invejável familiaridade com música, inclusive, referindo sempre compositores que musicaram filmes. Como você conceituaria a importância que tem a música no cinema? Pode dar exemplos?

 

Vou responder com uma pergunta. O que seria de “Suplício de uma saudade” sem a canção de Alfred Newman “Love is a many-splendored thing”?
Você pertence a uma geração que foi jovem nos esfuziantes anos sessenta, em João Pessoa. Na época, você deve ter frequentado as famosas sessões de quinta-feira do Cinema de Arte no Cine Municipal, projeto da ACCP – Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba. Que lucros retirou dessas sessões e desse convívio?

Nenhum.
Uma característica sua enquanto espectador é o desprezo pelo Cânone. Embora sejam do seu conhecimento as listas dos filmes canonizados pela Crítica Internacional, estes nunca conquistaram sua preferência. De alguma maneira, pode se dizer que você passa muito bem sem os “Encouraçado Potemkin”, “A regra do jogo” ou “Cidadão Kane” da vida. Há algo de proposital nesse desprezo, ou ele é apenas uma reação natural? Comente.

 

Diz o cachaceiro que beber é arte e comer é vício. Diz o crítico que cinema é arte e eu vejo cinema como diversão. Como posso, então, engolir “A Regra do jogo”, “Ladrões de bicicletas”, “A Fonte da donzela”? A Nouvelle Vague, o neo realismo e outros desses monstrengos alimentam sempre o meu bem querer pelo cinema americano das décadas de 40/50. Evoé!

 
Você é do tipo de espectador que elegantemente “dispensa” o cinema que se produz e exibe hoje em dia… Algo a dizer sobre esse aparente ´passadismo´ assumido?

Cena de "Pacto de sangue", citado pelo entrevistado.

Cena de “Pacto de sangue”, citado pelo entrevistado.

 

Vou tentar justificar esse “passadismo”. A violência em excesso, os diálogos sempre chulos, a falta de bons roteiros, os maus atores, dentre outras mazelas, mataram o bom filme. Um óbito assinado há dezenas de anos, sem qualquer tentativa de uma ansiada ressurreição.

 Se não lhe for incômodo, gostaria que citasse sete filmes que você, de coração e mente, recomenda a nossos leitores. Se quiser, pode justificar suas escolhas.

É sempre muito difícil listar os melhores. Ficam os três já citados (“Pacto de sangue”, “Casablanca’ e “Tubarão”) e acrescento três diretores: Alfred Hitchcock, Robert Siodmak e Friz Lang.

Essa relação não elenca vários dos mais importantes diretores do cinema americano. Concorda? Por que a omissão?

Realmente, você está certo. No início da nossa conversa sou apresentado como fã do cinema negro. Já agora, no final do papo, vem a pergunta sobre os melhores filmes que vi. Vou manter a coerência e me ater somente ao noir, excetuando Hitchcock, que é o maior dos diretores. Já Lang e Siodmak são os reis desse gênero: “Os assassinos”, “Baixeza”, “Fúria”, “A dama fantasma”, “Espelhos d´alma”, “Os corruptos”, “Um retrato de mulher”, “A gardênia azul”, “Silêncio nas trevas”, “Dúvida”, entre outros, não me deixam mentir.

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está "Tubarão".

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está “Tubarão”.

No cinema, com Lissianne

27 maio

O pessoal da minha geração costuma ser saudosista e pintar o passado com tons dourados. Para os que são cinéfilos, por exemplo, nada existe hoje que se compare ao movimento cineclubista dos anos cinquenta e sessenta. Embora eu mesmo não escape por completo desses eventuais ataques de saudosismo, às vezes sou levado a constatar que nem o passado era assim tão dourado, nem o presente é assim tão cinza.

Acabo de constatar deslumbrantes tons dourados no presente, que me deixaram entusiasmado e conto a estória.

Fui convidado para ´fazer uma fala´ no encerramento da Mostra Hitchcock, que aconteceu na Estação Cabo Branco, dentro daquela programação chamada de Estacine. O último filme da Mostra foi “Psicose”, exibido com debate neste domingo passado, dia 27 de maio.

Janet Leigh, na famosa cena do chuveiro (Psicose, 1960)

Janet Leigh, na famosa cena do chuveiro (Psicose, 1960)

O auditório do novo prédio Estação das Artes, onde a Mostra regularmente acontece, sempre às 16:00 horas, tem lugar para 115 pessoas, e como estou acostumado a exiguidade da frequência em programas desse tipo, digo, exibindo filmes de arte ou clássicos do passado, supus que, com sorte, falaria para quinze ou vinte gatos pingados. E isso para não dizer que, na minha cabeça pessimista, tendia a diminuir o número de participantes quando me dava conta da distância do local em relação a qualquer ponto da cidade. Para mim mesmo, que não dirijo, o Estação Cabo Branco é ´um fim de mundo´.

Pois é, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a  quantidade de pessoas que, a partir das 15:30, foi adentrando o auditório… Tanta gente que a sessão foi retardada de uns bons quinze minutos, pois não parava de chegar mais adeptos da cinefilia, e a coordenadora Lissianne Loureiro, também ela meio surpresa e aflita, foi obrigada a providenciar novas cadeiras: a sala superlotou e algumas pessoas assistiram ao filme de Hitchcock sentadas no soalho. De modo que falei para cerca de 135 ou 140 pessoas, depois do que deu-se início ao debate.

Pelo que lembro, acho que, mesmo contando com as ocasiões em que fui palestrante em Festivais, nunca falei de cinema para um grupo tão numeroso, e – um detalhe importante para mim – a grande maioria constituída de jovens, alguns quase adolescentes. Muitos deles estavam vendo “Psicose” pela primeira vez e, durante a minha fala, me ouviam com atenção e curiosidade. Confesso que naquela tarde/noite de domingo saí da Estação Cabo Branco profundamente entusiasmado, com a leve impressão de que, malgrados todos os conhecidos fatores desfavoráveis ao cultivo da cultura e da arte, nada está perdido.

Janela Indiscreta (1954), foi outro filme da Mostra Hitchcock

Janela Indiscreta (1954), foi outro filme da Mostra Hitchcock

Mas, como todo milagre se explica, tampouco me escapou o fato de que havia uma força motriz por trás de tanto sucesso. E essa força se chama Lissianne Loureiro, a jornalista e ativista cultural, coordenadora do programa Estacine, este por ela implantado anos atrás, tão bem consolidado que, contando com “Psicose” já exibiu, até agora, exatamente 200 filmes.

Na verdade, eu sempre via nas páginas dos nossos jornais, a programação do Estacine e, ou por comodidade ou porque já conhecia os filmes, nunca havia tomado a iniciativa de comparecer. A convite, compareci no sábado anterior, e depois de ver e ouvir a discussão do filme alemão “A onda”, decidi que aceitaria falar de “Psicose” e Hitchcock.

Pois nesses dois dias no Estação das Artes, pude constatar a importância do trabalho que Lissianne realiza, sua garra, sua vontade de fazer, sua capacidade de trabalho, sua competência e sua paixão pelo que faz. Foi fácil entender que ela, feito uma Quixote enlouquecida, carrega o projeto nas costas, e que – repito – o sucesso por inteiro só pode ser atribuído a sua pessoa.

Rebeca, a mulher inesquecível (1940), outro da Mostra.

Rebeca, a mulher inesquecível (1940), outro da Mostra.

Exclusivamente para o projeto, Lissianne criou uma página no Facebook, que não apenas divulga a programação, como troca idéias com os participantes. Na Estação das Artes, um pouco antes da projeção e/ou depois, Lissianne tem o cuidado de passar, entre os freqüentadores, uma ficha com perguntas sobre dados pessoais, gostos e opiniões sobre cinema – de tal forma que a própria programação tome um rumo mais democrático, eventualmente incluindo sugestões dos espectadores.

Em suma, para mim foi tão importante “descobrir” o Estacine, quanto o foi “descobrir” a sua autora, essa pessoa extraordinária, carismática, empreendedora, irrequieta, criativa, capaz de transformar um mero programa oficial num fenômeno cultural de dimensões bem acima da média.

Fui informado que, de origem, ela vem da Amazônia, residente em João Pessoa há cerca de dez ou quinze anos. Ao ter a informação, lembrei-me do grande Pedro Santos, que também veio daquelas bandas, nos iluminar com o seu brilho.

Bravo, Lissianne, bravíssimo!

Doris Day e James Stewart em O Homem Que Sabia demais (1956)

Doris Day e James Stewart em O Homem Que Sabia demais (1956)

Cidadela sitiada

28 abr

Visitar as dependências do museu Francisco Brennand em Recife é uma experiência estética incomparável, mas, que tal, fazer a visita na companhia do próprio Brennand?

É o que temos no filme-documentário “Francisco Brennand” (Mariana Brennand Fortes, 2012), aqui exibido há pouco no circuito comercial.

São, na verdade, dois espetáculos: o museu, com o ateliê, de um lado, e o seu autor, de outro. E um terceiro, se se quiser, pode ser o próprio filme.

Brennand 1

Do gigantesco museu, mais ateliê, vemos instalações, esculturas, pinturas, desenhos, fotografias, tantos e tão belos que estarrecem, a quem já os viu ao vivo, e a quem os está conhecendo agora – e tudo isso iluminado pelos dotes fotográficos de Walter Carvalho.

Porém, mais que o ceramista, escultor, pintor, tapeceiro, ilustrador, gravador, o homem Brennand quase “rouba” a cena, com sua figura imponente, alta, elegante, barbas e cabelos brancos, de porte meio britânico – para ficar no contexto do cinema pernambucano atual, lembrando o nosso W. J. Solha.

Sim, percorrer essa “cidadela sitiada” (expressão do proprietário para o território rural e olaria que herdou da família e transformou em arte) na companhia desse charmoso e envolvente Brennand é como ouvir um poeta explicando como compôs um poema. É como ouvir Dante (por sinal, uma impressionante escultura no museu) nos revelando como foi que escreveu “A divina comédia”.

Brennand 2

Não que as explicações de Brennand sejam racionais e analíticas. Não, diante dos seus artefatos, o velho Brennand é um viajante imaginativo, quase tão “ingênuo” quanto qualquer consumidor. É impressionante, para espectador do filme, o quanto esse artista maduro e genial se rende perante sua obra, e a usufrui como se não fosse o autor, às vezes (juro!) elogiando-a sem papas na língua, ou simplesmente demonstrando sua sincera admiração com um “que coisa!”. Ou investindo livremente nos seus significados, a estimular o visitante despreparado, como o faz, ao explicar o papel simbólico daqueles estranhos pássaros arredondados que servem de atalaias ao museu.

São nesses momentos mágicos, de relação afetiva e poética entre obra e autor que o filme mais nos cativa e nos faz pensar nos mistérios envolvidos na criação artística. Um caso sui generis de estética da recepção em que o apreciador é o próprio autor.

Por outro lado, ou pelo mesmo, os comentários de Brennand também consistem numa aula de arte, com um amontoado de informações curiosas sobre a construção do museu, ateliê, e tudo mais.

A aposição de uma janela opaca que, no seu ateliê privado, separa o residente Brennand do público visitante e o comportamento desse público diante dessa “janela indiscreta” (mulheres que a usam como espelho, crianças que esfregam os rostos no vidro e espiam o interior doméstico do autor); a lamentação por não haver incluído o título de um poema – “Sinais” – esculpido em uma das paredes do museu; a origem dos azulejos de uma das instalações, etc… São informações que o visitante ao vivo não vai ter, privilégio do espectador do filme.

Que bom ver, com Brennand, suas pinturas abstratas dos anos cinqüenta e compará-las com as mais figurativas dos tempos atuais (aquelas tantas mulheres em poses sensuais, mostrando partes de seus corpos) aprendendo com ele, que: só teve a coragem de passar do abstrato ao realismo depois que começou a esculpir.

Brennand 3

Disse acima que Brennand me lembrou um senhor britânico (o que confere, aliás, com sua árvore genealógica); pois, um detalhe que me chamou a atenção foi justamente a sua formação inglesa, revelada na obra e nos seus comentários dela.

Por exemplo: em uma das paredes do museu está esculpida em tamanho grande, em inglês, uma expressão que certamente parece estranha para o visitante desavisado: “The horror, the horror” grita ela; como sabemos, é a fala desesperada de um dos personagens do romance de Joseph Conrad “Heart of darkness” (`No coração das trevas´), depois repetida num poema famoso de T S Eliot. Isto para não referir duas estrofes inteiras do poema “The ancient mariner”, do também inglês S. M. Coleridge, estrofes assombrosas que Brennand lê para a gente, sem que a câmera as mostre.

Por falar em câmera, curiosa mas discreta, esta acompanha o protagonista com admiração e respeito, aceitando seu jogo e sua generosidade de anfitrião. O que não quer dizer que, ao percurso pelo museu e ateliê, não se intercalem cenas imaginárias, contando episódios fantasiosos, aparentemente retirados dos diários privados de Brennand ou de suas ficções, uma forma conveniente e poética de fugir ao meramente biográfico. E vejam que a biografia poderia ter prevalecido, já que a produtora, roteirista e diretora Mariana Brennand Fortes é neta-sobrinha do protagonista, e rodou o filme em homenagem aos 85 anos do ilustre tio-avô, até então uma figura sempre silenciosa e isolada em seu ateliê, um misantropo que agora, surpreendentemente, se abre para a tela.

Aliás, creio que o mais biográfico a que se chega é a leitura, logo no início do filme, que faz Brennand de uma carta, datada dos anos setenta, em que o missivista elogia e incentiva o jovem artista a ir em frente; por um momento, o espectador pensa tratar-se de um estranho: era o pai do destinatário, mais tarde rapidamente entrevisto em cópias de películas antigas, provavelmente filmadas em Super 8.

Quem tem direito a um túmulo, no templo sagrado de Francisco Brennand, é o pintor Paul Gauguin, porém, meu Deus do céu, quantos ecos literários, artísticos e de outra ordem, não se escutam nesse espaço, entre fantasmal e feérico, de sonho, beleza e perplexidade.

Em suma, um belo filme sobre um dos artistas mais importantes do país, uma prova de que o gênero do documentário ainda promete render muito, esteticamente, entre nós. Não sei que resposta de público pode ter, porém, de crítica ele está indo muito bem: ganhou o prêmio Itamaraty de melhor documentário e o prêmio Abraccine de melhor filme, no último Festival de Cinema de São Paulo.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Carlos Newton Júnior.

Francisco Brennand em cena do filme

Francisco Brennand em cena do filme

Intocáveis

27 ago

Uma comédia sobre um rapaz negro que se faz de enfermeiro para cuidar de um paraplégico branco? Não se trata do filme de Billy Wilder, de 1963, “The fortune cookie” (“Uma loura por um milhão”)?

Não. Trata-se agora de “Intocáveis” (“Intouchables”, 2011), filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, exibido entre nós no Festival Varilux do Cinema Francês, e tão procurado que entrou na programação comercial normal.

Vivendo na periferia de Paris, filho adotivo de uma família pobre, o jovem afro-descendente Driss vira, meio por acaso, acompanhante desse senhor rico, Philippe, que, em sua luxuosa mansão, vive entre cadeiras de rodas e camas, e cujo corpo só tem sensibilidade do pescoço para cima. Ganhando o emprego para candidatos competentes, ele mesmo inapto e truculento, Driss aproveita a oportunidade rara para usufruir de um luxo que nunca conhecera.

Entre muitos atropelos e alguns acertos, a dupla vai se afinando e, para surpresa de parentes e aderentes, tudo termina dando certo, embora de um modo nada fácil e nada convencional.

Para o espectador, talvez a pergunta venha a ser: por que esse tipo desajeitado, pouco sutil e comprovadamente incompetente foi o escolhido para o serviço? O filme quer nos fazer crer que, entediado com tratamentos clínicos, o paciente Philippe, conscientemente ou não, desejava uma companhia que lhe cheirasse à vida, e não a medicamentos, e, no seu contexto, ninguém cheirava mais à vida que esse jovem negro, lascivo, extrovertido e meio selvagem.

Embora baseado em caso real, “Intocáveis” parece ser um filme para muitas leituras. Numa instância mais óbvia, narra a estória do desabrochar de uma amizade improvável entre dois homens completamente diferentes: um negro, pobre, inculto, ingênuo e saudável; o outro, branco, rico, erudito, maduro e doente. Creio que do contraste entre cada par de adjetivos listados pode-se deduzir uma interpretação para o filme.

Fiquemos com um deles, aquele entre culto e inculto. Nesta perspectiva, Philippe poderia talvez ser entendido, de alguma maneira abstrata, como uma representação da França atual (e por extensão da Europa), empanturrada de cultura e arte, mas um tanto e quanto paralisada pelo peso mesmo dessa bagagem secular. Ao passo que, simetricamente, Driss simbolizaria o frescor do primitivo que vem de uma África inculta e cheia de vida. Se a isotopia escolhida for esta, é claro que os outros contrastes (saudável vs doente, por exemplo) se incorporam à leitura e a enriquecem.

Um contraste adicional está, naturalmente, no próprio gênero do filme, situado entre comédia e drama, terreno perigoso em que a direção transita com impressionante aisance.

Aqui lembro alguns exemplos de comicidade ao meio do drama, no caso, relativos ao meu par de adjetivos escolhido e à temática etno-cultural que ele implica. No teatro, assistindo a uma ópera moderna, Driss não consegue conter o riso diante de um ator vestido do que lhe lembra uma macieira, e sua interpretação da cena desmonta a autenticidade da peça, do mesmo jeito que aquela criança, na famosa lenda, desmontou a falsidade do rei nu. O mesmo se diga de sua leitura daquele quadro de pintura abstrata em que uma mancha de vermelho sobre um fundo branco parece só um gesto escatológico e nada mais. Idem para a sua sugestão do alegre ritmo dançante, no lugar da triste e pesada música clássica a que estava habituado o seu erudito paciente.

É claro que a mensagem do filme não pode ser reduzida a um descarte da cultura clássica em favor do absolutamente naif, porém, é esse viés – e o que ele trás consigo de vitalidade – que conquista o erudito Philippe e o faz aceitar de bom grado (para usar uma palavra da moda) a alteridade. E não esqueçamos que o processo é recíproco: mais tarde vamos ver o próprio Driss pintando e, no final, reconhecendo, na ante-sala de uma empresa, obras de pintores famosos.

Se, no início, “intocáveis” (vários sentidos) um para o outro, os dois personagens vão se tocando, até o nível das transformações interiores…

E vejam que a influência de Driss vai bem mais além, já que esse “Nature Boy” de carne e osso termina por desempenhar o papel de cupido, ao literalmente forçar o seu paciente a ligar para uma pretendente anônima que – sabe-se depois – virá a ser a namorada de um paraplégico que se dava por terminal. Que importa se a única zona erógena de Philippe são as orelhas?

No filme de Billy Wilder com que abro esta matéria a paraplegia do protagonista é só uma farsa para extorquir a companhia de seguros. Em “Intocáveis” não há lugar para falsidades e até o ovo de pedra preciosa um dia furtado por Driss será devolvido, num gesto de amizade verdadeira em que não entra o conceito de piedade, e muito menos o de afinidades obrigatórias, a não ser que a afinidade seja o desejo de viver.